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"et quasi flos rosarum in diebus vernis" (Sir. 50,8) 

 

 

 

CELEBRAÇÃO - ANO C

1.º Dom  Advento a 8.ºDom Comum

Quarta-feira de Cinzas a  Páscoa

2.º Dom da Páscoaa Dom de Pentecostes

Santíssima Trindade a 17º Dom Comum  

Transfiguração do Senhor a 26.º Dom Comum

27.º Dom Comum a Cristo, Rei

 

Notas Bíblicas – Geraldo Morujão - Quarta-feira de Cinzas a Páscoa

 

Quarta-feira de Cinzas

Joel 2, 12-18

2 Coríntios 5, 20 – 6, 2

São Mateus 6, 1-6.16-18

 

1º Domingo da Quaresma

Deuteronómio 26, 4-10

Romanos 10, 8-13

São Lucas 4, 1-13
 

2.º Domingo da Quaresma

Génesis 15, 5-12.17-18

Filipenses 3, 17 – 4,1    

São Lucas 9, 28b-36

 

3.º Domingo da Quaresma

Êxodo 3, 1-8a.13-151 Coríntios 10, 1-6.10-12

São Lucas 13, 1-9

 

Anunciação do Senhor

Isaías 7, 10-14 8, 10

Hebreus 10, 4-10

Lucas 1, 26-38

 

4.º Domingo da Quaresma

Josué 5, 9a.10-122 Coríntios 5, 17-21

São Lucas 15, 1-3.11-32

 

5.º Domingo da Quaresma

Isaías 43, 16-21

Filipenses 3, 8-14

São João 8, 1-11

 

Domingo de Ramos

Procissão

São Lucas 19, 28-40

 

Missa

Isaías 50, 4-7

Filipenses 2, 6-11

São Lucas 22, 14 – 23, 56

 

Quinta Feira Santa

Êxodo 12, 1-8.11-14

1 Coríntios 11, 23-26

São João 13, 1-15

 

Sexta-Feira Santa (Celebração da Paixão do Senhor)

Isaías 52, 13-15 – 53, 1-12

Hebreus 4, 14-16; 5, 7-9

São João 18, 1-40; 19, 1-42

 

Páscoa da Ressurreição do Senhor - Missa da Vigília

Romanos 6, 3-11

São Lucas 24, 1-12

 

Páscoa da Ressurreição do Senhor (Missa do Dia)

Actos dos Apóstolos 10, 34a.37-43

Colossenses 3, 1-4  (de manhã)

1 Coríntios 5, 6b-8  (de tarde)

São João 20, 1-9   (de manhã) São Lucas 24, 13-35   (de tarde)

Algumas reflexões sobre o valor dos testemunhos acerca da Ressurreição de Jesus

 

S. José, esposo da Virgem Maria

2 Samuel  7, 4-5a.12-14a.16

Romanos 4, 13.16-18.22

São Mateus 1, 16.18-21.24a

Evangelho alternativo São Lucas 2, 41-51a

 

in Celebração Litúrgica

Quarta-feira de Cinzas

 

1ª Leitura Joel 2, 12-18

 

12Diz agora o Senhor: “Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. 13Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete. 14Quem sabe se Ele não vai reconsiderar e desistir deles, deixando atrás de Si uma bênção, para oferenda e libação ao Senhor, vosso Deus? 15Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. 16Reuni o povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças. Saia o esposo do seu aposento e a esposa do seu tálamo. 17Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: ‘Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo e não entregueis a vossa herança à ignomínia e ao escárnio das nações. Porque diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?’”. 18O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo.

 

Começa a Quaresma com um forte apelo à conversão e com a esperança no perdão do Senhor, extraído do final da primeira parte do livro do profeta Joel (1, 2 – 2, 17). Num estilo solene e apocalíptico, fala de uma invasão de gafanhotos medonhos, mas sem ficar claro se fala em sentido próprio ou figurado. Se a obra é anterior ao exílio de Babilónia, aludiria a invasões de exércitos inimigos; se é posterior, tratar-se ia de alguma praga agrícola. Joel não se detém a denunciar os pecados concretos do povo, como é costume dos grandes profetas. Diante da horrível calamidade  apresentada como castigo divino, o profeta apela para uma sincera conversão, a começar pela dos sacerdotes (1, 13).

12-13 “Convertei-vos a Mim de todo o coração”. Não basta uma manifestação exterior de dor (rasgar as vestes – v. 13 – era um típico gesto de grande dor ou indignação, entre os judeus: rasgavam violentamente a túnica exterior, do pescoço até à cintura, cf. Gn 37, 29; Mt 26, 65). O coração não significa, na linguagem bíblica, apenas a afectividade. mas toda a interioridade do homem, todas as suas virtualidades, a sua inteligência e a sua vontade. Deus também nos convida a nós, mais fortemente neste tempo da Quaresma, a voltarmo-nos para Ele de todo o coração, isto é, com todas as veras da nossa alma e a rasgar o nosso coração, a dilacerá-lo pela contrição que é essa profunda mágoa de ter ofendido ao Senhor infinitamente bom. Mas esta dor não é dor angustiante e desesperada, porque é cheia de esperança no perdão, pois Ele “é clemente e compassivo, paciente e misericordioso”. A Vulgata e a Neovulgata têm “benignus et misericors est, patiens et multæ misericordiæ”. “Compassivo”, isto é, dotado de piedade e ternura, de compreensão e disposição para perdoar: o termo hebraico “rahum” é derivado de “réhem”(ventre materno), o que sugere que Deus tem entranhas de mãe, sentimentos e coração de mãe para connosco; assim, o seu amor não acaba quando nos portamos mal com Ele; então tem pena de nós, compreende e facilita a reconciliação. Por seu lado, a expressão “misericordioso” à letra, “de muita misericórdia” deixa ver que  a misericórdia do Senhor (“hésed”) não é uma bondade qualquer, é a bondade de Quem se mantém fiel a Si próprio (cf. Ez 36, 22); daqui a frequente hendíadis da S. E.: “amor e fidelidade” (“hésed v-émet”). Este atributo divino tem na sua origem bíblica um matiz jurídico: a fidelidade de Deus à Aliança; uma fidelidade tal que, após o pecado, se mantém, embora já não dentro do mero âmbito legal dum pacto bilateral. Com efeito, mesmo quando o homem rompe a Aliança, Deus continua a manter-se Fiel a Si próprio, ao seu amor gratuito, ao seu dom inicial (cf. Rom 11, 29). O amor de Deus é mais forte do que o nosso desamor, as nossas traições e pecados: “jamais algum pecado do mundo poderá superar este Amor” (João Paulo II em Fátima: 13.05.82; cf. Enc. Dives in misericordia).

14 “Vai reconsiderar”. A expressão é um antropomorfismo com que se fala de Deus à maneira humana, mas de facto Deus não pode reconsiderar e mudar; se, em face da nossa penitência, Deus já não nos castiga e atende às nossas súplicas, a mudança apenas se dá em nós, não em Deus que, sempre tudo tem presente e tudo dispõe, contando com as nossas mudanças. O Profeta fala de Deus à maneira humana, ao dizer também que “Ele se encheu de zelo pela sua terra” (v. 18), em face do apelo feito ao brio do Senhor, numa súplica tão humilde como ousada da parte dos seus “ministros” (parce Domine, parce populo tuo: v. 17).

 

2ª leitura 2 Coríntios 5, 20 – 6, 2

20Irmãos: Nós somos embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. 21A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus. 6,1Como colaboradores de Deus, nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. 2Porque Ele diz: “No tempo favorável, Eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio”. Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação.

 

S. Paulo, ao fazer a sua defesa perante as acusações dos seus opositores em Corinto, exalta a grandeza do ministério apostólico de que está investido, um ministério de reconciliação com Deus alcançada pelo mistério da Morte e Ressurreição de Cristo (5, 14-15).

20 “Reconciliai-vos com Deus”. É este o insistente convite que a Igreja nos faz em nome de Deus, a mesma exortação que fazia S. Paulo, consciente de que “é Deus quem vos exorta por nosso intermédio” ; os Apóstolos, como os demais ministros de Cristo, são “embaixadores de Cristo” , não apenas “ao seu serviço” , mas actuando “em vez de Cristo e por autoridade de Cristo”; o próprio texto original grego parece dá-lo a entender com a preposição hyper  (em favor de), usada com o sentido da preposição antí  (em vez de: cf. Jo 11, 50; Gal 3, 13; etc.).

21 “Deus identificou-o com o pecado”, à letra, Deus fê-lo pecado , uma expressão extraordina­ria­mente forte e chocante. Note-se, no entanto, que não se diz que Deus O tenha feito pecador; o que se pretende significar é que Deus permitiu que Jesus viesse a sofrer o castigo que cabia ao pecado. Trata-se aqui duma identificação jurídica, não moral: Cristo tornando-Se a Cabeça e o Chefe duma raça pecadora, toma sobre os seus ombros a responsabilidade, não a de uns pecados alheios, mas a dos pecados da sua raça (a raça humana), para os expiar sofrendo a pena devida por eles (cf. Gal 3, 13). O texto torna-se menos duro, se entendemos que Cristo se fez pecado, no sentido de que se fez sacrifício pelo pecado; isto, que pode parecer uma escapatória para evitar a dificuldade de interpretação, tem um certo fundamento no substrato hebraico, pois a palavra ’axam tem este duplo sentido de “violação da justiça” e de “sacrifício de reparação pelo pecado”; com efeito, pelo sacrifício de Cristo tornamo-nos “justiça de Deus”, isto é, justos diante de Deus (note-se o jogo com os dois substantivos abstractos – pecado/justiça –, num evidente paralelismo antitético, tão do gosto paulino).

6, 2 “Este é o tempo favorável”. S. Paulo cita aqui Isaías 49, 8, em que se classifica assim o momento em que aprouve à misericórdia divina libertar os israelitas do cativeiro. O Apóstolo diz que “agora” é que é o tempo realmente favorável, o tempo em que Jesus Cristo nos redimiu do cativeiro do pecado (cf. Gal 4, 4-5). A expressão paulina é ainda mais expressiva e rica do que a da versão grega de Isaías (LXX): agora é que é o momento singularmente oportuno, em que apraz à misericórdia divina realizar a nossa salvação. Não há dúvida que a Liturgia pretende fazer uma acomodação deste texto ao tempo santo da Quaresma.

 

Evangelho São Mateus 6, 1-6.16-18

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1“Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. 2Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 5Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa”.

 

Os versículos da leitura são tirados do Sermão da Montanha de S. Mateus; por focarem práticas tipicamente judaicas, estes não têm paralelos nos outros evangelistas, que se dirigem a cristãos na sua maioria vindos dos gentios.

1 “As vossas boas obras” letra, a vossa justiça ), isto é, os actos tradicionais da boa piedade judaica, a esmola, a oração e o jejum. Jesus de modo algum os suprime ou diminui o seu valor, pelo facto de serem actos de piedade pessoal individual, mas exige que todos estes actos se façam sempre com rectidão de intenção, isto é, com uma sincera piedade, com o fim de agradar a Deus, e não por ostentação, ou para se receber o aplauso humano.

6 “Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto”. Segundo estas palavras de Jesus, desde crianças, fomos ensinados a rezar não apenas comunitariamente, mas também, a sós: “no teu quarto” . O Senhor ensina aqui a necessidade da oração individual (o que não quer dizer individualista). Deus chama os homens à salvação, fazendo-os entrar dentro do Povo de Deus, a sua Igreja, mas chama-os um a um ( nominatim: Jo 10, 3 ); daqui que são imprescindíveis tanto a oração púbica, que manifesta o carácter de família e povo que somos em Cristo, como a oração a sós, que manifesta a resposta pessoal e intransferível de cada um de nós ao seu Pai celeste. Por sua vez, Jesus não se limitou a pregar a necessidade da oração individual, pois Ele próprio deu este mesmo exemplo (cf. Mt 14, 23; Mc 1, 35; Lc 5, 16; 6, 12; 9, 18; 11, 1.28-29), que foi seguido pelos Apóstolos (cf. Act 10, 9-16). Também a experiência pessoal de todos os santos e dos que tomam a sério a fé cristã nos diz que é imprescindível este tipo de oração, que consiste em se recolher para, a sós, falar com Deus, frequentemente. A esta oração recolhida e íntima nos convida hoje o Senhor e a Liturgia nesta Quaresma, que agora começa.

 

1º Domingo da Quaresma

 

1ª Leitura Deuteronómio 26, 4-10

 

Moisés falou ao povo, dizendo: 4“O sacerdote receberá da tua mão as primícias dos frutos da terra e colocá-las-á diante do altar do Senhor teu Deus. 5E diante do Senhor teu Deus, dirás as seguintes palavras: ‘Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egipto com poucas pessoas, e aí viveu como estrangeiro até se tornar uma nação grande, forte e numerosa. 6Mas os egípcios maltrataram-nos, oprimiram-nos e sujeitaram-nos a dura escravidão. 7Então invocámos o Senhor Deus dos nossos pais e o Senhor ouviu a nossa voz, viu a nossa miséria, o nosso sofrimento e a opressão que nos dominava. O Senhor fez-nos sair do Egipto com mão poderosa e braço estendido, 8espalhando um grande terror e realizando sinais e prodígios. 9Conduziu-nos a este lugar e deu-nos esta terra, uma terra onde corre leite e mel. 10E agora venho trazer-Vos as primícias dos frutos da terra que me destes, Senhor’. Então colocarás diante do Senhor teu Deus as primícias dos frutos da terra e te prostrarás diante do Senhor teu Deus”.

 

A nossa leitura é tirada da parte final do chamado “Código Deuteronómico” (Dt 12 – 26) e contém a oração ritual a recitar no momento da oferta ao Santuário dos primeiros frutos da terra, as primícias. Esta oração contém o que Gerhard von Rad classificou de “Credo histórico”, isto é um resumo do núcleo da fé de Israel, que é fundamentalmente uma confissão de fé nas intervenções salvadoras de Yahwéh na história deste povo, centradas na libertação da escravidão do Egipto e na instalação em Canaã, a terra prometida. Podem ver-se outras profissões de fé semelhantes em: Dt 6, 20-24; Jos 24, 1-13; Ne 9, 6-37; Jr 32, 17-25; Salm 136 (135).

5 “Um arameu errante”. Trata-se de Jacob, que personifica a era dos patriarcas, assim chamado quer pelo facto de a migração de Abraão estar ligada com as movimentações de tribos de arameus na zona do Médio Oriente, mas também em razão de ter muitas relações de parentesco com a Mesopotâmia, onde vivia o seu tio Labão, o arameu (Gn 28,1-5), e onde passou longos anos em Aran com as suas mulheres (cf. Gn 29 – 30). Jacob, bem como Isaac e Abraão, levou uma vida semi-nómada, acabando por se estabelecer no Egipto “com uma família pouco numerosa”, isto é, um grupo de 70 pessoas (Gn 46, 26-27; cf. Ex 1, 1-5).

9-10 “Deu-nos esta terra… E agora…” O gesto de oferecer as primícias tem esse sentido de gratidão de quem quer corresponder a tanto amor de Deus com a oferta simbólica, os primeiros frutos da terra. Por outro lado, era uma confissão de fé em Jahwéh, o único que concede a fertilidade, e ao mesmo tempo era uma forma de abjurar os sedutores cultos idolátricos da fertilidade – tão característicos de Canaã – da deusa Astarté. A oração também põe em evidência o forte contraste entre o pobre arameu errante, sem leira nem beira, e o agricultor a desfrutar livremente duma terra ideal – onde corre leite e mel – dada por Deus.

 

2ª Leitura Romanos 10, 8-13

 

Irmãos: 8Que diz a Escritura? “A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração”. Esta é a palavra da fé que nós pregamos. 9Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo. 10Pois com o coração se acredita para obter a justiça e com a boca se professa a fé para alcançar a salvação. 11Na verdade, a Escritura diz: “Todo aquele que acreditar no Senhor não será confundido”. 12Não há diferença entre judeu e grego: todos têm o mesmo Senhor, rico para com todos os que O invocam. 13Portanto, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.

 

A citação do Deuteronómio com que começa o trecho desta leitura, refere-se à proximidade da revelação da salvação de Deus (cf. Dt 30, 12-14), ao dizer que não é preciso cruzar os mares nem subir às alturas para a encontrar. Para Israel ela estava encerrada na Thoráh; para os cristãos ela está patente na pregação apostólica da Igreja, e só nos resta aderir a ela interiormente e professá-la externamente. Mas S. Paulo vai mais longe, pois pretende mostrar que a salvação divina é uma realidade acessível a todos, sem distinção de raça ou nação, apenas se exige “crer” (e cita Is 28, 16) “e invocar o nome do Senhor” (cita Joel 3, 5), o Senhor, que é Jesus.

9 “Se confessares… que Jesus é o Senhor”, isto é, que Jesus é Deus. Senhor – Kyrios – é a tradução dos LXX para o nome divino de Yahwéh; daí que aplicar este nome a Jesus é fazer uma profissão de fé na sua divindade; este frequente procedimento do N. T. é chamado um deraxe  cristológico (uma actualização do A. T. para exprimir quem é Jesus, o mistério da sua pessoa). Note-se como, para ser salvo, se exige uma fé que não se reduz a uma mera confiança – fé fiducial – na obra salvadora de Jesus, pois implica crer naquilo que Ele é objectivamente: Ele salva pelo facto de que é Deus que vem, feito homem, para nos salvar. Doutra forma, a fé seria vazia, por carecer de um fundamento real sólido; que sentido teria então aderir a Cristo sem ter a certeza daquilo que Ele é na realidade? Seria cair num fideísmo idealista e subjectivista, numa fé que não iria para além dum vago e instável sentimento religioso. S. Paulo fala de “crer com o coração” (v. 10), usando a palavra “coração” no sentido semítico, próprio da citação bíblica anterior (v. 8): é a interioridade do ser humano, mais que a mera afectividade, engloba a sua mente (a inteligência e a vontade).

 

Evangelho São Lucas 4, 1-13
 

Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-Se das margens do Jordão. Durante quarenta dias, esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado pelo diabo. Nesses dias não comeu nada e, passado esse tempo, sentiu fome. O diabo disse-Lhe: “Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em Pão”. Jesus respondeu-lhe: “Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’”. O diabo levou-O a um lugar alto e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra e disse-Lhe: “Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu”. Jesus respondeu-lhe: “Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’”. Então o demónio levou-O a Jerusalém, colocou-O sobre o pináculo do Templo e disse-Lhe: “Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’”. Jesus respondeu-lhe: “Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’”. Então o diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.

 

Uma consideração superficial desta narrativa poderia levar o leitor a cair numa de duas tentações de pólos opostos: ou a de ficar na literalidade do relato, que parece descrever umas tentações de gula, de ambição do poder, de vaidade e presunção, ou então a de não querer ver nada para além da teologia do evangelista. Quem olhar para o relato imbuído do preconceito de que não existe o diabo, nem a tentação diabólica, não terá mais remédio do que refugiar-se na fácil solução da negação do seu valor histórico, apelando para a teologia do evangelista, para o simbolismo e significado teológico destas tentações. Por outro lado, quem se aferrar a uma mentalidade fundamentalista para salvar a todo o custo o sentido histórico literal de cada pormenor da narrativa, partindo de que esta é uma crónica jornalística, adoptará uma posição redutora da riqueza teológica do texto e virá a cair em interpretações pueris e até incoerentes, como, por ex., a de imaginar Jesus a ser transportado pelo diabo para um ponto donde pudesse ver todos os reinos da terra (v. 4), como para o pináculo do Templo, onde “o colocou”, segundo reza o texto (v. 9).

É indiscutível que Jesus foi sujeito à tentação (cf. Hbr 4, 15). Na Escritura a palavra “tentação” tem dois sentidos, tanto em grego, como em hebraico – peirasmós/massá –, a saber, o de “sedução” para praticar o mal, e o de “provação” que põe à prova a virtude e a fidelidade da criatura a Deus. Aqui, Jesus aparece claramente a ser tentado pelo demónio; muitas vezes, especialmente na hora da sua Paixão, é sujeito à prova (cf. Lc 22, 28. 40-46; 23, 35.37.49, etc.). Não obsta à realidade da tentação – a que Jesus não foi poupado – o significado simbólico dos elementos da narrativa, como o número “40” (tempo prolongado: cf. 1 Re 19, 8; Ex 16, 35; 24, 18; 34, 28…) e o “deserto” (lugar de solidão, abandono e perigo e também de encontro com Deus). Alguém escreveu que este relato recapitula toda a oposição, exterior e interior, que Jesus teve de enfrentar para cumprir a sua missão de acordo com a vontade do Pai.

Neste caso concreto, convém advertir que as tentações de Jesus aqui descritas não são de modo algum uma tentação ocasional, nem sequer um ataque mais violento; foram um duelo mortal e decisivo entre dois inimigos irredutíveis. Assim, estas tentações não vão dirigidas a fazer cair Jesus em meras faltas pessoais (gula, avareza, vaidade); mas são mesmo um ataque frontal, com o fito de fazer gorar toda a obra de Jesus. S. Lucas apresenta-nos o diabo a querer tirar a limpo até que ponto Jesus era o “Filho de Deus”  (vv. 3 e 10), segundo lhe constaria da teofania do Jordão (cf. Lc 3, 23). Por outro lado, o maligno aparece a tentar Jesus precisamente no núcleo da sua missão messiânica, para tentar desviá-lo do plano divino para os seus planos diabólicos, de modo a que esta missão acabasse por vir a ser desvirtuada. Tentemos agora ver o alcance destas tentações:

3-4 Na primeira tentação, Jesus aparece tentado a enveredar pelo caminho da satisfação das esperanças materialistas do povo, que esperava um messias que lhe trouxesse bem-estar, riqueza, prosperidade, fertilidade, pão e prazer.

5-6 Na segunda tentação, Jesus é tentado a mover-se na linha das esperanças populares num messias político, vitorioso, dominador dos opressores romanos e senhor do mundo inteiro; trata-se da tentação que Jesus sentiu de se desviar do plano do Pai, a instauração do Reino de Deus, para se dedicar à instauração dum reino temporal, um plano aparentemente mais eficaz e bem mais sedutor.

9-12 Na terceira tentação, com aquele “atira-te daqui abaixo” , é feito a Jesus um apelo diabólico a ir atrás da expectativa judaica, que pensava que o messias desceria espectacular­men­te do céu, à vista de todo o povo. Mas Jesus renuncia decididamente à fácil tentação de ser um messias milagreiro e espectacular, e diz que não à proposta de uma actuação com base no triunfo pessoal, no mero êxito humano.

Não devemos estranhar que S. Lucas inverta a ordem de S. Mateus para as duas últimas tentações, o que em nada diminui o valor do relato. A fonte pode ser a mesma, mas parece que Lucas coloca a última tentação em Jerusalém devido ao alto valor simbólico que quer dar à Cidade Santa e ao Templo no seu Evangelho. Ninguém foi testemunha das tentações de Jesus, pois se trata de coisas que se passaram apenas no seu espírito; mas também é compreensível que Jesus abrisse o seu coração aos discípulos, quando lhes falava da natureza do Reino de Deus e lhes explicava em particular as parábolas (cf. Mc 4, 34: seorsum autem discipulis suis disserebat omnia). O que é certo é que, para além das hipóteses que possam formular os críticos, ninguém poderá provar que estamos em face de meras criações teológico-narrativas dos evangelistas.

O alcance teológico desta narrativa nos três Sinópticos (em Marcos há apenas uma brevíssima alusão: 1, 12-13) é grande. Com efeito, as grandes personagens bíblicas foram “tentadas” e também o povo de Israel, no seu conjunto, especialmente durante a sua peregrinação pelo deserto, a caminho da terra prometida. Ora, em Jesus cumpre-se tudo o que estava em toda a Escritura (cf. Lc 24, 44); por outro lado, a vida de Jesus torna-se também um modelo para os cristãos e para toda a Igreja, que virá a ser tentada pelos poderes diabólicos, que nunca deixarão de pôr à prova a sua fidelidade e de os seduzir para o mal; os caminhos da Igreja não podem ser nunca os da glória terrena e do êxito fácil, mas os da humildado e do sacrifício, os árduos e escondidos caminhos da santidade.

13 “O diabo... retirou-se… até certo tempo”. É uma observação exclusiva de Lucas, e foi no momento da Paixão de Jesus (sem podermos excluir outros) quando em força avançou o diabo, o poder das trevas  (cf. Lc 22, 53. E também foi então a grande derrota do demónio e a vitória definitiva do Senhor, que nos mereceu a graça de também podermos sair vitoriosos das nossas tentações. S. João Crisóstomo comenta: “uma vez que o Senhor tudo fazia e sofria para o nosso ensinamento, também quis ser conduzido ao deserto e ali travar combate contra o diabo, a fim de que os baptizados, se, depois do Baptismo vierem a sofrer as piores tentações, não se perturbem com isso, como se se tratasse de uma coisa que não era de esperar. Não, não há que se perturbar com isso, mas sim permanecer firmes e suportá-lo generosa­men­te como a coisa mais natural do mundo” (Homilia sobre S. Mateus, 13).

 

2.º Domingo da Quaresma

 

1ª Leitura Génesis 15, 5-12.17-18

Naqueles dias, 5Deus levou Abrão para fora de casa e disse-lhe: “Olha para o céu e conta as estrelas, se as puderes contar”. E acrescentou: “Assim será a tua descendência”. 6Abrão acreditou no Senhor, o que lhe foi atribuído em conta de justiça. 7Disse-lhe Deus: “Eu sou o Senhor que te mandou sair de Ur dos caldeus, para te dar a posse desta terra”. 8Abrão perguntou: “Senhor, meu Deus, como saberei que a vou possuir?” 9O Senhor respondeu-lhe: “Toma uma vitela de três anos, uma cabra de três anos e um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho”. 10Abrão foi buscar todos esses animais, cortou-os ao meio e pôs cada metade em frente da outra metade; mas não cortou as aves. 11Os abutres desceram sobre os cadáveres, mas Abrão pô-los em fuga. 12Ao pôr do sol, apoderou-se de Abrão um sono profundo, enquanto o assaltava um grande e escuro terror. 17Quando o sol desapareceu e caíram as trevas, um brasido fumegante e um archote de fogo passaram entre os animais cortados. 18Nesse dia, o Senhor estabeleceu com Abrão uma aliança, dizendo: “Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio do Egipto até ao grande rio Eufrates”.

 

Num texto dotado de grande beleza, deixa-se-nos ver como é que a promessa divina de dar em posse a terra de Canaã à descendência da Abraão (Gn 12, 7) se haverá de cumprir, apesar de não ter filhos da sua esposa Sara (v. 3); aqui esta promessa aparece rubricada com um tradicional rito de aliança. O comentário que se segue pode bem servir para a lectio divina.

6 “Abrão acreditou”. «A fé de Abraão consiste em crer numa promessa humanamente irrealizável. Deus reconheceu-lhe o mérito deste acto (cf. Dt 24, 13; Salm 105, 31), o que lhe foi atribuído em conta de justiça, já que o “justo”  é o homem a quem a sua rectidão e a sua submissão tornam agradável a Deus. S. Paulo utiliza este texto para provar que a justificação depende da fé e não das obras da Lei; mas a fé de Abraão determina a sua conduta, é princípio de acção, por isso S. Tiago pode invocar o mesmo texto para condenar a fé ‘morta’, sem as obras da fé» (Bíblia de Jerusalém); cf. Rom 4, 9-12 e Tg 2, 21-23. A fé de Abraão é posta em evidência não apenas aqui, ao crer na promessa de Deus, mas também ao obedecer para deixar a sua terra (Gn 12, 4) e para sacrificar o seu filho Isac (Gn 22, 1-4).

8-10 “Como saberei que a vou possuir?” A narrativa alcança uma extraordinária beleza e dramatismo. Com efeito, Abraão, apesar de não ter dúvidas (como se disse para a promessa da descendência: v. 6), pede um sinal a Deus. E Deus não se limita a dar um sinal, mas condescen­de até ao ponto de mandar dispor as coisas para a celebração de um rito de aliança segundo os costumes da época: manda esquartejar uma vitela, uma cabra e um carneiro. Então havia o costume de selar alianças com este rito, para nós estranho, mas muito significativo: aqueles que faziam um contrato passavam entre as metades a sangrar de animais esquartejados invocando sobre si a mesma sorte daqueles animais sacrificados, caso viessem a falhar ao contrato ou aliança (cf. Jer 34, 18-19).

11-12 “Os abutres desceram... Um sono profundo... um grande e escuro terror”. Mais uma vez a narrativa apresenta Deus a pôr à prova Abraão, e precisamente na mesma ocasião em que lhe dava um sinal; com efeito, apesar de Abraão ter tudo preparado, Deus atrasa a sua manifestação (vv. 17-18); mas Abraão não desiste de esperar, enquanto ia afugentando as aves de rapina, até que o dia chega ao fim, o momento em que o Patriarca se sente exausto e sobretudo angustiado interiormente, a ponto de se interrogar se tudo isto não teria sido uma ilusão. Matar todos aqueles animais não teria sido uma loucura? Cai a noite – também os místicos falam da “noite escura” –, mas Abraão não arreda pé, porque está certo de que Deus não pode falhar.

17 “Um brasido fumegante e um archote de fogo”. Eis senão quando Deus se manifesta nestes dois símbolos que “passaram por entre os animais cortados”: assim Deus é apresentado a dizer-lhe veladamente, mas com a suficiente clareza para um homem de fé, que Ele mantinha firme a sua palavra, que a promessa não deixaria de vir a realizar-se! Note-se que este rito de aliança não é bilateral (como o do Sinai, em Ex 24, 6-8); para que se efective aquilo que é mera iniciativa divina, obra de Deus, basta a sua fidelidade; ao homem apenas compete dispor as coisas para que Deus actue – partir os animais – e não estorvar a acção divina – sacudir as aves de rapina. “A chama e o fumo simbolizam a Deus; a chama, por ser brilhante e quase imaterial e o fumo por ser impenetrá­vel à vista, representavam a invisibilidade de Deus; cf. Ex 3, 2; 19, 18; 24, 17” (E. F. Sutcliffe). Os antigos semitas, como os árabes ainda hoje, utilizavam um forno portátil, com a forma de cone truncado, para cozer o pão; quando estava bem quente tiravam a lenha e introduziam a massa.

18 “Aos teus descendentes darei esta terra, desde a torrente do Egipto…”, isto é, desde o wadi El-Arixe, que corre na época das chuvas do Sinai para o Mediterrâneo (não se trata do Nilo); nos tempos de Salomão o povo teve estes limites (cf. 1 Re 5, 1), uns limites ideais, “até ao Eufrates”, no Iraque. Com estas palavras Deus aparece como o Senhor da Terra e o Senhor da História.

 

2ª leitura Forma longa: Filipenses 3, 17 – 4,1    Forma breve: Filipenses 3, 20 – 4, 1

Irmãos: [17Sede meus imitadores e ponde os olhos naqueles que procedem segundo o modelo que tendes em nós. 18Porque há muitos, de quem tenho falado várias vezes e agora falo a chorar, que procedem como inimigos da cruz de Cristo. 19O fim deles é a perdição: têm por deus o ventre, orgulham-se da sua vergonha e só apreciam as coisas terrenas. 20Mas] a nossa pátria está nos Céus, donde esperamos, como Salvador, o Senhor Jesus Cristo, 21que transformará o nosso corpo miserável, para o tornar semelhante ao seu corpo glorioso, pelo poder que Ele tem de sujeitar a Si todo o universo. 4,1Portanto, meus amados e queridos irmãos, minha alegria e minha coroa, permanecei firmes no Senhor.

 

O Apóstolo incita os fiéis a viverem como “cidadãos do Céu” (v. 20), segundo o seu exemplo.

17 “Sede meus imitadores”. S. Paulo tem a consciência plena de que, com todas as veras da sua alma, é um imitador de Cristo (1 Cor 11, 1), por isso é que se atreve a falar desta maneira tão arrojada (cf. 4, 9; 1 Cor 4, 16; 1 Tes 1, 6; 2 Tes 3, 7.9).

18-21 Os “inimigos da Cruz de Cristo”, que “se orgulham da sua vergonha”, devem ser, mais provavelmente, os judaizantes, a quem Paulo visa nesta parte da sua carta (cf. 3, 1b ss), os quais antepõem ao valor salvífico da Paixão do Senhor a prática do rito da circuncisão, orgulhando-se de um sinal no membro viril, que o pudor e a decência obriga a esconder, e dogmatizam as prescrições alimentares (o ventre), endeusando-as; também poderia ser uma censura dirigida a cristãos moralmente depravados, o que é menos provável, dado o contexto em que Paulo está a falar. Não é deste corpo miserável (com marcas, como as da circuncisão, e com tantas limitações e mazelas) que o cristão se deve orgulhar, mas da sua condição de ressuscitado com Cristo, que lhe garantirá um futuro corpo glorioso, que transcende o próprio “universo” (v. 21).

“A nossa pátria está nossos Céus” (cf. Hbr 13, 14; 1 Pe 2, 11). A verdadeira pátria, da qual andamos como que desterrados, “os degredados filhos de Eva”, é o Céu; mas, enquanto aqui “gememos”  (cf. 2 Cor 5, 1-14), não estamos dispensados de cumprir os nossos deveres e exercer os nossos direitos de cidadãos da pátria terrestre; e, se os não cumprimos responsavelmente como cidadãos da pátria terrestre, também não podemos chegar à pátria celeste; por isso, nada é mais falso do que entender a fé cristã como ópio do povo.

 

Evangelho São Lucas 9, 28b-36

Naquele tempo, 28bJesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar. 29Enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. 30Dois homens falavam com Ele: eram Moisés e Elias, 31que, tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém. 32Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. 33Quando estes se iam afastando, Pedro disse a Jesus: “Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Não sabia o que estava a dizer. 34Enquanto assim falava, veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem. 35Da nuvem saiu uma voz, que dizia: “Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O”. 36Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.

 

Convém, antes de mais, notar um pormenor cronológico omitido na leitura litúrgica, mas nada despiciendo: “cerca de oito dias depois”, em vez do habitual “naquele tempo”. Com efeito, em todos os três Sinópti­cos, não é sem razão que se estabelece uma das raras ligações cronológicas entre este relato e o relato da confissão de fé de Pedro e do 1º anúncio da Paixão e Morte de Jesus. É uma ligação de grande alcance teológico: por um lado, a fé de Pedro é confirmada e ilustrada de forma singular com a glória divina que Jesus manifesta na sua Transfiguração; por outro, indica-se que a Cruz é o caminho da glória, como para Jesus, assim para os seus discípulos (per crucem ad lucem).

28 “Subiu ao monte para orar”. O monte Tabor (562 m), na Galileia, segundo a tradição, ou, segundo muitos hoje pensam baseados em Mt 17, 1 e Mc 9, 2 que falam de  “um monte elevado”, o monte Hermon, sobranceiro a Cesareia de Filipe, no maciço central da Síria (o Antilíbano) com 2.759 metros, a região por onde Jesus então andava (cf. Mc 8, 27; 9, 1). S. Lucas é o único a notar que Jesus subiu ali para fazer oração; também não diz que se transfigurou, mas que “se alterou o aspecto do seu rosto…”, certamente com a preocupação de que os seus primeiros leitores de ambientes greco-romanos não pensassem que se tratava de alguma metamorfose própria das religiões mistéricas. Mas a transfiguração de Jesus não deixa de apontar para a nossa própria transfiguração pela graça do Espírito do Senhor, como diz S. Paulo em 2 Cor 3, 18: “todos nós…, que reflectimos como num espelho a glória do Senhor vamos sendo transformados na sua própria imagem, cada vez mais gloriosa…”.

31 “Falavam da morte d’Ele”. Também só o 3.° Evangelho diz o assunto da conversa de Jesus com Moisés e Elias. Falavam da “saída” de Jesus, como se expressa o original grego, que a nossa tradução interpretou como “a morte”, mas que também se poderia referir à Ascensão (menos provável); de qualquer modo, o uso do termo grego êxodo pode aludir ao carácter libertador da morte de Jesus, numa alusão à libertação da escravidão do Egipto.

32-33 “Estavam a cair de sono; mas, despertando...” Este pormenor exclusivo de Lucas pressupõe que a Transfiguração se deu de noite, enquanto Jesus fazia oração, pois gostava de orar de noite (cf. Lc 6, 12; Mc 6, 46). A proposta de Pedro de construir “três tendas” (de ramos), tem na devida conta a diferente dignidade de cada um e pretende prolongar aquele êxtase feliz.

35 “Este é o meu Filho, o meu Eleito”. A Transfiguração é um confirmar da fé daquele núcleo duro dos Doze, as  “colunas” do Colégio Apostólico; assim, o próprio Pai apresenta Jesus como o seu Filho. S. Lucas, em vez de “o Amado” (cf. Mt 17, 5; Mc 9, 7) , diz: “o meu Eleito” , que é mais uma forma (e mais clara) de O designar como o Messias (cf. Lc 23, 35; Is 42, 1). Comenta S. Tomás de Aquino: “Apareceu toda a Trindade, o Pai na voz, o Filho no homem, o Espírito na nuvem luminosa” (Sum. Th. 3, 45, 4, ad 2).

36 “Guardaram silêncio”, por ordem de Jesus (Mc 9, 9-10) que pretende, a todo o custo, evitar a agitação popular à sua volta.

 

3.º Domingo da Quaresma

 

1ª Leitura Êxodo 3, 1-8a.13-15

Naqueles dias, 1Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Ao levar o rebanho para além do deserto, chegou ao monte de Deus, o Horeb. 2Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor numa chama ardente, do meio de uma sarça. Moisés olhou para a sarça, que estava a arder, e viu que a sarça não se consumia. 3Então disse Moisés: “Vou aproximar-me, para ver tão assombroso espectáculo: por que motivo não se consome a sarça?” 4O Senhor viu que ele se aproximava para ver. Então Deus chamou-o do meio da sarça: “Moisés, Moisés!” Ele respondeu: “Aqui estou!” 5Continuou o Senhor: “Não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é terra sagrada”. 6E acrescentou: “Eu sou o Deus de teu pai, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob”. Então Moisés cobriu o rosto, com receio de olhar para Deus. 7Disse-lhe o Senhor: “Eu vi a situação miserável do meu povo no Egipto; escutei o seu clamor provocado pelos opressores. Conheço, pois, as suas angústias. 8Desci para o libertar das mãos dos egípcios e o levar deste país para uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel”. Moisés disse a Deus: 13“Vou procurar os filhos de Israel e dizer-lhes: ‘O Deus de vossos pais enviou-me a vós’. Mas se me perguntarem qual é o seu nome, que hei-de responder-lhes?” 14Disse Deus a Moisés: “Eu sou ‘Aquele que sou’”. E prosseguiu: “Assim falarás aos filhos de Israel: O que Se chama ‘Eu sou’ enviou-me a vós”. 15Deus disse ainda a Moisés: “Assim falarás aos filhos de Israel: ‘O Senhor, Deus de vossos pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob, enviou-me a vós. Este é o meu nome para sempre, assim Me invocareis de geração em geração’”.

 

Moisés encontrava-se numa situação de fugitivo do faraó e refugiado junto de Jetro, sacerdote de Madiã, tendo casado com umas das suas filhas, Séfora. “Madiã” era um reduto de tribos nómadas madianitas, situado a sudeste do golfo de Akabá (Eilat), mas parece mais lógico que Jetro vivesse nalgum oásis da península do Sinai.“ O Monte de Deus, o Horeb”, na tradição javista habitualmente chamado Sinai, é a montanha de Deus, porque Deus aqui se revela (cf. Ex 19). A sua localização é muito discutida, mas a antiga tradição identificou-o com o djebel Musa (montanha de Moisés: 2.224 metros).

2 “O Anjo do Senhor numa chama ardente”. É por vezes esta uma forma de designar o próprio Deus, enquanto se manifesta ao homem (cf. Gn 16, 7.13). Estamos perante uma forma de expressão deveras estranha para a nossa mentalidade: designar a Deus com o nome do seu mensageiro! No fundo parece haver uma concepção exacta de que nesta vida a criatura não pode ver a Deus, sendo frequente na Bíblia anotar que não se pode ver a Deus sem morrer (Gn 16, 13; 32, 31; Ex 33, 20; Jz 6, 22.23; 13, 21-22). Por isso se diz que Moisés cobriu o rosto (v. 6). No entanto, a existência dos anjos consta claramen­te de outras passagens da S. E.. Notar que o fogo, chama ardente, como elemento menos material, tornou-se um símbolo da santidade divina, da sua transcendência.

5 “Tira as sandálias”. Atitude de respeito prescrita para os sacerdotes judeus poderem entrar no santuário e que ainda hoje adoptam os árabes para entrar num lugar sagrado.

14 “Eu sou ‘Aquele que sou’... O que se chama ‘Eu sou’ enviou-me” . Em hebraico “Eu sou”  diz-se ’ehyéh. Uma forma muito discutida do verbo, mista e arcaica, na terceira pessoa, dá yahwéh , que é a forma que aparece no v. 15, traduzida habitualmente por “Senhor” , segundo a tradução grega (Kyrios) adoptada pelos LXX e também preferida pelas traduções modernas que assim evitam ferir a sensibilidade judaica; de facto, os judeus, por respeito, nunca pronunciam o nome de Yahwéh, mas dizem Adonai (Senhor).

Também se discute qual o sentido do nome com que Deus se auto-designa: 1) Uns entendem: Eu sou Aquele que faz existir (dá o ser), isto é, Eu sou o Criador , uma interpretação pouco provável, pois o verbo hebraico correspondente (hayáh)  não se usa na conjugação chamada hifil (a forma causativa). 2) Outros traduzem: “Eu serei o que sou”,  significando assim a imutabilidade e eternidade divina, mas, ainda que o imperfeito hebraico se possa traduzir tanto pelo presente como pelo futuro, não parece legítimo que na mesma frase se use diversa tradução para a mesma forma verbal. 3) Outros preferem uma tradução: “Eu sou porque sou” , isto é, em Mim está toda a razão da minha existência, traduzindo o pronome relativo “que” (’axer)  não como pronome, mas como conjunção causal, uma coisa pouco frequente. 4) Finalmen­te, temos aqueles que traduzem: “Eu sou Aquele que sou”  (tradução mais habitual), ainda que haja divergências na interpretação; assim: a) uns entendem: Eu sou um ser inefável, indefinível através de qualquer nome, tendo em conta a mentalidade segundo a qual conhecer o nome duma divindade implicava um domínio mágico sobre ela: Deus, com esta maneira de falar, subtraía-se a dar o seu nome, revelando assim a sua transcen­dên­cia (esta opinião não se coaduna bem com o contexto: v. 15); b) outros entendem: Eu sou Aquele que sou, em contraste com os deuses pagãos que não são, não têm existência real, pois “Eu sou, e serei contigo”  (v. 12) para defender, guiar, proteger e salvar o meu povo. c)  e também há quem entenda Eu sou Aquele que sou significando Aquele a quem compete a existência sem quaisquer restrições, realidade que a filosofia e a teologia vêm a explicitar dizendo que Deus é o ser necessário e absoluto, o ser a cuja essência pertence a existência, interpretação esta que, embora se coadune com a tradução grega dos LXX, Eu sou Aquele que existe, corresponde mais à reflexão filosófico-teológica do que à mentalidade semítica.

A pronúncia do nome divino Jeová não é correcta e procede do século XVI, quando os estudiosos leram as consoante do tetragrama divino, YHWH (4 consoantes) com as vogais do nome Adonai . Com efeito, quando, a partir do séc. VI p. C. os massoretas colocaram os sinais vocálicos no texto hebraico (que se escrevia só com consoantes), tiveram o cuidado de não colocar no nome de Yahwéh as suas vogais próprias, a fim de que um leitor distraído não pronunciasse o inefável nome divino, mas lesse Adonai. Note-se que o nome de Jesus (Yehoxúa) é teofórico, entrando na sua composição o nome Yahwéh: Yahwéh-salva. É por isso que, quando os cristãos invocam a Jesus, estão a utilizar e a santificar o nome de Yahwéh, e também é por isso que só no nome (na pessoa) de Jesus está a salvação (Act 4, 12). Por outro lado, Jesus nunca se dirige Deus com o nome de Yahwéh, ou o seu correspondente Senhor, mas com o nome que indica a distinção pessoal, Pai. Seria absurdo e ridículo pensar que, para alguém se salvar, tenha de usar o nome de Yahwéh no trato com Deus; Jesus, que veio para nos salvar, não impôs a obrigação de usarmos o nome de Yahwéh, como condição de salvação e a Igreja que continua a missão de Jesus nunca urgiu tal tratamento para Deus .

 

2ª leitura 1 Coríntios 10, 1-6.10-12
 

Irmãos: 1Não quero que ignoreis que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, passaram todos através do mar e na nuvem e no mar, 2receberam todos o baptismo de Moisés. 3Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual. 4Bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava: esse rochedo era Cristo. 5Mas a maioria deles não agradou a Deus, pois caíram mortos no deserto. 6Esses factos aconteceram para nos servir de exemplo, a fim de não cobiçarmos o mal, como eles cobiçaram. 10Não murmureis, como alguns deles murmuraram, tendo perecido às mãos do Anjo exterminador. 11Tudo isto lhes sucedia para servir de exemplo e foi escrito para nos advertir, a nós que chegámos ao fim dos tempos. 12Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair.

 

A leitura é tirada daquela parte da carta onde Paulo procura dar resposta a um problema prático que então ali se punha: se era lícito ou não comer as carnes que, depois de terem sido oferecidas num templo pagão a um ídolo, eram vendidas na praça, os chamados idolótitos. O Apóstolo, depois de ter explicado os princípios gerais, a saber, que se podiam comer, pois os ídolos não são nada (8, 1-6), adverte que era preciso ter em conta aqueles irmãos, fracos e timoratos, que se pudessem vir a escandalizar com isso (8, 7-13), e passa a ilustrar a doutrina exposta, primeiro, com o seu exemplo de renunciar a direitos para bem dos fiéis (9, 1-27), depois, com as lições da história de Israel (10, 1-13): apesar de os israelitas na peregrinação do deserto terem sido favorecidos com tantos prodígios, “a maioria dele não agradou a Deus” e pereceu (v.5). E isto é uma lição para todos nós, para que não venhamos a arvorar-nos em fortes, pois também podemos vir a ser infiéis ao Senhor e a “cair” (v. 12). Os exegetas têm posto em relevo a actualidade dos escritos paulinos, pois S. Paulo, mesmo quando trata de assuntos ocasionais, que não nos dizem respeito, como neste caso, sempre apela para princípios válidos para todos os tempos e lugares.

2 “Na nuvem e no mar receberam todos o baptismo de Moisés”, isto é, foram vinculados a Moisés aqueles antigos judeus pelo facto de, sob a sua chefia, se terem salvo com travessia das águas do “Mar” Vermelho e com a “nuvem” (sinal da presença protectora Deus). E isto a tal ponto que ficaram a constituir o que Actos 7, 38 chama a “igreja do deserto”. Tudo isto era a figura, ou exemplo (vv. 6.11) dos cristãos, baptizados em Cristo e formando o novo e definitivo povo eleito, que é a Igreja.

3 “Alimento espiritual”. O maná é chamado espiritual, pelo carácter sobrenatural de que se revestia a sua abundância e por ser também uma figura da SS. Eucaristia. A “bebida espiritual”, a água do Êxodo, também é espiritual por milagrosa e pelo seu significado espiritual: uma figura do Espírito que Cristo dá aos crentes (cf. Jo 4, 10; 7, 37-39; 16, 7; 20, 22).

4 “O rochedo espiritual que os acompanhava”. Parece que S. Paulo se soube aproveitar duma tradição rabínica que consta da Tosefta, segundo a qual a pedra da qual brotou água (Ex 17, 6) acompanhava os israelitas na sua peregrinação no deserto. Como os mestres rabinos costumavam identificar este rochedo com Yahwéh (cf. Êx 17, 6), a  “Rocha de Israel” (Salm 18(17), 3), S. Paulo, para quem “esse rochedo era Cristo”, insinua não só a preexistência de Cristo, mas também a sua divindade, a sua identificação com Yahwéh.

5 “Caíram mortos”. Cf. Nm 14; 26, 65-65.

 

 

Evangelho São Lucas 13, 1-9

1Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam. 2Jesus respondeu-lhes: “Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? 3Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. 4E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante”. 6Jesus disse então a seguinte parábola: “Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. 7Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’ 8Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. 9Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano”.

 

Jesus contraria a opinião corrente de então e de hoje, que atribui todas as desgraças a um castigo de Deus; Ele antes quer que se vejam como um aviso de Deus, por isso aproveita estes acontecimentos para fazer um forte apelo à conversão.

1 “Pilatos mandara derramar o sangue...” Facto apenas conhecido por S. Lucas, mas que estava de acordo com o carácter violento e repressivo do procurador romano. Um acto semelhante, o mandar matar uns samaritanos por ocasião duma peregrinação ao Monte Garizim, no ano 35, foi a ocasião para os judeus conseguirem do imperador destituição de Pilatos, segundo conta Flávio Josefo (cf. Antiquitates, XVIII).

4 “A torre de Siloé, ao cair...” Facto também só conhecido por este relato. Siloé é o nome duma piscina a Sueste de Jerusalém, na parte interior da muralha que naquele sítio teria provavelmente algum torreão que então caiu.

5 “Eu digo-vos que não”. Deus nem sempre castiga nesta vida os mais culpados. As calamidades e os males que nos sobrevêm podem ser uma prova a que Deus nos sujeita, uma ocasião de expiarmos os nossos pecados e uma chamada à conversão: “se não vos converterdes…”

6-9 Com a parábola (exclusiva de S. Lucas) da figueira sem frutos, o Senhor pretende ensinar que é urgente que nos convertamos: Deus é paciente na sua misericórdia (cf. Pe 3, 9; Ez 33, 11; Jl 2, 13; Sab 11, 23), mas não podemos adiar o arrependimento para uma hora que pode já ser tardia. É urgente que dêmos frutos de santidade, pondo de lado a preguiça e o comodismo que tornam a vida inútil e estéril; Deus não deixa impune a falta de correspondência à cava e ao adubo da sua graça: “mandá-la-ás cortar”.

 

 

Anunciação do Senhor

 

1ª leitura Isaías 7, 10-14 8, 10

 

Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11“Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas”. 12Acaz respondeu: “Não pedirei, não porei o Senhor à prova”. 13Então Isaías disse: “Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será ‘Emanuel’, porque Deus está connosco”.

 

Este célebre texto messiânico é extraído do início do “Livro do Emanuel”, assim chamado pela misteriosa figura central do Immánu-El (Deus connosco), um “menino” descrito com traços que, excedem tudo o que a história da monarquia hebraica regista (Is 7, 1 – 12, 6), lhe dão um carácter messiânico, em quem os cristãos vêem uma figura do Salvador.

10-13 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica (estamos na conjura siro-efraimita contra o rei de Judá), o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino, por mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade, nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais. Foi por esta ocasião (o que não quer dizer exactamente no mesmo momento) que o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor dará um sinal verdadei­ra­­mente extraordinário e que o trono de David se consolidará eternamente (cf. 2 Sam 7, 16).

14 Esse “sinal” é a virgem que concebe. Muito se tem discutido e escrito sobre este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana. De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado “Livro do Imanuel” (Is 7 – 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar para um descendente de David em quem se concentram as promessas da salvação de Deus, o Imanuel (o Deus connosco). Ainda que, num primeiro plano, possa ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele é considerado uma figura ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos, quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil: ‘almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes adaptações gregas, Áquila, Símaco e Teodocião) e o dia festivo para comemorar a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto. A interpretação mais tradicional defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e faz finca-pé em que Deus tinha oferecido pelo Profeta um sinal prodigioso, e eis que o dá; ora esse sinal só é prodigioso se a concepção e o nascimento do Menino acontece sem destruir a virgindade da Mãe; aliás é ela a pôr o nome ao filho, coisa que pertence sempre ao pai (que aqui não aparece). O próprio nome do filho insinua a sua divindade, “Deus connosco”: é a mesma personagem extraordinária anunciada em Is 9, 5-6: “Deus forte, príncipe da paz...”.

 

2ª leitura Hebreus 10, 4-10

 

Irmãos: 4É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade’”. 8Primeiro disse: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado”. E no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta: “Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade”. Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.

 

O autor de Hebreus está no final da primeira parte da obra, precisamente quando discorre sobre a superioridade do sacrifício de Cristo relativamente a todos os sacrifícios da Lei Antiga (8, 1 – 10, 18), sob o ponto de vista da eficácia, argumentando, à boa maneira rabínica, a partir dos Salmos 40, 7-9 e 110, 1. Perante a ineficácia dos sacrifícios da Antiga Lei, o próprio Deus decide vir à Terra, na pessoa do Filho para poder oferecer, da parte da humanidade (Cristo é perfeito homem), um sacrifício de eficácia infinita (Cristo é perfeito Deus), oferecido de uma vez para sempre (v. 10), e assim aboliu o primeiro culto, o levítico (v. 9). Recorde-se que o Sacrifício do Calvário é único pelo seu infinito valor, o Sacrifício da Missa não é outro sacrifício diferente, mas o mesmo sacrifício que se torna presente sacramentalmente a todos os tempos nos nossos altares, aplicando-nos os méritos da Cruz (cf. Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 12).

7 “Eis-me aqui”. Palavras do Salmo 40 (39) que o autor inspirado aplica a Jesus, e que a Liturgia hoje põe no coração do Filho de Deus, ao incarnar no seio da Santíssima Virgem.

 

Evangelho Lucas 1, 26-38

 

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”. 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”. 34Maria disse ao Anjo: “Como será isto, se eu não conheço homem?”. 35O Anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível”. 38Maria disse então: “Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra”.

 

A narrativa da Anunciação reveste-se duma densidade tal, que cada palavra encerra uma riqueza e profundidade impressionante, o que condiz bem com o acontecimento mais transcendente da História, o preciso momento em que, com o sim da Virgem Maria, o Eterno entra no tempo, o Criador se faz criatura.

26 “O Anjo Gabriel”. O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa “homem de Deus” ou também “força de Deus”.

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

“Ave”: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso “bom dia”; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico “paz a ti” (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é “alegra-te” – a tradução literal do imperativo grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria da “Filha de Sião” (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó “cheia de graça”: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: “ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores”. De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a “cheia de graça”, como o próprio texto original indica.

“O Senhor está contigo”: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso “Bendita es tu entre as mulheres”, pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 “Perturbou-se”, ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois nela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias exigira (cf. Lc 1, 18).

32-33 “Encontraste graça diante de Deus”: “encontrar graça” é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão “encontrar graça diante de Deus” só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 “Como será isto, se Eu não conheço homem?” Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também a expressão “não conheço” no sentido de “não devo conhecer”, como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, “não conheço”, indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos e renunciando a consumar a união; mas nem todos os estudiosos assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 “O Espírito Santo virá sobre ti…”. Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, “virá sobre ti”, com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); “e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra” (a tradução litúrgica “cobrirá” seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia dos Capuchinhos): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, “Arca da Aliança”).

“O Santo que vai nascer…”. O texto grego admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: “por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus”. I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: “nascerá santo”, isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. “Será chamado” (entenda-se, “por Deus” – passivum divinum) “Filho de Deus”, isto é, será realmente Filho de Deus, pois o que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 “Eis a escrava do Senhor…”. A palavra escolhida na tradução, “escrava” talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se “serva do Senhor”; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros “servos” chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: “Maria”, o nome que lhe fora dado pelos homens, “cheia de graça”, o nome dado por Deus, “serva do Senhor”, o nome que Ela se dá a si mesma.

“Faça-se…”. O “sim” de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).

 

4.º Domingo da Quaresma

 

1ª leitura Josué 5, 9a.10-12

Naqueles dias, 9adisse o Senhor a Josué: “Hoje tirei de vós o opróbrio do Egipto”. 10Os filhos de Israel acamparam em Gálgala e celebraram a Páscoa, no dia catorze do mês, à tarde, na planície de Jericó. 11No dia seguinte à Páscoa, comeram dos frutos da terra: pães ázimos e espigas assadas nesse mesmo dia. 12Quando começaram a comer dos frutos da terra, no dia seguinte à Páscoa, cessou o maná. Os filhos de Israel não voltaram a ter o maná, mas, naquele ano, já se alimentaram dos frutos da terra de Canaã.

 

A leitura fala-nos do início de uma nova vida do povo eleito, após a longa e dura travessia do deserto. O facto de ter sido escolhida para este tempo, em que o deserto da Quaresma caminha para o seu fim, pode ter um significado simbólico, ligado ao Evangelho do filho pródigo: o regresso à casa paterna, a conversão, o começo de uma vida nova.

9 “Vexame do Egipto”. Este pode ser a incircuncisão, de acordo com o contexto (notar que foram aqui suprimidos os vv. 6-8), em que se fala de que Josué procedeu então à circuncisão dos filhos daqueles que tinham saído do Egipto, embora também os egípcios a tivessem praticado. Outros autores pensam que o vexame do Egipto seria a escravidão lá sofrida e as consequentes privações do deserto.

10 “Guilgal”. A localização desta Guilgal é incerta, mas supõe-se que ficasse nas proximida­des de Jericó. No texto hebraico há um jogo de palavras que podíamos transpor para português da seguinte maneira: “Em Guigal eu fiz o povo galgar o vexame do Egipto”. Com efeito, em hebraico gálgal significa roda, e o verbo aqui usado (gallóthi) significa pus a rodar, isto é, “afastei” ou “tirei”.

11 “No dia seguinte à Páscoa”, isto é, a 16 do mês de Nisan, de acordo com a Lei (cf. Lev 23, 4-14); após a oferta a Deus do primeiro feixe de trigo, já o povo podia começar a comer o trigo novo, ainda quase todo verde. Ainda hoje a gente do campo na Síria e no Egipto gosta de comer, quando ainda verde, o grão de trigo assado.

 

2ª leitura 2 Coríntios 5, 17-21

Irmãos: 17Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram; tudo foi renovado. 18Tudo isto vem de Deus, que por Cristo nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação. 19Na verdade, é Deus que em Cristo reconcilia o mundo consigo, não levando em conta as faltas dos homens e confiando-nos a palavra da reconciliação. 20Nós somos, portanto, embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. 21A Cristo, que não conhecera o pecado, Deus identificou-O com o pecado por causa de nós, para que em Cristo nos tornemos justiça de Deus.

 

Já nas Cinzas, tivemos parte desta leitura. S. Paulo ao fazer a sua defesa perante as acusações dos seus opositores em Corinto, exalta a grandeza do ministério apostólico de que está investido, um ministério de reconciliação com Deus alcançada pelo mistério da Morte e Ressurreição de Cristo (5, 14-15).

17 “Nova criatura”. Pelo Baptismo dá-se uma transformação radical – regeneração interior (cf. Jo 3, 5) – do homem velho (cf. Rom 6, 6; Gal 6, 15; Col 3, 9; Ef 2, 15; Tit 3, 5). Dá-se como que uma nova criação, no plano da graça, pois passa-se do não ser, do nada e menos que nada (o pecado: “as coisas antigas”) para “estar em Cristo”, participando da sua vida divina.

18 “Ministério da reconciliação”. O contexto não permite que se interprete este ministério no sentido estrito do ministério do perdão exercido no Sacramento da Penitência, embora este se possa ver englobado no conjunto (boa ocasião para rever o motu proprio Misericordia Dei, sobre alguns aspectos do Sacramento da Penitência, de 7 de Abril de 2002, que quase passou despercebido).

20 “Reconciliai-vos com Deus”. É este o insistente convite que a Igreja nos faz em nome de Deus, a mesma exortação que fazia S Paulo, com a plena consciência de que era Deus que exortava por seu intermédio , pois os Apóstolos, como os demais ministros de Cristo, são “embaixadores ao serviço de Cristo” , e não apenas ao seu serviço , mas actuando em vez de Cristo e por autori­da­de de Cristo , como o texto original parece dar a entender com o uso da preposição grega ypér  (em favor de, usada no sentido da preposição antí, em vez de; cf. Jo 11, 50; Gal 3, 13; etc.).

21 “Deus identificou-o com o pecado”, à letra, Deus fê-lo pecado , uma expressão extraordina­ria­mente forte e chocante. Note-se, no entanto, que não se diz que Deus O tenha feito pecador; o que se pretende significar é que Deus permitiu que Jesus viesse a sofrer o castigo que cabia ao pecado. Trata-se aqui duma identificação jurídica, não moral: Cristo tornando-Se a Cabeça e o Chefe duma raça pecadora, toma sobre os seus ombros a responsabilidade, não a de uns pecados alheios, mas a dos pecados da sua raça (de toda a Humanidade), para os expiar, sofrendo a pena devida por eles (cf. Gal 3, 13). O texto torna-se menos duro, se entendemos que Cristo se fez pecado, no sentido de que se fez sacrifício pelo pecado; isto, que pode parecer uma escapatória para evitar a dificuldade de interpretação, tem um certo fundamento no substrato hebraico, pois a palavra ’axam tem este duplo sentido de “violação da justiça” e de “sacrifício de reparação pelo pecado”; com efeito, pelo sacrifício de Cristo tornamo-nos “justiça de Deus”, isto é, justos diante de Deus (note-se o jogo com os dois substantivos abstractos – pecado/justiça –, num evidente paralelismo antitético, tão do gosto paulino).

Evangelho São Lucas 15, 1-3.11-32

Naquele tempo, 1os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. 2Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: “Este homem acolhe os pecadores e come com eles”. 3Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: 11“Um homem tinha dois filhos. 12O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. 13Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. 14Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. 15Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. 16Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! 18Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. 19Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. 20Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. 21Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. 22Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. 23Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejamos, 24porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. 25Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. 26Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. 27O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. 28Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. 29Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. 30E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. 31Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. 32Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’”.

 

Alguém considerou a parábola do filho pródigo  “o evangelho dos evangelhos”. É a mais bela e a mais longa das parábolas de Jesus, impregnada duma finíssima psicologia própria de quem no-la contou, Jesus, que conhece a infinita misericórdia do coração de Deus, que é o seu próprio coração, e que penetra na profundidade da alma humana (cf. Jo 2, 25), onde se desenrola o tremendo drama do pecado. “Aquele filho, que recebe do pai a parte do património que lhe corres­ponde, e abandona a casa para o desbaratar num país longínquo, vivendo uma vida libertina, é, em certo sentido, o homem de todos os tempos, começando por aquele que em primeiro lugar perdeu a herança da graça e da justiça original. A analogia neste ponto é muito ampla. A parábola aborda indirectamente todo o tipo de rupturas da aliança de amor, todas as perdas da graça, todo o pecado” (Encíclica Dives in misericordia, nº 5; ver tb. Catecismo da Igreja Católica, nº 1439).

12 “Dá-me a parte da herança”: segundo Dt 21, 17 pertencia-lhe um terço, havendo só dois filhos. O pai podia fazer as partilhas em vida (cf. Sir 30, 28ss).

13 “Partiu…”: o pecado do filho foi abandonar o pai, esbanjar os seus bens e levar uma vida dissoluta.

14-16 “Uma grande fome: é a imagem do vazio e insatisfação que sente o homem quando está longe de Deus, em pecado. “Guardar porcos” era uma humilhação abominável para um judeu, a quem estava proibido criar e comer estes animais impuros. Esta situação para um filho duma boa família era absolutamente incrível, o cúmulo da baixeza e da servidão. As “alfarrobas”: o rapaz já se contentaria com uma tão indigesta e indigna comida, mas, na hora de se dar uma ração dessas aos porcos, ninguém se lembrava daquele miserável guardador! Aqui fica bem retratada a vileza do pecado e a escravidão a que se submete o homem pecador (cf. Rom 1, 25; 6, 6; Gal 5, 1). O filho pretendia ser livre da tutela do pai, mas acaba por perder a liberdade própria da sua condição: imagem do pecador que perde a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rom 8, 21; Gal 4, 31; 5, 13) e se sujeita à tirania do demónio, das paixões.

17 “Então, caindo em si…” A degradação a que a loucura do seu pecado o tinha levado fê-lo reflectir (é o começo da conversão) e enveredar pela única saída digna e válida.

18-19 “Vou-me embora”: A tradução latina (surgam) do particípio gráfico (mas não ocioso) do original grego –  “levantar-me-ei” – é muito mais expressiva, pois, duma forma viva, indica a atitude de quem começa a erguer-se da sua profunda miséria.

“Pequei contra o Céu e contra ti”: nesta expressão retrata-se a dimensão transcendente do pecado; não é uma simples ofensa a um homem, é ofender a Deus, uma ofensa de algum modo infinita! O filho não busca desculpas, reconhece sinceramente a enormidade da sua culpa.

“Trata-me como um dos teus trabalhadores”. É maravilhoso considerar como naquele filho arrependido começa a brotar o amar ao pai; o que ele ambiciona é ir para junto do pai, estar junto a ele é o que o pode fazer feliz! Melhorar a sua situação material não é o que mais o preocupa, pois, para isso, qualquer proprietário da sua pátria o podia admitir como jornaleiro. Por outro lado, não se atreve a pedir ao pai que o admita no gozo da sua antiga condição de filho, porque reconhece a sua indignidade: “já não mereço ser chamado teu filho”.

20 “Ainda ele estava longe, quanto o pai o viu”. Este pormenor faz pensar que o pai não só desejava ansiosamente o regresso do filho, mas também, muitas vezes, observava ao longe os caminhos, impaciente de ver o filho chegar quanto antes, uma enternecedora imagem de como Deus aguarda a conversão do pecador. “Encheu-se de compaixão”: o verbo grego é muito expressivo e difícil de traduzir com toda a sua força, esplankhnístê: “comoveram-se-lhe as entranhas” (tà splánkhna ). “E correu…”: é impressionante o contraste entre o pai que corre para o filho e o filho que simplesmente caminha para o filho – “a misericórdia corre” (comenta Sto. Agostinho);  “cobrindo-o de beijos”, numa boa tradução que tem em conta a forma iterativa do verbo grego, é uma belíssima e expressiva imagem do amor de Deus para com um pecador arrependido!

21 “Pai, pequei”. Apesar de se ver assim recebido pelo pai, o filho não se escusa de confessar o seu pecado e de manifestar a atitude interior que o move a regressar.

22 “A melhor túnica, o anel, o calçado”, são uma imagem da graça, o traje nupcial  (cf. Mt 22, 11-13); assim nos espera o Senhor no Sacramento da Reconciliação, não para nos ralhar, recriminar, mas para nos admitir na sua antiga intimidade, restituindo-nos, cheio de misericórdia, a graça perdida.

23 “Comamos e festejemos”, a imagem da Sagrada Eucaristia, segundo um sentido espiritual corrente.

25-32 “O filho mais velho”: esta segunda parte da parábola não se pode limitar a uma censura dos fariseus e escribas (v. 2), cumpridores, mas insensíveis ao amor – o mais velho é que é, no fim de contas, o filho mau –; a parábola é também uma lição para todos, a fim de que imitem a misericórdia de Deus para com um irmão que pecou (cf. Lc 6, 36); ele é sempre “o teu irmão” (v. 33), e não há direito de que não se tome a sério a misericórdia de Deus, com aquela despeitada ironia: “esse teu filho” (v 30). A misericórdia de Deus é tão grande, que ultrapassa uma lógica meramente humana; esta segunda parte da parábola põe em evidência a misericórdia de Deus a partir do contraste com a mesquinhez do filho mais velho.

5.º Domingo da Quaresma

1ª leitura Isaías 43, 16-21

 

16O Senhor abriu outrora caminhos através do mar, veredas por entre as torrentes das águas. 17Pôs em campanha carros e cavalos, um exército de valentes guerreiros; e todos caíram para não mais se levantarem, extinguiram-se como um pavio que se apaga. 18Eis o que diz o Senhor: “Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados, não presteis atenção às coisas antigas. 19Olhai: vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer; não a vedes? Vou abrir um caminho no deserto, fazer brotar rios na terra árida. 20Os animais selvagens – chacais e avestruzes – proclamarão a minha glória, porque farei brotar água no deserto, rios na terra árida, para matar a sede ao meu povo escolhido, 21o povo que formei para Mim e que proclamará os meus louvores”.

 

A leitura é tirada do II Isaías, que tem por centro o regresso dos judeus deportados na Babilónia, após a queda desta cidade em 539, com a invasão de Ciro, rei persa, que decretou a libertação dos judeus. Era urgente animar este povo a regressar, pois ao cabo de mais de 60 anos, já aclimatados àquela situação de degredo e escravidão, não estariam motivados para a aventura do regresso – haveria mesmo gente instalada numa situação sofrível. O Profeta apresenta o regresso de Babilónia como um novo Êxodo, em que os antigos prodígios não só se renovarão, mas os deixarão a perder de vista: “Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados” (v. 18). Vale a pena tomar parte em tão maravilhosa aventura! É também um apelo válido para a conversão quaresmal, que a Igreja espera dos seus filhos.

 

2ª leitura Filipenses 3, 8-14
 

Irmãos: 8Considero todas as coisas como prejuízo, comparando-as com o bem supremo, que é conhecer Jesus Cristo, meu Senhor. Por Ele renunciei a todas as coisas e considerei tudo como lixo, para ganhar a Cristo 9e n’Ele me encontrar, não com a minha justiça que vem da Lei, mas com a que se recebe pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus e se funda na fé. 10Assim poderei conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, configurando-me à sua morte, 11para ver se posso chegar à ressurreição dos mortos. 12Não que eu tenha já chegado à meta, ou já tenha atingido a perfeição. Mas continuo a correr, para ver se a alcanço, uma vez que também fui alcançado por Cristo Jesus. 13Não penso, irmãos, que já o tenha conseguido. Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, 14continuar a correr para a meta, em vista do prémio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus.

 

O texto desta leitura constitui uma das mais belas jóias dos escritos paulinos. Há mesmo exegetas pensam que esta carta é um conjunto de dois ou três pequenos escritos de S. Paulo. O contexto da passagem é a parte polémica desta carta do cativeiro (3, 1b – 4, 1), em que o Apóstolo põe os seus fiéis de sobreaviso contra os cristãos judaizantes, que queriam impor aos cristãos vindos dos gentios as práticas da lei de judaica, nomeadamente a circuncisão, vendo nelas uma forma de alcançar a justiça, a conformidade com Deus e com a sua vontade de modo a ser-Lhe agradável e a alcançar a salvação. A reacção de Paulo é extremamente enérgica e dura; confidencia que também ele tinha posto a sua confiança na carne (v. 4), sendo “irrepreensível quanto à justiça que deriva da observância da Lei” (v. 6); mas tinha-se dado nele uma viragem completa: em face do valor absoluto, o bem supremo, que é conhecer Cristo, tudo tinha mudado: “tudo quanto para mim era um ganho, isso mesmo considerei uma perda (v. 7).

8 “Conhecer Jesus Cristo” não é um mero conhecimento teórico, mas experimental, vivencial, de Cristo; por Ele, insiste o Apóstolo, eu deixei perder todas estas coisas: os pergaminhos judaicos – vv. 4-6 – em suma, a justiça que vem da Lei (v. 9); tudo isso é lixo, uma porcaria (v. 8: o termo grego – skybala – é mesmo muito duro, “excrementos”), em face da justiça que vem de Deus e da condição de estar em Cristo.

9 “A justiça que vem da Lei” não vai muito além da simples observância de prescrições, em que, de modo mais ou menos oculto, se aninha a afirmação do eu e das próprias capacidades para cumprir, e em que se reclama o mérito próprio perante Deus (como se o homem fosse o credor e Deus o devedor: lembre-se a parábola do fariseu e do publicano). “A justiça que vem de Deus” é um dom gratuito que eleva o ser humano tirando-o da sua radical incapaci­da­de para se identificar com o projecto salvador de Deus; funda-se na fé, isto é, no acolhimento e aceitação de Cristo como dom de Deus, nomeadamente do valor salvador do que Ele padeceu por nós.

10 “A participação nos seu sofrimentos” é um dos aspectos essenciais de quem faz a experiência da fé em Cristo (o referido conhecimento de Cristo); mas esta experiência de morte não desemboca no vazio, pois tem como força motriz (dynamis) a Ressurreição de Cristo, e tem como meta a participação neste mistério, que não deixa de aparecer também como prémio para quem corre para a meta (v. 14).

12 “Uma vez que também fui alcançado”. Paulo recorre com frequência às imagens das competições desportivas (cf. 2, 16; 1 Cor 9, 24-27; Gal 2, 2; 2 Tim 4, 6-8) para falar da vida cristã como uma luta. Apanhado por Cristo a caminho de Damasco (cf. Act 9, 3 ss), não deixa de correr, apenas muda o sentido da sua corrida.

 

Evangelho São João 8, 1-11
 

Naquele tempo, 1Jesus foi para o Monte das Oliveiras. 2Mas de manhã cedo, apareceu outra vez no templo e todo o povo se aproximou d’Ele. Então sentou-Se e começou a ensinar. 3Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério, colocaram-na no meio dos presentes 4e disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. 5Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?”. 6Falavam assim para Lhe armarem uma cilada e terem pretexto para O acusar. Mas Jesus inclinou-Se e começou a escrever com o dedo no chão. 7Como persistiam em interrogá-lo, ergueu-Se e disse-lhes: “Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra”. 8Inclinou-Se novamente e continuou a escrever no chão. 9Eles, porém, quando ouviram tais palavras, foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio. 10Jesus ergueu-Se e disse-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?”. 11Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Disse então Jesus: “Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar”.

 

Esta passagem de sabor lucano é omitida nos manuscritos mais antigos do IV Evangelho, por isso é uma das passagens deutrocanónicas do Novo Testamento; também há manuscritos que colocam este relato no final deste Evangelho, ou então em Lc 21, 38. De qualquer modo, está fora de dúvida o seu valor canónico.

5-6 “Tu que dizes?” Tratava-se duma cilada à pessoa de Jesus. Se Ele dissesse que se devia apedrejar a adúltera, os seus inimigos conseguiriam denegrir a sua misericórdia para com os pecadores, que chegava a ser motivo de duras críticas (cf. Lc 5, 30; 15, 2; 19, 7), e poderiam denunciá-lo à autoridade romana por mandar executar uma pena capital, que lhe estava reservada. Se dissesse que se lhe devia perdoar, podia vir a ser acusado ao Sinédrio como advogado da desobediência à Lei (cf. Lv 20, 10; Dt 17, 5-7; 22, 20-24). Mas Jesus põe a questão noutros termos: não se trata de escolher entre a observância da Lei e a misericórdia, entre a justiça e a caridade, mas sim entre a mentira e a verdade, entre a hipocrisia dos acusadores e a sinceridade de quem se reconhece pecador e chora o seu pecado. A Lei não determinava o género de morte, a não ser para a virgem que depois dos esponsais aguardava o início da vida conjugal (Dt 22, 23-24). Talvez se tivesse vindo a generalizar a lapidação, ou então tratava-se duma noiva após os esponsais e antes das bodas. Note-se que os rabinos da época cristã, por razão de benignidade, comutaram o apedrejamento pelo estrangula­men­to, pena menos selvagem.

6 “Começou a escrever com o dedo no chão”. S. Jerónimo, baseado em Jer 17, 13, comenta curiosamente que se pôs a escrever os pecados dos acusadores.

7-9 “Atire a primeira pedra”: isto pertencia pela Lei (Dt 13, 10; 17, 7) à principal testemunha de acusação. Com esta sentença, Jesus pretende confundir a malícia de falso zelo pela Lei, da parte dos seus inimigos, hipocritamente arvorados em defensores duma Lei que não observavam. A sentença de Jesus transforma os acusadores em acusados; e o receio de virem a ser desmascarados por Cristo fá-los debandar. 

11 “Nem Eu não te condeno. Vai e não tornes a pecar”. O Senhor mostra-se tolerante e compassivo para com a pessoa que peca e ao mesmo tempo intransigente para com o pecado, ofensa a Deus, e, neste caso, um absoluto moral, que em nenhuma circunstância se poderia justificar.

 

Domingo de Ramos

(Dia Mundial da Juventude)

 

EVANGELHO DA ENTRADA EM JERUSALÉM São Lucas 19, 28-40

Naquele tempo, 28Jesus seguia à frente dos seus discípulos, subindo para Jerusalém. 29Quando Se aproximou de Betfagé e de Betânia, perto do Monte das Oliveiras, enviou dois discípulos 30e disse-lhes: “Ide à povoação que está em frente e, ao entrardes nela, encontrareis um jumentinho preso, que ainda ninguém montou. Soltai-o e trazei-o. 31Se alguém perguntar porque o soltais, respondereis: ‘O Senhor precisa dele’”. 32Os enviados partiram e encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito. 33Quando estavam a soltar o jumentinho, os donos perguntaram: “Porque soltais o jumentinho?” Eles responderam: 34“O Senhor precisa dele”. 35Então levaram-no a Jesus e, lançando as capas sobre o jumentinho, fizeram montar Jesus. 36Enquanto Jesus caminhava, o povo estendia as suas capas no caminho. 37Estando já próximo da descida do Monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos começou a louvar alegremente a Deus em alta voz por todos os milagres que tinham visto, 38dizendo: “Bendito o Rei que vem em nome do Senhor. Paz no Céu e glória nas alturas!”. 39Alguns fariseus disseram a Jesus, do meio da multidão: “Mestre, repreende os teus discípulos”. 40Mas Jesus respondeu: “Eu vos digo: se eles se calarem, clamarão as pedras”.

 

A cena reveste-se de um carácter de entronização messiânica de Jesus, ao cumprir-se a profecia de Zac 9, 9, e ao ser aclamado com o Salmo de entronização do Rei-Messias: Salm 119 (118), 26.

28 “Subindo para Jerusalém”, isto é, vindo de Jericó, pelo caminho a pique que levaria umas 5 ou 6 horas e que vai dar a Betfagé (casa dos figos), entre Betânia e o cimo do Monte das Oliveiras.

39 “Clamarão as pedras”. Fórmula proverbial, clara e enérgica, tão ao jeito de Jesus, com que confirma perante os próprios adversários a sua dignidade messiânica e a sua realeza; isto era já uma realidade tão importante e notória, que, se os homens se negam a reconhecê-la, será a própria natureza muda a proclamá-la. Por outro lado, Jesus já tinha cumprido a sua missão de pregar o Evangelho e de instruir os Apóstolos, por isso não havia que temer qualquer tumulto popular, ao apresentar-se solenemente como Messias-Rei.

Missa

1ª Leitura Isaías 50, 4-7

 

4O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. 5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. 6Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.

 

Quem está a falar neste 3° poema do Servo de Yahwéh é o próprio servo, que representa profeticamente Jesus Cristo. Apresenta-se “a falar como um discípulo”, embora não se trate de um discípulo qualquer: é um discípulo do Senhor (cf. Is 54, 13), instruído pelo próprio Deus, tal como dirá Jesus: “a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7, 16; cf. 14, 24).

5 “Eu não resisti nem recuei”. Mesmo os maiores profetas e os maiores santos tiveram a consciência clara de opor alguma resistência, embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés e Jeremias (cf. Ex 3, 11; 4, 10; Jer 1, 6). Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc 22, 42).

6 “Apresentei as costas àqueles que me batiam... não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam”. Um pleno cumprimento deu-se no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt 26, 67; 27, 26-30; Lc 22, 63-64; etc.

 

leitura Filipenses 2, 6-11

 

6Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, 7mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, 8humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. 9Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, 10para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, 11e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

 

A leitura constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo, que muitos exegetas pensam ser anterior ao este escrito paulino e a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do Novo Testamento.

6 “De condição divina”. Literalmente: “existindo em forma de Deus”. Ora esta forma (morfê) de Deus, ainda que não significasse directamente a natureza divina, pelo menos indicaria a glória e a majestade, atributos especificamente divinos na linguagem bíblica. De qualquer modo, como bem observa Heinrich Schlier, a expressão em forma de Deus não quer dizer que Deus tenha uma forma como a têm os homens, mas significa que Jesus “tinha um ser como Deus, um ser divino”.

“Não se valeu da sua igualdade com Deus”. Há diversas possibilidades de tradução desta rica expressão, segundo se considera o termo grego harpagmós em sentido activo (roubo), ou passivo (coisa roubada): a Vulgata traduz: “não considerou uma usurpação (rapinam) o ser igual a Deus” (sentido activo) ; segundo a interpretação dos Padres Gregos, a que se ateve a nossas tradução (sentido passivo), teríamos: “não considerou como algo cobiçado (harpagmón) … Há quem pense que S. Paulo quer fazer ressaltar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram vir a ser iguais a Deus  (cf. Gn 3, 5.22) e a atitude humilde de Jesus que, sendo Deus, se quis fazer “semelhante aos homens”  (v. 7).

7 “Mas aniquilou-se a si próprio”, à letra, esvaziou-se: Jesus Cristo, ao fazer-se homem, não se despojou da natureza divina, mas sim da glória ou manifestação sensível da majestade que Lhe competia em virtude da chamada união hipostática (na pessoa do Filho eterno de Deus, a natureza humana e a natureza divina unidas numa união misteriosa). “Assumindo a condição de servo”, o que não significa a condição social de escravo, mas a “forma” (morfê) de se conduzir própria de um ser pobre e dependente, cumprindo a figura do “servo de Yahwéh”,  a que se refere a primeira leitura de hoje; “tornou-se semelhante aos homens, aparecendo como homem”, não apenas, como queria a heresia doceta, nas aparências (skhêmati), mas no sentido em que o homem é “semelhante” (en homoiômati) dos outros homens, em tudo igual excepto no pecado (cf. Hebr 4, 15);“humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz” (v. 8). Note-se como é posta em relevo esta obediência e aniquilamento – a kénosis – de Cristo, num sublime crescendo de humilhação em humilhação: feito homem, assume a condição de escravo, Ele obedece, e com uma obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz – homem, escravo, malfeitor!

9-11 Mas este aniquilamento – o tremendo escândalo da Cruz – não foi uma derrota, o desfecho dum história trágica com que tudo acabou; temos o sublime paradoxo da sua “exaltação”: foi “por isso” mesmo que “Deus” (não Ele próprio, mas o Pai) “O exaltou” de modo singularíssimo (à letra, acima de tudo o que existe: tenha-se em conta hypér na composição do verbo grego ), o que se deu na glorificação da humanidade de Jesus com a sua Ressurreição e Ascensão. A esta exaltação corresponde o “nome” que Lhe é dado por Deus, o mesmo nome com que passa a ser invocado pela multidão de todos os crentes de todos os tempos: já não é apenas o nome usado na sua vida terrena e que consta da sentença que o condenou à morte de cruz – Jesus –, mas com o mesmo nome com que o próprio Deus é designado na tradução grega do nome divino “Yahwéh” – “Senhor” (Kyrios). A todos pertence proclamar e reconhecer a divindade de Jesus – “toda a língua proclame que Jesus Cristo é Senhor” (mais expressivo sem artigo, como no original grego) e o seu domínio sobre toda a criação – “no céu, na terra e nos abismos, para glória de Deus Pai” (A tradução da velha Vulgata neste ponto era pouco expressiva e deficiente: “que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai” ).

Independentemente da discussão acerca do aniquilamento de que aqui se fala, se ele visa ou não directamente o mistério da Incarnação, fica bem claro que Jesus não é um simples servo do Senhor que vem a ser exaltado por Deus, pois Ele é Deus que se abaixa e depois vem a ser exaltado. Também fica patente que a fé na divindade de Jesus não é o fruto duma elaboração teológica tardia, pois a epístola é, quando muito, do ano 62, se não é mesmo de cerca de 56 (como pensam muitos), e, como dissemos, estes versículos fariam parte dum hino litúrgico a Cristo, anterior à epístola. Assim pensa, por exemplo, o notável Professor protestante de Tubinga, Martin Hengel.

 

Evangelho Forma longa: São Lucas 22, 14 – 23, 56             Forma breve: São Lucas 23, 1-49

[N      14Quando chegou a hora, Jesus sentou-Se à mesa com os seus Apóstolos 15e disse-lhes:

J        “Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de padecer; 16pois digo-vos que não tornarei a comê-la, até que se realize plenamente no reino de Deus”.

N       17Então, tomando um cálice, deu graças e disse:

J        “Tomai e reparti entre vós, 18pois digo-vos que não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o reino de Deus”.

N       19Depois tomou o pão e, dando graças, partiu-o e deu-lho, dizendo:

J        “Isto é o meu corpo entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim”.

N       20No fim da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo:

J        “Este cálice é a nova aliança no meu Sangue, derramado por vós. 21Entretanto, está comigo à mesa a mão daquele que Me vai entregar. 22O Filho do homem vai partir, como está determinado. Mas ai daquele por quem Ele vai ser entregue!”

N       23Começaram então a perguntar uns aos outros qual deles iria fazer semelhante coisa. 24Levantou-se também entre eles uma questão: qual deles se devia considerar o maior? 25Disse-lhes Jesus:

J        “Os reis das nações exercem domínio sobre elas e os que têm sobre elas autoridade são chamados benfeitores. 26Vós não deveis proceder desse modo. O maior entre vós seja como o menor e aquele que manda seja como quem serve. 27Pois quem é o maior: o que está à mesa ou o que serve? Não é o que está à mesa? Ora Eu estou no meio de vós como aquele que serve. 28Vós estivestes sempre comigo nas minhas provações. 29E Eu preparo para vós um reino, como meu Pai o preparou para Mim: 30comereis e bebereis à minha mesa, no meu reino, e sentar-vos-eis em tronos, a julgar as doze tribos de Israel. 31Simão, Simão, Satanás vos reclamou para vos agitar na joeira como trigo. 32Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos”.

N       33Pedro respondeu-Lhe:

R       “Senhor, eu estou pronto a ir contigo, até para a prisão e para a morte”.

N       34Disse-lhe Jesus:

J        “Eu te digo, Pedro: não cantará hoje o galo, sem que tu, por três vezes, negues conhecer-Me”.

N       35Depois acrescentou:

J        “Quando vos enviei sem bolsa nem alforge nem sandálias, faltou-vos alguma coisa?”.

N       Eles responderam que não lhes faltara nada. 36Disse-lhes Jesus:

J        “Mas agora, quem tiver uma bolsa pegue nela, bem como no alforge; e quem não tiver espada venda a capa e compre uma. 37Porque Eu vos digo que se deve cumprir em Mim o que está escrito: ‘Foi contado entre os malfeitores’. Na verdade, o que Me diz respeito está a chegar ao fim”.

N       38Eles disseram:

R       “Senhor, estão aqui duas espadas”.

N       Mas Jesus respondeu:

J        “Basta”.

N       39Então saiu e foi, como de costume, para o Monte das Oliveiras e os discípulos acompanharam-n’O. 40Quando chegou ao local, disse-lhes:

J        “Orai, para não entrardes em tentação”.

N       41Depois afastou-Se deles cerca de um tiro de pedra e, pondo-Se de joelhos, começou a orar, dizendo:

J        42”Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice. Todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua”.

N       43Então apareceu-Lhe um Anjo, vindo do Céu, para O confortar. 44Entrando em angústia, orava mais instantemente e o suor tornou-se-Lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra. 45Depois de ter orado, levantou-Se e foi ter com os discípulos, que encontrou a dormir, por causa da tristeza. 46Disse-lhes Jesus:

J        “Porque estais a dormir? Levantai-vos e orai, para não entrardes em tentação”.

N       47Ainda Ele estava a falar, quando apareceu uma multidão de gente. O chamado Judas, um dos Doze, vinha à sua frente e aproximou-se de Jesus, para O beijar. 48Disse-lhe Jesus:

J        “Judas, é com um beijo que entregas o Filho do Homem?”.

N       49Ao verem o que ia suceder, os que estavam com Jesus perguntaram-Lhe:

R       “Senhor, vamos feri-los à espada?”

N       50E um deles feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. 51Mas Jesus interveio, dizendo:

J        “Basta! Deixai-os”.

N       E, tocando na orelha do homem, curou-o. 52Disse então Jesus aos que tinham vindo ao seu encontro, príncipes dos sacerdotes, oficiais do templo e anciãos:

J        “Vós saístes com espadas e varapaus, como se viésseis ao encontro dum salteador. 53Eu estava todos os dias convosco no templo e não Me deitastes as mãos. Mas esta é a vossa hora e o poder das trevas.

N       54Apoderaram-se então de Jesus, levaram-n’O e introduziram-n’O em casa do sumo sacerdote. Pedro seguia-os de longe. 55Acenderam uma fogueira no meio do pátio, sentaram-se em volta dela e Pedro foi sentar-se no meio deles. 56Ao vê-lo sentado ao lume, uma criada, fitando os olhos nele, disse:

R       “Este homem também andava com Jesus”

N       57Mas Pedro negou:

R       “Não O conheço, mulher”.

N       58Pouco depois, disse outro, ao vê-lo:

R       “Tu também és um deles”.

N       Mas Pedro disse:

R       “Homem, não sou”.

N       59Passada mais ou menos uma hora, afirmava outro com insistência:

R       “Esse homem, com certeza, também andava com Jesus, pois até é galileu”.

N       60Pedro respondeu:

R       “Homem, não sei o que dizes”.

N       Nesse instante, ainda ele falava, um galo cantou. 61O Senhor voltou-Se e fitou os olhos em Pedro. Então Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, quando lhe disse: ‘Antes do galo cantar, Me negarás três vezes’. 62E, saindo para fora, chorou amargamente. 63Entretanto, os homens que guardavam Jesus troçavam d’Ele e maltratavam-n’O. 64Cobrindo-Lhe o rosto, perguntavam-Lhe:

R       “Adivinha, profeta: Quem Te bateu?”

N       65E dirigiam-Lhe muitos outros insultos. 66Ao romper do dia, reuniu-se o conselho dos anciãos do povo, os príncipes dos sacerdotes e os escribas. Levaram-n’O ao seu tribunal e disseram-Lhe:

R       67”Diz-nos se Tu és o Messias”.

N       Jesus respondeu-lhes:

J        “Se Eu vos disser, não acreditareis 68e, se fizer alguma pergunta, não respondereis. 69Mas o Filho do homem sentar-Se-á doravante à direita do poder de Deus”.

N       70Disseram todos:

R       “Tu és então o Filho de Deus?”

N       Jesus respondeu-lhes:

J        “Vós mesmos dizeis que Eu sou”.

N       71Então exclamaram:

R       “Que necessidade temos ainda de testemunhas? Nós próprios o ouvimos da sua boca”.]

N       1Levantaram-se todos e levaram Jesus a Pilatos. 2Começaram a acusá-l’O, dizendo:

R       “Encontrámos este homem a sublevar o nosso povo, a impedir que se pagasse o tributo a César e dizendo ser o Messias-Rei”.

N       3Pilatos perguntou-Lhe:

R       “Tu és o Rei dos judeus?”

N       Jesus respondeu-lhe:

J        “Tu o dizes”.

N       4Pilatos disse aos príncipes dos sacerdotes e à multidão:

R       “Não encontro nada de culpável neste homem”.

N       5Mas eles insistiam:

R       “Amotina o povo, ensinando por toda a Judeia, desde a Galileia, onde começou, até aqui”.

N       6Ao ouvir isto, Pilatos perguntou se o homem era galileu; 7e, ao saber que era da jurisdição de Herodes, enviou-O a Herodes, que também estava nesses dias em Jerusalém. 8Ao ver Jesus, Herodes ficou muito satisfeito. Havia bastante tempo que O queria ver, pelo que ouvia dizer d’Ele, e esperava que fizesse algum milagre na sua presença. 9Fez-Lhe muitas perguntas, mas Ele nada respondeu.10Os príncipes dos sacerdotes e os escribas que lá estavam acusavam-n’O com insistência. 11Herodes, com os seus oficiais, tratou-O com desprezo e, por troça, mandou-O cobrir com um manto magnífico e remeteu-O a Pilatos. 12Herodes e Pilatos, que eram inimigos, ficaram amigos nesse dia. 13Pilatos convocou os príncipes dos sacerdotes, os chefes e o povo, e disse-lhes:

R       14”Trouxestes este homem à minha presença como agitador do povo. Interroguei-O diante de vós e não encontrei n’Ele nenhum dos crimes de que O acusais. 15Herodes também não, uma vez que no-l’O mandou de novo. Como vedes, não praticou nada que mereça a morte. 16Vou, portanto, soltá-l’O, depois de O mandar castigar”.

N       17Pilatos tinha obrigação de lhes soltar um preso por ocasião da festa. 18E todos se puseram a gritar:

R       “Mata Esse e solta-nos Barrabás”.

N       19Barrabás tinha sido metido na cadeia por causa de uma insurreição desencadeada na cidade e por assassínio. 20De novo Pilatos lhes dirigiu a palavra, querendo libertar Jesus. 21Mas eles gritavam:

R       “Crucifica-O! Crucifica-O!”

N       22Pilatos falou-lhes pela terceira vez:

R       “Mas que mal fez este homem? Não encontrei n’Ele nenhum motivo de morte. Por isso vou soltá-l’O, depois de O mandar castigar”.

N       23Mas eles continuavam a gritar, pedindo que fosse crucificado, e os seus clamores aumentavam de violência. 24Então Pilatos decidiu fazer o que eles pediam: 25soltou aquele que fora metido na cadeia por insurreição e assassínio, como eles reclamavam, e entregou-lhes Jesus para o que eles queriam. 26Quando O conduziam, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que vinha do campo, e puseram-lhe a cruz às costas, para a levar atrás de Jesus. 27Seguia-O grande multidão de povo e mulheres que batiam no peito e se lamentavam, chorando por Ele. 28Mas Jesus voltou-Se para elas e disse-lhes:

J        “Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos; 29pois dias virão em que se dirá: ‘Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram’. 30Começarão a dizer aos montes: ‘Caí sobre nós’; e às colinas: ‘Cobri-nos’. 31Porque, se tratam assim a madeira verde, que acontecerá à seca?”.

N       32Levavam ainda dois malfeitores para serem executados com Jesus. 33Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-n’O a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. 34Jesus dizia:

J        “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.

N       Depois deitaram sortes, para repartirem entre si as vestes de Jesus. 35O povo permanecia ali a observar. Por sua vez, os chefes zombavam e diziam:

R       “Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito”.

N       36Também os soldados troçavam d’Ele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam:

R       37”Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo”.

N       38Por cima d’Ele havia um letreiro: “Este é o Rei dos judeus”. 39Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-O, dizendo:

R       “Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também”.

N       40Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o:

R       “Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? 41Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más acções. Mas Ele nada praticou de condenável”.

N       42E acrescentou:

R       “Jesus, lembra-Te de mim, quando vieres com a tua realeza”.

N       43Jesus respondeu-lhe:

J        “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso”.

N       44Era já quase meio-dia, quando as trevas cobriram toda a terra, até às três horas da tarde, porque o sol se tinha eclipsado. 45O véu do templo rasgou-se ao meio. 46E Jesus exclamou com voz forte:

J        “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”.

N       Dito isto, expirou. (Todos ajoelham para uma pausa em silêncio) 47Vendo o que sucedera, o centurião deu glória a Deus, dizendo:

R       “Realmente este homem era justo”.

N       48E toda a multidão que tinha assistido àquele espectáculo, ao ver o que se passava, regressava batendo no peito. 49Todos os conhecidos de Jesus, bem como as mulheres que O acompanhavam desde a Galileia, mantinham-se à distância, observando estas coisas.

 [50Havia um homem chamado José, da cidade de Arimateia, que era pessoa recta e justa e esperava o reino de Deus. Era membro do Sinédrio, 51mas não tinha concordado com a decisão e o proceder dos outros. 52Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. 53E depois de o ter descido da cruz, envolveu-o num lençol e depositou-o num sepulcro escavado na rocha, onde ninguém ainda tinha sido sepultado. 54Era o dia da Preparação e começavam a aparecer as luzes do sábado. 55Entretanto, as mulheres que tinham vindo com Jesus da Galileia acompanharam José e observaram o sepulcro e a maneira como fora depositado o corpo de Jesus. 56No regresso, prepararam aromas e perfumes. E no sábado guardaram o descanso, conforme o preceito.]

 

A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente e com grande intensidade dramática por todos os quatro Evangelistas é a sua Paixão. Ela é a culminância de toda a vida e obra redentora de Cristo. Os padecimentos colossais que o Senhor abraçou voluntariamente põem em evidência, do modo mais significativo, tanto o seu amor infinito por todos e cada um de nós (cf. Gal 2, 20), como a tremenda gravidade dos nossos pecados (cf. Gal 1, 4).

N.B.—Podem, ver-se mais comentários sobre a Paixão do Senhor, em Sexta-feira Santa. Limitamo-nos a anotar os pormenores exclusivos de S. Lucas, nomeadamente coisas que põem em evidência a misericórdia e a preocupação pelos outros que Jesus manifesta, quando era Ele quem devia merecer toda a atenção em horas tão aflitivas. Assim, temos mais pormenores no relato da Ceia, começando pela manifestação do desejo ardente que Jesus tinha de celebrar esta Páscoa (22, 15-16) e conservando o pormenor do ritual judaico da bênção e entrega do 1º cálice (22, 17); a oração especial para que a fé de Pedro não desfaleça (22, 31-32); o episódio das duas espadas (Lc 22, 35-38); Jesus cura o criado ferido pela espada de Pedro (22, 51); Jesus diante de Herodes (23, 6-12); Pilatos declara Jesus inocente (23, 13-16); Jesus consola as mulheres a caminho do Calvário (23, 27-31); Jesus pede perdão ao Pai para os que o crucificam (23, 34); o diálogo com o ladrão arrependido (23, 40-43); o véu do santuário que se rasga ao meio (23, 45); as palavras de Jesus ao expirar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (23, 46); a multidão que regressa do Calvário contrita, batendo no peito (23, 48); o regresso das mulheres do túmulo, que preparam perfumes e essências, mas observando o repouso sabático (23, 56).

 

Quinta Feira Santa

 

1ª Leitura Êxodo 12, 1-8.11-14

 

1Naqueles dias, o Senhor disse a Moisés e a Aarão na terra do Egipto: 2”Este mês será para vós o princípio dos meses; fareis dele o primeiro mês do ano. 3Falai a toda a comunidade de Israel e dizei-lhe: No dia dez deste mês, procure cada qual um cordeiro por família, uma rês por cada casa. 4Se a família for pequena demais para comer um cordeiro, junte-se ao vizinho mais próximo, segundo o número de pessoas, tendo em conta o que cada um pode comer. 5Tomareis um animal sem defeito, macho e de um ano de idade. Podeis escolher um cordeiro ou um cabrito. 6Deveis conservá-lo até ao dia catorze desse mês. Então, toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao cair da tarde. 7Recolherão depois o seu sangue, que será espalhado nos dois umbrais e na padieira da porta das casas em que o comerem. 8E comerão a carne nessa mesma noite; comê-la-ão assada ao fogo, com pães ázimos e ervas amargas. 11Quando o comerdes, tereis os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão. Comereis a toda a pressa: é a Páscoa do Senhor. 12Nessa mesma noite, passarei pela terra do Egipto e hei-de ferir de morte, na terra do Egipto, todos os primogénitos, desde os homens até aos animais. Assim exercerei a minha justiça contra os deuses do Egipto, Eu, o Senhor. 13O sangue será para vós um sinal, nas casas em que estiverdes: ao ver o sangue, passarei adiante e não sereis atingidos pelo flagelo exterminador, quando Eu ferir a terra do Egipto. 14Esse dia será para vós uma data memorável, que haveis de celebrar com uma festa em honra do Senhor. Festejá-lo-eis de geração em geração, como instituição perpétua”.

 

Temos aqui, num texto de tipo catequético-litúrgico, a promulgação da lei da Páscoa judaica como “instituição perpétua” a ser festejada por todas as gerações (v. 14). Na origem desta festa da “Páscoa” – dum étimo semítico: salto festivo – parece estar uma antiga festa de pastores nómadas, própria da Primavera, a época em que nascem os cordeiros; então sacrificavam um cordeiro recém-nascido e com o seu sangue faziam ritos a implorar protecção e a fecundidade. Também pela época da Primavera parece que havia outra festa, a dos “Ázimos”, com o sentido de novidade e rotura com o passado (o fermento). As duas festas vieram a fundir-se numa só. A Toráh terá assumido estas duas festas, dando-lhes o novo e profundo significado que neste texto legal fica bem assinalado, para celebrar a libertação do Egipto.

A ceia pascal é celebrada na noite de 14 para 15 do mês de Nisan (Março/Abril), a noite da lua cheia que se seguia ao equinócio da primavera, pois o 1° dia do mês era o 1º dia da lua nova; então se comiam os pães ázimos, isto é, sem fermento (do grego a-zymê , em hebraico, os matsôth ) durante os sete dias da festa, de 15 a 21 de Nisan. O cordeiro imolado recordava aquele outro cordeiro com cujo sangue os israelitas marcaram as suas portas para que o “o flagelo exterminador”  ali não atingisse ninguém. A própria palavra “Páscoa”, com uma etimologia muito discutida, pode provir do étimo psh, que significa saltar, passar por cima de, prestando-se a significar o flagelo mortal que passou ao largo das casas dos israelitas (cf. Ex 12, 27) na região de Guéssen ou Góxen; neste texto a palavra Páscoa é entendida como a passagem do Senhor, a fim de libertar o seu povo. O pão sem fermento lembrava a pressa com que os israelitas saíram do Egipto, tendo de levar consigo a massa do pão antes de ter fermentado (Ex 12, 34.39).

No entanto, a celebração da Páscoa não era para os israelitas uma mera recordação agradecida da libertação duma escravidão passada, mas era algo que os orientava para uma libertação futura completa e definitiva, que se haveria de dar com a vinda do Messias. Havia mesmo uma crença judaica em que o Messias viria numa noite de Páscoa: “nesta noite foram libertados, e nela também serão libertos” . Esta alegre esperança manifestava-se no costume, que ainda hoje se mantém, de deixar um lugar vazio à mesa, para alguém que chegue na última hora, que afortunadamente poderia ser o profeta Elias, precursor do Messias. De facto, um dia o próprio Messias havia de se pôr à mesa da ceia pascal, rodeado dos seus discípulos, para então inaugurar a era da autêntica e definitiva libertação. Jesus é o verdadeiro cordeiro pascal (1 Cor 5, 7; Jo 19, 36) que se oferece em sacrifício, com cujo sangue somos redimidos e com cuja carne somos alimentados no banquete eucarístico, prelúdio do banquete celeste (cf. Mc 14, 25). Os samaritanos ainda hoje celebram a Páscoa como se descreve neste texto do Êxodo, sem refeição solene, sem vinho e à pressa. Os judeus celebram-na como refeição solene; já era assim no tempo de Jesus, em razão de já terem saído da escravidão para a liberdade; mas, em vez de comerem sentados como habitualmente, comiam recostados sobre esteiras ou divãs, apoiando-se sobre o braço esquerdo, a partir da época helenística (cf. Lc 22, 14).

 

2ª leitura 1 Coríntios 11, 23-26

 

Irmãos: 23Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, 24partiu-o e disse: “Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim”. 25Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim”. 26Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.

 

Temos aqui o relato da última Ceia, o mais antigo dos quatro que aparecem no N. T., escrito apenas uns 25 anos após o acontecimento. São Paulo diz que isto mesmo já o tinha pregado aos cristãos (v. 23) uns quatro anos atrás, durante os 18 meses em que evangelizou a cidade de Corinto, por ocasião da sua segunda viagem.

23 “Recebi do Senhor”: O original grego (com o uso da preposição apó  e não pará) deixa ver que S. Paulo recebeu esta doutrina pela tradição que remonta ao Senhor e não directamente dele, por meio de alguma revelação, como alguém poderia pensar. “Na noite em que ia ser entregue”: celebramos hoje uma dupla entrega do Senhor, a sua entrega às mãos dos seus inimigos, para a morrer pelos nossos pecados e nos ganhar a vida divina, e a entrega no Sacramento da SS. Eucaristia, como alimento desta mesma vida divina. Para o seu amor infinito, é pouco dar-se todo uma só vez por todos; quer dar-se todo a cada um de nós todas as vezes que nos disponhamos a recebê-lo!

24 “Isto é o Meu Corpo”: A expressão de Jesus é categórica e terminante, sem deixar lugar a mal entendidos. Não diz “aqui está o meu corpo” , nem “isto simboliza o meu corpo” , mas sim: “isto é o meu corpo” , como se dissesse “este pão já não é pão, mas é o meu corpo”, equivalendo a “isto sou Eu mesmo” . Todas as tentativas heréticas de entender estas palavras num sentido meramente simbólico, fazem violência ao texto e não têm seriedade. É certo que o verbo “ser”  também pode ter o sentido de “ser como” , “significar” , mas isto é só quando do contexto se possa depreender que se trata duma comparação, o que não se dá aqui, pois não se vê facilmente como o pão seja como o Corpo de Jesus, ou como é que o pode significar. Atenda-se a que Jesus, com a palavra isto não se refere à acção de partir o pão, pois não pronuncia estas palavras enquanto parte o pão, mas depois de o ter partido; portanto não tem sentido dizer que, com a fracção do pão, o Senhor queria representar o despedaçar do seu corpo por uma morte violenta (o corpo entregue ); Jesus não podia querer dizer tal coisa, pois, se o quisesse dizer, havia de o explicitar, uma vez que o gesto de partir o pão era um gesto usual do chefe da mesa em todas as refeições, não sendo possível ver um outro sentido; por outro lado, o beber do cálice também não se podia prestar a um tal sentido.

Os Apóstolos vieram a entender as palavras de Jesus no seu verdadeiro realismo, como aparecem no discurso do Pão da Vida (Jo 6, 51-58). Se Jesus não quisesse dar este sentido realista às suas palavras, também os seus discípulos e a primitiva Igreja não lho podiam dar, porque beber o sangue era algo sumamente escandaloso para gente criada no judaísmo, que ia ao ponto de proibir a comida do sangue e até mesmo de animais não sangrados. Se S. Paulo não entendesse estas palavras de Jesus num sentido realista, não teria podido afirmar no v. 27 (omitido na leitura de hoje): “quem comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor”; e no v. 29 fala de “distinguir o corpo do Senhor”.

Paulo VI, na encíclica Misterium fidei, rejeitou as explicações teológicas (transignificação e transfinalização) que não respeitem suficientemente o realismo da presença real:  “Mas para que, ninguém entenda erroneamente este modo de presença, que supera as leis da natureza e constitui o maior dos milagres no seu género, é preciso seguir com docilidade a voz da Igreja docente e orante. Pois bem, esta voz, que é um eco perene da voz de Cristo, assegura-nos que Cristo se torna presente neste Sacramento pela conversão de toda a substância do pão no seu corpo e de toda a substância no vinho no seu sangue; conversão admirável e singular à qual a Igreja justamente e com propriedade chama transubstanciação” (atenda-se a que aqui a noção de substância não é a da Física ou da Química, mas a da Metafísica).

24-25 “Fazei isto em memória de Mim”: Com estas palavras, Jesus Cristo entrega aos Apóstolos (e aos seus sucessores) o poder ministerial de celebrar o Mistério Eucarístico; por isso, Quinta-Feira Santa é o dia do sacerdócio e dos sacerdotes.

25 “A Nova Aliança com o meu Sangue”: Jesus compara o seu sangue, que vai derramar na cruz, ao sangue do sacrifício da Aliança do Sinai (cf. Ex 24, 8), como sendo o novo sacrifício com que se ratifica a Nova Aliança de Deus com a Humanidade, aliança anunciada pelos profetas (Jer 31, 31-33). Na Ceia temos o mesmo sacrifício do Calvário antecipado sacramentalmente através das palavras do próprio Jesus. Na Missa temos igualmente o mesmo sacrifício da Cruz renovado e representado sacramentalmente através da dupla consagração feita pelo sacerdote que actua na pessoa e em nome de Cristo, sendo Ele o mesmo oferente principal, a mesma vítima e sendo os merecimentos os mesmos do único Sacrifício redentor a serem aplicados, Sacrifício oferecido de uma vez para sempre (efápax: cf. Hebr 9, 25-28; 10, 10.18).

26 Anunciareis a Morte do Senhor”: No altar já não se derrama o sangue de Cristo, como na Cruz, mas oferece-se, de modo incruento, o mesmo sacrifício; “a Missa é ao mesmo tempo e inseparavelmente, o memorial sacrificial em que se perpetua o sacrifício da cruz e o banquete sagrado da comunhão do corpo e sangue do Senhor” (Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 12).

 

Evangelho São João 13, 1-15

 

1Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. 2No decorrer da ceia, tendo já o Demónio metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de O entregar, 3Jesus, sabendo que o Pai Lhe tinha dado toda a autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, 4levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha que pôs à cintura. 5Depois, deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura. 6Quando chegou a Simão Pedro, este disse-Lhe: “Senhor, Tu vais lavar-me os pés?” 7Jesus respondeu: “O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde”. 8Pedro insistiu: “Nunca consentirei que me laves os pés”. Jesus respondeu-lhe: “Se não tos lavar, não terás parte comigo”. 9Simão Pedro replicou: “Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça”. 10Jesus respondeu-lhe: “Aquele que já tomou banho está limpo e não precisa de lavar senão os pés. Vós estais limpos, mas não todos”. 11Jesus bem sabia quem O havia de entregar. Foi por isso que acrescentou: “Nem todos estais limpos”. 12Depois de lhes lavar os pés, Jesus tomou o manto e pôs-Se de novo à mesa. Então disse-lhes: “Compreendeis o que vos fiz? 13Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. 14Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. 15Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também”.

 

1. “Antes da festa da Páscoa”: A ceia de que aqui se fala (v. 2) não é descrita como sendo a Ceia Pascal dos Sinópticos (Mt 26, 17-35; Mc 14, 12-31; Lc 22, 7-39), mas não pode ser outra, por se tratar da mesma da noite em que Jesus foi preso. Se S. João se limita a dizer “antes da festa da Páscoa”, sem precisar que era a véspera (a Preparação), é porque ele quer que se entenda a morte de Jesus como a imolação do cordeiro pascal, ao colocá-la no mesmo dia (a Preparação: 19, 31.42) em que no templo eram imolados os cordeiros para a festa; sendo assim, evita intencionalmente o dar à Última Ceia qualquer carácter pascal; e pensamos que esta pode ser uma séria razão para não falar da instituição da Eucaristia, referida no discurso do Pão da Vida (cf. Jo 6, 51-58).

“Amou-os até ao fim”, isto é, até à consumação (19, 30), indicando o seu amor de total entrega, até à morte (cf. 15, 13; 1 Jo 3, 16; Gal 2, 20), embora com esta não termine o seu amor, pois “não só até aqui nos amou quem nos ama sempre e sem fim” (Santo Agostinho); também ver-se aqui uma alusão ao amor revelado na instituição da Eucaristia que S. João não conta, natural­men­te por já lhe ter dedicado todo o capítulo VI e, como já se disse, para evitar dar a esta ceia um carácter pascal. Outra tradução possível: “levou o seu amor por eles até ao extremo” . Jesus não só amou os seus até ao último momento da sua vida terrena, mas não podia amá-los mais: amou-nos até à loucura e da Cruz e da Eucaristia.

3 “Jesus, sabendo...” Lavar os pés era um ofício exclusivo de escravos (1 Sam 25, 41) e os rabinos chegavam a explicitar que só se devia impor esse humilhante serviço a escravos que não fossem da raça hebraica, baseando-se em Lv 25, 39. Jesus, ao sujeitar-se a esse gesto aviltante, não renuncia à sua dignidade de Filho de Deus; a oposição decidida de Pedro mostra o profundo choque causado pela atitude do Senhor. Não se pode estabelecer o momento exacto do lava-pés, pois não estavam previstas lavagens dos pés na Ceia, mas apenas o lavar das mãos; o que Jesus realiza é antes de mais uma acção simbólica, à maneira dos profetas. Talvez a discussão travada na Ceia sobre quem seria o maior dos Apóstolos (cf. Lc 22, 24) tenha levado Jesus a dar-lhes uma lição com o seu gesto: é maior aquele que mais serve. Aparecem assim dois significados no gesto de Jesus: um simbólico e outro de exemplo a imitar. Nos vv. 6-11, aparece mais o valor simbólico: Jesus é quem purifica os seus dos seus pecados e sem isso não se pode ter parte com Ele (v. 8), purificação que é um efeito da sua Morte redentora. Nos vv. 14-15, Jesus propõe o seu exemplo para ser imitado: “Eu vos lavei os pés, sendo Mestre e Senhor, também vós deveis lavar os pés uns aos outros”, isto é, prestar aos outros todos os serviços, mesmo os mais humildes e humilhantes. Ter autoridade na Igreja (e também na sociedade civil) não é ter à disposição os outros para ser servido, mas é estar à disposição de todos para os servir eficazmente. A vida cristã consiste em imitar o exemplo de Jesus Cristo: 1 Pe 2, 21; 1 Jo 2, 6; Fil 2, 5; 1 Cor 11, 1; Ef 5, 1; 1 Tes 1, 6...

 

Sexta-Feira Santa (Celebração da Paixão do Senhor)

 

1ª leitura Isaías 52, 13-15 – 53, 1-12

 

13Vede como vai prosperar o meu servo: subirá, elevar-se-á, será exaltado. 14Assim como, à sua vista, muitos se encheram de espanto, tão desfigurado estava o seu rosto que tinha perdido toda a aparência de um ser humano, 15assim se hão-de encher de assombro muitas nações e, diante dele, os reis ficarão calados, porque hão-de ver o que nunca lhes tinham contado e observar o que nunca tinham ouvido. 1Quem acreditou no que ouvimos dizer? A quem se revelou o braço do Senhor? 2O meu servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz numa terra árida, sem distinção nem beleza para atrair o nosso olhar nem aspecto agradável que possa cativar-nos. 3Desprezado e repelido pelos homens, homem de dores, acostumado ao sofrimento, era como aquele de quem se desvia o rosto, pessoa desprezível e sem valor para nós. 4Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores. Mas nós víamos nele um homem castigado, ferido por Deus e humilhado. 5Ele foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa das nossas iniquidades. Caiu sobre ele o castigo que nos salva: pelas suas chagas fomos curados. 6Todos nós, como ovelhas, andávamos errantes, cada qual seguia o seu caminho. E o Senhor fez cair sobre ele as faltas de todos nós. 7Maltratado, humilhou-se voluntariamente e não abriu a boca. Como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda ante aqueles que a tosquiam, ele não abriu a boca. 8Foi eliminado por sentença iníqua, mas, quem se preocupa com a sua sorte? Foi arrancado da terra dos vivos e ferido de morte pelos pecados do meu povo. 9Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios e um túmulo no meio de malfeitores, embora não tivesse cometido injustiça nem se tivesse encontrado mentira na sua boca. 10Aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento. Mas, se oferecer a sua vida como sacrifício de expiação, terá uma descendência duradoira, viverá longos dias e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. 11Terminados os sofrimentos, verá a luz e ficará saciado na sua sabedoria. O justo, meu servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades. 12Por isso, Eu lhe darei as multidões como prémio e terá parte nos despojos no meio dos poderosos; porque ele próprio entregou a sua vida à morte e foi contado entre os malfeitores, tomou sobre si as culpas das multidões e intercedeu pelos pecadores.

 

Temos aqui o 4.° canto dos Poemas do Servo de Yahwéh, os quais formam no seu conjunto uma grande unidade literária, embora apareçam dispersos pela segunda parte do Livro de Isaías. Todos os quatro cânticos encerram um sentido messiânico e aparecem citados no Novo Testamento como tendo tido a sua realização em Jesus Cristo. Este é o último, o mais longo, mais denso e o mais belo, que chegou a ser chamado o 5º Evangelho, pois nele se pode entrever uma imagem muito pormenorizada da missão redentora de Jesus, através da sua Paixão e glorificação. Compõe-se de três estrofes: 52, 13-15; 53, 1-11a; 53, 11b-12); na primeira e na última, temos Yahwéh a falar-nos do seu servo; na segunda, é o Profeta que toma a palavra. O texto coloca-nos perante um impressionante paradoxo que se verificou em Jesus: do cúmulo da dor e da humilhação o servo chega ao auge do êxito e da exaltação; a sua vida e missão é de molde a encher de espanto e de assombro as multidões e os próprios reis da terra (52, 13-15), porque o que se passa com ele é absolutamente inaudito e humanamente incrível (53, 1). Por outro lado, é a primeira vez que na tradição bíblica aparece a expiação vicária.

53, 2 “Um rebento”: Esta é uma imagem corrente nos profetas para designarem o Messias (cf. Is 11, 10; Jer 23, 5-6; Zac 3, 8; 6, 12).

4-6 A razão de tanta dor e humilhação do “homem de dores” (v. 3) não são culpas próprias, pois é inocente, mas é porque o Senhor fez cair sobre ele as faltas de todos nós: a sua expiação é uma expiação vicária (cf. vv. 5.6.8.11.12); porque ele era inocente e justo e podia oferecer a Deus uma satisfação condigna e obter-nos o perdão.

10-12 O êxito da sua missão expiatória é aqui descrito: uma descendência duradoira (v. 10); verá a luz e ficará saciado (v. 10); justificará multidões de homens (v. 11); terá em posse as multidões como prémio (v. 12; cf. Salm 2, 8). Assim sucede com Jesus, que, através da sua obra redentora consumada no Calvário, alcança para si “um povo adquirido em propriedade” (cf. 1 Pe 2, 9; Ex 19, 5; Is 43, 21), a quem justifica tornando-nos seus filhos, “uma descendência duradoira” (v. 10) de Deus, e chega à luz da glória da Ressurreição.

 

2ª leitura Hebreus 4, 14-16; 5, 7-9

 

Irmãos: 14Tendo nós um sumo sacerdote que penetrou os Céus, Jesus, Filho de Deus, permaneçamos firmes na profissão da nossa fé. 15Na verdade, nós não temos um sumo sacerdote incapaz de Se compadecer das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado. 16Vamos, portanto, cheios de confiança, ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno. 5,7Nos dias da sua vida mortal, Ele dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte, e foi atendido por causa da sua piedade. 8Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento. 9E, tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se, para todos os que Lhe obedecem, causa de salvação eterna.

 

A beleza e expressividade deste texto, tão bem adaptado ao dia de hoje dispensa grandes comentários. Corresponde ao início da exposição do tema central da epístola (4, 14 – 7. 28), o sacerdócio de Cristo.

14 “Temos nós um sumo sacerdote”. Jesus não se limita, como o sumo sacerdote dos judeus, a penetrar no Santo dos Santos no Dia da Expiação (Yom Qipur) para expiar os pecados do povo; Ele penetra no próprio Céu e abre-nos o caminho para lá; e faz isto, não com o sangue de animais, mas com o seu próprio sangue (9, 12), com grande sofrimento da sua parte: “com lágrimas” (v. 7), pois, apesar de ser o Filho de Deus, quis experimentar quanto custa obedecer e sofrer (cf. v. 8). Assim, Jesus tem mais um título para se compadecer de nós, das nossas dores e fraquezas: é que possui a experiência concreta de todas as provações a que pode um homem ser sujeito nesta vida, com excepção do pecado (cf. v. 15). Só nos resta ter a fé, a confiança e a humildade de recorrer à sua infinita misericórdia – “trono da graça” (v. 16) – para obter a ajuda de que precisamos.

5, 7-9 Ver supra, notas à 2ª leitura do 5º Domingo da Quaresma.

 

Evangelho São João 18, 1-40; 19, 1-42

 

N Naquele tempo, 1Jesus saiu com os seus discípulos para o outro lado da torrente do Cédron. 2Havia lá um jardim, onde Ele entrou com os seus discípulos. Judas, que O ia entregar, conhecia também o local, porque Jesus Se reunira lá muitas vezes com os discípulos. 3Tomando consigo uma companhia de soldados e alguns guardas, enviados pelos príncipes dos sacerdotes e pelos fariseus, Judas chegou ali, com archotes, lanternas e armas. 4Sabendo Jesus tudo o que Lhe ia acontecer, adiantou-Se e perguntou-lhes:

“A quem buscais?”

N 5Eles responderam-Lhe:

R “A Jesus, o Nazareno”.

N Jesus disse-lhes:

“Sou Eu”.

N Judas, que O ia entregar, também estava com eles. 6Quando Jesus lhes disse: “Sou Eu”, recuaram e caíram por terra. 7Jesus perguntou-lhes novamente:

“A quem buscais?”

N Eles responderam:

R “A Jesus, o Nazareno”.

N 8Disse-lhes Jesus:

“Já vos disse que sou Eu. Por isso, se é a Mim que buscais, deixai que estes se retirem”.

N 9Assim se cumpriam as palavras que Ele tinha dito: “Daqueles que Me deste, não perdi nenhum”. 10Então, Simão Pedro, que tinha uma espada, desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco. 11Mas Jesus disse a Pedro:

“Mete a tua espada na bainha. Não hei-de beber o cálice que meu Pai Me deu?”

N 12Então, a companhia de soldados, o oficial e os guardas dos judeus apoderaram-se de Jesus e manietaram-n’O. 13Levaram-n’O primeiro a Anás, por ser sogro de Caifás, que era o sumo sacerdote nesse ano. 14Caifás é que tinha dado o seguinte conselho aos judeus: “Convém que morra um só homem pelo povo”. 15Entretanto, Simão Pedro seguia Jesus com outro discípulo. Esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio do sumo sacerdote, 16enquanto Pedro ficava à porta, do lado de fora. Então o outro discípulo, conhecido do sumo sacerdote, falou à porteira e levou Pedro para dentro. 17A porteira disse a Pedro:

R “Tu não és dos discípulos desse homem?”

N Ele respondeu:

R “Não sou”.

N 18Estavam ali presentes os servos e os guardas, que, por causa do frio, tinham acendido um braseiro e se aqueciam. Pedro também se encontrava com eles a aquecer-se. 19Entretanto, o sumo sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. 20Jesus respondeu-lhe:

“Falei abertamente ao mundo. Sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em segredo. 21Porque Me interrogas? Pergunta aos que Me ouviram o que lhes disse: eles bem sabem aquilo de que lhes falei”.

N 22A estas palavras, um dos guardas que estava ali presente deu uma bofetada a Jesus e disse-Lhe:

R “É assim que respondes ao sumo sacerdote?”

N 23Jesus respondeu-lhe:

“Se falei mal, mostra-Me em quê. Mas, se falei bem, porque Me bates?”

N 24Então Anás mandou Jesus manietado ao sumo sacerdote Caifás. 25Simão Pedro continuava ali a aquecer-se. Disseram-lhe então:

R “Tu não és também um dos seus discípulos?”

N Ele negou, dizendo:

R “Não sou”.

N 26Replicou um dos servos do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha:

R “Então eu não te vi com Ele no jardim?”

N 27Pedro negou novamente, e logo um galo cantou. 28Depois, levaram Jesus da residência de Caifás ao Pretório. Era de manhã cedo. Eles não entraram no pretório, para não se contaminarem e assim poderem comer a Páscoa. 29Pilatos veio cá fora ter com eles e perguntou-lhes:

R “Que acusação trazeis contra este homem?”

N 30Eles responderam-lhe:

R “Se não fosse malfeitor, não t’O entregávamos”.

N 31Disse-lhes Pilatos:

R “Tomai-O vós próprios e julgai-O segundo a vossa lei”.

N Os judeus responderam:

R “Não nos é permitido dar a morte a ninguém”.

N 32Assim se cumpriam as palavras que Jesus tinha dito, ao indicar de que morte ia morrer. 33Entretanto, Pilatos entrou novamente no pretório, chamou Jesus e perguntou-Lhe:

R “Tu és o Rei dos judeus?”

N 34Jesus respondeu-lhe:

“É por ti que o dizes, ou foram outros que to disseram de Mim?”

N 35Disse-Lhe Pilatos:

R “Porventura sou eu judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes é que Te entregaram a Mim. Que fizeste?”

N 36Jesus respondeu:

“O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”.

N 37Disse-Lhe Pilatos:

R “Então, Tu és Rei?”

N Jesus respondeu-lhe:

“É como dizes: sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.

N 38Disse-Lhe Pilatos:

R “Que é a verdade?”

N Dito isto, saiu novamente para fora e declarou aos judeus:

R “Não encontro neste homem culpa nenhuma. 39Mas vós estais habituados a que eu vos solte alguém pela Páscoa. Quereis que vos solte o Rei dos judeus?”

N 40Eles gritaram de novo:

R “Esse não. Antes Barrabás”.

N Barrabás era um salteador. 1Então Pilatos mandou que levassem Jesus e O açoitassem. 2Os soldados teceram uma coroa de espinhos, colocaram-Lha na cabeça e envolveram Jesus num manto de púrpura. 3Depois aproximavam-se d’Ele e diziam:

R “Salve, Rei dos judeus”.

N E davam-Lhe bofetadas. 4Pilatos saiu novamente para fora e disse:

R “Eu vo-l’O trago aqui fora, para saberdes que não encontro n’Ele culpa nenhuma”.

N 5Jesus saiu, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Pilatos disse-lhes:

R “Eis o homem”.

N 6Quando viram Jesus, os príncipes dos sacerdotes e os guardas gritaram:

R “Crucifica-O! Crucifica-O!”.

N Disse-lhes Pilatos:

R “Tomai-O vós mesmos e crucificai-O, que eu não encontro n’Ele culpa alguma”.

N 7Responderam-lhe os judeus:

R “Nós temos uma lei e, segundo a nossa lei, deve morrer, porque Se fez Filho de Deus”.

N 8Quando Pilatos ouviu estas palavras, ficou assustado. 9Voltou a entrar no pretório e perguntou a Jesus:

R “Donde és Tu?”

N Mas Jesus não lhe deu resposta. 10Disse-Lhe então Pilatos:

R “Não me falas? Não sabes que tenho poder para Te soltar e para Te crucificar?”

N Jesus respondeu-lhe:

11”Nenhum poder terias sobre Mim, se não te fosse dado do alto. Por isso, quem Me entregou a ti tem maior pecado”.

N 12A partir de então, Pilatos procurava libertar Jesus. Mas os judeus gritavam:

R “Se O libertares, não és amigo de César: todo aquele que se faz rei é contra César”.

N 13Ao ouvir estas palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado “Lagedo”, em hebraico “Gabatá”. 14Era a Preparação da Páscoa, por volta do meio-dia. Disse então aos judeus:

R “Eis o vosso Rei!”

N 15Mas eles gritaram:

R “À morte, à morte! Crucifica-O!”

N Disse-lhes Pilatos:

R “Hei-de crucificar o vosso Rei?”

N Replicaram-lhe os príncipes dos sacerdotes:

R “Não temos outro rei senão César”.

N 16Entregou-lhes então Jesus, para ser crucificado. E eles apoderaram-se de Jesus. 17Levando a cruz, Jesus saiu para o chamado Lugar do Calvário, que em hebraico se diz Gólgota. 18Ali O crucificaram, e com Ele mais dois: um de cada lado e Jesus no meio. 19Pilatos escreveu ainda um letreiro e colocou-o no alto da cruz; nele estava escrito: “Jesus, o Nazareno, Rei dos judeus”. 20Muitos judeus leram esse letreiro, porque o lugar onde Jesus tinha sido crucificado era perto da cidade. Estava escrito em hebraico, grego e latim. 21Diziam então a Pilatos os príncipes dos sacerdotes dos judeus:

R “Não escrevas: ‘Rei dos judeus’, mas que Ele afirmou: ‘Eu sou o Rei dos judeus’”.

N 22Pilatos retorquiu:

R “O que escrevi está escrito”.

N 23Quando crucificaram Jesus, os soldados tomaram as suas vestes, das quais fizeram quatro lotes, um para cada soldado, e ficaram também com a túnica. A túnica não tinha costura: era tecida de alto a baixo como um todo. 24Disseram uns aos outros:

R “Não a rasguemos, mas lancemos sortes, para ver de quem será”.

N Assim se cumpria a Escritura: “Repartiram entre si as minhas vestes e deitaram sortes sobre a minha túnica”. Foi o que fizeram os soldados. 25Estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena. 26Ao ver sua Mãe e o discípulo predilecto, Jesus disse a sua Mãe:

“Mulher, eis o teu filho”.

N 27Depois disse ao discípulo:

“Eis a tua Mãe”.

N E a partir daquela hora, o discípulo recebeu-a em sua casa. 28Depois, sabendo que tudo estava consumado e para que se cumprisse a Escritura, Jesus disse:

“Tenho sede”.

N 29Estava ali um vaso cheio de vinagre. Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vinagre e levaram-Lha à boca. 30Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou:

“Tudo está consumado”.

N E, inclinando a cabeca, expirou.

N 31Por ser a Preparação, e para que os corpos não ficassem na cruz durante o sábado, – era um grande dia aquele sábado – os judeus pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. 32Os soldados vieram e quebraram as pernas ao primeiro, depois ao outro que tinha sido crucificado com ele. 33Ao chegarem a Jesus, vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas, 34mas um dos soldados trespassou-Lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. 35Aquele que viu é que dá testemunho e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que diz a verdade, para que também vós acrediteis. 36Assim aconteceu para se cumprir a Escritura, que diz: “Nenhum osso Lhe será quebrado”. 37Diz ainda outra passagem da Escritura: “Hão-de olhar para Aquele que trespassaram”. 38Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, embora oculto por medo dos judeus, pediu licença a Pilatos para levar o corpo de Jesus. Pilatos permitiu-lho. José veio então tirar o corpo de Jesus. 39Veio também Nicodemos, aquele que, antes, tinha ido de noite ao encontro de Jesus. Trazia uma mistura de quase cem libras de mirra e aloés. 40Tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no em ligaduras juntamente com os perfumes, como é costume sepultar entre os judeus. 41No local em que Jesus tinha sido crucificado, havia um jardim e, no jardim, um sepulcro novo, no qual ainda ninguém fora sepultado. 42Foi aí que, por causa da Preparação dos judeus, porque o sepulcro ficava perto, depositaram Jesus.

 

Os quatro desenvolvidos relatos da Paixão do Senhor que nos propõem todos os quatro evangelistas não são um mero relato. Têm um quê de reflexão e meditação sobre tão assombrosos acontecimentos, à luz do Antigo Testamento. Também nós não devemos passar apressadamente os olhos por estas páginas, mas meditá-las, metermo-nos dentro destas cenas e renovar frequentemente a sua lembrança: quem sofre, quanto sofre, para que sofre e porque sofre, por quem sofre? Esta meditação tem feito muito santos ao longo de todos os tempos, pois não pode deixar ninguém indiferente: um tão grande amor só com amor se paga (sic nos amantem quis non redamaret?).  

É neste relato onde o paralelismo com os Sinópticos é maior, embora apareçam muitos pormenores específicos e sobretudo uma profunda visão teológica muito própria que põe em relevo a serena majestade de Jesus que caminha livremente para a Cruz como para um trono de glória e uma fonte de vida para os seus; mesmo quando é esbofeteado e feito rei de comédia, aparece com toda a dignidade real que Lhe compete; assim, João evita descrever a agonia, embora a não ignore (cf. v. 11; 12, 27-28).

18, 1-2 “A torrente do Cédron” era uma corrente de água invernal; há muitas na Palestina a que os árabes chamam wadi. Só é nomeada aqui em todo o N. T. (cf. 2 Sam 15, 23); corre para o Mar Morto no profundo vale que separa Jerusalém do Monte das Oliveiras, onde ficava a propriedade em que Jesus é preso; só João diz que é um “jardim”, como o lugar onde é sepultado, talvez para se ver uma alusão ao jardim do Éden: onde teve ruína a humanidade aí o novo Adão obtém a salvação. Este “jardim” é o Getsemani, Gath-Xemani, isto é, “lagar de azeite”, (nomeado nos Sinópticos) um sítio venerado de há muito tempo, onde se encontram os restos duma basílica de finais do século IV, e hoje a bela e recolhida “Basílica das Nações”, bem como o “Horto”, com rebentos de oliveiras antiquíssimas a lembrar as que foram testemunhas da Agonia de Jesus.

3-12. Apenas João fala da intervenção de soldados romanos: seria apenas um destacamento duma coorte, pois esta tinha 600 homens. A prisão de Jesus não se deve à violência exercida mas à sua entrega soberana e consciente (Eu Sou!); preso, exige a liberdade dos seus (v. 8). Só João revela os nomes de Pedro e de Malco na cena do golpe de espada.

“Recuaram e caíram por terra”. Jesus, contra o que esperavam os atacantes, entrega-se serenamente. Podemos imaginar que os que iam à frente tenham ficado tão impressionados com a superior dignidade da atitude de Jesus e com a sua serena majestade que, perturbados, recuam instintivamente, tropeçam e caem por terra: a sua agressividade fora desarmada e dominada pela atitude divinamente superior de Jesus. S. João põe o acento neste pormenor para que vejam como o Senhor caminha livremente para a morte. Jesus não padece e morre porque não havia outra saída humana; Jesus padece e morre porque era essa a única saída divina.

11 “O cálice que Meu Pai Me deu…”: Estas palavras de Jesus parecem conter uma discreta alusão de S. João ao cálice da agonia. Mas S. João não quer fixar-se na agonia do horto, por isso não a relata. É que nos quer apresentar Jesus na sua Paixão sempre como vencedor e sem a aparência de vencido: Jesus aparece-nos numa atitude hierática, mesmo quando sofre a maior dor humana. A cruz é um trono donde o Salvador reina salvando os seus, atraindo a si e reconciliando, é o regresso ao Pai, a consumação do sacrifício do novo cordeiro pascal com cujo sangue somos redimidos e libertados (cf. Jo 19, 30.36).

13-14. S. João é o único que nos conta que Jesus foi levado ao influente Anás que fora sumo sacerdote entre os anos 6 e 15 e a quem vieram a suceder cinco dos seus filhos e, nesta data, o seu genro, José Caifás (cf. 11, 49.50).

15-27. O outro discípulo (v. 15) é provavelmente João. O interrogató­rio de Anás (vv. 19ss) versa sobre duas coisas públicas e sabidas: a doutrina e os discípulos de Jesus, mas os inimigos suspeitam de planos secretos e sinistros, por se negarem a ver e a crer (cf. 9, 39-41; 10, 37-38); e uma doutrina do reino e uns discípulos galileus (zelotas?) forneceriam a base da denúncia aos romanos. Jesus defende-se, mas sem perder a serenidade. Note-se como as três negações de Pedro, embora contadas de forma resumida e discreta, assumem um aspecto dramático pelo facto de se introduzir no meio delas (vv. 19-24) o interrogatório de Anás, a quem Jesus declara: “pergunta aos que Me ouviram…” (v. 21), e é mesmo o ouvinte privilegiado de Jesus quem nega, ficando patente o contraste entre a afirmação de Mestre, “Eu sou” (vv. 5.8) e a negação do discípulo,”não sou” (vv. 17.25). Nos Sinópticos as negações são no pátio da casa de Caifás (cf. Mt 26, 57ss; Mc 14, 53ss; Lc 22, 54ss), uma contradição sem importância, talvez só aparente, pois o pátio bem poderia ser comum à casa de ambos. João limita-se a dizer que Jesus foi enviado a Caifás (v. 24), sem relatar a sessão do Sinédrio que na manhã de sexta-feira O condenou (cf. Lc 22, 66-71; Mc 14, 55-64; Mt 26, 59-66); com isto pretenderia sublinhar que a condenação já estava decretada (cf. Jo 11, 47-53). É notável a discrição e delicadeza com que o Discípulo amado relata a tríplice negação do chefe dos Apóstolos. O relato mais pormenorizado do pecado de Pedro que temos nos Sinópticos é o de Marcos; pode dever-se muito bem à tradição oral que procedia do próprio Pedro (recolhida pelo próprio Marcos), que teria a humildade de contar frequentemente as suas negações com todo o realismo.

28ss. S. João dá ao processo diante de Pilatos uma grande importância; a narrativa põe em contraste a serenidade e a segurança de Jesus com a agitação e ansiedade dos inimigos; é um relato em sete cenas que se desenrolam alternada­men­te no exterior e na sede do governador romano, o “pretório”, pois os acusadores evitam entrar em casa dum gentio para não contraírem uma impureza legal que os obrigaria a adiar a celebração da ceia pascal; com efeito, os príncipes dos sacerdotes, o único grupo a ser nomeado (18, 35; 19, 6.15.21) no processo de Jesus, eram do partido dos saduceus, que naquele ano atrasaram um dia a celebração da Páscoa. As actas do processo de Jesus ainda se conservariam nos arquivos do império por meados do século II, pois S. Justino, escrevendo ao imperador Antonino Pio, apela para as Actas de Pilatos para verificar a inocência de Jesus (I Apologia 35, 9; 48, 3).

“E poderem comer a Páscoa” (v. 28): Jesus tinha comido a Páscoa, ou cordeiro pascal, mas seguindo um calendário diferente (sobre esta divergência de datas há muitas tentativas de solução, mas nenhuma definitiva). Entrar em casa dum gentio (o pretório) era contrair uma impureza e, contraída no dia em que pertencia celebrar a ceia pascal, levava a ter de se adiar a sua celebração para o mesmo dia do mês seguinte, o que normalmente ninguém desejava. Note-se o cúmulo do formalismo hipócrita: tem-se escrúpulo de entrar em casa dum gentio, mas não se receia condenar o inocente à morte!

18, 28 – 19, 16 O processo de Jesus diante Pilatos é descrito mais detidamente e com todo o pormenor em S. João: Jesus é trazido a Pilatos, que este não se convence da culpa de Jesus (33-38a); o primeiro expediente de Pilatos, para evitar tomar a decisão que lhe competia, é entregar o poder de julgar aos acusadores, que preferem Barrabás (38b-40); o expediente da flagelação, para ver se os inimigos de Jesus ficavam satisfeitos no seu ódio (19 1-7); um segundo interrogatório (8-11); Pilatos dá a sentença de morte (12-16a). S. João apenas não conta outro expediente relatado no Evangelho de S. Lucas, que foi o de enviar Jesus a Herodes, e que teria sido o primeiro recurso de que o procurador romano lançou mão.

33-37. As razões para eliminarem Jesus eram de natureza religiosa, mas é denunciado à autoridade romana como um conspirador político: “rei dos judeus”. A resposta de Jesus com uma pergunta (v. 34) não é um subterfúgio, mas um meio de esclarecer qual o ponto de vista para falar de Si como rei; descartado o ponto de vista pagão (v. 35), Jesus, que não podia negar a sua realeza, distancia-se igualmente da expectativa nacionalista judaica, afirmando o carácter transcen­den­te do seu reino (cf. Rom 14, 17), o que colocava a sua missão ao abrigo de qualquer suspeita: não é deste mundo (v. 36) e visa manifestar a verdade (v. 37).

19, 1-7 “E O açoitassem”: a flagelação era uma das penas mais duras previstas no Direito e jamais aplicável a um cidadão romano; os golpes, sem conta prevista, eram aplicados nas costas nuas da vítima atada a uma coluna, com chicotes de tiras de couro munidas de peças de metal ou osso nas extremidades, uma tortura suficiente para causar a morte. Em Mateus e Marcos a flagelação aparece depois da sentença de condenação, como habitual­men­te sucedia, para debilitar as forças dos condenados à cruz; em Lucas é anunciada como um castigo prévio; em João, que parece reproduzir com mais rigor o que se passou na realidade, tem o carácter de mais um expediente para evitar a sentença de morte contra um inocente: um rei tão abatido e esfacelado não constituía perigo para ninguém. No ecce homo, a troça não poderia ser mais humilhante, mas o Evangelista quer que o leitor descubra o verdadeiro Messias-Rei, o mistério de quem é esse homem (cf. Jo 5, 12). A contemplação deste mistério doloroso não pode deixar de nos tocar a alma profundamente.

7 “Porque se fez Filho de Deus”: Como observa F. Dreyfus, trata-se do único caso, em toda a história do povo hebreu, em que uma pessoa foi acusada e condenada por se fazer filho de Deus! A blasfémia era suficiente para se aplicar a pena de morte, segundo o Levítico 24, 16.

9 “Donde és Tu?” A pergunta de Pilatos assustado não é sobre a naturalidade de Jesus (já antes o mandara a Herodes: Lc 23,2-6), mas sobre a sua verdadeira natureza: acusado de se dizer Filho de Deus, não será ele um ser divino? Esta questão sobre a origem de Jesus é fulcral e inevitável, também para o leitor (cf. Jo 7, 27-28; 8, 14; 9, 29-30). “Mas Jesus não lhe deu resposta”, não para se esquivar, mas é que o céptico Pilatos (18, 38) não busca a verdade; falta-lhe rectidão.

13.       “Sentou-se no tribunal”: O texto grego permite outra tradução: Pilatos trouxe Jesus para fora e fê-lo sentar numa tribuna; com efeito, não parece que S. João queira dizer que foi Pilatos que se sentou, pois a cena passa-se no exterior do tribunal e não há uma sentença. Esta ambiguidade parece intencional, para exprimir que o prefeito romano só na aparência é que é juiz, pois o que ele faz é entronizar Jesus, que é quem faz o decisivo julgamento (cf. Jo 12, 31). Há quem pense que esta entronização visava pôr a ridículo as autoridades judaicas (vv. 14.19-22), coisa bem ao jeito de Pôncio Pilatos, que não perdia qualquer ocasião para humilhar os judeus. “Gabbatá” significa antes lugar elevado, mais provavelmente na Torre Antónia (um pavimento de pedra identificado arqueologicamente), embora outros considerem que ficaria na zona do palácio de Herodes, na cidade alta.

14        “Por volta do meio dia”, era o final da hora terceira dos romanos (nomeada em Mc 15, 25) e o início da hora sexta (o meio dia).

17-18 “Levando a cruz”: só João diz claramente que Jesus carrega a cruz às costas (possível alusão – o chamado rémez a Gn 22, 6  tão usado na exegese deráxica dos rabinos – a Isaac carregando a lenha do sacrifício), sem falar do Cireneu, para o lugar do “Calvário”, uma palavra latina que traduz a hebraica: Golgotá, isto é, caveira ou crânio, pela forma que tinha o penhasco; não era propriamente um monte, mas uma elevação rochosa já fora dos muros de então, a uns 400 metros a oeste do adro do Templo, uma pedreira identificada pela Arqueologia.

18 “E lá O crucificaram”. A crucifixão era o suplício mais doloroso e o mais infamante. Por isso se empenhavam os inimigos de Jesus em que tivesse este género de morte. Era a melhor maneira de acabar com a memória de Jesus na gente que O seguia, a maior prova de falsidade do seu messianismo! Ninguém mais se atreveria a falar dum messias tão miseravelmente derrotado e tendo sofrido a morte dos maiores criminosos. Cícero testemunha a infâmia deste horrendo suplício: “Que um cidadão romano seja atado é um abuso; que seja golpeado, é um delito; que se lhe dê morte, é um quase um parricídio; que direi eu, então, se é suspenso numa cruz? A uma coisa tão horrível como esta não se pode aplicar de modo algum um apelativo suficientemente adequado!” (In Verrem, II, 5, 66). A morte dum crucificado sobrevinha após uma dolorosíssima agonia, com uma sede terrível, consequência da perda de sangue pelas feridas abertas, com dolorosas cãibras  que provocavam o horrível estertor duma asfixia lenta.

19-22 “Esse letreiro”, o títulum do Direito Romano, era o resumo da acta da sentença a ser enviada para os arquivos do tribunal de César, por isso já não podia ser modificada depois de ditada e executada a sentença, apesar das insistências dos judeus, que consideravam este letreiro mais um vexame do procurador romano ao povo. João, ao sublinhar que estava “escrito em hebraico, latim e grego”, parece querer indicar a realeza universal de Jesus.

23-24 “Tomaram as suas vestes”: A divisão da roupa pelos soldados era um facto banal e corrente, um direito reconhecido aos carrascos; esta só ficou referida em virtude do seu significado, pois assim  se cumpriam as Escrituras (cf. Salm 22, 19) citadas explicita­­men­te apenas por João, que fala das vestes divididas em quatro lotes; as roupas de Jesus, mesmo sem excluir a túnica, não podiam dar quatro lotes, mas disto não há que concluir que se trata duma mera criação literário-teológica, pois havia as roupas de mais dois condenados, que no conjunto fariam os quatro lotes. Também era supérfluo dizer que não rasgaram a túnica, pois não iriam inutilizá-la e, com o que já estava dito, as Escrituras apareciam plenamente cumpridas; por isso, há exegetas que, partindo da norma de o sumo sacerdote usar uma túnica sem costura, vêem na insistência neste pormenor (v. 23) a intenção de apresentar Jesus como o Sumo Sacerdote da Nova Aliança, e o seu despojamento simbolizaria a abolição do sacerdócio antigo. Os Padres vão ainda mais longe e chegam a ver na túnica sem costura uma imagem da unidade da Igreja.

25-27 Repare-se na solenidade deste relato: por um lado, é uma cena central entre as cinco passadas no Calvário; por um lado, a Virgem Maria é mencionada 5 vezes em 3 versículos; por outro lado, há o recurso a uma fórmula solene de revelação (ao ver… disse… eis… ). Isto deixa ver que não se trata dum simples gesto de piedade filial de Jesus para com sua Mãe para não a deixar ao desamparo, mas que o Evangelista lhe atribui um significado simbólico profundo: chegada a hora de Jesus, é a hora de Ela assumir (cf. Jo 2, 4) o seu papel de nova Eva (cf. Gn 3, 15) na obra redentora; mais ainda, Ela é a mulher que simboliza a Igreja (cf. Apoc 12, 1-18), a mãe dos discípulos de Jesus representados no discípulo amado, o qual a acolheu como coisa sua. Preferimos esta tradução à mais corrente: acolheu-a em sua casa, pois a expressão grega, usada mais quatro vezes em S. João, nunca aparece neste Evangelho com esse sentido. Notar que Jesus não se dirige às mulheres junto à Cruz, que são 4, ou apenas 3 conforme se contar por duas ou por uma pessoa a irmã de sua Mãe, Maria, a mulher de Cléofas. S. Mateus fala de muitas mulheres no Calvário, à distância, como era regulamentar (Mt 27, 35-36; cf. Mc 15, 40-41; Lc 23, 49).

28-30 “Tenho sede!”: Aquele que viera para nos matar a sede (Jo 4, 14; 7, 37) queixa-se de sede! Deveria ser um dos grandes tormentos de Jesus, sem sangue, cansado, sem tomar alimento... Mas sempre se tem visto nesta sede de Jesus algo mais: a sua ânsia pela salvação do mundo. João omite o grito de Mt 27, 46 e Mc 15, 34, referindo uma exclamação mais de acordo com a imagem de serena majestade do Senhor da vida e com o seu gosto pelos paradoxos (cf. Jo 4, 14; 7, 37) e em que parece ver também o cumprimento do Salm 22, 16. O vinagre diluído em água era um refresco, a posca romana, usado pela gente humilde e pelos soldados; os três Sinópticos também falam deste vinagre dos soldados (Mt 27, 48; Mc 15, 36; Lc 23, 36), além do vinho com mirra (Mc 15, 23), de efeito analgésico e oferecido antes da crucifixão; Mt 27, 34 dá-lhe o nome de vinho com fel para o leitor ter mais facilidade em recordar o Salmo segundo a versão dos LXX (Salm  68) que então se cumpria e que todos se dispensaram de citar (cf. Salm 69, 22).  Pode-se ver no “ramo de hissopo” uma alusão ao sacrifício do novo cordeiro pascal (cf. Ex 12, 22, onde se diz que era com um ramo de hissopo que as portas dos hebreus deviam ser tingidas com o sangue do cordeiro); como o ramo deste arbusto, de folhas bastas, é curto e parece demasiado flexível para fixar a “esponja” (que serviria de tampa à vasilha do refresco), há autores que pensam ter havido uma corrupção do texto original (a palavra hyssopos, seria a corrupção de hyssós: “dardo”, o que não tem qualquer espécie de apoio textual) e traduzem, como fez a tradução litúrgica, simplesmente por vara, empobrecendo o profundo significado teológico da passagem.

30 “Tudo está consumado” corresponde a um verbo grego que encerra a ideia da perfeição que atinge algo realizado: “cumprido e finalizado com toda a perfeição”. “Inclinando a cabeça”: um gesto que João refere, certamente pela impressionante imagem que lhe ficou gravada para sempre, mas também por querer sublinhar o perfeito domínio de si (cf. Jo 10, 18) com que Jesus se entrega até ao fim, ao empregar a forma activa do verbo, quando era de esperar a forma média ou passiva, pois um crucificado, ao morrer, não inclina a cabeça, mas esta é que se lhe inclina… Por outro lado, “entregou o espírito” (a tradução litúrgica adoptou uma versão mais pobre: “expirou”) é uma fórmula que nunca se usa para dizer que alguém expirou; por isso, pode ver-se aqui sugerido o Espírito Santo como dom de Jesus, fruto da árvore da Cruz (cf. Jo 7, 39; 16, 6).

33-34 “Não quebraram as pernas” a Jesus, por estar já morto; tratava-se do chamado crurifrágio aplicado aos ladrões e destinado a apressar-lhes a morte, que se dava por asfixia lenta: estes, ao não poderem apoiar-se nas pernas, deixavam-se asfixiar mais rapidamente. O golpe da lança dado a Jesus, com que se cumpria a profecia de Zacarias 12, 10, confirma a morte real do Senhor. Mas João, no golpe da lança, vê muito mais do que uma confirmação da morte de Jesus; ele contempla o cumprimento das Escrituras e o sacrifício do verdadeiro cordeiro pascal (cf. Ex 12, 46; Nm 9, 12; Salm 34, 21; Zac 12, 10; Apoc 1, 7) e parece insinuar, para além do dom da vida eterna (o sangue: cf. Jo 6, 53-54) e do Espírito Santo (a água: cf. Jo 4, 14; 7, 38-39; 3, 5), os Sacramentos da iniciação cristã, a Eucaristia (o sangue) o Baptismo (a água), a própria Igreja, a nossa Mãe na ordem da graça (cf. Gal 4, 26), a nova Eva, a sair do lado novo Adão (cf. Gn 2, 22); estes ricos simbolismos já eram vistos pelos Padres da Igreja. “E logo saiu sangue e água”, um facto incontestável, mais provavelmente de ordem natural: a água que seria soro do pericárdio, ou exsudação pleural; de qualquer modo, como Jesus estava morto, não seria um derramamento abundante.

35 “E ele sabe que diz a verdade”: há quem queira ver aqui uma espécie de juramento, a saber, o apelo a uma segunda testemunha abonatória, o próprio Cristo glorioso, ou mesmo o Pai (que sabe que o evangelista diz a verdade), não faltando quem pense numa glosa. De qualquer modo, uma afirmação tão solene faz apelo a factos reais, que excluem uma simbologia desvinculada da história. E, de facto, uma história como a da Paixão e Morte do Senhor não se inventa, é mesmo verdadeira. A testemunha privilegiada foi certamente o discípulo amado de Jesus, que garante a verdade dos factos narrados.

38 “José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, embora oculto por medo dos judeus, “homem rico” (Mt 27, 57), “membro do Sinédrio” (Mc 15, 43), “pessoa recta e justa, que não estava de acordo com a decisão e o procedimento dos outros” (Lc 23, 50-51). A sua grande coragem, dedicação e lealdade levam-no a que, quando as circunstâncias o exigem, apesar de estas serem as mais infamantes e delicadas, ali esteja pronto para cumprir o seu dever de piedade para com o Mestre, na hora da fuga e do estonteamento dos próprios Apóstolos.

39 As 100 libras eram 32,7 Kg de matéria aromática: resina de “mirra e aloés” moído, em tal quantidade que fica patente, não só a generosidade daqueles amigos escondidos que não receiam declarar-se quando é preciso, mas também a Ressurreição como algo fora do horizonte de todos, pois estes produtos usavam-se para abafar os maus odores da putrefacção que se previa para o cadáver. Não fora a decisão e a coragem destes homens notáveis, o corpo de Jesus teria ido parar a uma vala comum. Ver Jo 3, 1; 7, 50.

40 “Segundo o costume dos judeus”, os panos de linho da mortalha incluíam um lençol mortuário (em grego síndone: Mt 27, 49 par.) que envolvia todo o corpo, umas faixas para ligar os braços e as pernas e aconchegar o lençol, e um lenço, ou sudário propriamente dito, para envolver a cabeça.

 

 

Páscoa da Ressurreição do Senhor - Missa da Vigília

 

Última leitura Romanos 6, 3-11

 

Irmãos: 3Todos nós que fomos baptizados em Cristo fomos baptizados na sua morte. 4Fomos sepultados com Ele pelo Baptismo na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova. 5Se, na verdade, estamos totalmente unidos a Cristo por morte semelhante à sua, também o estaremos por uma ressurreição semelhante à sua. 6Bem sabemos que o nosso homem velho foi crucificado com Cristo, para que fosse destruído o corpo do pecado e não mais fôssemos escravos dele. 7Quem morreu está livre do pecado. 8Se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos, 9sabendo que, uma vez ressuscitado dos mortos, Cristo já não pode morrer, a morte já não tem domínio sobre Ele. 10Porque na morte que sofreu, Cristo morreu para o pecado de uma vez para sempre; mas a sua vida é uma vida para Deus. 11Assim vós também, considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus.

 

Esta leitura resume o tema central da Vigília Pascal: a passagem da morte à vida em Cristo e em nós pelo Baptismo. A nossa Páscoa é a transposição deste mistério da Morte e Ressurreição de Cristo para a nossa própria vida.

3-4 S. Paulo faz apelo à simbologia do Baptismo por imersão: o facto de ser imergido para dentro da água representa a morte e sepultura; o emergir da água, já tornado “nova criatura” , significa a ressurreição, a nova vida divina. S. Paulo, ao dizer que nós “fomos baptizados na sua morte”, quer dizer que, pelo Baptismo, nos unimos tão intimamente à morte de Cristo, destruidora de todo o pecado, que também nós morremos para o pecado, a tal ponto que este já não deve dominar mais a nossa vida. A nossa vida tem que ser uma vida de ressuscitados: “vivos para Deus, em Cristo Jesus” (v. 11). Mas nós não somos uns meros beneficiários, estranhos ao mistério pascal de Cristo: a nossa nova vida é uma vida em Cristo Jesus, pois estamos incorporados nele pela fé e pelo amor, feitos membros do seu Corpo, sendo Ele a Cabeça.

 

Evangelho São Lucas 24, 1-12

 

1No primeiro dia da semana, ao romper da manhã, as mulheres que tinham vindo com Jesus da Galileia foram ao sepulcro, levando os perfumes que tinham preparado. 2Encontraram a pedra do sepulcro removida 3e ao entrarem não acharam o corpo do Senhor Jesus. 4Estando elas perplexas com o sucedido, apareceram-lhes dois homens com vestes resplandecentes. 5Ficaram amedrontadas e inclinaram o rosto para o chão, enquanto eles lhes diziam: “Porque buscais entre os mortos Aquele que está vivo? 6Não está aqui: ressuscitou. Lembrai-vos como Ele vos falou, quando ainda estava na Galileia: 7‘O Filho do homem tem de ser entregue às mãos dos pecadores, tem de ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia’”. 8Elas lembraram-se então das palavras de Jesus. 9Voltando do sepulcro, foram contar tudo isto aos Onze, bem como a todos os outros. 10Eram Maria Madalena, Joana e Maria mãe de Tiago. Também as outras mulheres que estavam com elas diziam isto aos Apóstolos. 11Mas tais palavras pareciam-lhes um desvario e não acreditaram nelas. 12Entretanto, Pedro pôs-se a caminho e correu ao sepulcro. Debruçando-se, viu apenas as ligaduras e voltou para casa admirado com o que tinha sucedido.

 

A ressurreição de Jesus é um mistério, um facto de ordem sobrenatural, que se situa para além da experiência humana, mas, como acontecimento real que é, teve manifestações historicamente comprováveis. A primeira destas foi a verificação do túmulo vazio. Esta verificação não constitui uma prova da ressurreição, nem é apresentada como tal pelos quatro evangelistas, pois provoca perplexidade nas Santas Mulheres, que pensam no roubo do cadáver. O anúncio angélico da ressurreição contado por elas aos Onze, pareceu a estes “um desvario e não acreditaram nelas” (v. 11). A concordância entre os diversos relatos dos quatro Evangelhos é impressionante; as dificuldades para uma perfeita harmonização quanto a certos pormenores são mais um indício de veracidade.

João dá mais pormenores acerca da visita ao sepulcro vazio (Jo 20), ao passo que Lucas generaliza o relato. Assim, Lucas junta Maria Madalena” às “outras mulheres” (v. 10), a qual não estaria com elas, como se depreende do IV Evangelho (cf. Jo 20, 1); logo de manhã, ainda escuro teria vindo ao túmulo à frente das companheiras, e sozinha, antes de qualquer visão, tinha ido avisar os Apóstolos de que o túmulo estava vazio.

N.B. – No domingo de Páscoa podem ver-se mais comentários sobre a Ressurreição, especialmente nas notas ao Evangelho.

 

 

Páscoa da Ressurreição do Senhor (Missa do Dia)

 

1ª Leitura Actos dos Apóstolos 10, 34a.37-43

 

Naqueles dias, 34aPedro tomou a palavra e disse: 37“Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: 38Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. 39Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz. 40Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se, 41não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos. 42Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. 43É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados”.

 

O texto faz parte do corpo do discurso de Pedro em Cesareia na casa do centurião Cornélio, o qual tinha mandado chamar Pedro a Jope, ilustrado por uma visão (cf. Act 10, 1-33). Este discurso tem um carácter mais catequético e apologético do que propriamente missionário, como seria de esperar num primeiro anúncio da fé a um pagão (embora se tratasse dum “temente a Deus”: v. 2). Lucas redige este discurso a pensar mais nos leitores da sua obra, do que com a preocupação de reconstruir exactamente a cena originária e as mesmas palavras pronunciadas naquela circunstância; com efeito, começa por fazer referência ao Evangelho já antes pregado aos ouvintes: “vós sabeis o que aconteceu…”, e também parece que dá por suposta a fé no valor salvífico da Cruz (cf. v. 39b) e não termina, como seria de esperar, com um apelo explícito à conversão. Assim, Lucas nos deixou mais uma bela síntese do que era o Evangelho pregado pela Igreja primitiva.

38 “Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus”. Esta nova tradução litúrgica desfez a hendíadis tão própria da estilística hebraica (ungiu de Espírito Santo e de fortaleza), recorrendo, por motivo de clareza, a uma equivalência dinâmica, (a força que é o Espírito Santo). Deus (o Pai) concedeu à natureza humana de Jesus todos os dons do Espírito Santo, que Lhe competiam a partir do momento da Incarnação; estes dons manifestam-se visivelmente nos milagres de Jesus, nas teofanias do Baptismo e da Transfiguração e muito particularmente na Ressurreição. A unção era o rito que constituía os reis e os sacerdotes na sua função: a união hipostática em Jesus aparece como a unção da natureza humana de Jesus, “que passou fazendo o bem e curando a todos” (maravilho­so resumo da vida de Jesus, bem ao sabor do Evangelista da bondade).

41 “Não a todo o povo”: Jesus não se mostra a todos depois de ressuscitado, não só para não violentar a liberdade das pessoas, mas também porque está nos planos divinos conduzir o mundo à salvação mediante o ministério dos seus discípulos (testemunhas de antemão designadas por Deus) e mediante a fé, que é meritória (cf. Rom 1, 16-17). Note-se o acento que se põe no testemunho acerca da Ressurreição: não estamos apenas perante uns simples pregadores (cf. v. 42a) duma mensagem salvadora, mas diante de verdadeiras testemunhas (cf. v. 42b) que dão testemunho (o verbo grego tem um matiz forense) capaz de fazer fé em tribunal; a ideia de testemunho é fortemente acentuada neste breve texto, não só por ser repetida quatro vezes (vv. 39.41.42.43), mas por se tratar de testemunhas escolhidas por Deus para esta missão (v. 41), que conviveram com o Ressuscitado, comendo e bebendo com Ele, o que exclui logo à partida a hipótese de se tratar de mera fantasia (Lucas mostra especial sensibilidade a este problema: cf. Lc 24, 37-43).

 

2ª Leitura Colossenses 3, 1-4  (de manhã)

 

Irmãos: 1Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. 2Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. 3Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. 4Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.

 

Com estas palavras é introduzida a parte final da Carta, uma série de exortações morais para que os fiéis tenham um modo de viver coerente com a fé cristã. A sua conduta moral é uma consequência natural da profunda união com Cristo ressuscitado produzida pelo Baptismo recebido.

1 “Aspirai às coisas do alto” corresponde ao mesmo incitamento que, na Santa Missa, a Igreja sempre nos repete: (Sursum corda! Corações ao alto!).

3-4 “Vós morrestes”. Cf. Rom 6: a nossa união a Cristo pressupõe a morte para o pecado, que não pode reinar mais em nós. Com Cristo morto pelos nossos pecados, morremos para o pecado; com Cristo ressuscitado, vivemos vida de ressuscitados. É a “vida” da graça, uma vida toda interior, “escondida” no centro da alma, vida que ninguém pode arrebatar, vida que é toda feita de presença de Deus e de visão sobrenatural, levando-nos a santificar todos os afazeres diários, trabalhando com os pés bem firmes na terra, mas o coração e o olhar fixo no Céu.

 

2ª leitura 1 Coríntios 5, 6b-8  (de tarde)

 

Irmãos: 6bNão sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa? 7Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, visto que sois pães ázimos. Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado. 8Celebremos a festa, não com fermento velho nem com fermento de malícia, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade.

 

Parece haver aqui (v. 6b) uma referência ao incestuoso de que acaba de falar (vv. 1-5): um mau exemplo é um mau fermento. Mas S. Paulo faz imediatamente uma aplicação mais vasta da ideia de mau fermento, e isto talvez pela proximidade da festa da Páscoa, que já então, pelo ano 55, os cristãos celebravam em Corinto como festa da Ressurreição do Senhor, segundo o que se lê no v. 8: “celebremos pois a festa”. Na exortação do Apóstolo há uma alusão ao costume judeu, que ainda hoje se conserva, de limpar escrupulosamente as casas de todo o fermento e pão fermentado durante os sete dias que duravam as festas pascais. Nós os cristãos, para celebrarmos a Páscoa – “Cristo, nosso Cordeiro pascal” (v. 7) –, temos que o fazer sem o fermento (o princípio corruptor) da malícia e da perversidade, mas “com os pães ázimos da pureza e da verdade”, isto é, da sinceridade de vida. Poderia haver, nesta referência a Cristo como “cordeiro imolado”, uma alusão à própria celebração da Eucaristia.

 

Evangelho São João 20, 1-9   (de manhã)

 

1No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. 2Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram”. 3Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. 4Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. 5Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. 6Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão 7e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. 8Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. 9Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

 

Nenhum dos quatro Evangelhos narra o facto da Ressurreição de Jesus, pois não foi presenciado por testemunhas; era um facto sobrenatural que, de si mesmo, escapava à experiência humana. E isto só vem dar credibilidade ao facto da Ressurreição, pois, se tratasse duma ficção, era de esperar que se dessem os seus pormenores. S. João começa com a verificação do túmulo vazio feita pela Madalena, mas vão ser os dois discípulos, que vão fazer o reconhecimento do local e que verificam indícios eloquentes aptos para levarem à fé na Ressurreição de Jesus.

2 “Não sabemos…”. Este plural parece aludir à tradição sinóptica que conhece a ida de mais mulheres ao sepulcro. É evidente que não houve a mínima preocupação de harmonizar os diferentes relatos evangélicos do sepulcro vazio e das aparições, o que é um forte motivo de credibilidade a favor da realidade da ressurreição, facto misterioso, que é a base de toda a fé cristã (cf. 1 Cor 15, 12-19).

7-8 “Viu e acreditou”. Porque começou a crer o discípulo? A explicação habitual é que um ladrão não deixaria ficar os panos, e muito menos em ordem. Mas há mais dados a ter em conta: porque é que o Evangelista atribui tanta importância à diferente posição dos panos? É que as ligaduras e o lençol estavam espalmados no chão da pedra tumular, ao passo que o pano que envolvera a cabeça do Senhor não estava espalmado no chão, mas mantinha a forma da cabeça que envolvera (cf. a nossa tradução na Nova Bíblia da Difusora Bíblica). Não sabemos se Pedro partilhou da fé do Discípulo Amado, mas S. Lucas diz que ficou maravilhado (cf. Lc 24,12). Os panos com que Jesus foi amortalhado eram com toda a probabilidade: 1) um lençol mortuário (síndone), tecido largo e comprido que envolvia todo o corpo; 2) um lenço (sudário) que cobria a cabeça e caia sobre o rosto (e ajudaria a manter a boca fechada); 3) várias ligaduras que não só serviam para manter apertados os pés um contra o outro e as mãos unidas ao corpo, mas também que poderiam ajudar a aconchegar a  síndone ao corpo. S. João não fala especificamente desta síndone,  mas deve englobá-la na designação genérica de “ligaduras” (em grego, othónia). 

9 “Ainda não tinham entendido a Escritura”. Os discípulos não estavam psicologicamente predispostos a admitir a Ressurreição para que esta pudesse ser fruto de uma alucinação; com efeito, só depois de confrontados com a realidade da ressurreição de Jesus é que se recordaram das Escrituras (cf. 1 Cor 15, 4; Act 2, 24-32; Jo 2, 22) e as entenderam. A ressurreição era uma realidade só admissível para o fim do mundo (cf. Jo 11, 24), pois, apesar de Jesus ter anunciado a sua ressurreição ao terceiro dia, este só poderia ser o dia final, de acordo com o a profecia de Oseias (Os 6, 2). Diante do sepulcro vazio, só pensam num roubo (vv. 2.13.15) e não dão crédito a quaisquer notícias das aparições (cf. Mc 6, 11.13; Lc 24, 21-24; Jo 20, 25).

 

Em vez deste Evangelho, pode ler-se o que se leu na Vigília da Noite Santa.

 

(Nas missas vespertinas pode ler-se o Evangelho de Lc 24, 13-35)

 

São Lucas 24, 13-35   (de tarde)

 

13Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. 14Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. 15Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. 16Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. 17Ele perguntou-lhes: “Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?” Pararam, com ar muito triste, 18e um deles, chamado Cléofas, respondeu: “Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias”. 19E Ele perguntou: “Que foi?” Responderam-Lhe: “O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; 20e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. 21Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, 23não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. 24Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram”. Então Jesus disse-lhes: 25“Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! 26Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?” 27Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. 28Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de seguir para diante. 29Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: “Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite”. Jesus entrou e ficou com eles. 30E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. 31Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. 32Disseram então um para o outro: “Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” 33Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, 34que diziam: “Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão”. 35E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.

 

Temos aqui uma das mais belas páginas do Evangelho: um  relato cheio de vivacidade, de finura e de psicologia, em que acompanhamos o erguer daquelas almas desde a mais amarga frustração até às alturas da fé e da descoberta de Jesus ressuscitado. A crítica bíblica procura distinguir neste relato os elementos de tradição e os elementos redaccionais; podem identificar-se muitos elementos de tradição neste relato, mas não dispomos de meios para classificar como meramente redaccionais  todos os restantes, pois não são do nosso conhecimento todas as fontes de que Lucas dispôs; a própria crítica admite “fontes especiais” para a redacção de Lucas. Um facto indiscutível é que Lucas é um teólogo e um catequista, não é um jornalista e não se limita a contar a seco umas aparições, mas não temos elementos suficientes para definir em que medida reelaborou as suas fontes.

13  “Emaús”: uma povoação a 60 estádios (duas léguas), uns 11 quilómetros e meio de Jerusalém. Há duas leituras variantes nos manuscritos gregos do Evangelho de Lucas: a imensa maioria deles regista 60 estádios. Alguns poucos têm 160 (o que equivale a uns 30 Km). Também não existe completo acordo sobre a sua localização, sendo indicados vários locais na tradição cristã; El-Qubeibe é o de maior aceitação, a  uns 12 Km a Noroeste da Cidade Santa.

16 “Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem”. Não é que não vissem a Jesus, ou que Jesus se quisesse ocultar, mas eles é que estavam obcecados pelo seu extremo desalento. E fica-nos a lição: para que se possa reconhecer a Jesus ressuscitado é indispensável o olhar da fé.

18 “Cléofas” parece ser diferente do marido de Maria, mãe de Tiago e José (Jo 19, 25); embora alguns o identifiquem, a grafia é diferente: Kleopás.

22-24 “É verdade que algumas mulheres… Alguns dos nossos”. Aqui se resume o que foi relatado antes com mais pormenor (Lc 23, 56b – 24, 9) e correspondente à tradição sinóptica e joanina. Certamente que os nossos são “Pedro e o outro discípulo” (certamente João, cf. v. 12 e Jo 20, 1-10). “Mas a Ele não O viram”: se não se trata dum pormenor meramente redaccional, temos que admitir que ainda não lhes constava da aparição de Jesus a Pedro referida adiante, no v. 34; (cf. 1 Cor 15, 5).

28-30 “Jesus fez menção de seguir para diante”. Lucas volta a aludir ao “caminho de Jesus” (no v. 15 já tinha usado o mesmo verbo grego que significa caminhar). R. J. Dillon (From eye-witnesses to ministers of the word) pensa que este pormenor lucano insinua que a presença de Jesus no meio dos seus através da Eucaristia (a fracção do pão do v. 30) constitui o momento cume do seu caminhar  pelo caminho da salvação. Enternece o leitor ver como Jesus ressuscitado se torna o companheiro de caminho (recorde-se como Lucas gosta de focar a vida cristã como um caminho e um seguimento de Jesus): depois de se fazer encontrado, agora faz-se rogado. Isto sucede-nos muitas vezes na vida cristã: Ele vem ao nosso encontro sem O procurarmos e, outras vezes, quer dar-nos o ensejo de O convidarmos a ficar connosco e de praticarmos a caridade com os outros, que são Ele (cf. Mt 25, 40). Mas aqui o convite feito a Jesus não é um simples acto de caridade e de cortesia; com efeito, parece que a narrativa nos leva a pensar que quem faz este pedido é toda a comunidade cristã, que se reúne para celebrar a Eucaristia e anseia estabelecer uma comunhão íntima com Jesus ressuscitado (ibid.). Todos estão de acordo em ver a estreita relação da refeição descrita com a multiplicação dos pães e a instituição da Eucaristia.

31 “Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no, mas Ele desapareceu da sua presença”: É na Eucaristia que se abrem os olhos para a fé, para captar o que é invisível, mas real.  Impressiona muito o relato ao unir o aparecimento com o desaparecimento, sem se dizer para onde é que Jesus se retirou. Desta maneira fica sugerida uma nova presença, a de Jesus glorioso e ressuscitado: uma ausência que é presença.

32 “Não ardia cá dentro o nosso coração?”. Quando lemos a Escritura guiados por Jesus, presente na Igreja, inflama-se o nosso coração e sentimo-nos urgidos a mostrar aos que nos rodeiam, com as nossas vidas, pela palavra e pelo exemplo, que Cristo vive, que a Ressurreição é uma realidade. O episódio constitui um apelo a fazermos o mesmo papel do Ressuscitado junto dos desiludidos da vida e sem esperança e a comunicar-lhes a nossa experiência de fé. No relato também se põe em evidência a união do pão e da palavra na vida da Igreja.

 

Algumas reflexões sobre o valor dos testemunhos acerca da Ressurreição de Jesus

 

A Ressurreição de Jesus é proclamada pelos discípulos que O tinham seguido, não como uma simples ideia religiosa, mas como um facto sucedido ao terceiro dia: “E nós somos testemunhas” (cfr 1ª leitura da Páscoa: Act 10, 39.44).

Paremos um pouco para considerar de que testemunhas se trata e de que ressurreição se fala. Não são falsas, nem duvidosas as testemunhas, e também não é de um ressuscitar moral ou espiritual que elas falam. É a Ressurreição do Senhor! Um grande mistério! Um mistério, porém, não quer dizer uma coisa vaga e indefinida, pouco clara e confusa, mas sim um acontecimento transcendente. E, porque transcendente, a Ressurreição não se pode analisar como ela sucedeu fisicamente; além de que ninguém a observou e nenhum Evangelista a descreve. Também é por isso que o Santo Sudário, por mais autêntico que se possa considerar, nunca poderá constituir prova científica do mistério da Ressurreição de Jesus, quando muito, apenas um indício.

A Ressurreição não foi uma ressuscitação, um retorno à vida terrena. Isso seria um grande milagre, sobretudo por se tratar de um morto dessangrado e de coração aberto por uma lança. Mas então não seria um mistério propriamente dito. “Cristo ressuscitado dos mortos já não morre, a morte não tem domínio sobre Ele!” exclama S. Paulo (Rom 6, 9). É que o seu corpo passa do estado de morte para uma outra vida que está para além dos limites do tempo e do espaço. Cristo tornou-se um “homem celeste” (1 Cor 15, 35-50), o seu corpo deixou de ser terreno, tem os dotes de corpo glorioso. Ele já não entra no convívio das pessoas, mas manifesta-se a quem e quando quer e das formas mais variadas, a ponto de não reconhecido pelos que tinham co­nvivido com Ele, e aparece no meio deles sem se deslocar.

No entanto, o mistério transcendente da Ressurreição de Cristo teve manifestações historicamente comprovadas. Não se pode falar do túmulo vazio de modo simplista. O sepulcro vazio, não sendo uma prova directa, pois até leva a própria Madalena a pensar no roubo do corpo (Jo 20, 2.13), não deixa de ser um sinal essencial, como se depreende da própria leitura do Evangelho da Páscoa (Jo 20, 1-9). Com efeito, segundo expõe o Catecismo da Igreja Católica, “o discípulo que Jesus amava afirma que, ao entrar no sepulcro vazio e ao descobrir as ligaduras no chão (Jo 20, 6), viu e acreditou (Jo 20, 8). Isto pressupõe que verificou, no estado do sepulcro vazio (Jo 20, 5-7), que a ausência do corpo de Jesus não tinha podido ser obra humana e que Jesus não tinha voltado simplesmente a uma vida terrena como tinha sido o caso de Lázaro (cfr Jo 11, 44)”.

E Jesus aparece primeiramente a Maria Madalena e às Santas Mulheres, que iam embalsamar o corpo de Jesus, sepultado à pressa na tarde de Sexta-feira, quando começava a urgir o descanso sabático. Elas, que tinham tido a coragem de acompanhar o Senhor até ao fim, bem mereceram esta atenção. E apareceu a Pedro, que O negara e chorava a sua vil cobardia, e só depois aos restantes discípulos (1 Cor 15, 3-5: Lc 24, 34). Todos se transformam em testemunhas da Res­surreição.

Vejamos agora o valor deste testemunho. Não passaria pela cabeça de ninguém apresentar como tes­temunhas da Ressurreição as mulhe­res, pois estas não podiam testemunhar num tribunal judeu. Se os Evan­gelhos dão tanta importância às mulheres na Ressurreição, é porque pretendem contar o que realmente aconteceu e não propor umas lendas sagradas destituídas de credibilidade logo à partida. A situação psicológica em que se encontravam os discípulos de Jesus após a sua Paixão e Morte não era de modo nenhum a de exal­tação mística, mas sim a de sensação de derrota e fracasso total, com todas as esperanças perdidas (cfr Lc 24, 11.17; Jo 20, 19; Mc 16, 11.13). Na tarde da Ressurreição, Jesus lança-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração por não terem crido em quem O tinha visto ressuscitado (Mc 16, 14). A sua mudança interior não se pode explicar pres­cindindo do facto histórico das apari­ções do Senhor.

Também não se pode demons­trar que estas aparições se reduzam a meras experiências místicas inte­riores que tenham tomado corpo em formas narrativas mais ou menos dramatizadas. Não é crível que tenham sido tão fracos dramatiza­do­res, pois, uma vez postos a dramatizar, não lhes era difícil mostrarem-se mais verosímeis, mais concordantes. Por outro lado, à hora da redacção dos Evangelhos, os Evangelistas, se não estivessem condicionados pela verdade dos relatos históricos, sentir-se-iam mais à vontade para levarem a cabo o seu trabalho redaccional recorrendo facilmente à harmonização dos textos, uma coisa que se lhes impunha para mais facilmente fazerem passar o que queriam.

Para não me alongar em mais considerações, termino chamando a atenção para um aspecto muito importante do mistério da Ressurreição e nunca suficientemente meditado: a Ressurreição de Jesus não é uma  teoria, mas é um mistério de vida que nos toca e compromete a vida de cada um de nós, como comprometeu a vida dos primeiros Apóstolos e dos primeiros cristãos em ordem a uma entrega total e sem reservas ao amor de Deus e ao trabalho na difusão do seu Reino. Não crê na Ressurreição quem não se dispõe a viver uma vida de ressuscitado com Cristo e a ser uma testemunha da sua Ressurreição. Vale a pena! Vale a pena dar-se de todo a quem deu a Vida por nós, a quem nos dá a Vida. Vale a pena deixar de vez tanta mesquinhez, tanto cálculo terreno... “Uma vez que ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do Alto, onde Cristo se encontra” (2ª leitura da Páscoa: Col 3, 1).

 

S. José, esposo da Virgem Maria

 

1ª Leitura 2 Samuel  7, 4-5a.12-14a.16

 

4Naqueles dias, o Senhor falou a Natã, dizendo: 5a“Vai dizer ao meu servo David: Assim fala o Senhor: 12Quando chegares ao termo dos teus dias e fores repousar com os teus pais, estabelecerei em teu lugar um descendente que nascerá de ti e consolidarei a tua realeza. 13Ele construirá um palácio ao meu nome e Eu consolidarei para sempre o seu trono real. 14aSerei para ele um pai e Ele será para Mim um filho. 16A tua casa e o teu reino permanecerão diante de Mim eternamente e o teu trono será firme para sempre”.

 

Este texto, respigado da célebre profecia dinástica do profeta Natã, em que se garante a estabilidade da descendência de David à frente do povo de Israel – “o teu trono será firme para sempre” (v. 16) –, irá alimentar a esperança de restauração messiânica, após o desterro de Babilónia e justifica o título de “Filho de David” dado a Jesus ao longo do Novo Testamento (cf. Mt 1, 1; 9, 27; 12, 23; 15, 22; 20, 30-31; 21, 9; 22, 42; Act 2, 30; 13, 22-23; Rom 1, 3; 2 Tim 2, 8; Apoc 5, 5; 22, 16). O texto é escolhido para a solenidade de S. José, por ser ele quem garante a Jesus a sua descendência de David (Mt 1, 1; Lc 1, 31-33: “reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reino não terá fim”); com efeito, segundo a lei, José era pai de Jesus, um dado suficiente para Ele ser considerado descendente de David, embora também Maria devesse ser descendente de David, dado o costume de os casamentos se fazerem dentro da parentela.

4 “Naqueles dias”, isto é, na mesma noite em que o profeta Natã tinha apoiado a resolução do rei David de vir a construir uma casa digna para a arca da aliança que substituísse o modesto tabernáculo feito de cortinados. A mensagem divina para David é que não vai ser ele a conseguir uma casa (templo) para Deus, mas vai ser o próprio Deus a erguer-lhe uma casa (descendência) que permanecerá eternamente. O profeta joga com o duplo sentido da palavra hebraica “báyit”, casa e dinastia (v. 11-12).

 

2ª Leitura Romanos 4, 13.16-18.22

 

Irmãos: 13Não foi por meio da Lei, mas pela justiça da fé, que se fez a Abraão ou à sua descendência a promessa de que receberia o mundo como herança. 16Portanto a herança vem pela fé, para que seja dom gratuito de Deus e a promessa seja válida para toda a descendência, não só para a descendência segundo a Lei, mas também para a descendência segundo a fé de Abraão. 17Ele é o pai de todos nós, como está escrito: “Fiz de ti o pai de muitos povos”. Ele é o nosso pai diante d’Aquele em quem acreditou, o Deus que dá vida aos mortos e chama à existência o que não existe. 18Esperando contra toda a esperança, Abraão acreditou, tornando-se pai de muitos povos, como lhe tinha sido dito: 22“Assim será a tua descendência”. Por este motivo é que isto “lhe foi atribuído como justiça”.

 

Se na 1.ª leitura se falava de David, ascendente de S. José, nesta fala-se de outro ascendente mais longínquo, Abraão, o primeiro Patriarca do antigo povo de Deus. S. José é o Santo Patriarca do novo Povo de Deus, pois tem sobre Jesus os direitos legais de pai. 22Assim como Abraão foi pai de muitas nações (v. 17) também o Patriarca S. José é Pai e Patrono da Igreja de Cristo.

 

Evangelho São Mateus 1, 16.18-21.24a

 

16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. 18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados”. 24aQuando despertou do sono, José fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor.

 

S. Mateus centra o seu relato do nascimento de Jesus na figura de S. José (S. Lucas na de Maria), com uma clara intencionalidade teológica de apresentar Jesus como o Messias, anunciado como descendente de David. Isto é posto em evidência logo de início: “Genealogia de Jesus Cristo (=Messias), Filho de David” (v. 1). Como a linha genealógica passava pelo marido, é a de José que é apresentada. Os elos são seleccionados para que apareçam três séries de 14 nomes, obedecendo a uma técnica rabínica, chamada gematriáh, ou recurso ao valor alfabético dos números; assim o número 14, reforçado pela sua tripla repetição – “catorze gerações” – (no v. 17), sugere o nome de David, que em hebraico se escreve com três consoantes (em hebraico não se escrevem as vogais) que dão o número catorze ([D=4]+[V=6]+ [D=4]=14). A concepção virginal antes de ser explicada e justificada pelo cumprimento das Escrituras (vv. 18-25), é logo anunciada na genealogia, pois para todos os seus elos se diz “gerou”, quando para o último elo se diz “José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus” (v. 16).

18 “Antes de terem vivido em comum”: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

“Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo”: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se “por virtude do Espírito Santo”, não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra “espírito” (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera, Deus cria. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos, coisa totalmente contrária à verdade da Revelação divina.

19 “Mas José, seu esposo…”. Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou. Não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois, em face dos dados das suas fontes, nem sequer disso precisava. Maria nada teria revelado a José do mistério que nela se passava e José ao saber da gravidez de Maria, não a denuncia como adúltera; sendo um santo, “justo”, não a condena, pois conhecia a santidade singular de Maria; não admite qualquer suspeita, mas pressente que está perante algo de sobrenatural e não quer intrometer-se num mistério que o ultrapassava. É assim que “resolveu repudiá-la em segredo”, evitando, assim, “difamá-la” (colocá-la numa situação infamante) ou simplesmente “tornar público” (“deigmatísai”) o mistério messiânico. A sua delicadeza extrema levava-o a não pedir explicações a Maria. Ela também não falou de algo tão extraordinário e inaudito. Maria calava, sofria também, deixando nas mãos de Deus a sua honra e as angústias por que José iria passar por sua causa; Deus, que tinha revelado já a Isabel o mistério da sua concepção, podia igualmente vir a revelá-lo a José.

20 “Não temas receber Maria, tua esposa”. O Anjo não diz: “não desconfies”, mas: “não temas”. Segundo a explicação anterior, José deveria andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia; julgando-se indigno de Maria, decide não se imiscuir num mistério que o transcende; “tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, quis deixá-la ocultamente... José tinha-se, por indigno...” (S. Bernardo). Zerwick pensa que o texto poderia mesmo traduzir-se: “embora o que nela foi gerado seja do Espírito Santo, Ela dar(-te-)á à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus”, exercendo assim para Ele a missão de pai”. O Anjo não só elucida José, como também lhe diz que ele tem uma missão a cumprir no mistério da Incarnação, a missão e a dignidade de pai do Salvador. Comenta Santo Agostinho: “A José não só se lhe deve o nome de pai, mas este é-lhe devido mais do que a qualquer outro. Como era pai? Tanto mais profundamente pai, quanto mais casta foi a sua paternidade... O Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e amor de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus”.

23 “Será chamado Emanuel”. No original hebraico de Isaías 7, 14, temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqar’at referido a virgem, que é quem põe o nome = “e ela chamará”). Mateus, porém, usa o plural, que não aparece na tradução litúrgica, (kai kalésousin: “e chamarão”), um plural de generaliza­ção, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai “legal” de Jesus (era ao pai que pertencia pôr o nome, não à mãe). Mateus não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa, muito mais rica do que a letra do anúncio profético. Note-se que esta técnica de actualização (o deraxe) não é arbitrária, pois se baseia na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey (“não leias”), a qual consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de “não ler” as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular da forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular da tradução dos LXX: weqar’at – “e tu chamarás”), mas de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqar’ata “e tu chamarás” – lembrar que em hebraico há formas diferentes para o masculino e feminino das 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, “com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: “e (tu, José) o chamarás”. Assim, S. João Crisóstomo parafraseia: “Tu lhe farás as vezes de pai, por isso, começando pela imposição do nome, Eu te uno intimamente com Aquele que vai nascer” (Homil. in Mt, 4).

25 “E não a tinha conhecido...” S. Mateus pretende realçar que Jesus nasceu sem prévias relações conjugais, mas por um milagre de Deus. Quanto à posterior virgindade o Evangelista não só não a nega, como até a parece insinuar no original grego, ao usar o imperfeito de duração (“não a conhecia”) em vez do chamado aoristo complexívo como seria de esperar, caso quisesse abranger apenas o tempo até ao parto (Zerwick). Uma tradução mais à letra seria “até que Ela deu à luz”, em vez de: “quando Ela deu à luz”; uma afirmação que não significa necessariamente que depois já não se verificasse o que até este momento acontecera (assim é também em Jo 9, 18).

 

Evangelho alternativo São Lucas 2, 41-51a

 

41Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. 42Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. 43Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. 44Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-l’O entre os parentes e conhecidos. 45Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. 46Passados três dias, encontraram-n’O no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. 47Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. 48Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados e sua Mãe disse-Lhe: “Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura”. 49Jesus respondeu-lhes: “Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?”. 50Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso.

 

Quando faziam 12 anos, os rapazes israelitas começavam a ter os deveres e direitos da Lei mosaica, incluindo o dever de peregrinar a Jerusalém. Os judeus costumavam deslocar-se em caravanas e em grupos separados de homens e de mulheres, as crianças podiam fazer viagem em qualquer dos grupos; nas paragens do caminho, as famílias reuniam-se. É neste contexto que se desenrola o relato. A atitude de Jesus de ficar em Jerusalém é deveras surpreendente. Não deveria ter avisado os pais ou outros familiares? O que não faz sentido é buscar a explicação do sucedido numa rebeldia ou na irresponsabilidade dum adolescente – este rapaz é o Filho de Deus –, embora o relato evangélico possa fornecer luzes aos pais que se deparam com situações similares de filhos perdidos.

A teologia de Lucas talvez nos possa dar alguma pista para a compreensão do episódio narrado. “Jerusalém” não é simplesmente o centro da vida religiosa de Israel. Para os evangelistas, e de modo singular para Lucas, Jerusalém representa o culminar de toda a obra salvadora de Jesus, por ocasião da Páscoa da Paixão, Morte e Ressurreição; é por isso que Lucas, ao pôr em evidência a tensão de Jesus para a sua Paixão, apresenta grande parte do seu ensino “a caminho de Jerusalém”, onde Jesus tem de padecer para ir para o Pai e entrar na sua glória (cf. Lc 24, 26). A teologia de Lucas não é abstracta e desligada da realidade. Ora a realidade é que Jesus não é apenas “o Mestre”, Ele é “o Profeta”, e, por isso mesmo, não ensina apenas quando exerce a função de rabi, mas em todos os passos da sua vida actua como Profeta, ensinando através dos seu agir, mormente através de acções simbólicas de profundo alcance, por vezes bem chocantes. O “Menino perdido” – já não é tão menino, pois é um jovem no pleno uso dos seus direitos como judeu – é um Profeta que realiza uma acção simbólica para proclamar quem é e qual é a sua missão: “Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?” Ele é o Filho de Deus, e tem de cumprir a missão que o Pai lhe confiou, “em Jerusalém”, ainda que isto lhe custe bem e tenha de fazer sofrer aqueles que mais ama – “aflitos à tua procura” (v. 48). O episódio passa-se em Jerusalém, como prenúncio e paralelo de um sofrimento bem maior, também em Jerusalém. A lição é clara: não se pode realizar plenamente a vontade do Pai do Céu e, ao mesmo tempo, evitar todo o sofrimento próprio e dos seres mais queridos; subir a Jerusalém é subir à Cruz, e subir à Cruz é “elevar-se” ao Céu, também em Jerusalém (cf. Lc 24, 50-51).

41 “Os pais de Jesus”. “Teu pai” (v. 48). Uma vez que Lucas tinha acabado de falar tão explicitamente da concepção virginal de Jesus, não tem agora qualquer receio de nomear S. José como pai (virginal) do Senhor.

49 “Eu devia estar na Casa de Meu Pai”. A tradução de “tá toû Patrós mou” pode significar tanto “a casa de meu Pai”, como “as coisas (assuntos, vontade) de meu Pai”. A verdade é que o redactor pode ter querido dar à resposta de Jesus uma certa ambiguidade: “Não sabíeis que Eu tenho de estar nas coisas de meu Pai” (e que, por isso, me deveria encontrar aqui no Templo)?

50 “Eles não entenderam”. A resposta do Menino envolvia um sentido muito profundo que ultrapassava uma simples justificação da sua “independência”. Não alcançam ver até onde iria este “estar nas coisas do Pai”, mas também não se atrevem a fazer mais perguntas. Estamos postos perante o mistério do ser e da missão de Jesus; é mais um “sinal” e mais uma “espada” (cf. Lc 2, 34-35).