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Notas Bíblicas – Geraldo Morujão - Transfiguração do Senhor a 26.º Dom Comum |
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Coélet 1, 2; 2, 21-23 Colossenses 3, 1-5.9-11 São Lucas 12, 13-21
Daniel 7, 9-10.13-14 2 São Pedro 1, 16-19 São Marcos 9, 2-10
Sabedoria 18, 6-9 Hebreus 11, 1-2.8-19 São Lucas 12, 32-48
Assunção de Nossa Senhora (Missa da vigília) 1 Crónicas 15, 3-4.15-16 16, 1-2 1 Coríntios 15, 54b-57 São Lucas 11, 27-28
Assunção de Nossa Senhora (Missa do dia) Apocalipse 11, 19a 12, 1-6a.10ab 1 Coríntios 15, 20-27 São Lucas 1, 39-56
Jeremias 38, 4-6.8-10 Hebreus 12, 1-4 Lucas 12, 49-53
Isaías 66, 18-21 Hebreus 12, 5-7.11-13 Lucas 13, 22-30
Ben-Sirá 3, 19-21.30-31 (gr.17-18.20.28-29) Hebreus 12, 18-19.22-24a São Lucas 14, 1.7-14
Miqueias 5, 1-4a Romanos 8, 28-30 São Mateus 1, 1-16.18-23
Sabedoria 9, 13-19 (gr. 13-18b) Filémon 9b-10.12-17 São Lucas 14, 25-33
Números 21, 4b-9 Filipenses 2, 6-11 São João 3, 13-17
Hebreus 5, 7-9 São João 19, 25-27 São Lucas 2, 33-35
Êxodo 32, 7-11.13-14 1 Timóteo 1, 12-17 São Lucas 15, 1-32
Amós 8, 4-7 1 Timóteo 2, 1-8 São Lucas 16, 1-13
Arcanjos S. Miguel, S. Gabriel e S. Rafael Daniel 7, 9-10.13-14 Apocalipse 12, 7-12a São João 1, 47-51
Amós 6, 1a.4-7 1 Timóteo 6, 11-16 São Lucas 16, 19-31
Êxodo 23, 20-23a São Mateus 18, 1-5. 10
Isaías 9, 1-6 Lucas 1, 26-38 |
in Celebração Litúrgica, 2006-2007
1ª leitura Daniel 7, 9-10.13-14
9Estava eu a olhar, quando foram colocados tronos e um Ancião sentou-se. As suas vestes eram brancas como a neve e os cabelos como a lã pura. O seu trono eram chamas de fogo, com rodas de lume vivo. 10Um rio de fogo corria, irrompendo diante dele. Milhares de milhares o serviam e miríades de miríades o assistiam. O tribunal abriu a sessão e os livros foram abertos. 13Contemplava eu as visões da noite, quando, sobre as nuvens do céu, veio alguém semelhante a um filho do homem. Dirigiu-Se para o Ancião venerável e conduziram-no à sua presença. 14Foi-lhe entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos e nações O serviram. O seu poder é eterno, que nunca passará, e o seu reino jamais será destruído.
A leitura é tirada da 2ª parte do livro de Daniel, a parte profética (7 – 12). Temos aqui a descrição, em estilo apocalíptico, do julgamento divino, com três quadros: a apresentação do Juiz, Deus, (vv. 9-10); a destruição do reino inimigo (vv. 11-12, omitidos nesta leitura); e o estabelecimento do reino de Deus (vv. 13-14). 9-10 “Um Ancião” (à letra, “o antigo em dias”): é uma forma antropomórfica de falar de Deus eterno (cf. 36, 26; Salm 101[102], 25-26; Is 41, 4). A alvura dos cabelos não significa velhice, mas glória e luminosidade. As torrentes de fogo que saem do trono podem simbolizar o poder divino para destruir os seus inimigos (v. 11; cf. Is 26, 11). Dado o estilo apocalíptico desta passagem, não se pode partir deste texto para fazer um cálculo, ainda que meramente aproximado, do número dos Anjos: “miríades de miríades” é um superlativo hebraico para indicar um número incontável (nós diríamos, “aos milhões”, mas este numeral não existe em hebraico nem em grego). 13 Alguém semelhante a um filho de homem. Os exegetas, partindo da análise do contexto (vv. 18.22-27), dizem que o sentido literal directo desta expressão visa não um indivíduo singular, mas o povo dos “santos do Altíssimo” (v. 18). Contudo, como sucede frequentemente, o que é dito em geral acerca de todo o povo entende-se, de um modo eminente (sentido eminente), como referido a uma personagem singular, nomeadamente o chefe do povo, neste caso o próprio Messias. O judaísmo assim o entendeu, e o próprio Jesus (cf. Mt 24, 30; 26, 64); discute-se, porém, se “Filho do Homem” é um verdadeiro título cristológico (assim parece em Lc 1, 32-33; Mt 8, 20; 24, 30; 26, 64; Apoc 1, 7; 14, 14) ou uma maneira discreta de Jesus se referir a si mesmo (uma figura chamada asteísmo: o filho do homem equivalendo a este homem); uma coisa, porém, é certa: este não era um título com que Jesus fosse tratado nem pelo povo da Palestina, nem pela Igreja primitiva. Os que o entendem como um título cristológico sublinham o seu carácter simultaneamente humilde e glorioso, humano e divino.
2ª leitura 2 São Pedro 1, 16-19
Caríssimos: 16Não foi seguindo fábulas ilusórias que vos fizemos conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos sido testemunhas oculares da sua majestade. 17Porque Ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da sublime glória de Deus veio esta voz: «Este é o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência». 18Nós ouvimos esta voz vinda do céu, quando estávamos com Ele no monte santo. 19Assim temos bem confirmada a palavra dos Profetas, à qual fazeis bem em prestar atenção, como a uma lâmpada que brilha em lugar escuro, até que desponte o dia e nasça em vossos corações a estrela da manhã.
Neste trecho é aduzido como argumento de credibilidade a favor do anúncio da “vinda” gloriosa (parusia) de Jesus o facto de Pedro ter sido testemunha (com outros dois Apóstolos: cf. Mt 17, 1-18 par) da sua glória divina, que brilhou sobrenaturalmente quando os três estavam com Ele “no monte santo”. A parusia era negada pelos trocistas visados na carta, mais adiante (cf. 3, 3-4). O texto não perde a sua força, mesmo que ele tenha sido redigido, depois da morte do Príncipe dos Apóstolos, por algum seu discípulo e continuador, como hoje pensam muitos estudiosos. Com a Transfiguração, “ficou bem confirmada a palavra dos Profetas”, que anunciaram a vinda gloriosa do Messias no fim dos tempos: a Transfiguração foi uma visão antecipada da glória da parusia. Essa palavra da Sagrada Escritura, a que devemos prestar atenção, funciona como uma luz que “brilha como uma lâmpada em lugar escuro” (v. 19), “para aqueles que esperam a luz final, a ‘estrela da manhã’ (cf. Apoc 2, 28) a surgir com a parusia de Cristo (cf. 1 Tes 5, 4)” (The New Jerome Biblical Commentary, p. 1019). Em Apoc 22, 16, Jesus é “a brilhante estrela da manhã”, pela qual a comunidade orante dos fiéis clamacom insistência: “vem!” (Apoc 22, 17.20).
Evangelho São Marcos 9, 2-10
Naquele tempo, 2Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles. 3As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear. 4Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. 5Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias». 6Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados. 7Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». 8De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles. 9Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos. 10Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos.
A cena da Transfiguração situa-se nos inícios da segunda parte do Evangelho de Marcos. A primeira parte (Mc 1, 1 – 8, 29) parece querer ser a resposta à incompreensão das pessoas que se interrogam – “quem é este homem? ”– sem atinarem com a resposta certa, culminando com a confissão de Pedro: “Tu és o Cristo!” (8, 29). Mas perante a revelação da natureza da obra messiânica de Jesus, que passa pela aparente derrota da Paixão e da Cruz, surge a incompreensão dos próprios discípulos, a começar pelo próprio Pedro (8, 31-33). A visão antecipada da glória do Messias na Transfiguração serve de correctivo para aqueles que ficaram confundidos com o primeiro anúncio da Cruz como meio de salvação (8, 31 – 9, 1). Para nós, é também uma visão antecipada da vinda gloriosa de Cristo, a encher-nos de esperança (cf. Filp 3, 21). A Transfiguração do Senhor nada tem a ver com os mitos gregos das metamorfoses. O próprio S. Lucas, melhor conhecedor da cultura grega, teve o escrupuloso cuidado de evitar o verbo grego usado por S. Marcos – metamorfôthê, transfigurou-Se – substituindo-o por um circunlóquio: “ao rezar, ficou outro o aspecto do seu rosto”. Nos mistérios gregos, chega-se progressivamente à transformação da natureza – a metamorfose –, através duma iniciação mistagógica, ao passo que esta transfiguração de Jesus foi repentina e passageira, uma manifestação do que Jesus já era antes. 2 Pedro, Tiago e João, são os três predilectos de Jesus, destinados a ser “colunas da Igreja” (Gal 2, 9) particularmente firmes, também testemunhas da ressurreição da filha de Jairo (Mc 5, 37) e da agonia de Jesus no horto (Mt 26, 37), diríamos, uma espécie de núcleo duro dos Doze. “A um alto monte”: Os Evangelhos não dizem o nome do monte que habitualmente se julga ser o Tabor, um monte situado a 10 km a Leste de Nazaré, segundo uma antiga tradição já referida por Orígenes. Como este monte não é muito alto (apenas 560 m), há exegetas que falam antes do Monte Hermon (2.759 m), junto a Cesareia de Filipe, região onde Jesus tinha estado, segundo os três sinópticos, uma semana antes. “E transfigurou-Se diante deles”: o acontecimento é descrito, não como uma visão, mas como uma epifania, pois foi Ele mesmo a “manifestar” a sua própria glória divina, enquanto estava com eles. O facto deveras notável não foi tanto a visão de Moisés e Elias, mas a da glória de Jesus. 3 “As vestes… resplandecentes…” S. Marcos não faz referência ao rosto de Jesus que ficou brilhante como o Sol (Mt 17, 2). O Evangelista não precisava de pormenorizar mais, pois a referência da brancura sobrenatural das vestes era o suficiente para que o leitor tomasse consciência da personalidade celestial de Jesus (cf. Dan 7, 9; Act 1, 10; Apoc 3, 4-5; 4, 4; 7, 9). 4 “Moisés e Elias”. A sua presença à volta de Jesus deixa ver como a Lei e os Profetas convergem para Ele, uma vez que tinham preparado e anunciado a sua vinda. A própria tradição rabínica falava de Moisés como precursor do Messias e Malaquias anunciara a vinda de Elias nos tempos messiânicos (Mal 3, 23). 5-7 “Três tendas”. Assim se prestava Pedro a facilitar que se prolongasse aquele êxtase paradisíaco. Fala de três e não de um único refúgio, tendo em conta a desigual dignidade de cada uma das pessoas. “Não sabia o que dizia”: Pedro, tomado de assombro, pensa em categorias de um messianismo glorioso e pretende que aquela situação extraordinária se prolongue e mantenha, totalmente alheado da realidade do dia a dia. “Veio então uma nuvem”: mas esta não era uma resposta à sugestão de Pedro para construir um abrigo; a nuvem – a tenda de Deus (cf. 2 Sam 22, 12; Salm 18(17), 12), que cobriu e envolveu Jesus “com a sua sombra” –, aparece sobretudo como um sinal bíblico da presença de Deus, que simultaneamente O revelava e O ocultava (cf. Ex 13, 22; 19, 9; 24, 15-16; 33, 9; Lv 16, 2; Nm 9, 15-23; 11, 25). De acordo com Lc 9, 32, este prodígio deve-se ter verificado de noite, enquanto o Senhor fazia oração (Lc 9, 29). Mas não consta que Jesus se tenha elevado, levitando no ar, como O pintou Rafael. “Este é o meu Filho”. Com estas palavras a cena atinge o apogeu: a voz vinda do Céu (a bat-qol, como garantia divina) é mais uma confirmação divina da anterior confissão da fé de Pedro (Mc 8, 29). S. Tomás comenta: “Apareceu toda a Trindade, o Pai na voz, o Filho no homem, o Espírito na nuvem luminosa”. 9 “Ordenou-lhes que não contassem…” Esta ordem pertence à chamada disciplina do segredo messiânico – a que Marcos dá especial ênfase pela preocupação teológica de fazer ressaltar a incompreensão perante Jesus, a ser superada pelos seus só após a glória da Ressurreição –, visa evitar possíveis agitações populares, que só contribuiriam, para perturbar e dificultar a missão de Jesus.
1ª leitura Coélet 1, 2; 2, 21-23 2Vaidade das vaidades – diz Coélet – vaidade das vaidades: tudo é vaidade. 21Quem trabalhou com sabedoria, ciência e êxito, tem de deixar tudo a outro que nada fez. Também isto é vaidade e grande desgraça. 22Mas então, que aproveita ao homem todo o seu trabalho e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol? 23Na verdade, todos os seus dias são cheios de dores e os seus trabalhos cheios de cuidados e preocupações; e nem de noite o seu coração descansa. Também isto é vaidade. A leitura é tirada do livro cujo título grego latinizado é Eclesiastes, um livro que agora costumamos chamar com o título hebraico, Coélet, que significa “aquele que convoca a assembleia”. No entanto a Neovulgata adopta o título grego por ser o tradicional no cânone cristão. Este livro nunca é citado ou aludido no Novo Testamento, pois, como comenta Muñoz Iglesias, “à luz do sol do meio dia já não se vêem as estrelas”. No entanto, os rabinos usaram-no muito (cf. Pirkê Abot ou Sentenças dos Padres) por apreciarem na obra o convite ao gozo moderado dos bens deste mundo e à alegria, por isso era lido por ocasião das celebrações jubilosas da festa dos Tabernáculos. 1, 2 “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!” Este é o tema do livro: a vaidade ou caducidade absoluta de todas as coisas deste mundo (note-se o superlativo hebraico, expresso com o genitivo “das”), bem como a inutilidade de todas as canseiras humanas para alcançar a felicidade. 2, 22 “Que aproveita ao homem todo o seu trabalho?” Uma consideração mais superficial desta e de outras afirmações do livro poderia levar a pensar que o autor propugna uma visão pessimista do trabalho e da vida humana, refugiando-se por vezes numa atitude céptica e hedonista. Mas o autor, acima de tudo, recorre a uma fina ironia para pôr em causa todas as seguranças humanas. Muitas das suas afirmações entendem-se melhor como perguntas retóricas – que fazem pensar no sentido da vida –, do que como uma resposta a problemas humanos para os quais ele não tem ainda uma resposta completa.
2º Leitura Colossenses 3, 1-5.9-11 Irmãos: 1Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. 2Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. 3Porque vós morretes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. 4Quando Cristo, que á a vossa vida, se manifestar, também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória. 5Portanto, fazei morrer o que em vós é terreno: imoralidade, impureza, paixões, maus desejos e avareza, que é uma idolatria. 9Não mintais uns aos outros, vós que vos despojastes do homem velho com as suas acções 10e vos revestistes do homem novo, que, para alcançar a verdadeira ciência, se vai renovando à imagem do seu Criador. 11Aí não há grego ou judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro ou cita, escravo ou livre; o que há é Cristo, que é tudo e está em todos.
Neste ano paulino, continuamos a ter como 2ª leitura excertos seguidos da Epístola aos Colossenses, cuja leitura se iniciou já no Domingo 15ª. Depois de na 1ª parte da epístola (1, 15 – 2, 23) ter abordado o tem da fé em Cristo, Senhor de toda a Criação, S. Paulo passa agora, na 2º parte (3, 1, – 4, 6), a expor uma série de consequências morais que tem para a vida do cristão o facto de este participar, pelo Baptismo, no domínio de Cristo sobre todas as coisas. 1-2 “Aspirai às coisas do alto… afeiçoai-vos…”. Este apelo corresponde ao incitamento que, na Santa Missa, a Igreja sempre nos repete: Corações ao alto! 3-4 “Vós morrestes”. Cf. Rom 6. A nossa união a Cristo pressupõe a morte para o pecado, que não pode reinar mais em nós. Com Cristo morto pelos nossos pecados, morremos para o pecado; com Cristo ressuscitado, vivamos vida de ressuscitados! É a vida da graça, uma vida toda interior, “escondida” no centro da alma, vida que ninguém pode arrebatar, vida que é toda feita de presença de Deus e de visão sobrenatural, levando-nos a santificar todos os afazeres diários, trabalhando com os pés bem firmes na terra, mas o coração e o olhar fixos no Céu. 9-10 “Vos despojastes do homem velho… vos revestistes do homem novo... à imagem do seu Criador”. É o homem santificado pela acção redentora de Cristo, dotado duma nova vida, que é a vida sobrenatural, a vida da graça, na qual deve ir progredindo sempre: “se vai renovando” (v.10). De facto, pela graça, o homem torna-se “uma nova criatura” (Gal 6, 15), recriado – como na criação inicial - “à imagem de Deus” (cf. Gn 1, 27). A Redenção não é pois algo meramente extrínseco, mas algo que nos transforma interiormente: a graça faz-nos “filhos de Deus” (cf. Jo 1, 12; 1 Jo 3, 1-2; Rom 8, 14-15.29) e “participantes da própria natureza divina” (2 Pe 1, 4). Mas este ideal tão elevado só se pode concretizar pela mortificação – “fazendo morrer o que em vós é terreno” (v. 5) –, isto é, com o domínio das paixões desordenadas que há dentro de nós. Evangelho São Lucas 12, 13-21 Naquele tempo, 13alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo». 14Jesus respondeu-lhe: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?» 15Depois disse aos presentes: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». 16E disse-lhes esta parábola: «O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita. Ele pensou consigo: 17‘Que hei-de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita? 18Vou fazer assim: Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens. 19Então poderei dizer a mim mesmo: Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te’. 20Mas Deus respondeu-lhe: ‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?’ 21Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».
Era costume recorrer à arbitragem de um rabino para decidir em questões de partilhas de bens, como esta a que se refere o texto evangélico. Então porque é que Jesus se nega terminantemente a prestar ajuda a um homem que lhe pede socorro, ta1vez até vítima da injustiça? Não basta dizer que o homem tinha já o suficiente para viver e, por isso, Jesus não quereria ajudá-lo a alimentar a cobiça que o dominaria (cf. v. 15). A atitude de Jesus reve1a a natureza da sua missão e torna-se paradigmática: a missão de Jesus é uma missão salvadora, que não tem como objectivo a resolução técnica dos diversos problemas temporais dos homens; limita-se a apontar claramente os princípios superiores de ordem moral que, ao serem assumidos responsavelmente, conduzem com eficácia ao bem integral do ser humano. Este indivíduo recorreu a Jesus como juiz de partilhas; Jesus apresenta-se como o Mestre da Verdade que salva, libertando o homem de cair nas malhas da ambição, do egoísmo e do pecado; assim Ele aponta critérios do mais elementar bom senso humano - “a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens” (v. 15) -, assim como critérios do mais elevado sentido sobrenatural da fé - “tornar-se rico aos olhos de Deus” (v. 21), “dando os bens em esmola” (v. 33). 16-20 A parábola do rico insensato põe a nu a loucura do homem que vive de cálculos para gozar esta vida, esquecendo que esta não lhe pertence e lhe pode ser tirada repentinamente. Vem bem a propósito o que diz S. Paulo na 2ª leitura de hoje: “Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra” (Col 3, 2).
1ª leitura Sabedoria 18, 6-9 6A noite em que foram mortos os primogénitos do Egipto foi dada previamente a conhecer aos nossos antepassados, para que, sabendo com certeza a que juramentos tinham dado crédito, ficassem cheios de coragem. 7Ela foi esperada pelo vosso povo, como salvação dos justos e perdição dos ímpios, 8pois da mesma forma que castigastes os adversários, nos cobristes de glória, chamando-nos para Vós. 9Por isso os piedosos filhos dos justos ofereciam sacrifícios em segredo e de comum acordo estabeleceram esta lei divina: que os justos seriam solidários nos bens e nos perigos; e começaram a cantar os hinos de seus antepassados. A leitura é extraída da última parte do livro da Sabedoria (16 – 18), onde se exalta a Providência divina ao castigar os egípcios e salvar os israelitas. Pertence ao género literário chamado “midraxe hagadá”: é uma piedosa meditação sobre a história sagrada, em que a intenção edificante lança mão da imaginação sem grande preocupação pelo rigor histórico. 6 “Noite… dada previamente a conhecer”, segundo Gn 15, 13-14; 11, 4-7; 12, 21-23. 9 “Ofereciam sacrifícios em segredo”, alusão a Ex 12, 46, onde se diz que o cordeiro pascal era sacrificado e comido no interior das próprias casas. A referência a “cantar os hinos ” tem em conta o hagadá de Páscoa, que prescrevia para a Ceia Pascal o canto dos Salmos do chamado grande Hallel (113 – 118; cf. Mt 26, 30), que cantavam os favores divinos para com o seu povo.
2ª leitura Forma longa: Hebreus 11, 1-2.8-19; forma breve: Hebreus 11, 1-2.8-12 Irmãos: 1A fé é a garantia dos bens que se esperam e a certeza das realidades que não se vêem. 2Ela valeu aos antigos um bom testemunho. 8Pela fé, Abraão obedeceu ao chamamento e partiu para uma terra que viria a receber como herança; e partiu sem saber para onde ia. 9Pela fé, morou como estrangeiro na terra prometida, habitando em tendas, com Isaac e Jacob, herdeiros, como ele, da mesma promessa, 10porque esperava a cidade de sólidos fundamentos, cujo arquitecto e construtor é Deus. 11Pela fé, também Sara recebeu o poder de ser mãe já depois de passada a idade, porque acreditou na fidelidade d’Aquele que lho prometeu. 12É por isso também que de um só homem – um homem que a morte já espreitava – nasceram descendentes tão numerosos como as estrelas do céu e como a areia que há na praia do mar. [13Todos eles morreram na fé, sem terem obtido a realização das promessas. Mas vendo-as e saudando-as de longe, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. 14Aqueles que assim falam mostram claramente que procuram uma pátria. 15Se pensassem na pátria de onde tinham saído, teriam tempo de voltar para lá. 16Mas eles aspiravam a uma pátria melhor, que era a pátria celeste. E como Deus lhes tinha preparado uma cidade, não Se envergonha de Se chamar seu Deus. 17Pela fé, Abraão, submetido à prova, ofereceu o seu filho único Isaac, que era o depositário das promessas, como lhe tinha sido dito: 18«Por Isaac será assegurada a tua descendência». 19Ele considerava que Deus pode ressuscitar os mortos; por isso, numa espécie de prefiguração, ele recuperou o seu filho.]
A leitura é um eloquentíssimo elogio da fé, uma das mais notáveis páginas de toda a Escritura. Depois de definir o que é a fé, mostra como todas as grandes figuras do Antigo Testamento resplandeceram por uma vida de fé. Aqui temos apenas um pequeno extracto do capítulo 11 da epístola. 1 “A fé é a garantia dos bens que se esperam”. As realidades que esperamos na outra vida ainda não são uma realidade de que tenhamos uma posse palpável, mas a fé é já uma base ou garantia de que estão ao nosso alcance. Mas há uma outra interpretação que entende o termo grego “hypóstasis” (substância, à letra, o que está por baixo, o suporte) no sentido de consistência: assim, a fé como que dá corpo e consistência na alma do crente àquelas realidades divinas reveladas por Deus que esperamos vir a possuir em plenitude, (mas, para uma pessoa que não tenha fé, aparecem como inconsistentes, mera alienação,). “A certeza das realidades que não se vêem”. O termo grego élenkhos foi traduzido pela palavra “certeza”, com efeito, assim como uma demonstração nos dá a certeza de algo não evidente por si, assim também a fé nos dá a certeza de todas as verdades divinas que se não vêem, uma vez que a fé se apoia numa revelação de Deus que não se engana nem nos pode enganar. 8-19 O exemplo da fé de Abraão está em relação com diversas passagens do Génesis do “ciclo de Abraão” (Gn 12, 1 – 23, 20). 10 Cidade… cujo arquitecto e construtor é Deus”, isto é, “a pátria celeste” (cf. v. 16). Esta passagem concorda com uma tradição judaica que diz que Deus mostrou a Abraão a Jerusalém celeste (cf. Apocalipse Siríaco de Barukh). 11 Pela fé, também Sara... A inicial incredulidade de Sara acabou por dar lugar a uma atitude de fé (cf. Gn 18, 10-13). 19 “Prefiguração (à letra, “parábola”, também se podia traduzir por “símbolo”). Desde os Padres Apostólicos que a Tradição da Igreja viu no Sacrifício de Isaac uma figura da Morte e Ressurreição (a recuperação do filho) de Cristo.
Evangelho Forma longa: São Lucas 12, 32-48; forma breve: São Lucas 12, 35-40
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: [32«Não temas, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino. 33Vendei o que possuís e dai-o em esmola. Fazei bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. 34Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.] 35Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. 36Sede como homens que esperam o seu senhor voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater. 37Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. 38Se vier à meia-noite ou de madrugada, felizes serão se assim os encontrar. 39Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não o deixaria arrombar a sua casa. 40Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem». [41Disse Pedro a Jesus: «Senhor, é para nós que dizes esta parábola, ou também para todos os outros?» O 42Senhor respondeu: «Quem é o administrador fiel e prudente que o senhor estabelecerá à frente da sua casa, para dar devidamente a cada um a sua ração de trigo? 43Feliz o servo a quem o senhor, ao chegar, encontrar assim ocupado. 44Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens. 45Mas se aquele servo disser consigo mesmo: ‘O meu senhor tarda em vir’; e começar a bater em servos e servas, a comer, a beber e a embriagar-se, 46o senhor daquele servo chegará no dia em que menos espera e a horas que ele não sabe; ele o expulsará e fará que tenha a sorte dos infiéis. 47O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou ou não cumpriu a sua vontade, levará muitas vergastadas. 48Aquele, porém, que, sem a conhecer, tenha feito acções que mereçam vergastadas, levará apenas algumas. A quem muito foi dado, muito será exigido; a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá».]
Na sequência do Domingo anterior (Lc 12, 13-21), este trecho é extraído duma secção do iii Evangelho (Lc 12 – 14), em que predominam os ensinamento de Jesus, sobretudo os de carácter escatológico, com apelos à vigilância e a viver desprendido, com os olhos postos no reino que há-de vir. A leitura começa (vv. 32-34) com o final da longa exortação ao abandono na Providência amorosa de Deus e ao desprendimento dos bens efémeros. 32 “Pequenino rebanho”. Apesar de poucos e sem recursos humanos, os discípulos nada têm a temer, pois foram admitidos no Reino de Deus que é indestrutível (cf. Lc 1, 33). 33-34 “Tesoiro inesgotável nos Céus”. O texto paralelo de S. Mateus é mais desenvolvido (cf. Mt 6, 19-21). Como o nosso coração é forçosamente atraído pelo que ele julga ser o “tesoiro”, temos de ter a sensatez de não nos defraudarmos a nós próprios erigindo em tesoiro - bem supremo, fim último - as coisa da terra, trocando o efémero e caduco pelo eterno. As boas obras, a esmola e as obras de misericórdia em geral (cf. Mt 25, 31-46) constituem uma riqueza que não se perde, pois essas obras terão uma recompensa eterna nos Céus. 35-48 Na forma longa do Evangelho de hoje, podemos distinguir três parábolas: a dos criados vigilantes (vv. 35-36), a do ladrão (v. 39) e a dos servos administradores (o fiel: vv. 42-44 e o infiel: vv. 45-48). As duas primeiras referem-se à necessidade da vigilância e a terceira à necessidade da fidelidade. 35-37a “Rins cingidos”, isto é, as cintas apertadas, num gesto então habitual, próprio de quem, para trabalhar, arregaçava a túnica com um cinto. “As lâmpadas acesas”, isto é, em atitude de vigilância ao longo da noite; é assim que devem estar vigilantes os discípulos de Jesus, “como homens que esperam o seu senhor voltar do casamento”, a uma hora incerta. 37b “Em verdade vos digo... os servirá”. Aqui já deixamos propriamente de ter a “parábola”, uma vez que se acabou toda a “semelhança” com a vida corrente: não são os servos a servir o seu patrão (cf. 17, 7-9), mas é o dono a servir os escravos! É uma alegoria que exprime, como, no momento da sua vinda, Jesus recompensará, um a um – “passando diante deles” – os seus servos vigilantes, servindo-lhes o “banquete” da vida eterna. 39 “A que hora viria o ladrão”. Esta segunda parábola, que já não se refere a um criado, mas a um senhor, é também um convite à vigilância, pondo em evidência como a vinda do Senhor será de improviso, sem o dono da casa poder calcular o dia do assalto; os criados da parábola anterior sabiam que era naquela noite que o seu patrão chegava da boda, embora ignorassem a hora, mas aqui o dono da casa não sabe nem o dia nem a hora. Daqui o sério apelo: “Estai vós também preparados”. 41 “É para nós que dizes essa parábola?” Esta pergunta de Pedro parece referir-se à primeira parábola, concretamente à afirmação de Jesus no v. 37b que muito o devia ter impressionado; mas Jesus não responde à pergunta, e propõe uma nova parábola, a do administrador fiel (vv. 42-46), a mesma do “servo fiel e prudente” de Mt 4, 45-51, embora com um matiz próprio: precisamente o facto de se chamar este servo “administrador” indica a intencionalidade de referir a parábola aos apóstolos, “os administradores dos mistérios de Deus”, de quem se exige uma fidelidade total (cf. 1 Cor 4, 1-2). 42-48a Na parábola, temos um criado feito administrador da casa durante um certo período de ausência do patrão, o qual tem de dirigir os criados e criadas e, concretamente, de lhes dar diariamente a sua ração de alimento. A parábola do administrador contempla duas hipóteses: a da administração fiel e sensata (vv. 42-44) e a da má administração (v. 45-46). Na primeira, a condição é posta sob a forma duma pergunta retórica (v. 42) que equivale à afirmação: “se o administrador que o senhor colocou à frente do seu pessoal, para lhe dar, no devido tempo, a sua ração de trigo, for fiel e prudente..., pô-lo-á à frente de todos os seus bens” 48b “A quem muito foi dado…”. Temos aqui a forma impessoal da voz passiva para, segundo o costume judaico, evitar pronunciar o nome inefável de Deus, por motivo de respeito, equivalendo a: “a quem Deus muito deu...”. Os versículos 47-48, que não aparecem no lugar paralelo de S. Mateus, explicitam como no dia de juízo haverá uma desigualdade de castigos proporcionada à responsabilidade de cada um. É fácil perceber que os discípulos de Jesus são aqueles que “sabem o que o Senhor quer” (v. 47) e aqueles “a quem muito foi dado” (v. 48).
Assunção de Nossa Senhora (Missa da vigília)
1ª leitura 1 Crónicas 15, 3-4.15-16 16, 1-2
Naqueles dias, 3David reuniu em Jerusalém todo o povo de Israel, a fim de trasladar a arca do Senhor para o lugar que lhe tinha preparado. 4Convocou também os descendentes de Aarão e os levitas. 15Os levitas transportaram então a arca de Deus, por meio de varas que levavam aos ombros, conforme tinha ordenado Moisés, segundo a palavra do Senhor. 16David ordenou aos chefes dos levitas que dispusessem os seus irmãos cantores, para que, acompanhados por instrumentos de música – cítaras, harpas e címbalos – , entoassem as suas alegres melodias. 1Assim trasladaram a arca de Deus e colocaram-na no meio da tenda que David mandara levantar para ela. 2Depois ofereceram, diante de Deus, holocaustos e sacrifícios de comunhão. Quando David acabou de oferecer os holocaustos e os sacrifícios de comunhão, abençoou o povo em nome do Senhor.
A liturgia vê no solene e festivo transporte da Arca da Aliança de Quiriat-Iarim para a cidade de Jerusalém, conquistada aos jebuseus por David, a figura da entrada de Maria, em corpo e alma, no Céu. A Arca era o símbolo da presença de Deus no meio do seu povo. A Igreja louva Maria com o título de Arca da Aliança. Há exegetas que vêem na visita da Virgem Maria a Isabel ressonâncias deste relato, que justificam este título bíblico atribuído à Virgem Maria.
2ª Leitura 1 Coríntios 15, 54b-57
Irmãos: 54bQuando este nosso corpo mortal se tornar imortal, então se realizará a palavra da Escritura: «A morte foi absorvida na vitória. 55Ó morte, onde está a tua vitória? Ó morte, onde está o teu aguilhão?». 56O aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a Lei. 57Mas dêmos graças a Deus, que nos dá esta vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo.
56 “O aguilhão da morte é o pecado”. S. Paulo apresenta a morte personificada, a picar com o ferrão, isto é, a exercer o seu domínio sobre a humanidade: ao sermos feridos pelo pecado, morremos. Como se vê, isto está dito de modo figurado. “A força do pecado é a Lei”. A Lei de Moisés, ao tornar mais patentes as obrigações, sem conceder a força para fazer o bem, dava força ao pecado, isto é, tornava-se ocasião de pecado (cf. Rom 7, 7-8). 57 “A vitória por N. S. J. Cristo”: Jesus, dando pleno cumprimento à Lei antiga, que exigia a morte do pecador, não só venceu a morte com a sua própria morte, como também arrebatou à morte o seu poder mortífero – “o aguilhão” –, isto é, o pecado, que feria a humanidade e a submetia à morte.
Evangelho São Lucas 11, 27-28
27Naquele tempo, enquanto Jesus falava à multidão, uma mulher levantou a voz no meio da multidão e disse: «Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito». 28Mas Jesus respondeu: «Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática».
Com este episódio começa a ter efectivação a previsão de Maria: todas as gerações me hão-de chamar bem-aventurada (Lc 1, 48). Jesus não contradiz o belo elogio dirigido a sua Mãe, mas aproveita a ocasião para fazer ver que o que importa aos seus ouvintes não são os laços de sangue, mas que ouçam e cumpram a Palavra de Deus. Pode ver-se aqui um elogio que Jesus faz ao “faça-se” de Maria (cf. Lc 1, 38).
Assunção de Nossa Senhora (Missa do dia)
1ª leitura Apocalipse 11, 19a 12, 1-6a.10ab
19aO templo de Deus abriu-se no Céu e a arca da aliança foi vista no seu templo. 12, 1Apareceu no Céu um sinal grandioso: uma mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça. Estava para ser mãe e gritava com as dores e ânsias da maternidade. 3E apareceu no Céu outro sinal: um enorme dragão cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres e nas cabeças sete diademas. 4A cauda arrastava um terço das estrelas do céu e lançou-as sobre a terra. O dragão colocou-se diante da mulher que estava para ser mãe, para lhe devorar o filho, logo que nascesse. 5Ela teve um filho varão, que há-de reger todas as nações com ceptro de ferro. O filho foi levado para junto de Deus e do seu trono 6ae a mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar. 10abE ouvi uma voz poderosa que clamava no Céu: «Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e o domínio do seu Ungido».
Sob a imagem da Arca (v. 19) e da mulher (vv. 1-17) é-nos apresentada, na intenção da liturgia, a Virgem Maria. Entretanto os exegetas continuam a discutir, sem chegar a acordo, se estas imagens se referem à Igreja ou a Maria. Sem nos metermos numa questão tão discutida, podemos pensar com alguns estudiosos que a Mulher simboliza, num primeiro plano, a Igreja, mas, tendo em conta as relações tão estreitas entre a Igreja e Maria - “membro eminente e único da Igreja, seu tipo e exemplar perfeitíssimo na fé e na caridade... sua Mãe amorosíssima” (Vaticano II, LG 53) – podemos englobar a Virgem Maria nesta imagem da mulher do Apocalipse. Tendo isto em conta, citamos o comentário de Santo Agostinho ao Apocalipse (Homilia IX): 4-5 “O Dragão colocou-se diante da mulher...”: “A Igreja dá à luz sempre no meio de sofrimentos, e o Dragão está sempre de vigia a ver se devora Cristo, quando nascem os seus membros. Disse-se que deu à luz um filho varão, vencedor do diabo”. 6 “E a mulher fugiu para o deserto”: “O mundo é um deserto, onde Cristo governa e alimenta a Igreja até ao fim, e nele a Igreja calca e esmaga, com o auxílio de Cristo, os soberbos e os ímpios, como escorpiões e víboras, e todo o poder de Satanás”.
2ª leitura 1 Coríntios 15, 20-27
Irmãos: 20Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. 21Uma vez que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos 22porque, do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida. 23Cada qual, porém, na sua ordem: primeiro, Cristo, como primícias a seguir, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. 24Depois será o fim, quando Cristo entregar o reino a Deus seu Pai depois de ter aniquilado toda a soberania, autoridade e poder. 25É necessário que Ele reine, até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés. 26E o último inimigo a ser aniquilado é a morte, porque Deus tudo colocou debaixo dos seus pés. 27Mas quando se diz que tudo Lhe está submetido é claro que se exceptua Aquele que Lhe submeteu todas as coisas.
É a partir deste texto e do de Romanos 5 que os Padres da Igreja estabelecem a tipologia baseada num paralelismo antiético, entre Eva e Maria: Eva, associada a Adão no pecado e na morte; Maria, associada a Cristo na obra de reparação do pecado e na ressurreição. 20-23 S. Paulo, começando por se apoiar no facto real da Ressurreição de Cristo, procura demonstrar a verdade da ressurreição (vv. 1-19). Nestes versículos, diz que “Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram” (v. 20). As primícias eram os primeiros frutos do campo que se deviam oferecer a Deus e só depois se podia comer deles (cf. Ex 28; Lv 23, 10-14; Nm 15, 20-21). De igual modo, Cristo nos precede na ressurreição. Nós (exceptuando pelo menos a Virgem Maria) havemos de ressuscitar “por ocasião da sua vinda” (v. 23). Não se pode confundir esta ressurreição sobrenatural e misteriosa de que aqui se fala com a imortalidade da alma. O Credo do Povo de Deus de Paulo VI, no nº 28, diz: “Cremos que as almas de todos aqueles que morrem na graça de Cristo - tanto as que ainda devem ser purificadas com o fogo do Purgatório, como as que são recebidas por Jesus no Paraíso logo que se separem do corpo, como o Bom Ladrão - constituem o Povo de Deus depois da morte, a qual será destruída por completo no dia da Ressurreição, em que as almas se unirão com os seus corpos”. Por seu turno, a S. Congregação para a Doutrina da Fé, na carta de 17-5-79, declara: “A Igreja, ao expor a sua doutrina sobre a sorte do homem depois da morte, exclui qualquer explicação com que se tirasse o seu sentido à Assunção de Nossa Senhora, naquilo que esta tem de único, ou seja, o facto de ser a glorificação que está destinada a todos os outros eleitos”.
Evangelho São Lucas 1, 39-56
39Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direcção a uma cidade de Judá. 40Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo 42e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. 43Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? 44Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. 45Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor». 46Maria disse então: «A minha alma glorifica o Senhor 47e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48porque pôs os olhos na humildade da sua serva: de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. 49O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas: Santo é o seu nome. 50A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem. 51Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. 52Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. 53Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. 54Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, 55como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre». 56Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses e depois regressou a sua casa.
Os estudiosos descobrem neste relato uma série de ressonâncias vetero-testementárias, o que corresponde não apenas ao estilo do hagiógrafo, mas sobretudo à sua intenção teológica de mostrar como na Mãe de Jesus se cumprem as figuras do A.T.: Maria é a verdadeira e nova Arca da Aliança (comparar Lc 1, 43 com 2 Sam 6, 9 e Lc 1, 56 com 2 Sam 6, 11) e a verdadeira salvadora do povo, qual nova Judite (comparar Lc 1, 42 com Jdt 13, 18-19) e qual nova Ester (Lc 1, 52 e Est 1 – 2). 39 “Uma cidade de Judá”. A tradição diz que é Ain Karem, uma povoação a 6 Km a Oeste da cidade nova de Jerusalém. De qualquer modo, ficaria a uns quatro dias de viagem de Nazaré. Maria empreende a viagem movida pela caridade e espírito de serviço. A “Mãe do meu Senhor” (v. 43) não fica em casa à espera de que os Anjos e os homens venham servir a sua rainha; e Ela mesma, que se chama “escrava do Senhor” (v. 38), “a sua humilde serva” (v. 48), apressa-se em se fazer a criada da sua prima e de acudir em sua ajuda. Ali permanece, provavelmente, até depois do nascimento de João, uma vez que S. Lucas nos diz que “ficou junto de Isabel cerca de três meses”. 42 “Bendita és Tu entre as mulheres”. Superlativo hebraico: a mais bendita de todas as mulheres. 43-44 “A Mãe do meu Senhor”. As palavras de Isabel são proféticas: o mexer-se do menino no seu seio (v. 41) não era casual, mas “exultou de alegria” para também ele saudar o Messias e sua Mãe. 46 45 O cântico de Nossa Senhora, o Magnificat, é um poema de extraordinária beleza poética e elevação religiosa. Dificilmente poderiam ficar melhor expressos os sentimentos do coração da Virgem Maria – “a mais humilde e a mais sublime das criaturas” (Dante, Paraíso, 33, 2) –, em resposta à saudação mais elogiosa (vv. 42-45) que jamais se viu em toda a Escritura. É como se Maria dissesse que não havia motivo para uma tal felicitação; tudo se deve à benevolência, à misericórdia e à omnipotência de Deus. Sem qualquer referência ao Messias, refulge aqui a alegria messiânica da sua Mãe e a sua humildade num extraordinário hino de louvor e de agradecimento. O cântico está todo entretecido de reminiscências bíblicas, sobretudo do cântico de Ana (1 Sam 2, 1-10) e dos Salmos (35,9; 31, 8; 111, 9; 103, 17; 118, 15; 89, 11; 107, 9; 98, 3); cf. também Hab 3, 18; Gn 29, 32; 30, 13; Ez 21, 31; Si 10, 14; Mi 7, 20. Ao longo dos tempos, muitos e belos comentários se fizeram ao Magnificat; mas também é conhecida a abordagem libertacionista, abundado leituras materialistas utópicas, falsificadoras do genuíno sentido bíblico, com base no princípio marxista da luta de classes. Com efeito, a transformação social que é urgente realizar, não se faz invertendo a ordem social, com o “derrubar os poderosos dos seus tronos” e com o “despedir os ricos de mãos vazias”. Eis o comentário da Encíclica Redemptoris Mater, nº 36: “Nestas sublimes palavras… vislumbra-se a experiência pessoal de Maria, o êxtase do seu coração; nelas resplandece um raio do mistério de Deus, a glória da sua santidade inefável, o amor eterno que, como um dom irrevogável, entra na história do homem”.
1ª Leitura Jeremias 38, 4-6.8-10
Naqueles dias, 4os ministros disseram ao rei de Judá: «Esse Jeremias deve morrer, porque semeia o desânimo entre os combatentes que ficaram na cidade e também todo o povo com as palavras que diz. Este homem não procura o bem do povo, mas a sua perdição». 5O rei Sedecias respondeu: «Ele está nas vossas mãos; o rei não tem poder para vos contrariar». 6Apoderaram-se então de Jeremias e, por meio de cordas, fizeram-no descer à cisterna do príncipe Melquias, situada no pátio da guarda. Na cisterna não havia água, mas apenas lodo, e Jeremias atolou-se no lodo. Entretanto, 8Ebed-Melec, o etíope, saiu do palácio e falou ao rei: 9«Ó rei, meu senhor, esses homens procederam muito mal tratando assim o profeta Jeremias: meteram-no na cisterna, onde vai morrer de fome, pois já não há pão na cidade». 10Então o rei ordenou a Ebed-Melec, o etíope: «Leva daqui contigo três homens e retira da cisterna o profeta Jeremias, antes que ele morra».
A nossa leitura escolhida em função do Evangelho de hoje é extraída de parte final da segunda parte (biográfica) do livro de Jeremias (26, 1 – 45, 5), a chamada “paixão de Jeremias” (37, 1 – 44, 30): no tempo do rei Sedecias, ele é metido na prisão sujeito a maus tratos e humilhações. Jeremias é considerado uma figura de Cristo sofredor, corajoso e paciente, um sinal de contradição. 4 “Jeremias semeia o desânimo entre os combatentes”. O profeta de Anatot não se cansou de advertir o rei e o povo de que a solução, em face da ameaça de Nabucodonosor, rei da Babilónia, era negociar a rendição. Os altos funcionários, obcecados pela sua visão humana, não querem ouvir Jeremias e acusam-no de traidor à pátria, pois os seus oráculos são de molde a desalentar os combatentes. 5 “O rei Sedecias” tinha sido posto no trono pelo próprio Nabucodonosor, quando entrou vitoriosamente em Jerusalém no ano de 598 e levou para a Babilónia o rei Joaquim (filho) à frente dos prisioneiros. Sedecias, seu tio, era fraco e deixava-se manobrar facilmente pelos cortesãos e, ainda que respeitasse o profeta, não tinha uma fé suficientemente forte para seguir os seus oráculos. A falta de fé do rei havia de custar muito caro a todo o povo, pois em 587 foi o incêndio da cidade e do templo, o exílio e o fim do reino de Judá; Sedecias é preso são-lhe arrancados os olhos, após terem presenciado o massacre dos seus próprios filhos. A tremenda catástrofe podia ter sido evitado se o rei tivesse dado atenção à voz de Deus, contra os cálculos meramente humanos. 7 Ébed-Mélec. É um negro estrangeiro, um oficial cusita, quem desta vez salvou a vida do homem de Deus, rejeitado pelos seus concidadãos como inimigo da sua pátria, que tão ardentemente amava.
2ª leitura Hebreus 12, 1-4 Irmãos: 1Estando nós rodeados de tão grande número de testemunhas, ponhamos de parte todo o fardo e pecado que nos cerca e corramos com perseverança para o combate que se apresenta diante de nós, 2fixando os olhos em Jesus, guia da nossa fé e autor da sua perfeição. Renunciando à alegria que tinha ao seu alcance, Ele suportou a cruz, desprezando a sua ignomínia, e está sentado à direita do trono de Deus. 3Pensai n’Aquele que suportou contra Si tão grande hostilidade da parte dos pecadores, para não vos deixardes abater pelo desânimo. 4Vós ainda não resististes até ao sangue, na luta contra o pecado.
Na leitura do domingo anterior o autor sagrado tinha-nos feito considerar exemplos de fé intrépida no Antigo Testamento, hoje no capítulo seguinte, já perto do final da Epístola, temos uma empolgante exortação à constância na fé, lutando contra o pecado, num apelo a imitar a Jesus Cristo, “guia da nossa fé e autor da sua perfeição”, Este texto, mais do que comentado, deve ser meditado, palavra por palavra. 4 “Ainda não resististes até ao sangue”. Os destinatários da epístola, embora estejam a passar por duras provações pelo facto de serem cristãos, como a prisão e a espoliação dos bens, ainda não tinham sido sujeitos ao martírio, como já acontecera a outros discípulos do Senhor (lembrar o martírio de Estêvão e de Tiago Maior…); a verdade é que têm de estar dispostos a dar a vida por Cristo, na luta contra o pecado, concretamente o pecado de apostasia. Aqui está presente a ideia paulina de que a vida cristã é uma luta, mas não uma luta qualquer, uma luta sangrenta como era a do pugilato sobretudo quando se usavam luvas com reforço metálico, a luta dos gladiadores.
Evangelho Lucas 12, 49-53 Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 49«Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda? 50Tenho de receber um baptismo e estou ansioso até que ele se realize. 51Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. 52A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. 53Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».
O nosso texto evangélico de hoje move-se na linha do sinal de contradição que é Jesus (cf. Lc 2, 34), contradição a que está sujeito quem quer ser seu discípulo. 49 “Eu vim trazer o fogo à terra”. A linguagem de Jesus não é, evidentemente a dum incendiário ou dum revolucionário político. Também não parece que se trate do fogo da desavença e do ódio a que se referem os vv. 51-53, como pensam alguns. O sentido deve buscar-se no contexto mais próximo, o v. 50, onde se fala da Paixão e Morte redentora de Cristo, a prova máxima do seu amor, a qual levaria os crentes a uma correspondência de amor. É o Filho de Deus feito homem quem traz à terra o fogo do amor de Deus, de Deus que é fogo devorador (Dt 4, 24). “E que quero Eu senão que ele se acenda?” A Neo-vulgata preferiu outra interpretação possível do original grego (que se escrevia pontuação nem separação de palavras): “…e qual é o meu desejo? Oxalá ele já estivesse ateado!”. 50 “Um baptismo”. É sem dúvida o “banho de sangue” da sua dolorosíssima Paixão (cf. Mc 10, 38). 51-53 “Paz... divisão”. Jesus não veio trazer uma paz mundana baseada numa satisfação egoísta das paixões, que é uma paz podre. Ele trouxe a paz (cf. Lc 2, 14; Jo 14, 27) baseada no amor de Deus acima de todas as coisas, e, por isso mesmo, os que não quiserem aceitar esse amor entrarão em desavença, mesmo no seio das famílias. Jesus não quer isso, mas permite-o ao respeitar a nossa liberdade.
1ª Leitura Isaías 66, 18-21
Eis o que diz o Senhor: 18«Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória. 19Eu lhes darei um sinal e de entre eles enviarei sobreviventes às nações: a Társis, a Fut, a Lud, a Mosoc, a Rós, a Tubal e a Javã, às ilhas remotas que não ouviram falar de Mim nem contemplaram ainda a minha glória, para que anunciem a minha glória entre as nações. 20De todas as nações, como oferenda ao Senhor, eles hão-de reconduzir todos os vossos irmãos, em cavalos, em carros, em liteiras, em mulas e em dromedários, até ao meu santo monte, em Jerusalém – diz o Senhor – como os filhos de Israel trazem a sua oblação em vaso puro ao templo do Senhor. 21Também escolherei alguns deles para sacerdotes e levitas».
A leitura é tirada da parte final do último capítulo de Isaías. Aqui se anuncia a conversão dos gentios e a universalidade da salvação, uma perspectiva que sem dúvida ultrapassa o tempo em que o escrito inspirado recebeu a sua forma definitiva. 19 “Tarsis”. Provavelmente é a colónia fenícia de Tartesus no Sul de Espanha, perto da foz do rio Guadalquivir. Aqui representa o extremo Ocidente. Os restantes povos são do Norte de África, Ásia Menor e Grécia. 20 “Em Jerusalém”. A profecia teve o seu pleno cumprimento na Nova Jerusalém que é a Igreja (cf. Gal 4, 25-26; Apoc 21, 2).
2ª leitura Hebreus 12, 5-7.11-13 Irmãos: 5Já esquecestes a exortação que vos é dirigida, como a filhos que sois: «Meu filho, não desprezes a correcção do Senhor, nem desanimes quando 6Ele te repreende; porque o Senhor corrige aquele que ama e castiga aquele que reconhece como filho». 7É para vossa correcção que sofreis. Deus trata-vos como filhos. Qual é o filho a quem o pai não corrige? 11Nenhuma correcção, quando se recebe, é considerada como motivo de alegria, mas de tristeza. Mais tarde, porém, dá àqueles que assim foram exercitados um fruto de paz e de justiça. 12Por isso, levantai as vossas mãos fatigadas e os vossos joelhos vacilantes 13e dirigi os vossos passos por caminhos direitos, para que o coxo não se extravie, mas antes seja curado.
Continuamos com a leitura da Epístola dos Hebreus, uma verdadeiro “sermão de exortação” como se chama em 13, 22; aqui temos em belo apelo à perseverança nas tribulações a que os destinatários estavam sujeitos. 5 “A exortação que vos é dirigida”. Trata-se duma citação do Livro dos Provérbios (Prov 3, 11-12). Esta é uma passagem entre muitas que nos fez ver como as palavras da Sagrada Escritura se dirigem aos fiéis de todos os tempos e como, através duma aplicação delas a cada situação concreta, se faz a actualização do texto antigo fazendo-se assim uma verdadeira “leitura espiritual”, lectio divina (cf. Dei Verbum, n.º 25). 12 “Mãos fatigadas... joelhos vacilantes”. Talvez se trate duma imagem tirada do pugilato, com que S. Paulo já gostava de comparar a vida cristã (1 Cor 9, 26-27). 13 “Caminhos direitos” são os do cumprimento integral da vontade de Deus.
Evangelho Lucas 13, 22-30 Naquele tempo, 22Jesus dirigia-Se para Jerusalém e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava. 23Alguém Lhe perguntou: «Senhor, são poucos os que se salvam?» Ele respondeu: 24«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. 25Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo: ‘Abre-nos, senhor’; mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’. 26Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nossas praças’. 27Mas ele responderá: ‘Repito que não sei donde sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’. 28Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas, e vós a serdes postos fora. 29Hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus. 30Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos».
O trecho de S. Lucas que hoje temos começa por uma pergunta posta a Jesus: “São poucos os que se salvam?” (v. 23) Tratava-se duma questão teórica que se punha no judaísmo da época; havia duas tendência entre os rabinos: uns diziam que todos se salvariam, até o rude povo da terra (‘am ha’árets), desde que fizessem parte de Israel; outros, de tendência rigorista, asseguravam que a salvação seria privilégio de poucos: “o mundo futuro será consolação para poucos, tormento para muitos” (4 Esdras). Jesus deliberadamente não quer dirimir uma questão teórica, mas aproveita o ensejo para transmitir um ensino verdadeiramente útil e prático. Por um lado, declara o princípio da universalidade da salvação: “Hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul” (v. 29). Por outro lado, visando talvez as teorias laxistas, esclarece que não é suficiente uma justificação de tipo comunitário ou sociológico - “comemos e bebemos contigo...” (v. 26) -, pois não basta o fazer parte do povo, é preciso lutar, levar uma vida exigente consigo mesmo - “esforçai-vos por entrar pela porta estreita” (v. 24) -, sem ter ilusões quanto às dificuldades que esperam aquele que quer salvar-se. Estas palavras de Jesus constituem um apelo urgente á conversão (cf. Mt 7, 13-14), como lembra o Catecismo da Igreja Católica (nº 1036). Na pregação do Evangelho, a par do apelo para o amor infinitamente misericordiosos de Deus, sempre pronto a perdoar os pecados mais hediondos ao pecador arrependido, não se pode deixar de lembrar “as afirmações da Sagrada Escritura e os ensinamentos da Igreja a respeito do Inferno, que são um apelo ao sentido de responsabilidade com que o homem deve usar da sua liberdade, tendo em vista o seu destino eterno” (ibid). “A doutrina da Igreja afirma a existência do Inferno e a sua eternidade” (ibid. nº 1035). Iludir ou falsear esta verdade de fé seria uma traição ao Evangelho, causando um prejuízo incalculável à causa da salvação das pessoas, encaminhando-as por uma vã presunção de salvação. 28 “Aí”, – fora do Reino de Deus – “haverá choro”, o pranto da máxima desdita, fruto dum remorso desesperado e inútil, “e ranger de dentes” próprio duma raiva cheia de ódio e inveja aos que entraram para o banquete do Reino dos Céus, quando lhes tinha sido acessível alcançar a mesma sorte dos Patriarcas e dos Profetas.
1ª leitura Ben-Sirá 3, 19-21.30-31 (gr.17-18.20.28-29) 19Filho, em todas as tuas obras procede com humildade e serás mais estimado do que o homem generoso. 20Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te e encontrarás graça diante do Senhor. 21Porque é grande o poder do Senhor e os humildes cantam a sua glória. 30A desgraça do soberbo não tem cura, porque a árvore da maldade criou nele raízes. 31O coração do sábio compreende as máximas do sábio e o ouvido atento alegra-se com a sabedoria.
A leitura contém versículos respigados do capítulo 3 do Sirácida, ou Eclesiástico (na designação cristã), que são uma apologia da virtude da humildade, passando à frente aquelas passagens que poderiam ser hoje mal entendidos, como o desejo de querer sempre saber mais, apresentado isto como um “perigo”, e “quem amam o perigo nele perecerá” (v. 25).
2ª leitura Hebreus 12, 18-19.22-24a
Irmãos: 18Vós não vos aproximastes de uma realidade sensível, como os israelitas no monte Sinai: o fogo ardente, a nuvem escura, as trevas densas ou a tempestade, 19o som da trombeta e aquela voz tão retumbante que os ouvintes suplicaram que não lhes falasse mais. 22Vós aproximastes-vos do monte Sião, da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, de muitos milhares de Anjos em reunião festiva, 23de uma assembleia de primogénitos inscritos no Céu, de Deus, juiz do universo, dos espíritos dos justos que atingiram a perfeição 24ae de Jesus, mediador da nova aliança.
Nesta impressionante passagem da epístola, o hagiógrafo põe em vivo contraste a Antiga e a Nova Aliança, simbolizada nos dois montes em que foram seladas: “o Monte Sinai” e o “Monte Sião”; este era o monte onde assentava o templo de Jerusalém, monte que se tornou o símbolo do novo e definitivo lugar de encontro com Deus, ao mesmo tempo firme e glorioso: a “Jerusalém celeste”, que é a Igreja (cf. Gal 4, 25-26; Apoc 21, 2), a qual aqui engloba tanto os que já triunfam no Céu, como os que ainda militam na terra, considerados como um todo, por assim dizer. A Antiga Aliança é marcada pelo temor e pela majestade esmagadora de Deus (vv. 18-19); a Nova Aliança pela proximidade de Deus e intimidade com Ele, com os “Anjos” (v. 22), os Santos do Céu (“os justos que atingiram a perfeição” - v. 23) e sobretudo com o próprio “Jesus, mediador da Nova Aliança”, juntamente com os restantes cristãos que ainda militam na terra, provavelmente aqui designados por “uma assembleia de primogénitos inscritos no Céu” (v. 23). Assim poderia traduzir-se à letra, “uma Igreja - ekklesía - de primogénitos”; a designação de “primogénitos” correspondia à situação privilegiada dos cristãos, pois então os primogénitos gozavam de direitos especiais, sobretudo relativamente à herança.
Evangelho São Lucas 14, 1.7-14
Naquele tempo, 1Jesus entrou, a um sábado, em casa de um dos principais fariseus para tomar uma refeição. 7Todos O observavam. Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares, Jesus disse-lhes esta parábola: 8«Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar. Pode acontecer que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu; 9então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer: ‘Dá o lugar a este’; e ficarás depois envergonhado, se tiveres de ocupar o último lugar. 10Por isso, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar; e quando vier aquele que te convidou, dirá: ‘Amigo, sobe mais para cima’; ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados. 11Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado». 12Jesus disse ainda a quem O tinha convidado: «Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles por sua vez te convidem e assim serás retribuído. 13Mas quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; 14e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.
Com esta parábola, contada por ocasião duma refeição, Jesus não se limita a encarecer simplesmente uma atitude a ter no momento de escolher o lugar à mesa de um banquete, mas, acima de tudo, o que pretende com este exemplo é dar uma lição de humildade, válida para sempre, pois “quem se humilha será exaltado” (v. 11), entenda-se, por Deus, de acordo com o costume judaico seguido por Jesus, que evitou deliberadamente pronunciar o nome de Deus (o chamado passivum divinum). 10 “Aquele que te convidou dirá”. Tradução muito livre do original, com o fim de tornar menos chocante a leitura: “para que te diga”. De facto, se o convidado escolhesse o último lugar com a secreta intenção de vir a ser “honrado aos olhos dos outros convidados”, não estaria a viver a humildade, mas sim um refinado orgulho. Ora sucede que aqui a intenção expressa no texto não é a do convidado, mas sim a de Jesus que dá o conselho. A tradução litúrgica facilita uma correcta interpretação. Um belo comentário a este ensinamento de Jesus podem ser as palavras da Imitação de Cristo: “Deseja que não te conheçam e te reputem por nada... Não perdes nada, se te consideras inferior a todos, mas prejudicas-te muito se te considerares superior a um só que seja” (I, 2.7). 12-14 Jesus não quer dizer que se podem convidar só aqueles que não nos possam retribuir. Nesta maneira tão taxativa de falar, tão característica de Jesus, à maneira semítica, para produzir impacto e chamar a atenção, o Senhor quer ensinar-nos que não devemos andar atrás de compensações humanas, mas daquilo que merece a aprovação e recompensa de Deus nos Céus, aqui designado por “ressurreição dos justos” (que os maus também ressuscitam consta doutras passagens, como Jo 5, 29; Act 24, 15…).
1ª leitura Miqueias 5, 1-4a
Eis o que diz o Senhor: 1«De ti, Belém-Efratá, pequena entre as cidades de Judá, de ti sairá aquele que há-de reinar sobre Israel. As suas origens remontam aos tempos de outrora, aos dias mais antigos. 2Por isso Deus os abandonará até à altura em que der à luz aquela que há-de ser mãe. Então voltará para os filhos de Israel o resto dos seus irmãos. 3Ele se levantará para apascentar o seu rebanho pelo poder do Senhor, pelo nome glorioso do Senhor, seu Deus. Viver-se-á em segurança, porque ele será exaltado até aos confins da terra. 4aEle será a paz».
Em face da situação grave que pesava sobre o povo com as invasões assírias, no século VIII a. C., o Profeta tem palavras de esperança: após a ruína virá a restauração, que se fará por meio de um descendente de David. A profecia projecta-nos para um futuro de segurança e de paz, para os tempos messiânicos. 1 “De ti sairá aquele…” Tanto a tradição judaica como a cristã (cf. Rut 4, 11; 1 Sam 16, 1-13; 17, 12; Mt 2, 4-6; Jo 7, 42) entenderam esta profecia como referida ao lugar do nascimento de Cristo em Belém. “Beth-léhem” significa “casa do pão”; “Efratá” (fecunda) distingue-a dum outra Belém, na Galileia. “Pequena entre as cidades…” S. Mateus (Mt 2, 6) cita este texto fazendo dele uma leitura actualizada para mostrar que em Jesus se cumpre a profecia. Para isso serviu-se de um recurso próprio da hermenêutica judaica (chamado al-tiqrey: “não leias”); tendo em conta que em hebraico não se escreviam as vogais, as consoantes da palavra hebraica com que se diz “as cidades de” – alfey – é lida com outras vogais de modo a significar “as principais (príncipes) de”: al-lufey. É assim que Mateus pode dizer, não falseando o texto, mas interpretando-o: “não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá”. “As suas origens remontam...” A expressão hebraica presta-se a designar uma origem anterior ao tempo, portanto, eterna e divina. Assim pensam muitos exegetas católicos, recorrendo à analogia com Is 9, 5. 2 “Aquela que há de ser mãe”. Esta maneira de falar faz pensar numa alusão à célebre profecia de Isaías 7, 14, conhecida dos destinatários do oráculo, coisa aliás compreensível, uma vez que já teriam passado uns anos. Na leitura cristã deste texto é fácil de ver uma alusão à Mãe de Jesus. 4 “Ele será a Paz”. Em Ef 2, 14 parece haver uma citação desta passagem messiânica.
Em vez da leitura precedente, pode utilizar-se a seguinte:
Romanos 8, 28-30
Irmãos: 28Nós sabemos que Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam, dos que são chamados, segundo o seu desígnio. 29Porque os que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o Primogénito de muitos irmãos. 30E àqueles que predestinou, também os chamou àqueles que chamou, também os justificou e àqueles que justificou, também os glorificou.
Estas breves e incisivas palavras são das mais belas sínteses paulinas e estão na linha dos ensinamentos centrais de Romanos: a confiança mais absoluta em Deus, que há-de levar a cabo a obra já começada de salvar os seus fiéis. É certo que S. Paulo admite noutras passagens a possibilidade de que estes não se venham a salvar; mas, se isso vier a suceder, não pode ser por uma falha de Deus, mas apenas por uma atitude plenamente deliberada do homem resgatado. A nossa esperança é firmíssima (cf. Rom 5, 5.10), porque temos dentro de nós o próprio Espírito que vem em ajuda da nossa fraqueza, intercedendo por nós com gemidos inefáveis (cf. Rom 8, 26), e Deus Pai ouve esta intercessão, porque está plenamente conforme com Ele mesmo (v. 27). Além disso, por uma Providência amorosíssima, “Deus concorre, em tudo para o bem daqueles que O amam” (v. 28). 29-30 O desígnio salvador de Deus é aqui explicitado em cinco etapas (já explicitadas noutras passagens): Deus “conheceu-nos de antemão” (olhou-nos com amor); “predestinou-nos para sermos conformes à imagem do seu Filho” (a sermos um só com Cristo); “chamou-nos”; “justificou-nos”; “glorificou-nos”. É certo que a glória ainda não nos foi dada (cf. vv. 17-18), mas já a podemos considerar adquirida (daí o emprego do “aoristo proléptico”), dada a nossa intima união a Cristo já glorificado.
Evangelho Forma longa: São Mateus 1, 1-16.18-23; forma breve: São Mateus 1, 18-23
[1Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão: 2Abraão gerou Isaac. Isaac gerou Jacob, Jacob gerou Judá e seus irmãos. 3Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara, Farés gerou Esrom Esrom gerou 4Arão, Arão gerou Aminadab, Aminadab gerou Naasson Naasson gerou Salmon. 5Salmon gerou, de Raab, Booz Booz gerou, de Rute, Obed, Obed gerou Jessé 6Jessé gerou o rei David. David, da mulher de Urias, gerou Salomão, 7Salomão gerou Roboão, Roboão gerou Abias, Abias gerou Asa, 8Asa gerou Josafat, Josafat gerou Jorão, Jorão gerou Ozias, 9Ozias gerou Joatão, Joatão gerou Acaz, Acaz gerou Ezequias, 10Ezequias gerou Manasses, Manassés gerou Amon, Amon gerou Josias, 11Josias gerou Jeconias e seus irmãos, ao tempo do desterro de Babilónia. 12Depois do desterro de Babilónia, Jeconias gerou Salatiel, Salatiel gerou Zorobabel, 13Zorobabel gerou Abiud, Abiud gerou Eliacim, Eliacim gerou Azor, 14Azor gerou Sadoc, Sadoc gerou Aquim, Aquim gerou Eliud, 15Eliud gerou Eleazar, Eleazar gerou Matã, Matã gerou Jacob. 16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo.] 18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». 22Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do profeta, que diz: 23«A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’».
“Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David”: É este o cabeçalho da genealogia humana de Jesus com que se inicia o Evangelho de Mateus. Este título é para apresentar Jesus como o descendente por excelência de David, o Messias, segundo as promessas de Deus. São três grupos de 14 gerações, a partir de Abraão, o pai do povo eleito, com nomes tomados fundamentalmente de Crónicas ou Paralipómenos, até Zorobabel, ignorando-se quais as fontes para os restantes nomes, nomes que não coincidem com os de Crónicas, nem com os da tábua genealógica de Lucas. A genealogia obedece claramente a uma intencionalidade teológica. O número 14, três vezes repetido, uma cifra que não corresponde a todos os elos que ligam Jesus a Abraão, parece querer insinuar que não estamos perante uma casualidade, à maneira duma capicua, mas perante algo preestabelecido por Deus, um desígnio misterioso de Deus, que envia o seu Filho à terra “quando chegou a plenitude dos tempos” (Gal 4, 4); de facto, o número 14 é um símbolo de plenitude, pois equivale ao número perfeito, 7, multiplicado por dois. 16 “Gerou... Foi gerado.” Esta lista tripartida evidencia que S. José não é pai de Jesus segundo a carne, pois de cada um daqueles homens da lista genealógica se diz “gerou” (egénesen), e não se diz o mesmo de José relativamente a Jesus: “Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus”. Este verbo, “nasceu”, no original grego é uma forma passiva impessoal, “foi gerado” (egenêthe), correspondendo este passivo (passivum divinum) a uma forma corrente de se referir a Deus como sujeito duma acção, sem ter de pronunciar o seu nome inefável, dado o respeito que se Lhe deve. Sendo assim, a expressão “da qual foi gerado Jesus” é equivalente a esta: “da qual Deus gerou Jesus”. Mas pode perguntar-se: então porque se põe José na ascendência de Jesus, não sendo pai no sentido biológico (cf. v. 18)? É que é pai de Jesus “por constituição de Deus” (A. Diez Macho): “trata-se duma paternidade que afecta o nascimento, mas não a geração”; é Deus que introduz José na família de Jesus levando-o a vencer o temor reverencial de receber Maria como esposa (v. 21) e encarrega-o de pôr o nome ao Menino, o que era uma função do pai (v. 24). Estamos assim perante uma verdadeira paternidade, superior à carnal, pois é estabelecida ou constituída por Deus. S. Mateus pretende demonstrar que Jesus é o Messias e, portanto, Filho de David, embora não descenda biologicamente dele. Isto é realçado pelo emprego duma técnica deráxica (actualização de textos bíblicos anteriores), chamada “gematriá” (jogo de números a partir das letras correspondentes): nesta lista genealógica, aparece o número 14 repetido 3 vezes, um número sublinhado no v. 17; e tanto o número 14 como o nome David se escrevem com as mesmas consoantes hebraicas (DVD = 4+6+4). 18 “Antes de terem vivido em comum”: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois. “Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo”: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se “por virtude do Espírito Santo”, não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra “espírito” (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera, Deus cria. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos, coisa totalmente contrária à verdade da Revelação divina. 19 “Mas José, seu esposo…” Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou, dado que não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois em face dos dados das suas fontes nem sequer disso precisava. Do texto parece depreender-se que Maria nada tinha revelado a José do mistério que nela se passava. José vem a saber da gravidez de Maria por si mesmo ou pelas felicitações do paraninfo (o “amigo do esposo”); e assim o que devia ser para José uma grande alegria tornou-se o mais cruel tormento. Em circunstâncias idênticas, qualquer outro homem teria actuado drasticamente, denunciando a noiva ao tribunal como adúltera. Mas José era um santo, “justo”, por isso, não condenava ninguém sem ter as provas da culpa. E aqui não as tinha. A sua serenidade e rectidão levam-no a não se precipitar. Ele conhece a virtude extraordinária de Maria e sabe que ela não podia ter falhado, não admitindo sequer a mais leve suspeita acerca dela. O que José pensaria é que estava perante algo sobrenatural, divino; ouvira talvez contar em família o que se passou na visita de Maria a Isabel, se é que ele não esteve mesmo ali; poderia mesmo ter tido uma iluminação acerca da profecia de Isaías que falava duma virgem que havia de dar à luz e ela mesma impor o nome ao seu filho, onde, portanto, não parecia haver lugar para homem algum. É então que José pensa deixar Maria, para não se intrometer num mistério em que não lhe competia ter parte alguma. É assim que “resolveu repudiá-la em segredo”, evitando cuidadosamente “difamá-la” (colocá-la numa situação infamante) ou simplesmente “tornar público” (“deigmatísai”) o mistério messiânico. 20 “Não temas receber Maria, tua esposa”. O Anjo sabe que José não admite qualquer dúvida acerca da virtude de Maria, por isso, não diz: “não desconfies”, mas: “não temas”. José devia andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: julga-se indigno de Maria e decide não se imiscuir num mistério que o transcende. Como explica S. Bernardo, S. José “foi tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, que a quis deixar ocultamente... José tinha-se, por indigno...”. 23 “Será chamado Emanuel”. No original hebraico temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqara’t referido a virgem, que é a que põe o nome = “e ela chamará”). Mateus, porém usa o plural (kai kalésousin: “e chamarão”), um plural de generalização, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai “legal” de Jesus (a própria profecia de Isaías 7, 14, ao dizer que seria a virgem a pôr o nome ao seu filho até se presta a significar que este não nasceria de germe paterno). Mateus, em face do papel providencial desempenhado por S. José, não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa muito mais rica do que o simples anúncio profético. Contudo, esta técnica do Evangelista para “actualizar” um texto antigo (o chamado deraxe), não é arbitrária, pois baseia-se na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey (quer dizer, “não leias”), que consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de “não ler” as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular na forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular como os LXX traduziram: weqara’t “e tu chamarás”), mas trata-se de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqara’ta “e tu chamarás” – lembrar que em hebraico há diferentes formas masculina e feminina para as 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, “com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: “e (tu, José) o chamarás”.
1ª leitura Sabedoria 9, 13-19 (gr. 13-18b)
13Qual o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Quem pode sondar as intenções do Senhor? 14Os pensamentos dos mortais são mesquinhos e inseguras as nossas reflexões, 15porque o corpo corruptível deprime a alma e a morada terrestre oprime o espírito que pensa. 16Mal podemos compreender o que está sobre a terra e com dificuldade encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem poderá então descobrir o que há nos céus? 17Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios, se Vós não lhe dais a sabedoria e não lhe enviais o vosso espírito santo? 18Deste modo foi corrigido o procedimento dos que estão na terra, os homens aprenderam as coisas que Vos agradam e pela sabedoria foram salvos.
A leitura é o final da 2ª parte do livro da Sabedoria (cap. 6 – 9), em que se põe na boca de Salomão, protótipo do homem sábio, o elogio da sabedoria, terminando com uma longa oração (todo o cap. 9), de que lemos aqui os últimos versículos. A Vulgata latina dividiu o último versículo, o 18, em dois (18 e 19). 13-16 “Qual o homem que pode conhecer…?” O homem, entregue só às forças da sua própria razão, não pode descortinar os desígnios inescrutáveis de Deus, pois o seu espírito está prisioneiro da matéria, na linguagem da antropologia filosófica grega aqui adoptada: o corpo concebido como a morada terrestre do espírito (v. 15). 17-18 “A sabedoria, o santo espírito” é um dom divino para se poder pensar e proceder segundo o pensamento e a vontade de Deus. A história da salvação documenta o bem que é ser guiado pela sabedoria divina, a par do mal que é viver privado dela (cf. capítulos finais do livro da Sabedoria: 10 – 19).
2ª leitura Filémon 9b-10.12-17
Caríssimo: 9bEu, Paulo, prisioneiro por amor de Cristo Jesus, 10rogo-te por este meu filho, Onésimo, que eu gerei na prisão. 12Mando-o de volta para ti, como se fosse o meu próprio coração. 13Quisera conservá-lo junto de mim, para que me servisse, em teu lugar, enquanto estou preso por causa do Evangelho. 14Mas, sem o teu consentimento, nada quis fazer, para que a tua boa acção não parecesse forçada, mas feita de livre vontade. 15Talvez ele se tenha afastado de ti durante algum tempo, a fim de o recuperares para sempre, 16não já como escravo, mas muito melhor do que escravo: como irmão muito querido. É isto que ele é para mim e muito mais para ti, não só pela natureza, mas também aos olhos do Senhor. 17Se me consideras teu amigo, recebe-o como a mim próprio.
Agora, provavelmente no seu primeiro cativeiro romano (60-62), S. Paulo escreve ao seu amigo a sua mais breve carta (25 versículos), uma peça de grande valor literário e que revela a sua fina sensibilidade. A leitura respiga apenas 8 versículos dispersos. 9 “Eu Paulo…” A tradução portuguesa suprimiu o adjectivo “velho”, com que Paulo se classifica. Trata-se de uma velhice relativa, pois uns 25 anos antes, quando do martírio de Estêvão, é chamado “jovem” (Act 7, 58). No 1º cativeiro romano deveria ter entre 50 e 60 anos de idade. Bento XVI, ao proclamar este ano como ano paulino, parte da suposição de que S. Paulo nasceu no ano 7 da era cristã, o que condiz com esta idade. Dada a esperança de vida de então, uma pessoa com mais de 50 anos já se poderia considerar um ancião. 10 Onésimo, um escravo fugitivo de Filémon, cristão abastado de Colossos, a quem S. Paulo baptizou em Roma durante o cativeiro em regime de “custódia líbera”, isto é, à solta, mas sempre vigiado por um soldado que se revezava trazendo o seu braço direito atado ao braço esquerdo dele. É por isso que é chamado “este meu filho que gerei na prisão”. Onésimo em grego significa proveitoso, útil; S. Paulo brinca com um trocadilho (no v. 11 que não aparece na leitura): “ele outrora foi inútil para ti (porque fugitivo), mas agora é útil para ti e para mim”. Toda a carta está repassada da fina sensibilidade do coração de Paulo e onde não falta até o bom humor. 17-17 “A fim de o recuperares para sempre, não já como escravo, mas... como irmão muito querido”. S. Paulo envia a Filémon o escravo fugitivo, tornado agora um irmão, não só pela sua condição de homem - pela natureza - mas também pelo Baptismo - aos olhos do Senhor. Não é para ninguém estranhar que S. Paulo tenha transigido com a estrutura social da escravatura, remetendo um escravo fugitivo ao seu dono, embora com um cartão de recomendação. Abolir de chofre esta instituição era impossível; por outro lado, o objectivo da missão apostólica não era a revolução social, mas pôr no coração de todos os homens a doutrina e o amor de Cristo, que, quando vividos, são o fermento de renovação da própria sociedade e das suas estruturas.
Evangelho São Lucas 14, 25-33
Naquele tempo, 25seguia Jesus uma grande multidão. Jesus voltou-Se e disse-lhes: 26«Se alguém vem ter comigo, sem Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. 27Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo. 28Quem de vós, que, desejando construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la? 29Não suceda que, depois de assentar os alicerces, se mostre incapaz de a concluir e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo: 30‘Esse homem começou a edificar, mas não foi capaz de concluir’. 31E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro a considerar se é capaz de se opor, com dez mil soldados, àquele que vem contra ele com vinte mil? 32Aliás, enquanto o outro ainda está longe, manda-lhe uma delegação a pedir as condições de paz. 33Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo».
S. Lucas apresenta “uma grande multidão” da Palestina a seguir Jesus, mas quer que, com as palavras de Jesus, fique bem claro para os seus leitores que há exigências para todos os que O hão-de seguir “até aos confins do mundo” (cf. Act 1, 8). É que não se trata apenas de se sentir atraído por uma doutrina superior, mas de seguir Jesus com todas as renúncias que isso implica: “Não pode ser meu discípulo…”, insiste por três vezes (vv. 26.27.33). As exigências de Jesus são-nos aqui propostas sem rodeios e em toda a sua crueza e vigor. S. Lucas é o evangelista que mais acentua não só a bondade de Cristo, mas também as suas exigências. 26 “Sem me preferir ao pai...” Esta tradução pretende evitar o chocante idiotismo hebraico, “odiar o pai…”, que, mais do que uma força da expressão, é uma forma expressiva, muito ao estilo de Jesus, para chamar a atenção para algo muito importante, de modo a que o ensino fique bem gravado para sempre na memória dos ouvintes. É que seguir a Jesus como seu discípulo não admite meias tintas, concessões ou contemporizações de qualquer espécie: Jesus exige um amor acima de tudo, que só Deus pode exigir, situando-se assim no mesmo plano de Deus, deixando ver a sua divindade. Sendo assim, “odiar…” poderia traduzir-se por “estar disposto a renunciar ao amor de…”; Jesus não revoga o 4º mandamento da Lei de Deus, mas situa-o na justa escala de valores, como se lê em Mt 10, 37: “quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim não é digno de Mim”. Numa palavra, para seguir a Jesus é preciso estar disposto a sacrificar os afectos humanos mais nobres. 28-32 Estas duas parábolas – a do homem que constrói uma torre e a do rei que vai para a guerra – exclusivas de S. Lucas, demonstram graficamente que seguir a Jesus sem abraçar a sua cruz é afadigar-se a trabalhar para um saco roto: é deitar a perder tudo o que uma pessoa se propôs com o seguimento de Cristo. 33 “Renunciar a todos os seus bens”. A radicalidade do seguimento de Cristo tem consequências também no que diz respeito aos bens deste mundo, exige o desprendimento deles, embora não necessariamente o prescindir deles; mas os bens não passam de simples meios para chegar a Deus. Seguir a Jesus é dizer não à mediocridade, a aurea mediocritas dos romanos, exaltada pelo poeta Horácio.
1ª leitura Números 21, 4b-9
Naqueles dias, 5o povo de Israel impacientou-se e falou contra Deus e contra Moisés: «Porque nos fizeste sair do Egipto, para morrermos neste deserto? Aqui não há pão nem água e já nos causa fastio este alimento miserável». 6Então o Senhor mandou contra o povo serpentes venenosas que mordiam nas pessoas e morreu muita gente de Israel. 7O povo dirigiu-se a Moisés, dizendo: «Pecámos, ao falar contra o Senhor e contra ti. Intercede junto do Senhor, para que afaste de nós as serpentes». E Moisés intercedeu pelo povo. 8Então o Senhor disse a Moisés: «Faz uma serpente de bronze e coloca-a sobre um poste. Todo aquele que for mordido e olhar para ela ficará curado». 9Moisés fez uma serpente de bronze e fixou-a num poste. Quando alguém, era mordido por uma serpente, olhava para a serpente de bronze e ficava curado.
5 “Este alimento miserável”. Referência bem realista ao maná, cujo idealização posterior o considera, pelo contrário, “pão dos fortes” e “pão dos anjos”, pão com todas as delícias e com todos os sabores ao gosto de cada pessoa (cf. Sab 16, 20-21; Salm 78, 23-25). 6 “Serpentes venenosas”, à letra, de fogo, um hebraísmo para dizer serpentes abrasadoras, cuja espécie se ignora. 8 “Faz uma serpente de bronze…” Como se pode ver no Evangelho de hoje (Jo 3, 14-15), este relato encerra um sentido típico visado por Deus: o poste é figura da Cruz, a serpente de bronze é figura de Cristo Salvador, que salva da morte eterna todos os homens feridos pela mordedura mortal do pecado, desde que olhem para Jesus com fé.
2ª leitura Filipenses 2, 6-11
6Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, 7mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, 8humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. 9Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, 10para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, 11e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.
A leitura constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo, que muitos exegetas pensam ser anterior ao este escrito paulino e a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do Novo Testamento. 6 “De condição divina”. Literalmente: “existindo em forma de Deus” . Ora esta forma (morfê) de Deus, ainda que não significasse directamente a natureza divina, pelo menos indicaria a glória e a majestade, atributos especificamente divinos na linguagem bíblica. De qualquer modo, como bem observa Heinrich Schlier, a expressão em forma de Deus não quer dizer que Deus tenha uma forma como a têm os homens, mas significa que Jesus “tinha um ser como Deus, um ser divino”. “Não se valeu da sua igualdade com Deus”. Há diversas possibilidades de tradução desta rica expressão, segundo se considera o termo grego harpagmós em sentido activo (roubo), ou passivo (coisa roubada): a Vulgata traduz: “não considerou uma usurpação (rapinam) o ser igual a Deus” (sentido activo) ; segundo a interpretação dos Padres Gregos, a que se ateve a nossas tradução (sentido passivo), teríamos: “não considerou como algo cobiçado (harpagmón) … Há quem pense que S. Paulo quer fazer ressaltar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram vir a ser iguais a Deus (cf. Gn 3, 5.22) e a atitude humilde de Jesus que, sendo Deus, se quis fazer “semelhante aos homens” (v. 7). 7 “Mas aniquilou-se a si próprio”, à letra, esvaziou-se: Jesus Cristo, ao fazer-se homem, não se despojou da natureza divina, mas sim da glória ou manifestação sensível da majestade que Lhe competia em virtude da chamada união hipostática (na pessoa do Filho eterno de Deus, a natureza humana e a natureza divina unidas numa união misteriosa). “Assumindo a condição de servo”, o que não significa a condição social de escravo, mas a “forma” (morfê) de se conduzir própria de um ser pobre e dependente, cumprindo a figura do “servo de Yahwéh”, a que se refere a primeira leitura de hoje; “tornou-se semelhante aos homens, aparecendo como homem”, não apenas, como queria a heresia doceta, nas aparências (skhêmati), mas no sentido em que o homem é “semelhante” (en homoiômati) dos outros homens, em tudo igual excepto no pecado (cf. Hebr 4, 15);“humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz” (v. 8). Note-se como é posta em relevo esta obediência e aniquilamento – a kénosis – de Cristo, num sublime crescendo de humilhação em humilhação: feito homem, assume a condição de escravo, Ele obedece, e com uma obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz – homem, escravo, malfeitor! 9-11 Mas este aniquilamento – o tremendo escândalo da Cruz – não foi uma derrota, o desfecho dum história trágica com que tudo acabou; temos o sublime paradoxo da sua “exaltação”: foi “por isso” mesmo que “Deus” (não Ele próprio, mas o Pai) “O exaltou” de modo singularíssimo (à letra, acima de tudo o que existe: tenha-se em conta hypér na composição do verbo grego ), o que se deu na glorificação da humanidade de Jesus com a sua Ressurreição e Ascensão. A esta exaltação corresponde o “nome” que Lhe é dado por Deus, o mesmo nome com que passa a ser invocado pela multidão de todos os crentes de todos os tempos: já não é apenas o nome usado na sua vida terrena e que consta da sentença que o condenou à morte de cruz, mas com o mesmo nome com que o próprio Deus é designado para traduzir o nome divino “Yahwéh” – “Senhor”. A todos pertence proclamar e reconhecer a divindade de Jesus – “toda a língua proclame que Jesus Cristo é Senhor” (mais expressivo sem artigo, como no original grego) e o seu domínio sobre toda a criação – “no céu, na terra e nos abismos, para glória de Deus Pai” (A tradução da velha Vulgata neste ponto era pouco expressiva e deficiente: “que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai” ). Independentemente da discussão acerca do aniquilamento de que aqui se fala, se ele visa ou não directamente o mistério da Incarnação, fica bem claro que Jesus não é um simples servo do Senhor que vem a ser exaltado por Deus, pois Ele é Deus que se abaixa e depois vem a ser exaltado. Também fica patente que a fé na divindade de Jesus não é o fruto duma elaboração teológica tardia, pois a epístola é, quando muito, do ano 62, se não é mesmo de cerca de 56 (como pensam muitos), e, como dissemos, estes versículos fariam parte dum hino litúrgico a Cristo, anterior à epístola. Assim pensa, por exemplo, o notável Professor protestante de Tubinga, Martin Hengel.
Evangelho São João 3, 13-17
Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: 13«Ninguém subiu ao Céu senão Aquele que desceu do Céu: o Filho do homem. 14Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, 15para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna. 16Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. 17Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele».
O texto é tirado do “discurso” de Jesus a Nicodemos. Não é fácil distinguir nos discursos de Jesus em S. João, quando é que o evangelista apresenta as próprias palavras de Jesus de quando apresenta a sua reflexão divinamente inspirada sobre elas. Aqui costuma-se considerar a meditação do evangelista a partir do v. 13, meditação que, do v. 16 ao 21, é o chamado kérigma joanino. 13 “Filho do Homem” tem em S. João um sentido glorioso, indicando a origem divina de Jesus, o Filho de Deus pré-existente enviado ao mundo para salvar os homens e que “subiu ao Céu”, uma realidade que pertence às coisas do Céu (v. 12); nos Sinópticos conserva mais o sentido da literatura apocalíptica (cf. Dn 7, 13; 4 Esd; Henoc Etiópico), indicando o Messias, o salvador do povo que virá no fim dos tempos e também o Messias-sofredor. Mas expressão na Filho do homem nem sempre fica bem claro o título cristológico, pois por vezes poderia não passar de um mero asteísmo, uma figura de linguagem para Jesus se referir discretamente à sua pessoa: este homem = eu. 14 “Elevado”, na Cruz, entenda-se. Mas S. João joga com os dois sentidos da elevação, na Cruz e na glória. E isto não é um simples artifício literário, mas encerra um mistério profundo, pois é na Paixão que se manifesta todo o amor de Jesus (cf. Jo 13, 1), todo o seu poder divino salvífico de dar o Espírito e a vida eterna (cf. 7, 38; 12, 23-24; 17, 1.2.19), numa palavra, a sua glória, que culmina na Ressurreição (cf. 12, 16). Para a alusão à serpente de bronze, ver Nm 21, 4-9 (1ª leitura de hoje); Sab 16, 5-15 e o Targum que fala mesmo dum lugar elevado onde Moisés a colocou. 16 “Deus... entregou o seu Filho Unigénito”. Parece haver aqui uma alusão ao sacrifício de Isaac (cf. Gn 22, 1-12), que os Padres consideravam uma figura de Cristo, até por aquele pormenor de Isaac subir o monte Moriá com a lenha às costas, figura de Jesus subindo o monte Calvário carregando a Cruz. 17 “Não… para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo”. Jesus contraria as ideias judaicas da época, que imaginavam o Messias como um juiz que antes de mais vinha para julgar e condenar todos os que ficavam fora do Reino de Deus, ou se lhe opunham.
1ª leitura Hebreus 5, 7-9
7Nos dias da sua vida mortal, Cristo dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte e foi atendido por causa da sua piedade. 8Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento 9e, tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se para todos os que Lhe obedecem causa de salvação eterna.
Este texto pequeno, mas deveras impressionante – há mesmo estudiosos que o consideram um extracto de um antigo hino a Cristo –, é tirado da parte central do célebre discurso, que é esta epístola (Hebr 4, 14 – 7, 28), onde se desenvolve o tema do sacerdócio de Cristo, o sumo sacerdote perfeito, que supera completamente o sacerdócio levítico. 7 Este versículo parece evocar o relato da agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras (cf. Mt 26, 36-44). “Preces e súplicas”: estas duas palavras sinónimas correspondem a uma expressão grega da época usada nos pedidos a uma alta autoridade; o uso do plural sugere a insistência na oração, segundo o “prolixius orabat” de Lc 22, 43. “Com um grande clamor e lágrimas”: os ensinos rabínicos sobre a oração referem três graus ascendentes: a prece (em silêncio), os gritos, e as lágrimas (como a forma mais elevada da oração). Os Evangelhos só falam de um forte brado de Jesus, na Cruz (Lc 23, 46), mas é de supor que se conhecessem pela tradição oral, pormenores da oração no horto que justificariam tão impressionante expressão. “Foi atendido”: em quê? É difícil de dizer, a tal ponto que Harnack pensa numa corrupção do texto original: “não foi atendido”; limitamo-nos a referir as explicações mais viáveis. Jesus não obteve a libertação do cálice de amargura, mas alcançou a coragem para enfrentar a sua Paixão identificando-se plenamente com a vontade do Pai. Ou então, como pensam outros, Jesus foi atendido ao ser livre da morte pela sua ressurreição, o que lhe permite exercer o seu sacerdócio eterno (cf. 7, 24; 10, 10), com efeito, “a sua morte era essencial para o seu sacerdócio, mas se Ele não fosse salvo da morte pela ressurreição, não seria agora o sumo sacerdote do seu povo” (J. H. Neyrey). 8 “Aprendeu a obediência no sofrimento”, ou, melhor, “por aquilo que sofreu”, ou também, “aprendeu de quanto sofrera, o que é obedecer”. Trata-se de uma aprendizagem não teórica, mas experimental, existencial. Aprender através do sofrimento era um lugar comum na literatura grega, e até havia esta máxima: “os sofrimentos são lições”. O que aqui há de particular é a aplicação à aprendizagem da obediência. No entanto, a obediência de Jesus na sua Paixão só é referida em mais dois lugares do N. T.: Rom 5, 19 e Filp 2, 8. Não se pense que a Jesus, por ser Deus, Lhe custava menos o sofrimento, antes pelo contrário, pois o sofrimento é directamente proporcional à dignidade da pessoa que sofre. 9 “Tendo atingido a sua plenitude”. Esta tradução não deixa ver uma das ideias centrais da epístola, que é a de “perfeição”, pelo que seria preferível a tradução do Cón. Falcão, “chegado à perfeição” ou a da Difusora Bíblica, “tornado perfeito”. Note-se que a perfeição de que aqui se fala não é a do amadurecimento na virtude, mas a que advém a Jesus pelo exercício do seu sumo sacerdócio com a consumação da obra salvadora pela oferta do sacrifício da nova aliança: “a obediência de Jesus leva-o à sua consagração sacerdotal, que, por sua vez, O torna apto para salvar aqueles que Lhe obedecem” (The new Jerome Biblical Commentary, p. 929).
Evangelho São João 19, 25-27
Naquele tempo, 25estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. 26Ao ver sua Mãe e o discípulo predilecto, Jesus disse a sua Mãe: «Mulher, eis o teu filho». 27Depois disse ao discípulo: «Eis a tua Mãe». E a partir daquela hora, o discípulo recebeu-a em sua casa.
25-27. Repare-se na solenidade deste relato: é uma cena central entre as cinco relatadas por João no Calvário; a Virgem Maria é mencionada 6 vezes em 3 versículos, e há o recurso a uma fórmula solene de revelação (“ao ver… disse… eis…” ). Isto deixa ver que não se trata dum simples gesto de piedade filial de Jesus para com a sua Mãe a fim de não a deixar ao desamparo, mas que o Evangelista lhe atribui um significado simbólico profundo; com efeito, chegada a hora de Jesus, é a hora de Ela assumir (cf. Jo 2, 4) o seu papel de nova Eva (cf. Gn 3, 15) na obra redentora. A designação de “Mulher” assume, na boca do Redentor, o novo Adão, o sentido da missão corredentora de Maria: não é chamada Mãe, mas sim Mulher, como nova Eva, Mãe da nova humanidade, por alusão à “mulher” da profecia messiânica de Gn 3, 15. Por outro lado, Ela é a mulher que simboliza a Igreja (cf. Apoc 12, 1-18), a mãe dos discípulos de Jesus representados no discípulo amado, que “a acolheu como coisa própria”. A tradução mais corrente deste inciso (seguida pela tradução litúrgica) é: “recebeu-a em sua casa”, mas esta forma de tradução empobrece de modo notável o rico sentido originário da expressão grega “élabon eis tà idía”, uma expressão usada mais quatro vezes em S. João, mas nunca neste sentido; com efeito, a expressão tà idía – “as coisas próprias” – significa muito mais do que a própria casa, indica tudo o que é próprio da pessoa, a sua intimidade. A tradução “recebeu-a como sua” corresponde melhor ao sentido original. É também de notar que S. João, ao contrário dos restantes Evangelistas, nunca se refere a Nossa Senhora com o nome de Maria; sempre a designa como a Mãe (de Jesus), um indício de ser tratada realmente como mãe; com efeito, ninguém jamais nomeia a própria mãe com o nome dela: para o filho a mãe é simplesmente a mãe!
Em vez do Evangelho precedente, pode ler-se o seguinte:
São Lucas 2, 33-35
Naquele tempo, 33o pai e a mãe do Menino Jesus estavam admirados com o que se dizia d’Ele. 34Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição 35– e uma espada trespassará a tua alma – assim se revelarão os pensamentos de todos os corações».
33-34 “Simeão”, de quem não temos mais notícias, aparece como um dos “piedosos” do judaísmo que esperava não um messias revolucionário (como os zelotas) mas o verdadeiro Salvador, “a consolação de Israel” (v. 25). Apesar do que se diz no v. 34, não parece ser sacerdote, não estando no serviço do templo, mas tendo vindo lá “movido pelo Espírito” (v. 27). A naturalidade com que S. Lucas chama a S. José “pai de Jesus” não implica qualquer contradição com o que antes afirmou em 1, 26-38. Aqui visa o poder e missão paterna, de modo nenhum a ascendência carnal. «A “espada” de dor pré-anunciada a Maria anuncia essa outra oblação, perfeita e única, da cruz, que trará a salvação que Deus “preparou diante de todos os povos” (v. 31)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 529). 35 “Assim se revelarão os pensamentos de todos os corações”. Estas palavras ligam-se a “sinal de contradição”. É que, diante de Jesus, não há lugar para a neutralidade: a sua pessoa, a sua obra e a sua mensagem fazem com que os homens revelem o seu interior, tomando uma atitude pró ou contra; a aceitação e a fé será, para muitos, motivo de salvação, ou “ressurgimento espiritual”: de que “se levantem”; ao passo que a rejeição culpável será motivo de que muitos se condenem: de que “muitos caiam”.
1ª leitura Êxodo 32, 7-11.13-14
Naqueles dias, 7o Senhor falou a Moisés, dizendo: «Desce depressa, porque o teu povo, que tiraste da terra do Egipto, corrompeu-se. 8Não tardaram em desviar-se do caminho que lhes tracei. Fizeram um bezerro de metal fundido, prostraram-se diante dele, ofereceram-lhe sacrifícios e disseram: ‘Este é o teu Deus, Israel, que te fez sair da terra do Egipto’». 9O Senhor disse ainda a Moisés: «Tenho observado este povo: é um povo de dura cerviz. 10Agora deixa que a minha indignação se inflame contra eles e os destrua. De ti farei uma grande nação». 11Então Moisés procurou aplacar o Senhor seu Deus, dizendo: «Por que razão, Senhor, se há-de inflamar a vossa indignação contra o vosso povo, que libertastes da terra do Egipto com tão grande força e mão tão poderosa? 13Lembrai-Vos dos vossos servos Abraão, Isaac e Israel, a quem jurastes pelo vosso nome, dizendo: ‘Farei a vossa descendência tão numerosa como as estrelas do céu e dar-lhe-ei para sempre em herança toda a terra que vos prometi’». 14Então o Senhor desistiu do mal com que tinha ameaçado o seu povo.
Este impressionante diálogo entre Deus e Moisés põe em evidência os elementos fundamentais da história da salvação, a saber, a aliança, o pecado, a fidelidade divina e a sua misericórdia. O texto foi escolhido em função do Evangelho: as parábolas da misericórdia. 11 “Moisés procurou aplacar o Senhor”. É uma figura de Cristo Mediador, que também subia frequentemente ao monte para orar: Moisés intercede muitas vezes em favor do povo pecador: Ex 5, 22-23; 8, 4; 9, 28; 10, 17; Nm 11, 2; 14, 13-19; 18, 22; 21, 7. E Deus aceita esta oração, que faz apelo à sua fidelidade à aliança e à sua misericórdia (v. 14).
2ª leitura 1 Timóteo 1, 12-17
Caríssimo: 12Dou graças Àquele que me deu força, Jesus Cristo, Nosso Senhor, que me julgou digno de confiança e me chamou ao seu serviço, 13a mim que tinha sido blasfemo, perseguidor e violento. Mas alcancei misericórdia, porque agi por ignorância, quando ainda era descrente. 14A graça de Nosso Senhor superabundou em mim, com a fé e a caridade que temos em Cristo Jesus. 15É digna de fé esta palavra e merecedora de toda a aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores e eu sou o primeiro deles. 16Mas alcancei misericórdia, para que, em mim primeiramente, Jesus Cristo manifestasse toda a sua magnanimidade, como exemplo para os que hão-de acreditar n’Ele, para a vida eterna. 17Ao Rei dos séculos, Deus imortal, invisível e único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amen.
Iniciamos hoje a leitura de textos respigados das chamadas Cartas Pastorais, escritos paulinos dirigidas a pessoas singulares, pastores da Igreja, com normas para a organização das comunidades de Éfeso (1 e 2 Tim) e de Creta (Tit). O texto desta leitura é um maravilhoso hino de acção de graças de Paulo pela sua vocação de Apóstolo, bem consciente da sua indignidade – “blasfemo, perseguidor, violento”, embora de boa fé, “por ignorância” (v. 13) – e da grandeza do dom de Deus, uma “graça que superabundou” (v. 14). Esta acção de graças culmina numa doxologia final, de sabor litúrgico (v. 17). 15 “É digna de fé…” Esta fórmula solene, própria das Cartas Pastorais (cf. 1 Tim 3, 1; 4, 9; 2 Tim 2, 11; Tit 3, 8), põe em relevo a importância doutrinal do que se diz neste versículo, um dos pontos centrais da fé cristã: a obra redentora de Cristo, que “por nós homens e pela nossa salvação desceu dos Céus…” (Credo de Niceia). A misericórdia que Deus mostrou para com Paulo é suficiente para inspirar confiança a qualquer pecador que queira arrepiar caminho.
Evangelho Forma longa: São Lucas 15, 1-32; forma breve: São Lucas 15, 1-10
Naquele tempo, 1os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. 2Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: “Este homem acolhe os pecadores e come com eles”. 3Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: 4«Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? 5Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros 6e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Eu vos digo: 7Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento. 8Ou então, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar? 9Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida’. 10Eu vos digo: Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa». [Jesus disse-lhes ainda: 11“Um homem tinha dois filhos. 12O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. 13Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. 14Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. 15Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. 16Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! 18Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. 19Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. 20Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. 21Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. 22Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. 23Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejamos, 24porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. 25Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. 26Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. 27O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. 28Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. 29Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. 30E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. 31Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. 32Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’”.]
A leitura de hoje, na sua forma longa, engloba todo o cap. 15 de S. Lucas, com as três parábolas da misericórdia divina; todas as três põem em evidência a alegria que Deus sente com o reencontro com o pecador, representado na ovelha perdida (vv. 4-7), na dracma perdida (8-10) e no filho perdido (11-32). Nas duas primeiras Deus é representado à procura do pecador; na terceira, no impressionante acolhimento que lhe presta. Estas parábolas são exclusivas do Evangelho de S. Lucas; a parábola da ovelha perdida também aparece em Mt 18, 10-14, mas num outro sentido: visa o cuidado que os chefes da Igreja devem pôr em não deixar que se perca nenhum dos pequeninos, isto é, aqueles fiéis que pela sua fragilidade correm mais risco de se perderem. Alguém considerou a parábola do filho pródigo “o evangelho dos evangelhos”. É a mais bela e a mais longa das parábolas de Jesus, impregnada duma finíssima psicologia própria de quem no-la contou, Jesus, que conhece a infinita misericórdia do coração de Deus, que é o seu próprio coração, e que penetra na profundidade da alma humana (cf. Jo 2, 25), onde se desenrola o tremendo drama do pecado. “Aquele filho, que recebe do pai a parte do património, que lhe corresponde, e abandona a casa para o desbaratar num país longínquo, vivendo uma vida libertina, é, em certo sentido, o homem de todos os tempos, começando por aquele que em primeiro lugar perdeu a herança da graça e da justiça original. A analogia neste ponto é muito ampla. A parábola aborda indirectamente todo o tipo de rupturas da aliança de amor, todas as perdas da graça, todo o pecado” (Encíclica Dives in misericordia, nº 5; ver tb. Catecismo da Igreja Católica, nº 1439). 12 “Dá-me a parte da herança”: segundo Dt 21, 17 pertencia-lhe um terço, havendo só dois filhos. O pai podia fazer as partilhas em vida (cf. Sir 30, 28ss). 13 “Partiu…”: o pecado do filho foi abandonar o pai, esbanjar os seus bens e levar uma vida dissoluta. 14-16 “Uma grande fome: é a imagem do vazio e insatisfação que sente o homem quando está longe de Deus, em pecado. “Guardar porcos” era uma humilhação abominável para um judeu, a quem estava proibido criar e comer estes animais impuros. Esta situação para um filho duma boa família era absolutamente incrível, o cúmulo da baixeza e da servidão. As “alfarrobas”: o rapaz já se contentaria com uma tão indigesta e indigna comida, mas, na hora de se dar uma ração dessas aos porcos, ninguém se lembrava daquele miserável guardador! Aqui fica bem retratada a vileza do pecado e a escravidão a que se submete o homem pecador (cf. Rom 1, 25; 6, 6; Gal 5, 1). O filho pretendia ser livre da tutela do pai, mas acaba por perder a liberdade própria da sua condição: imagem do pecador que perde a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rom 8, 21; Gal 4, 31; 5, 13) e se sujeita à tirania do demónio, das paixões. 17 “Então, caindo em si…” A degradação a que a loucura do seu pecado o tinha levado fê-lo reflectir (é o começo da conversão) e enveredar pela única saída digna e válida. 18-19 “Vou-me embora”: A tradução latina (surgam) do particípio gráfico (mas não ocioso) do original grego – “levantar-me-ei” – é muito mais expressiva, pois, duma forma viva, indica a atitude de quem começa a erguer-se da sua profunda miséria. “Pequei contra o Céu e contra ti”: nesta expressão retrata-se a dimensão transcendente do pecado; não é uma simples ofensa a um homem, é ofender a Deus, uma ofensa de algum modo infinita! O filho não busca desculpas, reconhece sinceramente a enormidade da sua culpa. “Trata-me como um dos teus trabalhadores”. É maravilhoso considerar como naquele filho arrependido começa a brotar o amar ao pai; o que ele ambiciona é ir para junto do pai, estar junto a ele é o que o pode fazer feliz! Melhorar a sua situação material não é o que mais o preocupa, pois, para isso, qualquer proprietário da sua pátria o podia admitir como jornaleiro. Por outro lado, não se atreve a pedir ao pai que o admita no gozo da sua antiga condição de filho, porque reconhece a sua indignidade: “já não mereço ser chamado teu filho”. 20 “Ainda ele estava longe, quanto o pai o viu”. Este pormenor faz pensar que o pai não só desejava ansiosamente o regresso do filho, mas também, muitas vezes, observava ao longe os caminhos, impaciente de ver o filho chegar quanto antes, uma enternecedora imagem de como Deus aguarda a conversão do pecador. “Encheu-se de compaixão”: o verbo grego é muito expressivo e difícil de traduzir com toda a sua força, esplankhnístê: “comoveram-se-lhe as entranhas” (tà splánkhna ). “E correu…”: é impressionante o contraste entre o pai que corre para o filho e o filho que simplesmente caminha para o pai – “a misericórdia corre” (comenta Sto. Agostinho); “cobrindo-o de beijos”, numa boa tradução que tem em conta a forma iterativa do verbo grego, é uma belíssima e expressiva imagem do amor de Deus para com um pecador arrependido! 21 “Pai, pequei”. Apesar de se ver assim recebido pelo pai, o filho não se escusa de confessar o seu pecado e de manifestar a atitude interior que o move a regressar. 22 “A melhor túnica, o anel, o calçado”, são uma imagem da graça, o traje nupcial (cf. Mt 22, 11-13); assim nos espera o Senhor no Sacramento da Reconciliação, não para nos ralhar, recriminar, mas para nos admitir na sua antiga intimidade, restituindo-nos, cheio de misericórdia, a graça perdida. 23 “Comamos e festejemos”, a imagem da Sagrada Eucaristia, segundo um sentido espiritual corrente. 25-32 “O filho mais velho”: esta segunda parte da parábola não se pode limitar a uma censura dos fariseus e escribas (v. 2), cumpridores, mas insensíveis ao amor – o mais velho é que é, no fim de contas, o filho mau –; a parábola é também uma lição para todos, a fim de que imitem a misericórdia de Deus para com um irmão que pecou (cf. Lc 6, 36); ele é sempre “o teu irmão” (v. 33), e não há direito de que não se tome a sério a misericórdia de Deus, com aquela despeitada ironia: “esse teu filho” (v 30). A misericórdia de Deus é tão grande, que ultrapassa uma lógica meramente humana; esta segunda parte da parábola põe em evidência a misericórdia de Deus a partir do contraste com a mesquinhez do filho mais velho.
1ª leitura Amós 8, 4-7
4Escutai bem, vós que espezinhais o pobre e quereis eliminar os humildes da terra. 5Vós dizeis: «Quando passará a lua nova, para podermos vender o nosso grão? Quando chegará o fim de sábado, para podermos abrir os celeiros de trigo? Faremos a medida mais pequena, aumentaremos o preço, arranjaremos balanças falsas. 6Compraremos os necessitados por dinheiro e os indigentes por um par de sandálias. Venderemos até as cascas do nosso trigo». 7Mas o Senhor jurou pela glória de Jacob: «Nunca esquecerei nenhuma das suas obras».
O profeta Amós pregava no Reino do Norte nos tempos de Jerobão II, no séc. VIII a. C. Não cessava de fustigar todos os vícios dum povo esquecido de Deus, dado às vaidades e à exploração dos mais fracos, muitas vezes através da fraude e do abuso do poder. 5 “Quando passará a lua nova?”. No calendário, a lua nova marcava o primeiro dia do mês que era dia de festa, um dia de descanso em que não se podiam, portanto, fazer negócios, como em dia de sábado. A avareza e a exploração do pobre está bem escalpelizada e continua a ter grande actualidade.
2ª leitura 1 Timóteo 2, 1-8
Caríssimo: 1Recomendo, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e acções de graças por todos os homens, pelos reis 2e por todas as autoridades, para que possamos levar uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade. 3Isto é bom e agradável aos olhos de Deus, nosso Salvador; 4Ele quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. 5Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, 6que Se entregou à morte pela redenção de todos. 7Tal é o testemunho que foi dado a seu tempo e do qual fui constituído arauto e apóstolo – digo a verdade, não minto – mestre dos gentios na fé e na verdade.8Quero, portanto, que os homens rezem em toda a parte, erguendo para o Céu as mãos santas, sem ira nem contenda.
Continuamos com a 1ª Carta a Timóteo; depois das advertências iniciais sobre a verdadeira doutrina (cap. 1º), detém-se a dar orientações sobre a oração, no capírulo 2º, de que hoje lemos o início. 1 “Que se façam preces”. É uma verdade de fé que Deus “quer que todos os homens se salvem”, mas, apesar de tudo, não se salvarão sem oração. Podemos ajudar os outros a salvarem-se com a nossa oração, com a qual já Deus conta nos planos da sua Providência. A oração obtém graças que ajudam a nossa liberdade a corresponder livremente aos desígnios divinos, pois ainda que Deus nos queira salvar a todos, não nos quer salvar sem a nossa livre colaboração. A oração de súplica não é para converter Deus, mas para nos convertermos a Ele (Santo Agostinho), para nos dispormos a receber os dons que tem para nos dar. 5 “Um só Mediador...” Deus, sendo único, é Deus para todos e não apenas para uma nação (como os falsos deuses). Ele salva-nos pela mediação de Jesus Cristo, o qual, por ser Deus e Homem, é Mediador apto e eficaz, podendo unir os homens inimigos pelo pecado com Deus, oferecendo a sua vida como redenção. Esta mediação exerce-se através da sua Humanidade. Esta mediação é única, embora participem misteriosamente dela, de modo subordinado, os Santos e especialmente a Virgem Maria.
Evangelho Forma longa: São Lucas 16, 1-13; forma breve: São Lucas 16, 10-13 Naquele tempo, 1disse Jesus aos seus discípulos: [«Um homem rico tinha um administrador que foi denunciado por andar a desperdiçar os seus bens. 2Mandou chamá-lo e disse-lhe: ‘Que é isto que ouço dizer de ti? Presta contas da tua administração, porque já não podes continuar a administrar’. 3O administrador disse consigo: ‘Que hei-de fazer, agora que o meu senhor me vai tirar a administração? Para cavar não tenho força, de mendigar tenho vergonha. 4Já sei o que hei-de fazer, para que, ao ser despedido da administração, alguém me receba em sua casa’. 5Mandou chamar um por um os devedores do seu senhor e disse ao primeiro: ‘Quanto deves ao meu senhor?’. 6Ele respondeu: ‘Cem talhas de azeite’. O administrador disse-lhe: ‘Toma a tua conta: senta-te depressa e escreve cinquenta’. 7A seguir disse a outro: ‘E tu quanto deves?’ Ele respondeu: ‘Cem medidas de trigo’. Disse-lhe o administrador: ‘Toma a tua conta e escreve oitenta’. 8E o senhor elogiou o administrador desonesto, por ter procedido com esperteza. De facto, os filhos deste mundo são mais espertos do que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes. Ora 9Eu digo-vos: Arranjai amigos com o vil dinheiro, para que, quando este vier a faltar, eles vos recebam nas moradas eternas.»] 10«Quem é fiel nas coisas pequenas também é fiel nas grandes; e quem é injusto nas coisas pequenas, também é injusto nas grandes. 11Se não fostes fiéis no que se refere ao vil dinheiro, quem vos confiará o verdadeiro bem? 12E se não fostes fiéis no bem alheio, quem vos entregará o que é vosso? 13Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque, ou não gosta de um deles e estima o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro».
Esta é mais uma parábola que, para a nossa maneira de pensar, é desconcertante. Temos de ter em conta que se trata do género literário de parábola, em que os diversos elementos que nela entram não têm qualquer valor alegórico, mas são meros elementos de encenação dum ensinamento central, que se quer veicular. Está fora de dúvida que Jesus dá por sabido que a atitude do administrador é profundamente imoral, mas quer simplesmente que nos fixemos na habilidade e engenho que devemos pôr em chegar ao Reino dos Céus. O mesmo problema põe-se relativamente à parábola do próximo domingo, a do rico e do pobre Lázaro. 6 “Cem talhas”. A medida de capacidade aqui referida é o bat, correspondente a 36,4 litros. 7 “Cem medidas”. Trata-se da medida chamada Kor que equivalia a 10 bat. 8 “O senhor elogiou o administrador”, não pela sua desonestidade, mas pela sua esperteza. A Neovulgata considera que aqui o senhor é o proprietário, (como o nosso texto, pois utilizam minúscula), mas há autores que pensam que é Jesus, um pormenor que em nada altera o ensinamento. Jesus quer que no que diz respeito ao Reino de Deus recorramos a todos os meios humanos honestos, mas não aprova os desonestos, pois um fim bom nunca justifica o recurso a meios maus, segundo o princípio da Ética: “o fim não justifica os meios” (cf. Rom 2, 8); a Ética cristã não é pragmática. “Os filhos deste mundo”, um hebraísmo (o genitivo de qualidade) com que se designam os mundanos; os filhos da luz, isto é, os iluminados pela luz que vem de Deus, por Jesus Cristo (cf. Jo 1, 9), isto é, os cristãos. 9 “Arranjai amigos... eles vos recebam nas moradas eternas”. Usando bem as riquezas, concretamente para ajudar o próximo, conseguir-se-ão amigos que nos ajudarão a ser recebidos no Céu – “nas moradas eternas”. “Amigos” também podia ser uma forma de designar a Deus, evitando pronunciar o seu nome inefável. “Com o vil dinheiro”, à letra “com a mamona da injustiça”; mamona é um termo aramaico, que o Evangelista não traduziu para grego, e que significa: dinheiro, lucro, riquezas. As riquezas dizem-se injustas – “vil dinheiro” –, porque muitas vezes são adquiridas injustamente e degradam o homem. 10-12 Há um certo paralelismo nestas sentenças do Senhor, o que deixa ver que aqui “coisas pequenas” (v. 10) são as riquezas, o “vil dinheiro” (v. 11), o bem alheio (v. 12), que, por maiores que sejam, são perecíveis e quase nada, em comparação com os bens espirituais e eternos, que são “o verdadeiro bem” (v. 11) e “o que é vosso” (v. 12), isto é, o que autenticamente é nosso porque está de acordo com o nosso ser espiritual e nos acompanhará eternamente. 13 “Nenhum servo pode servir dois senhores”. Um escravo ou criado não tinha horário de trabalho e tinha de estar totalmente dedicado a servir o seu senhor, sem lhe restar a mínima possibilidade de atender outro patrão. Deus também exige de nós que todos os nossos pensamentos, palavras e acções sejam todos e sempre orientados para O amarmos e servirmos. Não temos uma vida para servir a Deus e outra para cuidar das coisas materiais; de tudo havemos de fazer um serviço a Deus e ao próximo, por amor a Deus. Os bens e os cuidados deste mundo tendem a converter-se num fim último, em ídolos, escravizantes sucedâneos de Deus.
Arcanjos S. Miguel, S. Gabriel e S. Rafael
1ª leitura Daniel 7, 9-10.13-14
9Estava eu a olhar, quando foram colocados tronos e um Ancião sentou-se. As suas vestes eram brancas como a neve e os cabelos como a lã pura. O seu trono eram chamas de fogo, com rodas de lume vivo. 10Um rio de fogo corria, irrompendo diante dele. Milhares de milhares o serviam e miríades de miríades o assistiam. O tribunal abriu a sessão e os livros foram abertos. 13Contemplava eu as visões da noite, quando, sobre as nuvens do céu, veio alguém semelhante a um filho do homem. Dirigiu-Se para o Ancião venerável e conduziram-no à sua presença. 14Foi-lhe entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos e nações O serviram. O seu poder é eterno, que nunca passará, e o seu reino jamais será destruído.
Ver notas em Festa da Transfiguração do Senhor.
2ª Leitura Apocalipse 12, 7-12a
7Travou-se um combate no Céu: Miguel e os seus Anjos lutaram contra o Dragão. O Dragão e os seus anjos lutaram também, 8mas foram derrotados e perderam o seu lugar no Céu para sempre. 9Foi expulso o enorme Dragão, a antiga serpente, aquele que chamam Diabo e Satanás, que seduz o universo inteiro foi precipitado sobre a terra e os seus anjos foram precipitados com ele. 10Depois ouvi no Céu uma voz poderosa que dizia: «Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e a autoridade do seu Ungido, porque foi precipitado o acusador dos nossos irmãos, aquele que os acusava dia e noite diante do nosso Deus. 11Eles venceram-no, graças ao sangue do Cordeiro e à palavra do testemunho que deram, desprezando a própria vida, até aceitarem a morte. 12Por isso, alegrai-vos, ó Céus, e vós que neles habitais».
7 Houve um combate. É difícil determinar a que combate concreto se refere o texto sagrado. Não parece tratar-se aqui da rebelião dos Anjos maus no momento da sua criação (cf. Mt 25, 41; 2 Pe 2, 4), como alguns pensam, uma vez que o contexto nos situa nos tempos cristãos. Assim, prefere-se ver a luta tremenda desencadeada pelo demónio contra Cristo e os fiéis (os “nossos irmãos” - v. 10), a partir sobretudo da Morte, Ressurreição e Ascensão de Jesus (cf. v. 5b). “Miguel” - em hebraico Mi-kha-el - quer dizer “quem como Deus?”. Era o protector do antigo povo de Deus (Dan 10, 13.21), e que aparece agora como patrono e defensor da Igreja, o novo povo de Deus. “O Dragão”. É identificado no v. 9, com a “antiga serpente” que tentou os primeiros pais, por isso se chama antiga; é “aquele que chamam Diabo e Satanás”. Diabo é um nome grego correspondente ao hebraico - Xatan (aramaico - xataná), que significa caluniador, acusador, adversário.
Evangelho São João 1, 47-51
Naquele tempo, 47Jesus viu Natanael, que vinha ao seu encontro, e disse: «Eis um verdadeiro israelita, em quem não há fingimento». 48Perguntou-lhe Natanael: «De onde me conheces?». Jesus respondeu-lhe: «Antes que Filipe te chamasse, Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira». 49-lhe Natanael: «Mestre, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel!». 50Jesus respondeu: «Porque te disse: ‘Eu vi-te debaixo da figueira’, acreditas. Verás coisas maiores do que estas». E acrescentou: 51«Em verdade, em verdade vos digo: Vereis o Céu aberto e os Anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem».
Filipe não tinha guardado para si a grande alegria de ter tido a dita de encontrar o Messias anunciado pelos Profetas, mas comunicara-a a seu amigo Natanael, que se mostrou incrédulo em face da procedência humilde de Jesus, filho dum carpinteiro de Nazaré, quando o Messias devia ser descendente de David e procedente de Belém. Filipe não se desmoraliza com as razoáveis objecções do amigo e também não confia nas explicações que o seu próprio engenho poderia excogitar; opta por convidar o amigo a aproximar-se pessoalmente de Jesus: “vem e verás” (v. 46). 47 “Natanael”. Nome semítico que significa “dom de Deus”. Deveu ser um dos Doze Apóstolos (cf. Jo 21, 2); mas qual deles? Muito provavelmente era Bartolomeu, o qual teria dois nomes, sendo este último um nome patronímico (filho de Tolmay), como o patronímico de Simão Pedro, Baryona (filho de Jonas). Esta identificação é deduzida dos diversos catálogos dos Apóstolos que nos deixaram os Sinópticos, onde Bartolomeu sempre se segue a Filipe, aquele Apóstolo que levou Natanael a Jesus (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 14). 48 “Eu vi-te, debaixo da figueira”. Natanael sentiu que o olhar de Jesus penetrava os mais profundos recônditos da sua alma, pois algo de significativo devia ter passado no seu coração naquela hora e naquele local exacto a que Jesus se referia, e que só Deus podia conhecer. 49 “Tu é o Filho de Deus… Rei de Israel” - títulos messiânicos procedentes do Salmo 2. A intencionalidade do Evangelista (cf. 20, 31) evidencia-se ao apresentar, desde a primeira hora, confissões explícitas de fé em Jesus (cf. Mt 14, 33; 16, 16). 51 “Os Anjos de Deus subindo e descendo…” Trata-se duma forma muito expressiva de Jesus aparecer como Mediador entre o Céu e a terra, ficando assim os Céus abertos para a humanidade (Is 63, 19; Apoc 19, 11; Mt 3, 16 par.), numa clara alusão à escada de Jacob, pela qual subiam e desciam os Anjos na visão de Jacob (Gn 28,12). É por isso que adoptámos, na Bíblia da Difusora Bíblica, a tradução “por meio do Filho do Homem”, em vez da tradução corrente “sobre o Filho do Homem”, tendo em conta que aqui aparece a mesma preposição (epí) que no texto grego do sonho de Jacob, com o sentido de subir por.
1ª leitura Amós 6, 1a.4-7
Eis o que diz o Senhor omnipotente: 1a«Ai daqueles que vivem comodamente em Sião e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria. 4Deitados em leitos de marfim, estendidos nos seus divãs, comem os cordeiros do rebanho e os vitelos do estábulo. 5Improvisam ao som da lira e cantam como David as suas próprias melodias. 6Bebem o vinho em grandes taças e perfumam-se com finos unguentos, mas não os aflige a ruína de José. 7Por isso, agora partirão para o exílio à frente dos deportados e acabará esse bando de voluptuosos».
A leitura, que é uma censura do profeta do século VIII à vida opulenta e fácil, frequentemente à custa da miséria do próximo, foi escolhida em função do Evangelho de hoje. 6 “A ruína de José”. O profeta pode referir-se tanto à miséria física de tantos compatriotas, como à corrupção moral que alastrava no Reino do Norte. Aqui é dado o nome de José ao Reino do Norte, em vez do nome de Efraim, corrente nos profetas, a tribo mais importante, pelo facto de Efraim ser filho de José, filho de Jacob, que não deu o seu nome a nenhuma tribo (Manassés e Efraim era filhos de José, que deram o seu nome às respectivas tribos).
2ª leitura 1 Timóteo 6, 11-16
Caríssimo: 11Tu, homem de Deus, pratica a justiça e a piedade, a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão. 12Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e sobre a qual fizeste tão bela profissão de fé perante numerosas testemunhas. 13Ordeno-te na presença de Deus, que dá a vida a todas as coisas, e de Cristo Jesus, que deu testemunho da verdade diante de Pôncio Pilatos: 14Guarda este mandamento sem mancha e acima de toda a censura, até à aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo, 15a qual manifestará a seu tempo o venturoso e único soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores, 16o único que possui a imortalidade e habita uma luz inacessível, que nenhum homem viu nem pode ver. A Ele a honra e o poder eterno. Amen.
Temos apenas três domingos com trechos da 1ª Carta a Timóteo, de que hoje se lêm apenas 6 versículos do último capítulo. 12 “Combate o bom combate da fé”. Muitas vezes S. Paulo compara a vida cristã a uma luta desportiva ou mesmo guerreira, uma vez que sem esforço aturado não se pode permanecer fiel a Cristo (cf. Cor 9, 24-27; Col 1, 29; 2 Tim 4, 7). “Fizeste tão bela profissão de fé…”, no momento do Baptismo, ou, talvez como pensam alguns, antes da sua Ordenação; também poderia tratar-se simplesmente de um testemunho corajoso perante as autoridades pagãs. 15-16 É mais uma doxologia de sabor litúrgico (ver outras nesta carta: 1, 17; 3, 16), uma espécie de jaculatória de louvor a Deus, um desabafo duma alma enamorada de Deus Uno e Trino, que frequentemente S. Paulo deixou passar para os seus escritos.
Evangelho São Lucas 16, 19-31
Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus: 19«Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias. 20Um pobre, chamado Lázaro, jazia junto do seu portão, coberto de chagas. 21Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas. 22Ora sucedeu que o pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. 23Na mansão dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado. 24Então ergueu a voz e disse: ‘Pai Abraão, tem compaixão de mim. Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas’. 25Abraão respondeu-lhe: ‘Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida e Lázaro apenas os males. Por isso, agora ele encontra-se aqui consolado, enquanto tu és atormentado. 26Além disso, há entre nós e vós um grande abismo, de modo que se alguém quisesse passar daqui para junto de vós, ou daí para junto de nós, não poderia fazê-lo’. 27O rico insistiu: ‘Então peço-te, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho cinco irmãos – 28para que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento’. 29Disse-lhe Abraão: ‘Eles têm Moisés e os Profetas: que os oiçam’. 30Mas ele insistiu: ‘Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles, arrepender-se-ão’. 31Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas, mesmo que alguém ressuscite dos mortos, não se convencerão’.
A parábola de hoje é contada só por S. Lucas, o evangelista mais preocupado com os pobres e os desvalidos. 20 “Um pobre chamado Lázaro”. Em hebraico, Eliázar significa “Deus ajuda”. O facto de que é dado um nome ao pobre fez pensar a alguns Padres que não se trata duma parábola, mas dum exemplo com um fundo histórico. De qualquer modo, não é provável que Jesus se tenha servido dum conto egípcio, como alguém supôs, acrescentando-lhe os vv. 27-31. 21 “Os cães vinham lamber-lhe as chagas”, um pormenor que põe em evidência a extrema miséria do pobre, pois não era para lhe servir de alívio, mas de humilhação, já que os judeus os consideravam animais impuros e por isso não os costumavam domesticar. 22-23 Segundo as teorias farisaicas da retribuição, na situação até aqui descrita, nada havia de censurável, uma vez que nesta vida cada um tem já a sorte que merece: o justo, a abundância e o bem-estar; o pecador, a miséria e o sofrimento. Com esta “parábola” Jesus pretende desfazer de vez esse equívoco corrente e ensinar a remuneração na outra vida, negada pelos saduceus. Não era que nos livros do Antigo Testamento ainda não houvesse referências suficientemente claras à outra vida, mas uma concepção demasiado imediata, utilitarista e mesmo materialista da vida por parte dos judeus levava-os a não dar a devida atenção ao que Deus já tinha revelado para o entenderem e traduzirem na vida. Aqui Jesus dá uma machadada definitiva nas falsas ideias farisaicas acerca da retribuição. A morte é o momento em que chega a hora da verdade: “o pobre morreu…, o rico morreu…” (v. 22) e a situação de cada um mudou também; o pobre “foi colocado ao lado de Abraão” (à letra, foi para o seio de Abraão), para um lugar ou estado de descanso e alegria onde estavam as almas dos justos. O rico foi metido “em tormentos”, noutra zona da “mansão dos mortos” (o hádes em grego, o xeol em hebraico, em latim inferi/infernos). Não se pense que falta à parábola qualquer motivação ética; com efeito, o pobre é agora feliz não porque antes sofreu, e o rico sofre não porque antes gozou. O rico sofre porque não fez caso do pobre, por ser dos que serviam ao dinheiro (cf. v. 13), e, por isso mesmo, não podia servir a Deus nem fazer bem ao próximo. Por outro lado, o pobre, ao ser uma figura posta em contraste, além de desgraçado seria também piedoso. Não se dá, pois, aqui uma simples inversão de papéis, mas uma verdadeira retribuição de carácter perpétuo (cf. v. 26): um abismo impede de passar de um lado para o outro. E, segundo a profunda observação de S. Gregório Magno, «não foi a pobreza que levou Lázaro ao Céu, mas a humildade; e também não foram as riquezas que impediram o rico de entrar no grande descanso, mas o seu egoísmo e infidelidade» (Hom. sobre S. Lc 40, 2). 24-31 É importante ter em conta que o diálogo entre o rico e Abraão não pode ser tomado à letra, não passa duma encenação para dar vigor ao ensino central da parábola; com efeito, os condenados não se podem mostrar arrependidos nem zelosos da salvação dos vivos, mesmo até dos seus familiares, pois carecem da virtude da caridade. Pela mesma razão, também não é válido refutar o espiritismo com os dados desta parábola, como por vezes se faz. As parábolas, enquanto tais, visam um ensinamento concreto e particular, embora nalgumas se tenha vindo a dar, mesmo já na tradição prévia à sua redacção nos Evangelhos canónicos, um valor alegórico a alguns elementos secundários, conforme põem em relevo muitos estudos científicos da actualidade sobre as parábolas de Jesus. 31 Moisés e os Profetas, isto é, os ensinamentos do Antigo Testamento. Para quem não quer obstinadamente crer, os milagres não valem nada, já que Deus respeita a nossa liberdade; esta é também uma lição da parábola.
1ª leitura Êxodo 23, 20-23a
20Eis o que diz o Senhor: «Vou enviar um Anjo à tua frente, para que te proteja no caminho e te conduza ao lugar que preparei para ti. 21Respeita a sua presença e escuta a sua voz não lhe desobedeças. Ele não perdoaria as vossas transgressões, porque fala em meu nome. 22Mas, se ouvires a sua voz e fizeres tudo o que Eu te disser, serei inimigo dos teus inimigos e perseguirei os que te perseguirem. 23aO meu Anjo irá à tua frente».
Esta leitura é tirada do texto do Êxodo, da parte que se segue ao “Código da Aliança”, e com que se introduzem disposições relativas à entrada na Palestina. Nestes versículos, Deus garante ao seu povo uma protecção especial, que lhe permita entrar na posse da terra prometida. Daí a actualização que a Igreja faz deste texto, aplicando-o ao novo Povo de Deus, a Igreja, que é guiada e assistida pelos Anjos da Guarda, a caminho do Céu. Lembramos que, quando no Antigo Testamento se fala do “anjo do Senhor”, habitualmente designa-se a presença do próprio Deus ou uma sua directa intervenção (cf. Gn 16, 7; 22, 11.14; Ex 3, 2; 14, 19; etc.); mas, quando se fala de “o meu anjo”, ou simplesmente de “o anjo” (cf. Ex 33, 2; Nm 20, 16), parece que se refere a seres espirituais distintos de Deus, os anjos. Que estes existem é uma verdade que está clara no Novo Testamento (cf. Revista de Cultura Bíblica, nº 73/74, Ed. Loyola, São Paulo 1995) e pertence à fé da Igreja (cf. Catecismo da Igreja Católica, nº 334-336).
Evangelho São Mateus 18, 1-5. 10
1Naquele tempo, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-Lhe: «Quem é o maior no reino dos Céus?». 2Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles 3e disse-lhes: «Em verdade vos digo: Se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, não entrareis no reino dos Céus. 4Quem for humilde como esta criança esse será o maior no reino dos Céus. 5E quem acolher em meu nome uma criança como esta acolhe-Me a Mim. 10Vede bem. Não desprezeis um só destes pequeninos. Eu vos digo que os seus Anjos vêem continuamente o rosto de meu Pai que está nos Céus».
10 “Os seus Anjos”, isto é, os Anjos da Guarda das crianças. O contexto desta afirmação é o da importância que na Igreja se deve dar aos “pequeninos” (vv. 6.14), isto é, àqueles que são mais necessitados de auxílio, quer pela sua pouca idade, quer pela pouca formação, ou recente conversão; é preciso ter um cuidado especial para não os escandalizar. O próprio Deus toma esses pequeninos ao seu cuidado, confiando-os a um Anjo protector; e esse mesmo Anjo se encarregará também de acusar diante do “Pai que está nos Céus”, cujo “rosto vêem continuamente”, todos aqueles que os levem a pecar. Mas não são apenas os pequeninos, são todos os seres humanos que têm o seu Anjo da Guarda (cf. Hebr 1, 14; Lc 16, 22; Catecismo da Igreja Católica, nº 336).
1ª leitura Isaías 9, 1-6
1O povo que andava nas trevas viu uma grande luz para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar. 2Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. 3Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor. 4Todo o calçado ruidoso da guerra e toda a veste manchada de sangue serão lançados ao fogo e tornar-se-ão pasto das chamas. 5Porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado «Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz». 6O seu poder será engrandecido numa paz sem fim, sobre o trono de David e sobre o seu reino, para o estabelecer e consolidar por meio do direito e da justiça, agora e para sempre. Assim o fará o Senhor do Universo.
Este belíssimo texto é um trecho do chamado livro do Emanuel (Is 7 – 12), onde, em face da iminência de várias guerras, se abrem horizontes de esperança que se projectam em tempos vindouros, muito para além das soluções empíricas e imediatas: é a utopia messiânica de paz e alegria que veio a ter o seu pleno cumprimento com a vinda de Cristo ao mundo. 2 “Uma luz começou a brilhar”. Esta luz é o “menino” (v. 5) que nasce para nós na noite de Natal, “a luz do mundo” (cf. Jo 8, 12; 1, 5.9). 4 “Como no dia de Madiã”. Referência à grande vitória de Gedeão sobre os madianitas, que se conta no livro dos Juízes, cap. 7. 7 O “poder” e a “paz sem fim” serão garantidos para o trono de David pelo Menino de predicados divinos verdadeiramente surpreendentes (v. 5) que, embora em termos semelhantes aos dos soberanos egípcios e assírios, suplantam os predicados de qualquer rei empírico, e correspondem ao mistério de Jesus, Deus feito homem.
Evangelho Lucas 1, 26-38
Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”. 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”. 34Maria disse ao Anjo: “Como será isto, se eu não conheço homem?”. 35O Anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível”. 38Maria disse então: “Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra”.
A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma singular densidade, pois encerra o mistério mais assombroso da História da Salvação, a Incarnação do Filho eterno de Deus. Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria! 26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus». 28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita: «Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo do grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9). Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica. «O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele. Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita es tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo. 29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18). 32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14). 34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio. 35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»). «O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7). 38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma. «Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus.
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