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Homilias sobre o Cântico
dos Cânticos
3º Sermão sobre a Assunção
Sermão 1 para o Advento, 7-8
II Sermão para a festa de
Santo André
Sermão 37 sobre o Cântico
dos Cânticos
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São Bernardo
(1091-1153), monge cisterciense e doutor da Igreja
3º Sermão sobre a Assunção
Marta e Maria
Quem melhor do que os que estão encarregados de uma comunidade merece que se
lhes apliquem estas palavras: “Marta, Marta, andas ocupada com muitas
coisas”? Quem são os que se inquietam com muitas coisas, senão
aqueles a quem incumbe cuidar de Maria, a contemplativa, de seu irmão
Lázaro, e de muitos outros? Reconheceis Marta inquieta e preocupada com mil
assuntos: é o apóstolo, que tem o “cuidado de todas as igrejas” (2 Cor 11,
28), que vela para que os pastores tenham o cuidado das suas ovelhas: “Quem
é fraco, sem que eu também o seja? Quem tropeça, que eu não me consuma com
febre?” (29). Que Marta receba, pois, o Senhor em sua casa, dado que lhe foi
confiado o cuidado do lar. […] Que os que partilham as suas tarefas recebam
igualmente o Senhor, cada um segundo o seu ministério particular; que
acolham a Cristo e O sirvam, que O assistam nos seus membros, os
doentes, os pobres, os viajantes e os peregrinos.
Enquanto eles realizam estas actividades, que Maria permaneça em repouso,
que conheça “como é bom o Senhor” (Sl 33, 9). Que tenha o cuidado de se
deitar aos pés de Jesus, com o coração cheio de amor e a alma em paz,
sem dEle desviar os olhos, atenta a todas as Suas palavras, admirando o Seu
belo rosto e a Sua linguagem. “És o mais belo entre os filhos do homem; em
teus lábios se derramou a graça” (Sl 44, 3), mais belo ainda do que os
anjos na sua glória. Conhece a tua alegria e dá graças, Maria, tu que
escolheste a melhor parte. Felizes os olhos que vêem o que tu vês e os
ouvidos que merecem ouvir o que tu ouves! (Mt 13, 16) Como és feliz,
sobretudo por ouvir bater o coração de Deus, nesse silêncio onde convém ao
homem esperar o seu Senhor!
S Bernardo
(1091-1153), monge de Cister e doutor da Igreja
Sermão 1 para o Advento, 7-8
“O vosso Pai que está nos céus não quer que um só destes pequeninos se
perca”
“Vede: é o Senhor em pessoa que vem de longe” diz o profeta (Is 30,27). Quem
poderia duvidar? No inicio, faltava qualquer coisa grandiosa, para que a
majestade de Deus se dignasse descer de tão longe para um sitio tão indigno
dela. Sim, efectivamente, havia lá qualquer coisa de grandioso: a sua grande
misericórdia, a sua imensa compaixão, a sua abundante caridade. Com efeito,
com que objectivo julgamos nós que Cristo veio? Encontrá-lo-emos sem
dificuldade, pois as suas próprias palavras e os seus próprios actos, nos
revelam claramente a razão da sua vinda. Ele veio das alturas para procurar
a centésima ovelha desgarrada.
Ele veio por nossa causa, para que as misericórdias do Senhor aparecessem
com maior evidência, bem como as suas maravilhas a favor dos filhos dos
homens (Sl 106,8). Admirável condescendência de Deus que nos procura, e
grande dignidade do homem assim procurado! Se este se quer glorificar, pode
fazê-lo sem loucura, não que de si mesmo possa ser o quer que seja, mas
porque aquele que o criou o fez assim grande. Com efeito, todas as riquezas,
toda a glória deste mundo e tudo o que se pode desejar, tudo isso é pouca
coisa e mesmo nada em comparação com esta outra glória. “Que é o homem,
Senhor, para que faças caso dele e ponhas nele a tua atenção?” (Job 7,17)
S Bernardo
(1091-1153), monge cisterciense e doutor da Igreja
Sermão 37 sobre o Cântico
dos Cânticos
O segredo do último lugar
Se soubéssemos claramente em que lugar Deus põe cada um de nós, deveríamos
aceitar tal decisão, sem nunca nos pormos nem acima nem abaixo desse lugar.
Mas, no nosso presente estado, os decretos de Deus estão envoltos em trevas
e a sua vontade nos está oculta. Por isso, é mais seguro, de acordo com o
conselho da própria Verdade, escolher o último lugar, de onde nos tirarão
depois com honra, para nos darem um melhor. Se passarmos debaixo de uma
porta muito baixa, podemos baixar-nos tanto quanto quisermos sem nada temer
mas, se nos levantarmos um dedo que seja acima da altura da porta, bateremos
com a cabeça. É por isso que não se deve recear qualquer humilhação, mas
antes temer e reprimir o menor movimento de auto-suficiência.
Não vos compareis nem aos que são maiores que vós, nem aos vossos
inferiores, nem a quaisquer outros, nem sequer a um só. Que sabeis deles?
Imaginemos um homem que parece o mais vil e desprezível de todos, cuja vida
infame nos horroriza. Pensais que o podeis desprezar, não só por comparação
convosco mesmos, que aparentemente viveis na sobriedade, na justiça e na
piedade, mas até por comparação a outros malfeitores, dizendo que ele é o
pior de todos. Mas sabeis se ele não será um dia melhor que vós e se o não é
já aos olhos do Senhor? Por isso é que Deus não quis que ocupássemos um
lugar intermédio, nem o penúltimo, nem sequer um dos últimos, mas disse:
"Toma o último lugar" a fim de se ficar verdadeiramente só na última fila.
Desse modo não pensarás, já não digo a preferir-te, mas simplesmente a
comparar-te a quem quer que seja.
São Bernardo
(1091-1153), monge cisterciense e doutor da Igreja
II Sermão para a festa de
Santo André
O martírio de Santo André, Apóstolo
“Ó Cruz, tão longamente desejada, agora oferecida às aspirações da minha
alma! A ti venho, pleno de júbilo e segurança. Recebe-me com alegria, a mim,
discípulo daquele que esteve suspenso dos teus braços…” Assim falava [diz a
tradição] Santo André, vendo ao longe a cruz erguida para o seu suplício. De
onde vinha a este homem tão espantosa alegria e exultação? De onde vinha
tanta constância a ser tão frágil? Onde ia este homem buscar alma tão
espiritual, caridade tão fervorosa, vontade tão forte? Não pensemos que ia
buscar tão grande coragem a si mesmo; tratava-se do dom perfeito proveniente
do Pai das luzes (Jc 1, 17), do único que faz maravilhas. Era o Espírito
Santo que vinha em auxílio da sua fraqueza, difundindo-lhe no coração uma
caridade forte como a morte, e mesmo mais forte do que a morte (Ct 8, 6).
Praza a Deus que também nós, hoje, tenhamos parte nesse Espírito! Porque se
o esforço da conversão é para nós penoso, se nos aborrece velar, é
unicamente devido à nossa indigência espiritual. Se o Espírito Santo
estivesse presente em nós, viria certamente em auxílio da nossa fraqueza.
Faria por nós o mesmo que fez por Santo André diante da cruz e da morte:
retirando ao labor da conversão o seu carácter penoso, torná-lo-ia
desejável, e mesmo delicioso. […] Irmãos, procuremos este Espírito,
empenhemos todos os nossos cuidados em obtê-lo, ou em possuí-lo de forma
mais plena se já o temos. Porque “se alguém não tem o espírito de Cristo,
não lhe pertence” (Rom 8, 9) […] Devemos, pois, tomar a nossa cruz com Santo
André, ou antes, com Aquele que ele seguiu, o Senhor, o nosso Salvador. A
causa da sua alegria foi ter morrido, não apenas com Ele, mas como Ele;
assim intimamente unido à sua morte, reinaria com Ele. […] Porque a nossa
salvação está nesta cruz.
S. Bernardo
(1091-1153), monge de Cister e doutor da Igreja
Homilias sobre o Cântico dos
Cânticos
“Vinde com alegria tirar água das fontes vivas da salvação” (Is 12,3)
Onde pode a nossa fragilidade encontrar repouso e segurança, senão nas
feridas do Salvador? Perfuraram as suas mãos, os seus pés, e com um golpe de
lança o seu lado. Por estes buracos abertos posso provar o mel desta rocha (Sl
80, 17) e o óleo que escorre da pedra dura, quer dizer “provar e ver como o
Senhor é doce” (Sl 33,9). Ele formulava desígnios de paz (Jer 29,11) e eu
não o sabia. “Quem, com efeito, conheceu o pensamento do Senhor? Quem foi o
seu conselheiro?” (Rom 11,34). Mas o prego que o perfura tornou-se para mim
uma chave que me abre o mistério dos seus desígnios.
Como não ver através das suas chagas? Os pregos e as feridas gritam que,
verdadeiramente, na pessoa de Cristo, Deus se reconciliou com o mundo. O
ferro trespassou o seu ser e tocou o seu coração, a fim de que ele não
ignore mais como se compadecer das minhas fraquezas. O segredo do seu
coração aparece a nu nas feridas do seu corpo; vemos a descoberto o grande
mistério da sua bondade, esta misericordiosa ternura do nosso Deus, “Sol
nascente que nos visitou do alto” (Lc 1,78). E como não seria esta ternura
manifesta nas suas feridas? Como mostrar mais claramente que pelas tuas
feridas que tu, Senhor, és doce e compassivo e de uma grande misericórdia,
porque não há maior amor do que dar a sua vida (Jo 15,13) pelos condenados à
morte?
Todo o meu mérito é pois a piedade do Senhor, e não me faltará mérito tanto
quanto a piedade não lhe faltará a ele. Se as misericórdias de Deus se
multiplicam, os meus méritos serão numerosos. Mas que acontecerá se tenho a
reprovar-me uma quantidade de faltas? “Onde abundou o pecado superabundou a
graça” (Rom 5,20). E se “a bondade do Senhor se estende por todo o sempre”,
pelo meu lado “cantarei eternamente as misericórdias do Senhor” (Sl
102,17;88,2). É esta a minha justiça? Senhor, recordar-me-ei apenas da tua
justiça, porque é ela a minha justiça pois que para mim se tornou justiça de
Deus (Rom 1,17).
Fonte:
www.evangelhoquotidiano.org
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