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Notas Bíblicas – Geraldo Morujão - 1.º Dom Advento a 7.º Dom Comum |
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Jeremias 33, 14-16 1 Tessalonicenses 3, 12-4, 2
São Lucas
21, 25-28.34-36 Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria Génesis 3, 9-15.20 Efésios 1, 3-6.11-12 São Lucas 1, 26-38
2.º Domingo do Advento
Filipenses 1, 4-6.8-11
3.º
Domingo do Advento Filipenses 4, 4-7
São Lucas
3, 10-18
4.º Domingo do
Advento
Hebreus
10, 5-10 Natal do Senhor (Missa da Vigília) Isaías 62, 1-5 Actos 13, 16-17.22-25 São Mateus 1, 1-25
Natal do Senhor (Missa da Meia-Noite) Isaías 9, 1-6 Tito 2, 11-14 São Lucas 2, 1-14
Natal do Senhor (Missa da Aurora) Isaías 62, 11-12 Tito 3, 4-7 São Lucas 2, 15-20
Natal do Senhor (Missa do Dia) Isaías 52, 7-10 Hebreus 1, 1-6 São João 1, 1-18
Sagrada Família de Jesus, Maria e José Ben-Sirá 3, 3-7.14-17a (gr. 2-6.12-14) Colossenses 3, 12-21 São Mateus 2, 13-15.19-23
Números 6, 22-27 Gálatas 4, 4-7 São Lucas 2, 16-21
Isaías 60, 1-6 Efésios 3, 2-3a.5-6 São Mateus 2, 1-12
Isaías 42, 1-4.6-7 Actos dos Apóstolos 10, 34-38 São Marcos 1, 7-11
2.º Domingo Comum
1 Coríntios 12, 4-11
3.º Domingo Comum 1 Coríntios 12, 12-30;
São Lucas 1, 1-4; 4, 14-21
4.º Domingo Comum 1 Coríntios 12, 31 – 13, 13;
São Lucas 4, 21-30 Malaquias 3, 1-4 Hebreus 2, 14-18 Lc 2, 22-40
5.º Domingo Comum 1 Coríntios Cor 15, 1-11
São Lucas 5, 1-11
6.º Domingo Comum
1 Coríntios 15, 12.16-20
7.º Domingo Comum
1 Coríntios 15, 45-49
Isaías 66, 10-14c
São João 2, 1-11 |
LEITURA I
Jeremias 33, 14-16 Eis o que diz o Senhor: 14«Dias virão, em que cumprirei a promessa que fiz à casa de Israel e à casa de Judá: 15Naqueles dias, naquele tempo, farei germinar para David um rebento de justiça que exercerá o direito e a justiça na terra. 16Naqueles dias, o reino de Judá será salvo e Jerusalém viverá em segurança. Este é o nome que chamarão à cidade: ‘O Senhor é a nossa justiça’».
O profeta Jeremias, em face de ruína do seu povo e da destruição da cidade de Jerusalém pelas tropas de Nabucodonosor no ano 587, lança um grito de esperança, apelando para as antigas promessas divinas, como a célebre profecia de Natã (2 Sam 7) e a das bênçãos de Jacob (Gn 49, 10). O texto é extraído da parte final do chamado «Livro da Consolação» de Jeremias (Jer 30, 1 – 33, 26) e pensa-se que a sua redacção corresponde a esta época do fim do reinado de Sedecias. A verdade é que a organização dos oráculos que constam desta vasta e complexa obra não obedece a critérios cronológicos, mas temáticos. Lembrar que já antes, no ano 597, Nabucodonosor tinha conquistado e submetido a tributo Jerusalém e levado cativos homens mais notáveis juntamente com o jovem monarca Yoyaquin, filho de Yoyaquim, tendo deixado no trono o seu tio Sedecias, como rei vassalo. 15 «Um rebento». Metáfora clássica com que os profetas designam o Messias, «descendente» de David (cf. Is 4, 2; 11, 1; Jer 23, 5; Zac 3, 8). 16 «Este é o nome que chamarão à cidade: ‘O Senhor é a nossa justiça’». O nome indica a vocação da futura Jerusalém (a Igreja), um povo justificado por Deus, chamado a participar da sua santidade (cf. Is 1, 26). Como curiosidade, diga-se que este texto não aparece na versão grega dos LXX, que, por esta razão, parece transmitir um texto mais puro, isto é, sem repetições; a leitura de hoje é um duplicado de Jer 23, 5-6.
LEITURA II
1 Tessalonicenses 3, 12-4, 2 Irmãos: 12O Senhor vos faça crescer e abundar na caridade uns para com os outros e para com todos, tal como nós a temos tido para convosco. 13O Senhor confirme os vossos corações numa santidade irrepreensível, diante de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de Jesus, nosso Senhor, com todos os santos. 1Finalmente, irmãos, eis o que vos pedimos e recomendamos no Senhor Jesus: recebestes de nós instruções sobre o modo como deveis proceder para agradar a Deus e assim estais procedendo; mas deveis progredir ainda mais. 2Conheceis bem as normas que vos demos da parte do Senhor Jesus.
A leitura contém uma bênção (final do cap. 3) e um pedido ou apelo (início do cap. 4), com a mesma ideia de fundo: a de «crescer» (ou exceder-se, v. 12) e «progredir» (vv. 1 e 10), no «proceder» (à letra, «caminhar») «para agradar a Deus». De facto, a vida cristã é um caminho em que nunca se acaba de atingir a perfeição, e tem de se lutar sem descanso para chegar à meta (cf. Filp 3, 12-15), que corresponde à «vinda de Jesus, com todos os santos». O tempo do Advento encerra um apelo para que todos nos preparemos para esta segunda vinda de Jesus (a parusia). A vida cristã também é encarada por S. Lucas, o Evangelista deste Ano C, como um «caminho» (cf. Act 9, 2; 18, 25.26; 19, 9.23; 22, 4; 24, 14.22). Notar como na parte mais característica do III Evangelho (Lc 9, 51 – 19, 27), S. Lucas apresenta Jesus a caminho de Jerusalém, seguido dos seus discípulos e convidando outros a segui-l'O pelo caminho da renúncia (cf. Lc 9, 57-62).
EVANGELHO
«A vossa libertação está próxima» São Lucas 21, 25-28.34-36 Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 25«Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, na terra, angústia entre as nações, aterradas com o rugido e a agitação do mar. 26Os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai suceder ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. 27Então, hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória. 28Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. 34Tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados pela devassidão, a embriaguez e as preocupações da vida, 35e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha, pois ele sobrevirá sobre todos os que habitam a terra inteira. 36Portanto, vigiai e orai em todo o tempo, para terdes a força de vos livrar de tudo o que vai acontecer e poderdes estar firmes na presença do Filho do homem».
A leitura é uma selecção de versículos do chamado «discurso escatológico» de Lucas, em que se entrelaçam três realidades distintas, que temos dificuldade em destrinçar: a destruição de Jerusalém, o fim dos tempos e a segunda vinda de Cristo. Esta dificuldade de interpretação torna-se maior em virtude da linguagem simbólica usada, própria dos profetas e do género apocalíptico, e pelo facto de o fim de Jerusalém aparecer como uma imagem do fim do mundo; por outro lado, nem Jesus nem os Evangelistas pretendem com estas palavras satisfazer a curiosidade humana acerca de quando e de como vai ser o fim deste mundo efémero, pois o que se tem em vista é uma exortação a superar as dificuldades e perseguições que ameaçam os fiéis e a permanecer firmes na fé e vigilantes até ao fim: «vigiai e orai em todo o tempo» (v. 36). Este discurso é também um grito de esperança para todos os cristãos sujeitos a sofrimentos de toda a espécie: «erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima» (v. 28). 25-26 A comoção do «universo» – descrita em S. Marcos com mais realismo e com citações literais do Antigo Testamento – não aparece como um anúncio ou sinal prévio da vinda do Filho do Homem, mas forma parte da própria parusia: o próprio cosmos, e não apenas a humanidade, estremecerá de pavor perante a tremenda majestade do supremo Juiz, que surgirá com todo o seu poder e glória. Há aqui uma referência clara ao Juízo final, universal e público, verdade de fé que professamos no Credo. Jesus descreve-nos este acontecimento com o mesmo colorido do «Dia de Javé», o dia da justa retribuição definitiva, anunciado pelos Profetas (Is 34, 4; 13, 10; cf. Ez 32, 7-8; Joel 2, 10; 4, 15-16; etc). As «forças celestes» são as forças que mantêm os astros nas suas órbitas, ou, por uma metonímia, os próprios astros. Estas imagens grandiosas e aterradoras, pertencentes ao estilo apocalíptico, prestam-se a encarecer a singular seriedade dos acontecimentos anunciados, bem como a suma dignidade do Juiz, Senhor do Universo. O Catecismo da Igreja Católica fala do Juízo final como sendo a palavra definitiva do Senhor sobre toda a história, que «revelará como a justiça de Deus triunfa de todas as injustiças cometidas pelas suas criaturas e como o seu amor é mais forte do que a morte» (n.º 1040). 27 «O Filho do Homem vir numa nuvem». Não se trata de uma vinda do tipo espiritual, místico ou moral, mas duma vinda com poder e majestade, para o Juízo final (como disse, um artigo da fé professada no «Credo»). A nuvem é uma imagem cheia de grandiosidade, própria do estilo apocalíptico, que contém uma clara referência a Daniel 7, 13; é a partir desta passagem profética que Jesus adopta o título (talvez a partir da figura de linguagem chamada asteísmo), ao mesmo tempo glorioso e humilde, de Filho do Homem. A nuvem, que ao mesmo tempo tem a propriedade de revelar e de esconder, acompanha frequentemente as teofanias (Gn 9, 13s; Jz 5, 4s; Job 38, 1; Ez 1, 4.28; Mc 9, 7) e algumas vezes aparece como o carro de Javé (ls 19,1; Salm 10, 3). Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria 1ª Leitura Génesis 3, 9-15.20 9Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?». 10Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». 11Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?». 12Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor 13Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi». 14Disse então o Senhor Deus à serpente: «Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Hás-de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida. 15Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar». 20O homem deu à mulher o nome de «Eva», porque ela foi a mãe de todos os viventes. A leitura é extraída do segundo bloco do livro do Génesis, que vai do v. 4b do capítulo 2 até ao fim do capítulo 4, que os estudiosos atribuem à chamada «tradição javista», onde se encontra a narrativa da criação do homem e da mulher, do pecado dos primeiros pais com as suas consequências e da continuidade da vida humana marcada pelo pecado. É evidente que esta narrativa não é um relato jornalístico, pois tudo é descrito numa linguagem simbólica, muito expressiva e densa; a narrativa coloca o leitor perante realidades transcendentes que dizem respeito ao «ser humano» – o adam –, o homem de todos os tempos. O autor sagrado, que deu forma definitiva e inspirada ao Pentateuco, quis dar-nos um panorama coerente da história da salvação – que arranca da eleição divina e se concretiza na aliança e nas promessas de salvação – desenvolvendo-se por etapas correspondentes a um maravilhoso projecto divino, a que não escapa o enigma das origens. Se perdêssemos de vista este plano divino, que conhecemos pela Revelação, a curiosidade científica poderia levar-nos a ficar atolados nos aspectos arqueológicos e episódicos, como poderia suceder a alguém que, para estudar um monumento antigo, se ficasse no estudo das pedras e na análise dos materiais de construção; por mais científica que fosse a sua análise, ficaria sem se aperceber da harmonia do conjunto, do significado histórico desse monumento e da sua verdade mais profunda. A doutrina da Igreja sobre o pecado original, de que Maria foi isenta por singular privilégio, não se fundamenta na narrativa do Génesis; muito menos se pode partir do estudo das fontes do Génesis para negar a existência desse pecado (uma ridícula ingenuidade, além do mais); a doutrina da fé encontra a sua sólida base na obra redentora de Cristo e nos ensinamentos do Novo Testamento, nomeadamente de S. Paulo; no entanto, a fé projecta grande luz sobre esta narrativa simbólica das origens. 10 «Tive medo porque estava nu; e então escondi-me». Deste modo se descreve, com fina psicologia, o sentimento de culpabilidade e de vergonha que não podia deixar de ser estranho ao primeiro pecado e igualmente ao pecado de todo aquele que não empederniu a sua consciência; esta, que antes de pecar era o aviso de Deus, toma-se depois uma premente censura. Este dar conta da própria nudez parece também indicar, por um lado, a enorme frustração de quem, ao pecar, em vão tinha tentado «ser igual a Deus» e, por outro lado, sugere o descontrolo das tendências instintivas (a concupiscência): depois do primeiro pecado, sentem-se dominados por movimentos e apetites contrários à razão, que tentam esconder (v. 7). Não resistimos a citar algumas palavras da profunda reflexão antropológica de João Paulo II, nas audiências gerais de Maio de 1980: «Por meio destas palavras (v. 10) desvela-se certa fractura constitutiva no interior da pessoa humana, quase uma ruptura da original unidade espiritual e somática do homem. Este dá-se conta pela primeira vez de que o seu corpo cessou de beber da força do espírito, que o elevava ao nível da imagem de Deus. A sua vergonha original traz em si os sinais duma específica humilhação comunicada pelo corpo. (...) O corpo não está sujeito ao espírito como no estado da inocência original, tem em si um foco constante de resistência ao espírito e ameaça de algum modo a unidade do homem pessoa. (...) A concupiscência, em particular a concupiscência do corpo, é ameaça específica à estrutura da auto-posse e do autodomínio, por meio do qual se forma a pessoa humana». 14 «Hás-de rastejar e comer do pó da terra». Na narrativa, a sentença é dada primeiro contra a serpente, a primeira a fazer mal. Ninguém pense que o autor quer insinuar que dantes as cobras tinham patas: a sentença é proferida contra o demónio tentador; a expressão designa uma profunda humilhação (cf. Salm 71(72), 9; Is 49, 23; Miq 7, 17), infligida contra o demónio, que é o sentenciado, não as serpentes (cf. Apoc 12, em especial os vv. 9 e 17). 15 «Esta te esmagará a cabeça». Todo o versículo constitui o chamado Proto-Evangelho, o primeiro anúncio da boa nova da salvação que se lê na Bíblia. Não se limita esta passagem a anunciar o estado de guerra permanente entre as potências diabólicas – «a tua descendência» – e toda a Humanidade – «a descendência dela». É sobretudo uma vitória que se anuncia. Note-se que essa vitória é expressada não tanto pelo verbo, que no original hebraico é o mesmo para as duas partes em luta (xuf – na Neovulgata conterere), mas sim pela parte do corpo atingida nessa luta: a serpente será atingida na cabeça (ferida mortal, daí a tradução «esmagará»), ao passo que a descendência será apenas atingida no calcanhar (ferida leve, daí a tradução «atingirás»). Mas, pergunta-se, a quem é que designa o pronome «esta» (v. 15)? Segundo o original hebraico, podia ser a descendência da mulher. A verdade, porém, é que esta descendência pecadora fica incapacitada para, por si, vencer o demónio e o pecado em que se precipitara. Assim, o tradutor grego da Septuaginta (inspirado?) referiu o dito pronome ao Messias (traduzindo-o na forma masculina, designando um indivíduo, autós, em vez da forma neutra (designando uma colectividade), autó, referindo este pronome a descendência, (que em grego se diz com a palavra neutra, sperma); esta tradução visava pôr em evidência que quem vence o pecado e o demónio é Ele, o Messias. A tradição cristã, e com ela a tradução da Vetus Latina seguida pela Vulgata, ao traduzir o pronome pelo feminino ipsa, aplicou este texto à Virgem Maria, explicitando um sentido (chamado eminente), que entreviu nesta passagem (se quisesse designar a descendência – semen – teria empregado o neutro ipsum, e não ipsa). Eis como se costuma explicar o sentido mariano da passagem: a vitória é prometida à descendência de Eva, mas quem faz possível essa vitória é Jesus Cristo, com a sua obra redentora. Assim, unidos a Cristo, todos somos vencedores, mas Maria é a vencedora de um modo eminente, porque Mãe do Redentor e Mãe de toda a comunidade dos redimidos, a Igreja. O próprio contexto facilita esta referência a Maria: é que, contra tudo o que era de esperar, a profecia aparece dita a Eva, e não a Adão. Segundo o ensino da Igreja (cf. Bula «Ineffablis Deus» do Beato Pio IX), esta vitória de Maria sobre o demónio, inclui a perfeita isenção de toda a espécie de mancha do pecado, incluindo o original. 2ª leitura Efésios 1, 3-6.11-12 3Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. 4N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. 5Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, 6para louvor da sua glória e da graça que derramou sobre nós, por seu amado Filho. 11Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, 12para sermos um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperámos em Cristo. Este início da epístola aos Efésios de que é extraída a leitura tem o aspecto de um hino litúrgico e é uma das mais ricas sínteses doutrinais paulinas. 3 «Em Cristo». Toda a graça – «bênçãos espirituais» – que Deus concede ao homem, após o pecado original, incluindo a Imaculada Conceição da Virgem Maria, é concedida pela mediação de Cristo e através da união com Ele. 4-5 «Santos». «Filhos». O objectivo desta eleição eterna de Deus é «sermos santos», isto é, destacados do profano e pecaminoso para servir ao culto e glória divina: «diante d’Ele», isto é, na presença de Deus; estamos chamados a estar sempre diante de Deus para O glorificar a partir de tudo o que fazemos, dizemos ou pensamos, como ensina o Concílio Vaticano II: «Todos os cristãos são, pois, chamados e devem tender à santidade e perfeição do próprio estado» (LG 42). A santidade está em sermos «participantes da natureza divina» (2 Pe 1, 4; Rom 12, 1), sendo filhos de Deus e vivendo como tais, imitando a Cristo, o Filho de Deus por natureza (cf. Rom 8, 15-29; Gal 4, 5-7; 1 Jo 3, 1-3). E o modelo humano mais perfeito de santidade é Maria. A expressão «santos e irrepreensíveis» faz pensar nas vítimas oferecidas a Deus no Antigo Testamento (cf. Lv 20, 20-22), insinuando-se assim o carácter oblativo e sacrificial de toda a vida do cristão (cf. 1 Pe 2, 5), bem como a perfeição que devemos pôr em tudo o que fazemos, demais que não se trata duma pureza meramente exterior e ritual, mas de um culto em espírito e verdade (cf. Jo 4, 23), «na sua presença» (de Deus) «que examina os rins e o coração» (Salm 7, 10), isto é, que perscruta o que há de mais íntimo no homem, a sua consciência, afectos e intenções. Evangelho São Lucas 1, 26-38 Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra». A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma singular densidade, pois encerra o mistério mais assombroso da História da Salvação, a Incarnação do Filho eterno de Deus. Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria! 26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus». 28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita: «Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo do grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9). Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica. «O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele. Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita es tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo. 29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18). 32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14). 34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio. 35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»). «O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7). 38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma. «Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus.
LEITURA I
«Deus mostrará o teu esplendor» Leitura do Livro de Baruc 5, 1-9 1Jerusalém, deixa a tua veste de luto e aflição e reveste para sempre a beleza da glória que vem de Deus. 2Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e coloca sobre a cabeça o diadema da glória do Eterno. 3Deus vai mostrar o teu esplendor a toda a criatura que há debaixo do céu; 4Deus te dará para sempre este nome: «Paz da justiça e glória da piedade». 5Levanta-te, Jerusalém, sobe ao alto e olha para o Oriente: vê os teus filhos reunidos desde o Poente ao Nascente, por ordem do Deus Santo, felizes por Deus Se ter lembrado deles. 6Tinham-te deixado, caminhando a pé, levados pelos inimigos; mas agora é Deus que os reconduz a ti, trazidos em triunfo, como filhos de reis. 7Deus decidiu abater todos os altos montes e as colinas seculares e encher os vales, para se aplanar a terra, a fim de que Israel possa caminhar em segurança, na glória de Deus. 8Também os bosques e todas as árvores aromáticas darão sombra a Israel, por ordem de Deus, 9porque Deus conduzirá Israel na alegria, à luz da sua glória, com a misericórdia e a justiça que d’Ele procedem.
O autor apresenta-se como estando no exílio de Babilónia; felicita jubilosamente Jerusalém, ao mesmo tempo que anuncia a sua restauração e o regresso dos cativos, com uma linguagem de sabor escatológico e messiânico, à maneira de Isaías, de quem retoma as ideias e as próprias expressões poéticas, como se pode ver: v. 1 – Is 52, 1; v, 2 – Is 61, 10; v. 7 – Is 40, 3.4; v. 8 – Is 41, 19; v. 9 – Is 40, 10-11; 42, 16; 52, 12. Também são notáveis as semelhanças com a literatura sapiencial (cf. Salm 126), o que leva a situar a obra entre os livros proféticos e os sapienciais. A Jerusalém descida dos Céu de Apoc 21, 1-4 tem grande semelhança com o texto da nossa leitura. O autor e a data do escrito continuam a ser discutidos. 4 «Paz da justiça e glória da piedade» são hebraísmos (genitivos de qualidade) que correspondem à nossa maneira de dizer: paz justa e piedade gloriosa. 7 «Aplanar a terra», abatendo «montes» e preenchendo «vales» é uma grandiosa imagem com que, à maneira isaiana (cf. Is 40, 3-5), dramatiza a preparação do caminho do regresso de Babilónia, vista como um novo Êxodo. O Baptista, no Evangelho de hoje, apela para o sentido messiânico da imagem: a vinda do exílio prefigura a salvação definitiva. No fundo, temos sempre a teologia do deserto; assim como a libertação da escravidão do Egipto se deu através do deserto, assim também será a libertação do cativeiro e também a salvação messiânica.
LEITURA II
«Puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo» Filipenses 1, 4-6.8-11 Irmãos: 4Em todas as minhas orações, peço sempre com alegria por todos vós, 5recordando-me da parte que tomastes na causa do Evangelho, desde o primeiro dia até ao presente. 6Tenho plena confiança de que Aquele que começou em vós tão boa obra há-de levá-la a bom termo até ao dia de Cristo Jesus. 8Deus é testemunha de que vos amo a todos no coração de Cristo Jesus. 9Por isso Lhe peço que a vossa caridade cresça cada vez mais em ciência e discernimento, 10para que possais distinguir o que é melhor e vos torneis puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo, 11na plenitude dos frutos de justiça que se obtêm por Jesus Cristo, para louvor e glória de Deus.
A leitura é tirada do início da Carta aos fiéis de Filipos, a primeira cidade europeia onde Paulo tinha fundado uma comunidade florescente. Temos aqui uma das dimensões da espiritualidade do Advento: a preparação de modo efectivo e progressivo (vv. 9-11) com frutos de santidade – «na plenitude dos frutos de justiça» – para «o dia de Cristo», isto é, o da sua segunda vinda, o seu advento escatológico, que pode dar-se a todo o momento. Os primeiros cristãos de tal maneira viviam numa forte tensão para ele, que o consideravam iminente. S Paulo quer que a espera da vinda de Cristo sirva de estímulo para crescer no amor de Deus – «que a vossa caridade cresça cada vez mais» –, de modo que saibam discernir «o que é melhor» (v. 10), para o porem em prática.
EVANGELHO
«Toda a criatura verá a salvação de Deus» São Lucas 3, 1-6 1No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe tetrarca da região da Itureia e Traconítide e Lisânias tetrarca de Abilene, 2no pontificado de Anás e Caifás, foi dirigida a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto. 3E ele percorreu toda a zona do rio Jordão, pregando um baptismo de penitência para a remissão dos pecados, 4como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. 5Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas; 6e toda a criatura verá a salvação de Deus’».
1 «No décimo quinto ano de Tibério»: Lucas, um talento de historiador, não se limita a apresentar a substância da mensagem de salvação. Ele quer que fique bem claro que não se trata duma mensagem fora do tempo, de uma ideia como os mitos; é uma mensagem situada no tempo e no espaço em que se desenvolve a história humana. É assim que nos deixa um dado de excepcional valor para sincronizar os acontecimentos salvíficos com os sucessos da história profana, a saber, ao ano 15 do reinado do imperador romano Tibério, aduzindo também outros cinco dados que, mais do que a cronologia, visam descrever-nos o ambiente político da época (vv. 1-2). A pregação do Baptista teve início, pois, no ano 27-28 da nossa era. Com efeito, Tibério começou propriamente a reinar só com a morte de Augusto em 19 de Agosto de 767 a. U. c.. Ora, segundo a contagem síria que adoptaria S. Lucas, em 1 de Outubro – o início do ano – já se começava a contar o 2º ano de Tibério; isto leva a pensar que o 15.º ano do reinado de Tibério vem a ser o ano 781 de Roma, o que corresponde ao ano 27-28 da nossa era cristã. «Pôncio Pilatos» foi governador ou procurador (na inscrição de Cesareia chama-se præfectus) da Judeia, Samaria e Idumeia desde o ano 26 a 36. «Herodes» é o Antipas, filho de Herodes o Grande, com o simples título de tetrarca na Galileia; foi quem mandou degolar João Baptista na fortaleza de Maqueronte, tendo reinado de 4 a. C, a 39 d. C, ano em que foi destituído e exilado para as Gálias por Calígula; «Filipe», filho de Cleópatra de Jerusalém (distinto do seu meio irmão Herodes Filipe casado com Herodíades), foi quem reconstruiu Panias com o nome de Cesareia de Filipe e Betsaida com o nome de Júlia; veio a casar com Salomé, filha de Herodíades e Herdes Filipe. 2 José «Caifás» presidiu ao Sinédrio, como sumo sacerdote de 18 a 36 da nossa era, após a deposição pelos romanos, no ano 15, de seu sogro «Anás», que continuou a manter grande influência político-religiosa (cf. Jo 18, 12-24). A discrição e respeito com que o IV Evangelho fala de Caifás leva alguns a imaginarem que se terá feito cristão, o que falta provar. 4-6 «Preparai o caminho do Senhor…» A longa citação do início da segunda parte de Isaías, o Dêutero-Isaías (Is 40, 3-5), é aplicada pelo Baptista a si próprio (cf. Jo 1, 23). Esta passagem isaiana contempla, num primeiro plano, o «regresso triunfal» dos deportados de Babilónia, uma figura dos tempos messiânicos, em que «toda a criatura verá a salvação de Deus». S. Lucas, o único evangelista a dar-nos a citação completa de Isaías, em que inclui o v. 5, pretende sublinhar a universalidade da salvação trazida por Cristo. A imagem de «endireitar os caminhos» provém do costume de ajeitar os caminhos, em geral escabrosos, por onde vai passar um soberano; presta-se muito bem a indicar a purificação das consciências para receberem a Cristo.
LEITURA I
«O Senhor exulta de alegria por tua causa» Sofonias 3, 14-18a 14Clama jubilosamente, filha de Sião; solta brados de alegria, Israel. Exulta, rejubila de todo o coração, filha de Jerusalém. 15O Senhor revogou a sentença que te condenava, afastou os teus inimigos. O Senhor, Rei de Israel, está no meio de ti e já não temerás nenhum mal. 16Naquele dia, dir-se-á a Jerusalém: «Não temas, Sião, não desfaleçam as tuas mãos. 17O Senhor teu Deus está no meio de ti, como poderoso salvador. Por causa de ti, Ele enche-Se de júbilo, renova-te com o seu amor, exulta de alegria por tua causa, 18acomo nos dias de festa».
Magnífico hino de júbilo a Sião, um cântico de esperança de salvação dirigido ao «resto» (cf. v. 13) que pela sua fidelidade sobreviverá às tremendas calamidades que o profeta anuncia. Uma leitura cristã (lectio divina) do belíssimo texto enquadra-se às mil maravilhas nesta quadra litúrgica; por um lado, condiz com o tom de alegria deste Domingo, por outro, faz pensar nas palavras de Gabriel à Virgem Maria (cf. Lc 1, 28.30.48); daí que condiz bem com este texto a tradução da saudação angélica «avé!» por «alegra-te!». «Filha de Sião», «Filha de Jerusalém», forma poética de se dirigir aos habitantes da cidade, e mesmo a todos os israelitas (como aqui sucede). A Igreja é o novo «Israel de Deus», «o monte Sião» (cf. Gal 4, 26; 6, 16; Hbr 12, 22; Apoc 14, 1; 21). «Sião» (etimologicamente lugar seco) era a cidadela da capital, Jerusalém. Inicialmente designava a fortaleza conquistada por David aos jebuseus, a colina oriental de Jerusalém (Ofel), que começou a ser chamada «cidade de David», para onde este transladou a arca da aliança. Quando Salomão construiu o Templo, a Norte de Sião, e para lá levou a arca, também se começou a dar a esse lugar o nome de Sião. Depois veio a designar o conjunto da cidade de Jerusalém, ou todos os seus habitantes e mesmo todo o povo de Israel. Na tradição cristã, veio a dar-se uma confusão acerca da localização topográfica do monte Sião, ao situá-lo no Cenáculo, na colina ocidental da cidade alta. Esta confusão parece ter origem em que o Cenáculo foi considerado a sede da primitiva Igreja de Jerusalém, o novo «monte Sião», segundo Hbr 12, 22 e Apoc 14, 1. A Arqueologia esclarece estes locais.
LEITURA II
«O Senhor está próximo» Filipenses 4, 4-7 Irmãos: 4Alegrai-vos sempre no Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos. 5Seja de todos conhecida a vossa bondade. O Senhor está próximo. 6Não vos inquieteis com coisa alguma; mas em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e acções de graças. 7E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.
A carta é um escrito da prisão, num tom muito familiar e predominantemente exortatório, incitando a perseverar na vida cristã, apresentada como um desporto sobrenatural (3, 13-16). Ela tem aqui o «seu ponto culminante» (H. Schlier) 4 «Alegrai-vos sempre no Senhor». A alegria é uma nota típica desta epístola (cf. 1, 3.18.25; 2, 2.17.18.28-29; 3, 1; 4, 1.10) e da vida do cristão. É uma virtude para viver «sempre», pois não tem o seu fundamento em nada de efémero, mas «no Senhor», na certeza de que Deus é Pai providente, que «está próximo» – «no meio de ti» (cf. 1ª leitura); é uma alegria sobrenatural. A leitura, que fornece o mote do canto de entrada, deu origem à designação deste 3.º Domingo do Advento como Domingo Gaudete, com manifestações de alegria pela proximidade da vinda de Cristo: flores no altar, paramentos cor de rosa…
EVANGELHO
«Que devemos fazer?» São Lucas 3, 10-18 Naquele tempo, 10as multidões perguntavam a João Baptista: «Que devemos fazer?» 11Ele respondia-lhes: «Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma; e quem tiver mantimentos faça o mesmo». 12Vieram também alguns publicanos para serem baptizados e disseram: «Mestre, que devemos fazer?» 13João respondeu-lhes: «Não exijais nada além do que vos foi prescrito». 14Perguntavam-lhe também os soldados: «E nós, que devemos fazer?» Ele respondeu-lhes: «Não pratiqueis violência com ninguém nem denuncieis injustamente; e contentai-vos com o vosso soldo». 15Como o povo estava na expectativa e todos pensavam em seus corações se João não seria o Messias, 16ele tomou a palavra e disse a todos: «Eu baptizo-vos com água, mas está a chegar quem é mais forte do que eu, e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias. Ele baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo. 17Tem na mão a pá para limpar a sua eira e recolherá o trigo no seu celeiro; a palha, porém, queimá-la-á num fogo que não se apaga». 18Assim, com estas e muitas outras exortações, João anunciava ao povo a Boa Nova».
Continuamos hoje a ouvir a pregação daquele que veio a preparar os caminhos do Senhor, a sua vinda. A sua pregação tinha provocado uma forte sacudidela nas consciências, por isso temos hoje, num trecho exclusivo de S. Lucas, uma repetida pergunta, muito do seu gosto: «Que devemos fazer?» (vv. 10.12.14; cf. Lc 10, 25; 18, 18; Act 2, 37; 22, 10). A conversão (pregada pelo Baptista) leva sempre a atitudes concretas de mudança de vida, vida nova que implica interrogar-se sobre deveres morais que se têm de cumprir, recorrendo a quem possa esclarecer a nossa consciência, uma vez que para actuar bem não basta actuar com «consciência certa, ou segura», mas é preciso actuar com «consciência verdadeira» (de acordo com a lei moral objectiva). Nesta formação da consciência para actuar segundo a vontade de Deus, devem-se ter muito em conta os deveres profissionais e do próprio estado, como é o caso aqui dos empregados do fisco (publicanos), dos soldados… 16 «Baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo». Os exegetas, em geral, pensam que João profetiza o Sacramento do Baptismo – que dá o Espírito Santo e que purifica – embora alguns, tendo em conta o contexto – «a pá» de joeirar, «limpar a eira, recolher o trigo, queimar a palha» (cf. Mt 13, 42) – pensem que o Baptista não sai da perspectiva vétero-testamentária e que toma o baptismo em sentido figurado: seria o juízo escatológico anunciado pelos profetas, que o Messias levaria a cabo com a sua vinda no fim dos tempos. João Baptista, numa perspectiva do A.T., uniria a primeira à segunda vinda do Messias, a primeira em que veio como Salvador e a segunda em que virá como Juiz. Uma coisa é certa: João reconhece a insuficiência e o carácter transitório do seu baptismo, que não podia dar o Espírito Santo prometido em abundância para os dias do Messias, nem purificar a fundo as consciências. Por outro lado, na linguagem de Lucas parece haver uma alusão ao Pentecostes (cf. Act 1, 5; 2, 3-4).
LEITURA I
«De ti sairá Aquele que há-de reinar sobre Israel» Miqueias 5, 1-4a 1Eis o que diz o Senhor: «De ti, Belém-Efratá, pequena entre as cidades de Judá, de ti sairá aquele que há-de reinar sobre Israel. As suas origens remontam aos tempos de outrora, aos dias mais antigos. 2Por isso Deus os abandonará até à altura em que der à luz aquela que há-de ser mãe. Então voltará para os filhos de Israel o resto dos seus irmãos. 3Ele se levantará para apascentar o seu rebanho pelo poder do Senhor, pelo nome glorioso do Senhor, seu Deus. Viver-se-á em segurança, porque ele será exaltado até aos confins da terra. 4aEle será a paz».
Em face da situação grave que pesava sobre o povo com as invasões assírias, no século VIII a. C., o Profeta tem palavras de esperança; após a ruína virá a restauração, que se fará por meio de um descendente de David. A profecia projecta-nos para um futuro de segurança e de paz, para tempos messiânicos. 1 «De ti sairá aquele…» Tanto a tradição judaica (cf. Rut 4, 11; 1 Sam 16, 1-13; 17, 12; e o Talmud: Pesahim 51, 1; Nedarim 39, 2) como a cristã (cf. Mt 2, 4-6; Jo 7, 40-42) entenderam esta profecia como referida ao lugar do nascimento de Cristo em Belém. «Beth-léhem» significa «casa do pão»; «Efratá» (fecunda) distingue-a de outra Belém, na Galileia. »Pequena entre as cidades…» S. Mateus (Mt 2, 4-6) cita este texto fazendo dele uma leitura actualizada para mostrar que em Jesus se cumpre esta profecia de Miqeias. Para isso recorre ao deraxe: um recurso de actualização próprio da hermenêutica judaica (aqui o al-tiqrey: «não leias») que tem em conta que em hebraico não se escreviam as vogais: assim, a palavra hebraica com que se diz «as cidades de» (alfey) é lida com outras vogais de modo a significar «as principais (príncipes) de» (al-lufey). É assim que Mateus pode dizer, não falseando o texto, mas interpretando-o: «não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá». «As suas origens remontam...» A expressão hebraica presta-se a designar uma origem anterior ao tempo, portanto, eterna e divina. Assim pensam muitos exegetas católicos, recorrendo à analogia com Is 9, 5. 2 «Aquela que há de ser mãe». Esta maneira de falar faz pensar numa alusão à célebre profecia de Isaías 7, 14, conhecida dos destinatários do oráculo, coisa aliás compreensível, uma vez que já teriam passado uns anos. 4 «Ele será a Paz». Em Ef 2, 14 parece haver uma citação desta passagem messiânica.
LEITURA II
«Eu venho para fazer a vossa vontade» Hebreus 10, 5-10 Irmãos: 5Ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifício nem oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui; no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, ó Deus, para fazer a tua vontade’». 8Primeiro disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado». E no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta: «Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade». Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós fomos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.
O autor inspirado aplica a Cristo, «ao entrar no mundo» (bela maneira de designar a sua Incarnação), o Salmo 40 (39), que, literalmente, não é considerado um salmo messiânico, mas em que ele descobre um sentido oculto (que se pode chamar um sentido típico ou plenário, e não mera acomodação) que, ao fim e ao cabo, exprime não só a atitude interior de Cristo, mas também o alcance redentor da sua vinda ao mundo. Com efeito, Cristo sabe que aquilo que é exterior ao homem (como era o caso do sangue dos animais oferecidos no culto levítico) tem uma ineficácia radical para agradar a Deus e salvar do pecado a Humanidade (cf. v. 11). Por isso Ele intervém, de modo definitivo, oferecendo-Se a si mesmo em sacrifício, numa homenagem de obediência livre e plena, «de uma vez para sempre» (v. 10) – «eis-me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade» (v. 9). Foi assim que «aboliu o culto antigo» (centrado na oferta de animais a Deus), «para estabelecer o segundo» e novo culto sempre vivo a actuante na Liturgia da Igreja, que na Eucaristia torna presente o único sacrifício de Cristo. 5 «Formaste-me um corpo»: Como habitualmente em Hebreus, a citação do Salmo também é feita segundo a versão grega dos LXX, que, embora substancialmente idêntica ao original hebraico («abriste-me me os meus ouvidos»), é muito mais expressiva para designar o mistério da Incarnação.
EVANGELHO
«Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?» São Lucas 1, 39-45 39Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direcção a uma cidade de Judá. 40Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo 42e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. 43Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? 44Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. 45Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor».
Os exegetas descobrem neste relato uma série de ressonâncias vétero-testementárias, o que corresponde não apenas ao estilo do hagiógrafo, mas sobretudo à sua intenção teológica de mostrar como na Mãe de Jesus se cumprem as figuras do A.T.: Maria é a verdadeira e nova Arca da Aliança (comparar Lc 1, 43 com 2 Sam 6, 9 e Lc 1, 56 com 2 Sam 6, 11) e a verdadeira salvadora do povo, qual nova Judite (comparar Lc 1, 42 com Jdt 13, 18-19) e qual nova Ester (Lc 1, 52 e Est 1 – 2). 39 «Uma cidade de Judá». A tradição diz que é Ain Karem, uma bela povoação a 6 Km a Oeste da cidade nova de Jerusalém. De qualquer modo, ficaria a uns quatro ou cinco dias de viagem de Nazaré (uns 150 Km). Maria empreende a viagem movida pela caridade e espírito de serviço. A «Mãe do meu Senhor» (v. 43) não fica em casa à espera de que os Anjos e os homens venham servir a sua rainha; e Ela mesma, que se chama «escrava do Senhor» (v. 38), «a sua humilde serva» (v. 48), apressa-se em se fazer a criada da sua prima e de acudir em sua ajuda. Ali permanece, provavelmente, até depois do nascimento de João, uma vez que S. Lucas nos diz que «ficou junto de Isabel cerca de três meses» Se Lucas diz que «regressou a sua casa» antes de relatar o nascimento de João, isso deve-se a uma técnica de composição literária chamada «de eliminação» (arrumar um assunto de vez antes de passar a outro, independentemente da sucessão real dos factos), do gosto de São Lucas (ver tb. Lc 1, 80 e 2, 7; 3, 20 e 21; 22, 15-18 e 22, 19-20, sem a interrupção que aparece nos outros Sinópticos: vv 21-23). 42 «Bendita és Tu entre as mulheres». Superlativo hebraico: a mais bendita de todas as mulheres. 43-44 «A Mãe do meu Senhor». As palavras de Isabel aparecem como proféticas, fruto duma luz sobrenatural que faz ver que o mexer-se do menino no seio (v. 41) não era casual, mas que «exultou de alegria» para saudar o Messias e sua Mãe. É natural que esta reflexão de fé já circulasse nas fontes familiares dos Evangelhos da Infância.
Natal do Senhor (Missa da Vigília)
1ª Leitura Isaías 62, 1-5 2Por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não terei repouso, enquanto a sua justiça não despontar como a aurora e a sua salvação não resplandecer como facho ardente. 2Os povos hão-de ver a tua justiça e todos os reis da terra a tua glória. Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará. 3Serás coroa esplendorosa nas mãos do Senhor, diadema real nas mãos do teu Deus. 4Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta»; mas hão-de chamar-te «Predilecta» e à tua terra «Desposada», porque serás a predilecta do Senhor e a tua terra terá um esposo. 5Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus.
Neste trecho temos um belo canto à Jerusalém (Sião), que o Profeta anseia por ver renovada após a prova do exílio de Babilónia. 1 «A sua justiça», ao aparecer paralela a «a sua salvação» (1b) e a «a tua glória» (v. 2), trata-se duma justiça que visa mais a acção de Deus que salva e glorifica Jerusalém, do que o simples restabelecimento dos direitos espezinhados. Esta «justiça que desponta como a aurora» é o prenúncio e a figura da vinda de Jesus Cristo à terra, o «Sol da Justiça» (cf. Mal 3, 20). A Vulgata (já não assim a Neovulgata) tinha personificado (na linha da Septuaginta) esta «justiça» e esta «salvação», traduzindo por «justo» e «salvador» (iustus eius et salvator eius). Se o profeta, em primeira intenção, visa a restauração de Jerusalém após o exílio, a profecia tem o seu pleno cumprimento com a vinda do Messias. 4-5 «Abandonada»: Jerusalém, durante o exílio, é comparada a uma esposa abandonada. Este anúncio feliz tem um cumprimento imediato e imperfeito com o regresso do cativeiro, mas o seu pleno cumprimento dá-se na Igreja, a nova Jerusalém (cf. Apoc 21, 2), a fiel «Esposa» de Cristo, «santa e imaculada» (Ef 5, 27). «O teu Construtor te desposará»: a Neovulgata, contra o que seria de esperar, manteve a tradução da Vulgata: «os teus filhos te desposarão», mas não assim as traduções modernas em geral (apesar da pontuação massorética); a confusão deve-se a que as mesmas consoantes hebraicas, bnyk, podem traduzir-se das duas maneiras, conforme as vogais adoptadas, tendo a tradução grega dos LXX optado pela versão que fazia mais sentido, «o teu construtor».
2ª Leitura Actos 13, 16-17.22-25
Naqueles dias, 16Paulo chegou a Antioquia da Pisídia. Uma vez em que ele estava na sinagoga, levantou-se, fez sinal com a mão e disse: «Homens de Israel e vós que temeis a Deus, escutai: 17O Deus deste povo de Israel escolheu os nossos pais e fez deles um grande povo, quando viviam como estrangeiros na terra do Egipto. 22Depois, com seu braço poderoso, tirou-os de lá. Por fim, suscitou-lhes David como rei, de quem deu este testemunho: ‘Encontrei David, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará sempre a minha vontade’. 23Da sua descendência, Deus fez nascer, segundo a sua promessa, um Salvador, Jesus. 24João tinha proclamado, antes da sua vinda, um baptismo de penitência a todo o povo de Israel. 25Prestes a terminar a sua carreira, João dizia: ‘Eu não sou quem julgais; mas depois de mim, vai chegar Alguém, a quem eu não sou digno de desatar as sandálias dos seus pés’».
Temos aqui um pequeno extracto do primeiro discurso de Paulo em Actos: uma breve síntese da história da salvação, que culmina em Jesus Cristo. Foi seleccionada a parte do texto que põe em evidência que, de acordo com as promessas de Deus, «Jesus, é o Salvador de Israel», sendo «da descendência de David» (v. 23); o último elo da corrente que prepara a sua vinda é João. 16 Os «tementes a Deus» eram os gentios simpatizantes do judaísmo, que aderiam ao seu monoteísmo e esperança messiânica; embora não se sujeitassem às práticas da lei judaica, frequentavam a liturgia sinagogal.
Evangelho Forma longa São Mateus 1, 1-25 Forma breve: São Mateus 1, 18-25
1(Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão: 2Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacob; Jacob gerou Judá e seus irmãos. 3Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara; Farés gerou Esrom; Esrom gerou Arão; 4Arão gerou Aminadab; Aminadab gerou Naásson; Naásson gerou Sálmon; Sálmon gerou, de Raab, Booz; 5Booz gerou, de Rute, Obed; Obed gerou Jessé; Jessé gerou o rei David. 6David, da mulher de Urias, gerou Salomão; 7Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; 8Asa gerou Josafat; Josafat gerou Jorão; Jorão gerou Ozias; 9Ozias gerou Joatão; Joatão gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; 10Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias; 11Josias gerou Jeconias e seus irmãos, durante o desterro de Babilónia. 12Depois do desterro de Babilónia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; 13Zorobabel gerou Abiud; Abiud gerou Eliacim; Eliacim gerou Azor; 4Azor gerou Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud; 15Eliud gerou Eleazar; Eleazar gerou Matã; Matã gerou Jacob; 16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. 17Assim, todas estas gerações são: de Abraão a David, catorze gerações; de David ao desterro de Babilónia, catorze gerações; do desterro de Babilónia até Cristo, catorze gerações). 18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». 22Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do profeta, que diz: 23«A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». 24Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa. 25E não a tinha conhecido, quando Ela deu à luz um filho, a quem ele pôs o nome de Jesus.
S. Mateus centra o seu relato do nascimento de Jesus na figura de S. José (S. Lucas na de Maria), com uma clara intencionalidade teológica de apresentar Jesus como o Messias, anunciado como descendente de David. Isto é posto em evidência logo de início: «Genealogia de Jesus Cristo (=Messias), Filho de David» (v. 1). Como a linha genealógica passava pelo marido, é a de José que é apresentada. Os elos são seleccionados para que apareçam três séries de 14 nomes, obedecendo a uma técnica rabínica, chamada gematriáh, ou recurso ao valor alfabético dos números; assim o número 14, reforçado pela sua tripla repetição – «catorze gerações» – (no v. 17), sugere o nome de David, que em hebraico se escreve com três consoantes (em hebraico não se escrevem as vogais) que dão o número catorze ([D=4]+[V=6]+ [D=4]=14). A concepção virginal antes de ser explicada e justificada pelo cumprimento das Escrituras (vv. 18-25), é logo anunciada na genealogia, pois para todos os seus elos se diz «gerou», quando para o último elo se diz que «gerou», mas: «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus» (v. 16). 18 «Antes de terem vivido em comum»: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois. «Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo»: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se «por virtude do Espírito Santo», não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra «espírito» (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera criaturas, Deus cria-as. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos. 19 «Mas José, seu esposo…». Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou. A verdade é que não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois em face dos dados das suas fontes nem sequer disso precisava. Do texto parece depreender-se que Maria nada tinha revelado a José do mistério que nela se passava. José vem a saber da gravidez de Maria por si mesmo ou pelas felicitações do paraninfo (o «amigo do esposo»), e o que devia ser para José uma grande alegria tornou-se o mais cruel tormento. Em circunstâncias idênticas, qualquer outro homem teria actuado drasticamente, denunciando a noiva ao tribunal como adúltera. Mas José era um santo, «justo», por isso, não condenava ninguém sem ter as provas evidentes da culpa. E aqui não as tinha e, conhecendo a santidade singular de Maria, não admite a mais leve suspeita, mas pressente que está perante o sobrenatural, já sentido por Isabel… (ou não teria tido alguma iluminação divina acerca da profecia de Isaías 7, 14?…) Então só lhe restava deixar Maria, para não se intrometer num mistério em que julga não lhe competir ter parte alguma. É assim que «resolveu repudiá-la em segredo», evitando, assim, «difamá-la» (colocá-la numa situação infamante) ou simplesmente «tornar público» («deigmatísai») o mistério messiânico. Mas podemos perguntar: porque não interrogava antes Maria para ser ela esclarecer o assunto? É que pedir uma explicação já seria mostrar dúvida, ofendendo Maria; a sua delicadeza extrema levá-lo-ia a não a humilhar ou deixar embaraçada. E porque razão é que Maria não falou, se José tinha direito de saber do sucedido? Mas como é que Maria podia falar de coisas tão colossalmente extraordinárias e inauditas?! Como podia provar a José a Anunciação do Anjo? Maria calava, sofria e punha nas mãos de Deus a sua honra e as angústias por que José iria passar por sua causa; e Deus, que tinha revelado já a Isabel o mistério da sua concepção, podia igualmente vir a revelá-lo a José. De tudo isto fica para nós o exemplo de Maria e de José: não admitir suspeitas temerárias e confiar em Deus sempre. 20 «Não temas receber Maria, tua esposa». O Anjo não diz: «não desconfies», mas: «não temas». Segundo a explicação anterior, José deveria andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: julga-se indigno de Maria e decide não se imiscuir num mistério que o transcende. Como explica S. Bernardo, S. José «foi tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, que a quis deixar ocultamente... José tinha-se, por indigno...». Segundo alguns exegetas modernos (Zerwick), o texto sagrado poderia mesmo traduzir-se: «embora o que nela foi gerado seja do Espírito Santo, Ela dar(-te-)á à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus, exercendo assim para Ele a missão de pai». Assim, o Anjo não só elucida José, como também lhe diz que ele tem uma missão a cumprir no mistério da Incarnação, a missão e a dignidade de pai do Salvador. Comenta Santo Agostinho: «A José não só se lhe deve o nome de pai, mas este é-lhe devido mais do que a qualquer outro. Como era pai? Tanto mais profundamente pai, quanto mais casta foi a sua paternidade... O Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e amor de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus». 23 «Será chamado Emanuel». No original hebraico de Isaías 7, 14, temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqara’t referido a virgem, que é a que põe o nome = «e ela chamará»). Mateus, porém, usa o plural, que não aparece na tradução litúrgica, (kai kalésousin: «e chamarão»), um plural de generalização, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai «legal» de Jesus (notar que a célebre profecia isaiana, ao dizer que seria a virgem a pôr o nome ao seu filho até parece prestar-se a significar que este não nasceria de germe paterno). Mateus, em face do papel providencial desempenhado por S. José, não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa muito mais rica do que a letra do anúncio profético. Contudo, esta técnica do Evangelista para «actualizar» um texto antigo (chamada deraxe) não é arbitrária, pois baseia-se na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey («não leias»), a qual consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de «não ler» as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular na forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular da tradução dos LXX: weqara’t «e tu chamarás»), mas trata-se de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqara’ta «e tu chamarás» – lembrar que em hebraico há diferentes formas masculina e feminina para as 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, «com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: «e (tu, José) o chamarás». Eis, a propósito, o maravilhoso comentário de S. João Crisóstomo, apresentando Deus a falar a José: «Não penses que, por ser a concepção de Cristo obra do Espírito Santo, tu és alheio ao serviço desta divina economia; porque, se é certo que não tens nenhuma parte na geração e a Virgem permanece intacta, não obstante, tudo o que pertence ao ofício de pai, sem atentar contra a dignidade da virgindade, tudo to entrego a ti, o pôr o nome ao filho. (...) Tu lhe farás as vezes de pai, por isso, começando pela imposição do nome, Eu te uno intimamente com Aquele que vai nascer» (Homil. in Mt, 4). 25 «E não a tinha conhecido...». S. Mateus pretende realçar que Jesus nasceu sem prévias relações conjugais, mas por um milagre de Deus. Quanto à posterior virgindade o Evangelista não só não a nega, como até a parece insinuar no original grego, ao usar o imperfeito de duração («não a conhecia») em vez do chamado aoristo complexívo como seria de esperar, caso quisesse abranger apenas o tempo até ao parto (Zerwick). Uma tradução mais à letra seria «até que Ela deu à luz», em vez de: «quando Ela deu à luz». De qualquer modo, esta afirmação não significa que depois já não se verificasse o que até este momento acontecera, como é o caso de Jo 9, 18. Natal do Senhor (Missa da Meia-Noite) 1ª Leitura Isaías 9, 1-6 2«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar. 3Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. 4Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor. 5Todo o calçado ruidoso da guerra e toda a veste manchada de sangue serão lançados ao fogo e tornar-se-ão pasto das chamas. 6Porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz». 7O seu poder será engrandecido numa paz sem fim, sobre o trono de David e sobre o seu reino, para o estabelecer e consolidar por meio do direito e da justiça, agora e para sempre. Assim o fará o Senhor do Universo. Este belíssimo texto é um trecho do chamado livro do Emanuel (Is 7 – 12), onde, em face da iminência de várias guerras, se abrem horizontes de esperança que se projectam em tempos vindouros, muito para além das soluções empíricas e imediatas: é a utopia messiânica de paz e alegria que veio a ter o seu pleno cumprimento com a vinda de Cristo ao mundo. Enquadra-se às mil maravilhas na noite de Natal, em que «uma luz começou a brilhar». Esta luz é o «Menino» (v. 5) que nasce para nós nesta noite, «luz do mundo» (Jo 8, 12; 1, 5.9). 4 «Como no dia de Madiã». Referência à grande vitória de Gedeão sobre os medianitas (Jz 7). 7 O «poder» e a «paz sem fim» serão garantidos para o trono de David pelo Menino de predicados divinos verdadeiramente surpreendentes (v. 5) que, embora expressos em termos semelhantes aos dos soberanos egípcios e assírios, suplantam os predicados de qualquer rei empírico e correspondem ao mistério de Jesus, Deus feito homem. 2ª Leitura Tito 2, 11-14 Caríssimo: 11Manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens, 12ensinando-nos a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos para vivermos, no tempo presente, com temperança, justiça e piedade, 13aguardando a ditosa esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, 14Jesus Cristo, que Se entregou por nós, para nos resgatar de toda a iniquidade e preparar para Si mesmo um povo purificado, zeloso das boas obras. Este breve texto é tirado da 2ª parte da breve carta a Tito. Depois de lhe ter dado orientações pastorais para a organização da Igreja em Creta (cap. 1), passa a desenvolver o tema das exigências da vida cristã (cap. 2 e 3). Na leitura queremos fazer ressaltar o v. 13 que foi adoptado pela liturgia da Missa (final do embolismo) e o v. 14 que é uma síntese da soteriologia paulina. 11 A graça do Baptismo mete-nos no caminho da «renúncia» (recordem-se as renúncias do ritual do Baptismo), pois sem renúncia não se pode seguir a Cristo (Lc 9, 23). 13 «Nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo». É uma das mais categóricas afirmações da divindade de Jesus Cristo em todo o N. T. Com efeito, como no original grego há um só artigo para «Deus e Salvador», estas duas designações, Deus e Salvador, referem-se à mesma pessoa, Jesus Cristo. 14 «Um povo especialmente seu», isto é, a Igreja, povo que Jesus Cristo conquista, não pelo poder das armas, mas pelo resgate do seu sangue redentor. A Igreja é o novo povo de Deus. Evangelho São Lucas 2, 1-14 1Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto, para ser recenseada toda a terra. 2Este primeiro recenseamento efectuou-se quando Quirino era governador da Síria. 3Todos se foram recensear, cada um à sua cidade. 4José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e da descendência de David, 5a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava para ser mãe. 6Enquanto ali se encontravam, chegou o dia de ela dar à luz 7e teve o seu Filho primogénito. Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. 8Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. 9O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. 10Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: 11nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. 12Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». 13Imediatamente, juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: 14«Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados». A narrativa do nascimento do Filho eterno de Deus – nunca houve nem haverá Menino como este! – é deveras encantadora na sua simplicidade. O teólogo Lucas, dotado de génio de historiador nada precisa de inventar, para a sua peculiar teologia. Dispondo provavelmente de não muitos dados, como bom historiador, começa por situar o acontecimento no tempo e no lugar. Ainda ninguém apresentou nenhuma razão convincente para pôr em dúvida o lugar do nascimento de «Jesus de Nazaré» em Belém (a pari, todo o mundo fala de Santo António de Pádua e a verdade é que nasceu em Lisboa!). Por outro lado, as referências do nosso historiador ao tempo não são contaminadas pela sua preocupação teológica de apresentar o nascimento do Salvador, em contraste com o César romano, Augusto, que se ufanava do título de salvador da humanidade. Embora o recenseamento geral na época de Quirino como governador da Síria – que está bem documentado – seja bastante posterior (no ano 6 da era cristã), a verdade é que houve muitos outros censos; Lucas poderia não dispor de dados muito precisos, mas o historiador teólogo não precisava de mais pormenor para que o nascimento de Jesus ficasse enquadrado na História geral. De qualquer modo, a história profana documenta-nos vários recenseamentos a que na época se procedeu; papiros descobertos no Egipto falam de censos ali feitos, em que se obrigavam também as mulheres casadas a acompanharem os seus maridos (para se garantir a verdade das declarações), e a apresentarem-se ante o recenseador ou seu delegado para a prestação das declarações tributárias; assim se explica que Maria tivesse de acompanhar a José numa viagem tão incómoda (cerca de 150 Km). Da escassa documentação romana depreende-se que com Quirino se poderia mesmo ter iniciado um recenseamento durante a sua primeira missão (militar, não como governador) na Síria, entre os anos 10 a 6 a. C.. Dado que o nascimento de Jesus se deu uns sete anos a. C., em virtude do erro cometido por Dionísio, o Exíguo, quando no séc. VI fez as contas para a adopção da era cristã, a época referida por Lucas concorda substancialmente com os dados da história profana. «César Augusto», o imperador Octávio, que reinou dos anos 27 a. C. a 14 d. C. «Belém», em hebraico bet-léhem, significa casa do pão; ali nasce o «Pão da vida». Fica a uns 8 Km a sul de Jerusalém. Deduz-se que S. José ali teria a sua origem próxima, ou alguma propriedade ou condomínio. 6 «Enquanto ali se encontravam». O texto deixa ver, como é compreensível, que estiveram em Belém durante algum tempo antes de o Menino nascer. De facto é inverosímil a aventura de empreenderem uma viagem de cerca de 150 Km nas vésperas do parto. 7 «Filho primogénito». Ao chamar-se Jesus «primogénito» não se faz referência a outros filhos que depois a Santíssima Virgem de facto não veio a ter, mas sim aos direitos e deveres do filho varão que uma mãe dava à luz pela primeira vez (pertencia a Deus, tinha que ser resgatado, etc.). Também perece que «primogénito» era uma designação corrente para o primeiro filho independentemente de que fosse o único, segundo se depreende de uma inscrição egípcia da época, encontrada em 1922 perto do Tell-el-Jeduiyeh, onde se diz que uma tal Arsinoe morreu com as dores do parto do seu filho primogénito. «Manjedoira». A palavra grega, fátnê, também pode significar curral. Seja como for, fica patente a extrema humildade em que quis nascer o Senhor do mundo. Segundo uma tradição que vem do séc. II (S. Justino, nascido aqui perto), Jesus nasceu numa gruta natural, já fora de Belém. Ali Santa Helena, mãe de Constantino, nos princípios do séc. IV, ergueu uma basílica de cinco naves que, depois de várias modificações, chegou até nós, sendo, por isso, a mais antiga igreja de toda a Cristandade. A confirmar a tradição da gruta, temos vários testemunhos que falam da profanação desta nos tempos do imperador Adriano, que ali erigiu uma estátua de Adónis. Isto confirma que se tratava de um lugar de culto dos primeiros cristãos. «Hospedaria». A palavra grega, katályma, oferece alguma dificuldade de tradução devido ao facto de tanto poder significar «hospedaria» (o kan que existia em muitas povoações), como «sala de cima» (cf. Lc 22, 11; Mc 14, 14), o aposento superior ao rés-do-chão, que tanto podia servir de salão como de dormitório. É estranho que, em qualquer dos casos, não coubessem mais duas pessoas, dada a boa hospitalidade oriental. Mas, para a hora do parto, não haveria o mínimo de condições de privacidade, por isso se recolhem para uma gruta ou curral. Um relato destes não se inventa, pois não era este o lugar digno para o Messias glorioso que se esperava. É impressionante verificar que para o «Senhor» de toda a Criação não havia na terra um sítio digno! 8 «Pastores». É significativo que os primeiros a quem o Messias se manifesta seja gente desprezada e sem valor aos olhos da sociedade judaica, que os incluía entre os «publicanos e pecadores», pois a sua ignorância religiosa levava-os a constantemente infringirem as inúmeras prescrições legais. O facto de guardarem o gado de noite não significa que não fosse inverno, embora não saibamos nem o dia nem sequer o mês em que Jesus nasceu, o que se compreende, pois então só se celebrava o aniversário natalício dos filhos dos reis e pouco mais. Só tardiamente se começou a celebrar o nascimento de Jesus (em Roma já se celebrava no séc. IV a 25 de Dezembro). Ao chegar a noite, os pastores reuniam o gado numa vedação campestre (redil) e eles abrigavam-se da inclemência do tempo nalguma cabana feita de ramos, mesmo durante o inverno. 14 Com o nascimento de Jesus, Deus é glorificado – «glória a Deus» – e advém para os homens a síntese de todos os bens – «a paz». O texto original grego pode ter uma dupla tradução, qual delas a mais rica: «homens de boa vontade» (que possuem boa vontade, segundo a interpretação tradicional), ou «os homens que são objecto de boa vontade» (ou da benevolência divina)». Os textos litúrgicos preferiram a segunda, mais de acordo com a visão universalista de Lucas. Segundo uma variante textual (menos provável) teríamos uma frase com três membros: «glória a Deus..., paz na terra, benevolência divina entre os homens». Natal do Senhor (Missa da Aurora) 1ª Leitura Isaías 62, 11-12 11Eis o que o Senhor proclama até aos confins da terra: «Dizei à filha de Sião: Eis que vem o teu Salvador. Com Ele vem o seu prémio e precede-O a sua recompensa. 12Serão chamados ‘Povo santo’, ‘Resgatados do Senhor’; e tu serás chamada ‘Pretendida’, ‘Cidade não abandonada’». A leitura recolhe dois versículos do III Isaías, referidos à Jerusalém restaurada após o exílio. «Até aos confins da terra»: a perspectiva universalista típica da última parte de Isaías corresponde bem à realidade de um «Natal para todos». «Filha de Sião, Filha de Jerusalém», forma poética de o profeta se dirigir aos habitantes da cidade, e mesmo a todos os israelitas (como aqui sucede). A Igreja é o novo «Israel de Deus», «o monte Sião» (Gal 4, 26; 6, 16; Hebr 12, 22; Apoc 14, 1; 21). «Sião» (etimologicamente lugar seco) era a cidadela da capital, Jerusalém. Inicialmente designava a fortaleza conquistada por David aos jebuseus, a colina oriental de Jerusalém (Ofel), que começou a ser chamada «cidade de David», para onde este transladou a Arca da Aliança. Quando Salomão construiu o Templo, a Norte de Sião, e para lá levou a arca, também se começou a dar a esse lugar o nome de Sião. Depois veio a designar o conjunto da cidade de Jerusalém, ou todos os seus habitantes e mesmo todo o povo de Israel. Na tradição cristã, veio a dar-se uma confusão acerca da localização topográfica do monte Sião, ao situá-lo no Cenáculo, na colina ocidental da cidade alta. Esta confusão parece ter origem em que o Cenáculo foi considerado a sede da primitiva Igreja de Jerusalém, o novo «monte Sião», segundo Hebr 12, 22 e Apoc 14, 1. Actualmente a Arqueologia veio esclarecer estes locais. 2ª Leitura Tito 3, 4-7 Caríssimo: 4Ao manifestar-se a bondade de Deus nosso Salvador e o seu amor para com os homens, Ele salvou-nos, 5não pelas obras justas que praticámos, mas em virtude da sua misericórdia, pelo baptismo da regeneração e renovação do Espírito Santo, 6que Ele derramou abundantemente sobre nós, por meio de Jesus Cristo nosso Salvador, 7para que, justificados pela sua graça, nos tornássemos, em esperança, herdeiros da vida eterna. Esta belíssima síntese soteriológica bem podia ser uma espécie de fórmula de fé corrente na Igreja primitiva que tenha sido inserida na Carta. 5 O «banho de regeneração e renovação do Espírito Santo» é o Baptismo, que nos faz nascer de novo (Jo 3, 3.5) e que nos torna «nova criatura» (Gal 6, 15; 2 Cor 5, 17). O Natal é ocasião propícia para meditar também no nosso natal, o Baptismo, e para daí tirar consequências práticas: «reconhece, ó cristão, a tua dignidade; tornado participante da natureza divina, não regresses à antiga baixeza duma vida depravada; lembra-te de que Cabeça e de que Corpo és membro. Pelo Baptismo, tornaste-te templo do Espírito Santo» (S. Leão Magno, Homilia para o dia de Natal). Evangelho São Lucas 2, 15-20 15Quando os Anjos se afastaram dos pastores em direcção ao Céu, começaram estes a dizer uns aos outros: «Vamos a Belém, para vermos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer». 16Para lá se dirigiram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura. 17Quando O viram, começaram a contar o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino. 18E todos os que ouviam admiravam-se do que os pastores diziam. 19Maria guardava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração. 20Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes tinha sido anunciado. A leitura mostra a reacção dos pastores perante o anúncio do nascimento de Jesus que bem pode marcar a atitude do cristão ao tomar consciência do Natal de Jesus: a decisão (tão presente nos nossos vilancetes), de ir a Belém, apressadamente, sem delongas nem escusas ao encontro pessoal com Jesus, Maria e José 18 Os «pastores» contaram as maravilhas daquela noite, mas os conterrâneos não os deveriam tomar muito a sério. Como poderia o Messias revelar-se a gente tão miserável, mal conceituada e tida por pecadora? 19 «Maria» ensina-nos a viver o mistério do Natal no recolhimento, ponderação e intimidade com Jesus. Natal do Senhor (Missa do Dia) 1ª Leitura Isaías 52, 7-10 7Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz a boa nova, que proclama a salvação e diz a Sião: «O teu Deus é Rei». 8Eis o grito das tuas sentinelas que levantam a voz. Todas juntas soltam brados de alegria, porque vêem com os próprios olhos o Senhor que volta para Sião. 9Rompei todas em brados de alegria, ruínas de Jerusalém, porque o Senhor consola o seu povo, resgata Jerusalém. 10O Senhor descobre o seu santo braço à vista de todas as nações e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus. Esta página maravilhosa de Isaías que se refere à boa nova do fim do desterro trazida a Jerusalém pelos «belos pés do mensageiro do mensageiro que anuncia a paz», serve, na Liturgia de hoje, como de um hino triunfal a Cristo que vem à terra. 10 «O Senhor descobre o seu santo braço». Antropomorfismo que contém uma expressiva e frequente metáfora: o braço designa o poder e a força. Descobrir o braço é manifestar o poder. 2ª Leitura Hebreus 1, 1-6 1Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. 2Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo. 3Sendo o Filho esplendor da sua glória e imagem da sua substância, tudo sustenta com a sua palavra poderosa. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, sentou-Se à direita da Majestade no alto dos Céus 4e ficou tanto acima dos Anjos quanto mais sublime que o deles é o nome que recebeu em herança. 5A qual dos Anjos, com efeito, disse Deus alguma vez: «Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei»? E ainda: «Eu serei para Ele um Pai e Ele será para Mim um Filho»? 6E de novo, quando introduziu no mundo o seu Primogénito, disse: «Adorem-n’O todos os Anjos de Deus». Hebreus, o célebre escrito doutrinal e exortatório, começa com um prólogo solene que nos situa, sem rodeios, perante a suma dignidade da pessoa de Jesus Cristo, à semelhança do prólogo do Evangelho de S. João. Começa por mostrar que é n’Ele que o Pai nos fala e se revela de modo exaustivo e definitivo, em contraste com toda a revelação anterior, fragmentária, variada e feita numa fase da história da salvação já superada. «Falou-nos por seu Filho», por isso a história da salvação chegou ao seu apogeu e plenitude, de modo que já não há lugar para mais nenhuma revelação ulterior (cf. DV, 4). Como observa S. João da Cruz, o Pai tendo-nos dito a sua própria Palavra, já não tem mais outra palavra para nos dizer (cf. Subida ao Monte Carmelo, 2, 22). 3 «Esplendor da glória de Deus. Fórmula muito expressiva no original, mas dificilmente traduzível em toda a sua riqueza. O Filho é a irradiação da substância do Pai, distinto d’Ele, mas da mesma substância; é «Deus de Deus, luz de luz», como diz o símbolo de Niceia para exprimir a processão ou origem do Filho no Pai, sendo com Ele um mesmo e único Deus. «Imagem do ser divino». À letra, «reprodução da sua essência». Mais que imagem, quer significar, no original, a marca deixada pelo sinete no lacre, por um selo branco no papel, ou pela matriz na moeda cunhada. O Filho identifica-se com o Pai, quanto ao ser divino, mas esta imagem põe em evidência sobretudo a distinção de Pessoas na igualdade, como o cunho se distingue do objecto cunhado. A primeira expressão visa mais a identidade da natureza («esplendor», ou luz e irradiação). Evangelho Forma longa: São João 1, 1-18 Forma breve: São João 1, 1-5.9-14 1No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, 2Ele estava com Deus. 3Tudo se fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito. 4N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens. 5A luz brilha nas trevas e as trevas não a receberam. 16(Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. 7Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. 8Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz.). 9O Verbo era a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem. 10Estava no mundo e o mundo, que foi feito por Ele, não O conheceu. 11Veio para o que era seu e os seus não O receberam. 12Mas, àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. 13Estes não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. 14E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito, cheio de graça e de verdade. 15(João dá testemunho d’Ele, exclamando: «Era deste que eu dizia: ‘O que vem depois de mim passou à minha frente, porque existia antes de mim’». 16Na verdade, foi da sua plenitude que todos nós recebemos graça sobre graça. 17Porque, se a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. 18A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer.) A leitura evangélica de hoje é o prólogo do IV Evangelho, que constitui a chave para uma profunda compreensão de toda a obra do discípulo amado e da Pessoa adorável de Jesus Cristo: Ele é o Verbo incriado, o Deus Unigénito, que assumiu a nossa condição humana e nos oferece a possibilidade de ser filhos de Deus. Discute-se se o Evangelista compôs este texto para encabeçar a sua obra, ou se aproveitou algum hino litúrgico já existente (a que acrescentaria os vv. 6-9.13.15.17-18). Tem a forma dum poema em que os seus 18 versos que se podem agrupar em 4 estrofes (vv. 1-5; 6-8; 9-13; 14-18), cada uma com uma ideia central, que se vai ampliando e esclarecendo progressivamente. Este prólogo é como uma solene abertura de uma grande obra musical, onde os grandes temas a desenvolver ao longo do Evangelho começam por ser apontados: o Verbo Incarnado, Luz e Vida dos homens, Messias e revelador do Pai, os testemunhos a seu favor, a resposta humana de aceitação ou de rejeição, bem como as consequências de transcendental importância que tem a dramática alternativa em que o homem é posto perante a pessoa de Jesus. 1 «No princípio». Esta expressão faz-nos pensar no início do Génesis, onde se falava da Primeira Criação, que culminou com a criação do homem; no IV Evangelho fala-se duma Nova Criação, a Redenção operada pelo Verbo Incarnado, que culmina na elevação do homem à dignidade de filho de Deus. A própria noção de «princípio» é diferente em Gn 1, 1 e em Jo 1, 1: lá designava o início do tempo, aqui exprime o princípio absoluto que transcende o tempo e nos situa na própria eternidade de Deus. É muito expressivo o imperfeito de duração do verbo grego «eimi» repetido no v. 1, com três matizes: havia ou existia, estava, era, em contraposição com o aoristo de verbo «gínomai» no v. 3: tudo «foi feito», ao passo que o Verbo «existia», permanecia na existência («havia o Verbo»)! Não é possível fazer uma afirmação mais forte e clara da divindade de Jesus – o Verbo que se fez homem (v. 14) – do que esta com que S. João inicia o seu Evangelho: «O Verbo era Deus». Com razão desde os Santos Padres o IV Evangelista é figurado pela águia (cf. Ez 1, 10), pois o seu voo sobe de chofre até às alturas da divindade de Cristo e o seu olhar aquilino penetra nas profundezas do mistério da Pessoa divina de Jesus, no seio da Santíssima Trindade. 3 «Tudo foi feito por Ele». Esta expressão não significa que o Verbo foi o meio ou instrumento de que o Pai se serviu para criar. Ele age juntamente com o Pai e com o mesmo e único poder. A preposição grega «diá» («por») não se usa com genitivo para indicar apenas a causa instrumental; também pode indicar a causa principal como é aqui o caso e em Rom 11, 36. Esta expressão também evidencia que o Verbo não é criatura, uma vez que tudo o que foi feito, foi feito por Ele, em aberto contraste com a sabedoria, que Provérbios e Eclesiástico personificam (Prov 8, 22 ss; Sir 1, 4; 24, 8-9), a qual foi criada e nasceu. 4 «Vida». «Luz». São estes dois dos grandes temas do IV Evangelho (cf. Jo 8, 12; 14, 6). «A Vida era a Luz dos Homens»: o Verbo é a Luz da Vida (Jo 8, 12), Luz que conduz à Vida, Vida que é Luz, e Luz que é Vida. São dois conceitos que caracterizam a esfera da divindade, em oposição antagónica com as trevas, que são o reino de Satanás e seus sequazes. Este antagonismo que está patente ao longo dos escritos paulinos e joaninos, era corrente na literatura da época tanto judaica (em especial de Qumrã), como depois na gnóstica. 5 «As trevas não a receberam». Também se pode traduzir «não a compreenderam», ou «não a dominaram» (tendo em conta o contexto joanino da luta entre a luz e as trevas). 6-8 João não se interessa no seu Evangelho por nos dar a conhecer a vida ou a pregação moral do seu antigo mestre (Jo 1, 37 ss), mas não perde uma ocasião de pôr em realce o seu «testemunho» em favor de Jesus (Jo 1, 16.19.29.35; 3, 27; 5, 33). A insistência, em especial nestes versículos do prólogo (6-8.15) que interrompem o ritmo do poema, concretamente ao dizer que João «não era a Luz», pode dever-se a querer refutar os «joanitas», uma espécie de seita que seguia o Baptista, sem ter chegado a aderir a Cristo (cf. Act 19, 3-4). 9 Este versículo tem diversas traduções legítimas; a litúrgica segue a tradução preferível da Neovulgata, ao passo que a Vulgata dizia: «era a luz verdadeira que ilumina todo o homem que vem a este mundo». 10 «Não O conheceu», isto é, não O reconheceu como o Verbo de Deus e Salvador. 11 «Os seus» poderia designar o povo de Israel, enquanto propriedade de Deus (cf. Ex 19, 5; Dt 7, 6), mas parece designar, dado o paralelismo com o v. anterior, a humanidade no seu conjunto. A observação amarga de S. João (cf. Jo 12, 37) não tem vigência só para o dia de Natal (cf. Lc 2, 7), pois também cada um de nós sempre pode «acolher» melhor a Jesus. 12 «Deu-lhes o poder», isto é, concedeu-lhes a graça, dom e favor inteiramente gratuito que supera as possibilidades de qualquer criatura. «O Filho de Deus fez-se homem, para que os filhos do homem, os filhos de Adão, se fizessem filhos de Deus... Ele é o Filho de Deus por natureza, nós pela graça» (Santo Atanásio). 13 «E estes». Textos muito antigos e de grande valor têm o singular – «Este» – (adoptado pela Bíblia de Jerusalém) referido a Jesus, indicando assim simultaneamente a concepção e o parto virginal da Santíssima Virgem (um nascimento sem sangue). 14 Duma penada, S. João exprime toda a riqueza do mistério do Natal, sem se deter a narrar os seus pormenores, como S. Lucas. «Fez-se carne» é um hebraísmo para dizer que Se fez homem; de qualquer modo, põe-se o acento no aspecto mortal e passível: o Verbo eterno, a Segunda Pessoa divina, torna-se um de nós, sem deixar de ser Deus, em tudo igual a nós, excepto no pecado (cf. Hbr 4, 15). «Habitou», literalmente significa: «ergueu a sua tenda no meio de nós». Parece haver aqui uma alusão à presença de Deus no meio do seu povo, na nuvem branca que pairava, no deserto, sobre a Tenda da Reunião. Esta alusão torna-se mais clara, se temos em conta o texto original grego – «eskénôsen» (ergueu a tenda) – que tem uma certa assonância com «xekhniná» a presença de Deus no meio do Povo (cf. Ex 40, 34-38). Esta presença misteriosa, mas real, continua-se na Santíssima Eucaristia, «Incarnação continuada». A «Glória» do Verbo incarnado, que S. João e os demais viram, é a manifestação externa da sua divindade: os seus milagres, a sua transfiguração, a sua ressurreição, etc.. «Filho Unigénito». S. João, ao longo de todo o seu Evangelho, tem o cuidado de sempre reservar um termo grego para designar Jesus como Filho do Pai – yiós –, usando outra palavra para se referir a nós, enquanto filhos de Deus: téknon (cf. v. 12). Nós «tornamo-nos» filhos de Deus, (v. 12), ao passo que Jesus é o Filho por natureza, igual ao Pai, o «Unigénito» (vv. 14.18). O termo «Unigénito» (muitos traduzem por «Único») presta-se a exprimir o que a Teologia veio a explicitar como a «geração» eterna e única do Verbo no Pai. «Cheio de graça e de verdade». S. João aplica ao Verbo incarnado a mesma definição que Yahwéh dá de Si mesmo a Moisés em Ex 34, 6: «Deus de muito amor e fidelidade». Por um lado, é mais uma referência à divindade de Cristo, por outro, põe em relevo as qualidades que resumem a grandeza do seu Coração de «pontífice misericordioso e fiel» (Hebr 2, 17). 16 «Graça sobre graça», isto é, graças em catadupa, umas atrás das outras, procedentes da plenitude de Cristo, como duma fonte inexaurível (cf. Jo 7, 37-39), ou também, como pensam alguns, «graça após graça», ou «graça em vez de graça» (Cristo-Moisés, Antiga-Nova Aliança), ou ainda «graça correspondente à graça» (a do Verbo: graça criada-graça incriada). 17 «Jesus Cristo» é aqui identificado explicitamente com o Verbo. A Lei mosaica limitava-se a dar normas, mas só por si não podia salvar ninguém, só a graça que Cristo nos trouxe a salvação. 18 «A Deus nunca ninguém O viu. Todas as «visões» de Deus eram indirectas, pois o homem não pode ver a Deus sem morrer (cf. Ex 19, 21; Is 6, 5), mas em Jesus temos a máxima manifestação de Deus à criatura nesta vida, a tal ponto que, mesmo sem contemplarmos a essência divina, quem vê a Jesus vê o Pai (Jo 14, 9). Com a Incarnação do Verbo temos a maior revelação de Deus à Humanidade. «O Filho Unigénito, que está no seio do Pai». Outra variante possível na transmissão do texto original: «Deus Unigénito» (adoptada pela Neovulgata). Sagrada Família de Jesus, Maria e José 1ª Leitura Ben-Sirá 3, 3-7.14-17a (gr. 2-6.12-14) 3Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe. 4Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados 5e acumula um tesouro quem honra sua mãe. 6Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos e será atendido na sua oração. 7Quem honra seu pai terá longa vida, e quem lhe obedece será o conforto de sua mãe. 14Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida. 15Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida, 16porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida 17ae converter-se-á em desconto dos teus pecados. Esta leitura é extraída da Sabedoria de Jesus Ben Sirac, título grego do livro do A.T. mais lido na Liturgia, depois do Saltério, o que lhe veio a merecer, na Igreja latina, o nome de Eclesiástico, como já lhe chama no séc. III S. Cipriano. O autor inspirado escreve pelo ano 180 a. C., quando a Palestina acabava de passar para o domínio dos Selêucidas (198). Então, a helenização, favorecida pelas classes dirigentes, começava a tornar-se uma sedução para o povo da Aliança, com a adopção de costumes totalmente alheios à pureza da religião. Perante tão perigosa ameaça, Ben Sirac vê na família o mais poderoso baluarte contra o paganismo invasor. Assim, os seus ensinamentos vão insistentemente dirigidos aos filhos, e estes são continuamente exortados a prestar atenção às palavras do pai. O nosso texto é um belíssimo comentário inspirado ao 4.º mandamento do Decálogo (Ex 20, 12; Dt 5, 16), concretizando alguns deveres: o cuidado com os pais na velhice (v. 14a); não lhes causar tristeza (v. 14b); ser indulgente para com eles, se vierem a perder a razão (15a); nunca os votar ao desprezo (15b). 2ª Leitura Colossenses 3, 12-21 Irmãos: 12Como eleitos de Deus, santos e predilectos, revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. 13Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se algum tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, assim deveis fazer vós também. 14Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. 15Reine em vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados para formar um só corpo. E vivei em acção de graças. 16Habite em vós com abundância a palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria; e com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração a Deus a vossa gratidão. 17E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai. 18Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor. 19Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza. 20Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor. 21Pais, não exaspereis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo. A leitura é tirada da parte final da Carta, a parte parenética, ou de exortação moral, em que o autor fundamenta a vida moral do cristão na sua união com Cristo a partir do Baptismo: trata-se duma «vida nova em Cristo». 12-15 Temos aqui a enumeração de uma série de virtudes e de atitudes indispensáveis à vida doméstica, diríamos nós agora, para que ela se torne uma imitação da Sagrada Família de Nazaré. Estas virtudes são apresentadas com a alegoria do vestuário, como se fossem diversas peças de roupa, que, para se ajustarem bem à pessoa, têm de ser cingidas com um cinto, que é «a caridade, o vínculo da perfeição». Na linguagem bíblica, «revestir-se» não indica algo de meramente exterior, de aparências, mas assinala uma atitude interior, que implica uma conversão profunda. 18-21 O autor sagrado não pretende indicar aqui os deveres exclusivos de cada um dos membros da família, mas sim pôr o acento naqueles que cada um tem mais dificuldade em cumprir; com efeito, o marido também tem de «ser submisso» à mulher, e a mulher também tem de «amar» o seu marido. Evangelho São Mateus 2, 13-15.19-23 13Depois de os Magos partirem, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto e fica lá até que eu te diga, pois Herodes vai procurar o Menino para O matar». 14José levantou-se de noite, tomou o Menino e sua Mãe e partiu para o Egipto 15e ficou lá até à morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor anunciara pelo profeta: «Do Egipto chamei o meu filho». 19Quando Herodes morreu, o Anjo apareceu em sonhos a José no Egipto 20e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e vai para a terra de Israel, pois aqueles que atentavam contra a vida do Menino já morreram». 21José levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe, e voltou para a terra de Israel. 22Mas, quando ouviu dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai, Herodes, teve receio de ir para lá. E, avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galileia 23e foi morar numa cidade chamada Nazaré, para se cumprir o que fora anunciado pelos Profetas: «Há-de chamar-Se Nazareno». Este Evangelho foi escolhido para a festa da Sagrada Família não só para apresentar o lugar onde Jesus passou a maior parte da sua vida terrena, uma vida em família, mas sobretudo para que vejamos como a mais santa de todas as famílias não tendo sido poupada a tão grandes perigos e dificuldades, confiou na Providência divina e correspondeu fielmente aos planos divinos. 13 «Foge para o Egipto e fica por lá até que eu te diga». Eis o comentário da homilia de S. João Crisóstomo, pondo em evidência a fé, obediência e fidelidade de S. José, o chefe da Sagrada Família: «Ao ouvir isto José não se escandalizou nem disse: isto parece um enigma! Tu próprio, ainda não há muito, dizias-me que Ele salvaria o seu povo, e agora não é capaz de se salvar nem sequer a si mesmo, mas até temos necessidade de fugir, de empreender uma viagem, uma longa deslocação; isto é contrário à tua promessa! Mas não diz nada disto, porque José é um varão fiel. Também não pergunta pela data do regresso, apesar de o Anjo a ter deixado indeterminada, pois lhe tinha dito: fica lá até que eu te avise. Não obstante, nem por isso levanta dificuldades, mas obedece e crê e suporta todas as provações com alegria. É bem verdade que Deus, amigo dos homens, mistura mágoas e alegrias, procedimento que adopta com todos os santos. Porém, nem as penas nem as consolações no-las envia ininterruptamente, mas com umas e outras Ele vai tecendo a vida dos justos. Isto mesmo fez com S. José». 15 «Para se cumprir o que o Senhor anunciara...» Se bem que o sentido literal imediato que o profeta Oseias pôs nestas palavras (Os 11, 1) dissesse respeito a Israel o povo, filho de Deus que o Senhor liberta e chama do Egipto, a verdade é que o Evangelista, inspirado por Deus, descobre naquela passagem um sentido mais profundo: «do Egipto chamei o meu Filho». Esta actualização do texto do A. T. é considerada por uns como um sentido típico, isto é, uma figura do chamamento de Jesus; por outros, como um sentido pleno, isto é, mais profundo, já contido nas palavras do profeta, sem que este se apercebesse dele, mas querido por Deus ao inspirar o texto. 20 «Pois aqueles... já morreram». Com este plural de generalização é designado Herodes, o Grande, tão grande pelas suas construções, como pela sua crueldade. Não há dúvida de que estas referências a Herodes e a Arquelau por parte do Evangelista são um valioso indício humano do valor histórico do relato. Aqui não aparece nada de fantástico, tudo tem naturalidade e verosimilhança. Com efeito, a morte do tirano não aparece como um castigo divino, como é próprio de relatos lendários. É certo que a medida de matar os inocentes de Belém era descabida e inadequada, mas coaduna-se com a crueldade de Herodes e com a arbitrariedade dum tirano que num acesso de fúria faz o que lhe vem à cabeça só para satisfazer a sua ira. 23 «Há-de chamar-se Nazareno». S. Mateus, sabendo como o título de Nazareno usado pelos judeus incrédulos tinha uma decidida intenção de vexame (cf. Act 24, 5) para Jesus e para os cristãos, e, dado que Nazaré era uma aldeia insignificante e de mau nome (cf. Jo 1, 46), quis deixar ver como afinal o ser apodado do humilhante titulo de Nazareno era mais uma prova de que Ele era o Messias, cumprindo assim as profecias. Se é certo que não há nenhuma passagem do Antigo Testamento que fale do Messias como Nazareno, há algumas que se referem às humilhações a que o Messias será sujeito (Sal 22 (21); Is 53, 2 ss; etc.) e, sobretudo, há outras profecias que o anunciam como «o rebento (em hebraico nétser) de Jessé», pai de David (Is 11, 1; Zac 3, 8; 6, 12; etc.); assim, para os destinatários do 1.º Evangelho, cristãos de origem judaica, esta referência era clara, dada a perfeita equivalência entre «nétser», «rebento», e «notsri», «nazareno» (na literatura judaica Jesus é chamado: Yexu-ha-notsri); S. Mateus recorreu a uma técnica (deraxe) de interpretação rabínica, chamada «al-tiqrey» («não leias»), entenda-se, com umas vogais (as vogais da palavra nétser, rebento), mas com outras vogais (as vogais da palavra «notsri», nazareno), tendo em conta que em hebraico não se escrevem as vogais, mas apenas as consoantes, variando o sentido das mesmas palavras conforme as vogais com que as palavras sejam lidas. (Podem ver-se mais comentários na solenidade da Epifania). 1ª Leitura Números 6, 22-27 22O Senhor disse a Moisés: 23«Fala a Aarão e aos seus filhos e diz-lhes: Assim abençoareis os filhos de Israel, dizendo: 24‘O Senhor te abençoe e te proteja. 25O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. 26O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz’. 27Assim invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel e Eu os abençoarei». 24-26 Esta é uma bênção própria da liturgia judaica, ainda hoje usada. É tripla e crescente: com três palavras a primeira; com 5 palavras e com 7 as seguintes (no original hebraico). A tríplice invocação do Senhor, faz-nos lembrar a bênção da Igreja, em nome das Três Pessoas da SS. Trindade. Quando, ao começar o ano civil, nos saudamos desejando Ano Novo feliz, aqui temos as felicitações, isto é, as bênçãos que o Senhor – e a Igreja – nos endereça. 2ª Leitura Gálatas 4, 4-7 Irmãos: 4Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei, 5para resgatar os que estavam sujeitos à Lei e nos tornar seus filhos adoptivos. 6E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: «Abbá! Pai!». 7Assim, já não és escravo, mas filho. E, se és filho, também és herdeiro, por graça de Deus. O texto escolhido para hoje corresponde à única vez que S. Paulo, em todas as suas cartas, menciona directamente a Virgem Maria. Não deixa de ser interessante a alusão à Mãe de Jesus, sem mencionar o pai, o que parece insinuar a maternidade virginal de Maria. 5 Segundo o pensamento paulino, Cristo, sofrendo e morrendo, satisfaz as exigências punitivas da Lei, que exigia a morte do pecador; assim «resgatou os que estavam sujeitos à Lei» e mereceu-nos vir a ser filhos adoptivos de Deus. O Natal é a festa do nascimento do Filho de Deus e também a da nossa filiação divina. 6 «Abbá». Porque somos realmente filhos de Deus, podemos dirigirmo-nos a Ele com a confiança de filhos pequenos e chamar-Lhe, à maneira das criancinhas: «Papá». «Abbá» é o diminutivo carinhoso com que ainda hoje, em Israel, os filhos chamam pelo pai (abbá). S. Paulo, escrevendo em grego e para destinatários que na maior parte não sabiam hebraico, parece querer manter a mesma expressão carinhosa e familiar com que Jesus se dirigia ao Pai, a qual teria causado um grande impacto nos próprios discípulos, porque jamais um judeu se tinha atrevido a invocar a Deus desta maneira; esta é a razão pela qual a tradição não deixou perder esta tão significativa palavra original de Jesus. Evangelho São Lucas 2, 16-21 Naquele tempo, 16os pastores dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura. 17Quando O viram, começaram a contar o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino. 18E todos os que ouviam admiravam-se do que os pastores diziam. 19Maria conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração. 20Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes tinha sido anunciado. 21Quando se completaram os oito dias para o Menino ser circuncidado, deram-Lhe o nome de Jesus, indicado pelo Anjo, antes de ter sido concebido no seio materno. Texto na maior parte coincidente com o do Evangelho da Missa da Aurora do dia de Natal (ver notas supra). 21 Repetidas vezes se insiste em que o nome de Jesus é um nome designado por Deus: o nome, etimologicamente, significa aquilo que Jesus é na realidade, «Yahwéh que salva». 1ª Leitura Isaías 60, 1-6 1Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor. 2Vê como a noite cobre a terra e a escuridão os povos. Mas sobre ti levanta-Se o Senhor e a sua glória te ilumina. 3As nações caminharão à tua luz e os reis ao esplendor da tua aurora. 4Olha ao redor e vê: todos se reúnem e vêm ao teu encontro; os teus filhos vão chegar de longe e as tuas filhas são trazidas nos braços. 5Quando o vires ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração, pois a ti afluirão os tesouros do mar, a ti virão ter as riquezas das nações. 6Invadir-te-á uma multidão de camelos, de dromedários de Madiã e Efá. Virão todos os de Sabá; hão-de trazer ouro e incenso e proclamarão as glórias do Senhor. O texto canta a glória da Jerusalém renovada, figura da «Jerusalém nova descida do Céu» (cf. Apoc 21, 2.23-24). A visão universalista que o poema apresenta corresponde à realidade da Igreja, que é católica, universal. 3 «As nações caminharão à tua luz, e os reis ao esplendor da tua aurora». Não há dúvida de que se pode adaptar perfeitamente este texto isaiano ao mistério hoje celebrado: os «magos» – este texto terá contribuído para se lhes chamar «reis» –, que seguem a «luz» da estrela, são os pioneiros de entre os povos gentios a acorrer ao encontro do Messias. 6 A menção de povos do Oriente – «Madiã e Efá» –, dos ricos comerciantes de «Sabá», a sul da Arábia (Yémen) e, sobretudo, os produtos que trazem – «ouro e incenso» – fazem lembrar o que nos relata o Evangelho: a vinda dos Magos do Oriente que trazem «oiro, incenso e mirra». 2ª Leitura Efésios 3, 2-3a.5-6 Irmãos: 2Certamente já ouvistes falar da graça que Deus me confiou a vosso favor: 3apor uma revelação, foi-me dado a conhecer o mistério de Cristo. Nas gerações passadas, 5ele não foi dado a conhecer aos filhos dos homens como agora foi revelado pelo Espírito Santo aos seus santos apóstolos e profetas: 6os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho. Nesta passagem de Efésios, S. Paulo define em que consiste o «mistério de Cristo» (v. 4). Os gentios, que vêm à Igreja, estão no mesmo pé de igualdade que os judeus procedentes do antigo povo de Deus: não há lugar para cristãos de primeira e de segunda! O texto original é muito expressivo: os gentios vêm a ser «co-herdeiros» («recebem a mesma herança que os judeus», traduz, parafraseando, o texto português oficial), «com-corpóreos» (isto é, «pertencem ao mesmo Corpo» Místico de Cristo, que é a Igreja una), e «com-participantes na Promessa» («beneficiam da mesma promessa» de salvação). E é este o mistério que também se celebra na Festa da Epifania: Cristo igualmente Salvador de gentios e judeus. Evangelho São Mateus 2, 1-12 1Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. 2«Onde está – perguntaram eles – o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O». 3Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda a cidade de Jerusalém. 4Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. 5Eles responderam: «Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo profeta: 6‘Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo’». 7Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela. 8Depois enviou-os a Belém e disse-lhes: «Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-l’O». 9Ouvido o rei, puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino. 10Ao ver a estrela, sentiram grande alegria. 11Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, caindo de joelhos, prostraram-se diante d’Ele e adoraram-n’O. Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra. 12E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho. O Evangelho da adoração dos Magos foi objecto das mais belas reflexões teológico-espirituais ao longo da história: já nos fins do séc. II, Tertuliano via nas ofertas dos Magos símbolos do reconhecimento de quem era Jesus: oferecem-lhe «ouro» como Rei, «incenso» como Deus, «mirra» (outra resina aromática, usada na sepultura) como Homem. Santo Ambrósio fixa-se em que os Magos vão por um caminho e voltam por outro, porque regressam melhores, depois do encontro com Cristo. Santo Agostinho vê nos Magos as primitiæ gentium, a par dos pastores que são as primícias dos judeus, etc.. Mas ainda hoje os comentadores retomam e actualizam os temas do relato: Cristo como verdadeira luz, o caminho dos pagãos para Cristo, o simbolismo dos presentes, a fé e perseverança dos Magos, a busca do sentido da Escritura e o sentido de procura do caminho, etc.. O próprio relato encerra um grande alcance teológico: Jesus é o verdadeiro «rei» que merece ser procurado e adorado por todos; a Ele acorrem, vindas de longe, gentes guiadas por uma estrela e pela Escritura; ainda menino e sem falar, já divide os homens a favor e contra Ele; a homenagem que Lhe prestam os Magos é a resposta humana ao «Emanuel, Deus connosco»; n’Ele se cumprem as profecias que falavam da vinda de reis e de todos os povos a Jerusalém (Is 60 e Salm 72). Mais ainda, ao nível da própria redacção de Mateus, o relato ilustra a teologia específica do evangelista: sendo este Evangelho dirigido a judeo-cristãos, confrontados com a Sinagoga, que não aceita Jesus, o episódio dos Magos documenta bem a teologia do «messias rejeitado», pois Jesus, logo ao nascer, encontra a hostilidade do poder e a indiferença das autoridades religiosas; é também uma ilustração das palavras de Jesus, «virão muitos do Oriente…» (Mt 8, 11). Em face de tudo isto, o estudioso não pode deixar de se interrogar se não estaremos perante um teologúmeno, uma criação de Mateus para dar corpo a uma ideia teológica. A verdade é que em toda a tradição cristã se deu grande valor à adoração dos Magos e à festa da Epifania. Se detrás disto não há realidade nenhuma, o significado de tudo fica privado da sua base mais sólida. Nota sobre a questão da historicidade do relato: A crítica bíblica moderna tem proposto teorias bastante discordantes; por um lado, temos um grupo em que R. E. Brown reúne as objecções que se têm levantado contra a historicidade do relato, que denotam – diz – «uma inverosimilhança intrínseca»: o movimento da estrela de Norte para Sul (Jerusalém – Belém), a sua paragem sobre a casa, a consulta de Herodes aos escribas e sacerdotes, seus inimigos, a indicação de Belém como um dado desconhecido ao contrário de Jo 7, 42, a imperdoável ingenuidade de Herodes que não manda espiar os Magos, o facto de não se ter identificado o menino após a visita de homens de fora a uma pequena povoação, o silêncio de Lucas sobre a visita; estes autores concluem que se trata, então, de uma construção artificial feita com textos do Antigo Testamento. Por outro lado, temos autores mais recentes como R. T. France (The Gospel according to Mathew) que defendem a credibilidade histórica do relato, demonstrando que as dificuldades contra têm solução. Com efeito, embora estejam subjacentes no relato vários textos do A. T., apenas um é citado, podendo mesmo ser suprimido sem interromper o discurso (vv. 5b-6), o que é sinal de que a citação foi acrescentada a um relato preexistente, não sendo a citação a dar origem ao relato. Os pretensos traços duma lenda edificante, ou midraxe hagadá, nada têm de historicamente improvável, fora o caso da estrela que pára sobre a casa, mas já S. João Crisóstomo observava que a estrela não vinha de cima, mas de baixo, pois não era uma estrela natural e não é provável que a Igreja, que bem cedo entrou em conflito com a astrologia, tivesse inventado uma história a favorecê-la. O facto de Herodes não ter mandado espiar os Magos não revela ingenuidade, mas prudência para que os seus guardas não viessem a dificultar a descoberta do Menino, e também uma plena confiança em que os Magos voltassem; finge colaborar com eles, a fim de obter mais dados. Também René Laurentin sublinha a credibilidade histórica de certos pormenores, como a existência de astrólogos viajantes («magos») no Oriente, ou a astúcia e crueldade de Herodes (matou a maior parte das suas 10 mulheres, vários filhos e muitas pessoas influentes na política); e, sobretudo, Mateus revela «sensibilidade histórica», ao não fazer coincidir bem os factos que narra com as citações e alusões ao A. T.: se os factos fossem inventados, teriam sido forjados de molde a que se adaptassem bem às passagens bíblicas (a estrela da profecia de Balaão – Num 24, 17 – não é a estrela que indica o Messias, mas sim o próprio Messias, etc.). Também a propaganda religiosa judaica tinha despertado a expectativa do nascimento do Messias (ver, por ex., a IV écloga de Virgílio ) e fervorosos aderentes entre os gentios, o que torna mais compreensível a visita destes estranhos. A. Díez Macho afirma que «a intenção de Mateus é narrar história confirmada com profecias ou paralelos vétero-testamentários», e descobre no episódio do Magos uma grande quantidade de «alusões» ao A. T. (o chamado rémez, figura retórica muito do gosto dos semitas e frequente na Bíblia). Este célebre biblista espanhol (assim também G. Segalla) diz que o fenómeno da estrela pode muito bem corresponder à conjunção de Júpiter e Saturno que se deu na constelação de Peixe, e que teve lugar três vezes no ano 7 a. C., data provável de nascimento de Cristo. Mas a verdade é que não se pode negar o carácter popular do relato, que dá a entender que a estrela se deslocava de Norte para Sul até parar sobre a casa. 1ª leitura Isaías 42, 1-4.6-7 Diz o Senhor: 1«Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito, para que leve a justiça às nações. 2Não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças; 3não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega: 4proclamará fielmente a justiça. Não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra, a doutrina que as ilhas longínquas esperam. 6Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça; tomei-te pela mão, formei-te e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações, 7para abrires os olhos aos cegos, tirares do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas». Este texto pertence ao primeiro dos quatro «cantos do Servo de Yahwéh», dispersos pelo Segundo Isaías (Is 40 – 55), mas que, na origem; talvez fizessem parte de um único poema. «Eis o meu servo». Trata-se de um mediador através do qual Deus levará a cabo o seu plano de salvação. Torna-se difícil determinar quem é designado em primeiro plano, se é uma personalidade individual (um rei de Judá, o profeta, ou o messias), ou uma colectividade (todo o povo de Israel ou parte dele), ou um indivíduo como símbolo de todo o povo. O nosso texto deixa ver uma personagem deveras misteriosa, humilde (vv. 2-3) e poderosa (v. 4.7), escolhido por Deus e com uma missão universal (v. 1.6). Pondo de parte a complexa e discutida questão da personalidade originária deste magnífico poema, o certo é que o Novo Testamento está cheio de ressonâncias deste texto, vendo mesmo nesta figura singular um anúncio do Messias, com pleno cumprimento na pessoa de Jesus (v. 1: cf. Mt 3, 17 e Lc 9, 35; vv. 2-4: cf. Mt 12, 15-21; v. 6: Lc 1, 78-79 e 2, 32 e Jo 8, 12 e 9, 5; v. 7: Mt 11, 4-6 e Lc 7, 18-22). É evidente que foi escolhida esta leitura para hoje porque, assim Deus, pelo Profeta, apresenta o seu servo «enlevo da minha alma», sobre quem «fiz repousar o meu espírito»; é assim que também no Jordão Jesus é apresentado (cf. Evangelho de hoje e paralelos). 2ª leitura Actos dos Apóstolos 10, 34-38 Naqueles dias, 34Pedro tomou a palavra e disse: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, 35mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável. 36Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo, que é o Senhor de todos. 37Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: 38Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele». Temos aqui uma pequenina parte do discurso de Pedro em casa do centurião Cornélio em Cesareia. quando recebeu directamente na Igreja os primeiros gentios, sem serem obrigados a judaizar. É surpreendente que um discurso dirigido a não judeus contenha alusões (não citações explícitas) ao Antigo Testamento: v. 34 – «Deus não faz acepção de pessoas» (cf. Dt 10, 17); v. 36 – «Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel» (cf. Salm 107, 20); «anunciando a paz» (cf. Is 52, 7); v. 38 «Deus ungiu com… Espírito Santo» (cf. Is 61, 1). Isto corresponde a que se está num ponto crucial da vida da Igreja, em que ela entra decididamente pelos caminhos da sua universalidade intrínseca, em confronto com o nacionalismo judaico; por isso era importante recorrer àquelas passagens do A. T. que se opõem a qualquer espécie de privilégio de raça ou cultura: «a palavra aos filhos de Israel» deixa ver como Deus é o «Senhor de todos», imparcial, «não faz acepção de pessoas» e que a «paz», a súmula de todos os bens messiânicos, Deus a destina a toda a humanidade. O discurso tem um carácter kerigmático evidente; e Lucas – o historiador-teólogo – ao redigi-lo, quaisquer que possam ter sido as fontes utilizadas, terá em vista, mais ainda do que a situação concreta em que foi pronunciado, o efeito a produzir nos seus leitores. Convém notar que, no entanto, ao redigir os discursos – o grande recurso de Actos –, Lucas não os inventa; embora não sejam uma reprodução literal, considera-se que correspondem aos temas da pregação primitiva. 38 «Ungiu do Espírito Santo». Estamos aqui em face de uma expressão simbólica tipicamente hebraica, alusiva à união misteriosa com o Espírito Santo (algo que pertence ao mistério trinitário, o verdadeiro ser e missão de Jesus, que se torna visível na sua Humanidade, na teofania do Jordão). É clara a referência a textos do A. T. de grande densidade messiânica, como Is 11, 2; 61, 1 (cf. Lc 2, 18). Ver supra nota à 1ª leitura do 3º Domingo do Advento (nota ao v. 26). Evangelho São Marcos 1, 7-11 Naquele tempo, 7João começou a pregar, dizendo: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. 8Eu baptizo na água, mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo». 9Sucedeu que, naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi baptizado por João no rio Jordão. 10Ao subir da água, viu os céus rasgarem-se e o Espírito, como uma pomba, descer sobre Ele. 11E dos céus ouviu-se uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado, em Ti pus toda a minha complacência». São Marcos inicia o seu Evangelho com os brevíssimos relatos da pregação do Baptista no deserto, do Baptismo e das tentações de Jesus 7-8 O contraste entre as duas personalidades, Jesus e João, reforça a superioridade de Jesus e do seu Baptismo: «não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias»; note-se que este gesto era considerado de tal modo humilhante, que nem sequer um judeu o podia impor a um criado da sua raça. É o próprio Baptista (assim chamado, sem mais, nos Sinópticos e também por Flávio Josefo) que estabelece o confronto entre o seu baptismo (banho) e o de Jesus: o seu apenas significava a graça e dispunha para a conversão; o de Jesus não só significa a graça purificadora e regeneradora. mas também a produz eficazmente: «Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo». Ver nota a Jo 1, 26 (supra, 3º Domingo do Advento). 9 Jesus quer ser baptizado, mas não é para se inscrever na escola do Baptista, nem sequer para ensinar a acatar a missão dum extraordinário enviado de Deus, nem mesmo simplesmente para nos deixar um exemplo de humildade; é sobretudo para realizar uma espécie de «acção simbólica», à maneira dos antigos profetas, como a entendeu a tradição patrística da Igreja: Ele que era a Vida (cf. Jo 1, 4; 14, 6), entra em contacto com a água para lhe dar a força vivificante de vir a ser a matéria do nosso Baptismo. Por outro lado, logo no início da vida pública, é-nos dado um sinal da divindade de Jesus, constituindo, por assim dizer, a sua apresentação pública como Messias e Filho de Deus, a inauguração solene do seu ministério público, credenciado pelas restantes Pessoas divinas. A SS. Trindade, que se manifesta no Baptismo do Senhor, toma posse da alma do fiel que é baptizado. 10 A «pomba», representa o Espírito Santo, porque os rabinos da época costumavam representar o Espírito de Deus por esta ave, a adejar sobre as águas na obra da criação (cf. Gn 1, 1). Segundo os Santos Padres, ela é o símbolo da paz e da reconciliação entre Deus e a Humanidade.
LEITURA I
«A esposa é a alegria do marido» Isaías 62, 1-5 1Por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não terei repouso, enquanto a sua justiça não despontar como a aurora e a sua salvação não resplandecer como facho ardente. 2Os povos hão-de ver a tua justiça e todos os reis a tua glória. Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará. 3Serás coroa esplendorosa nas mãos do Senhor, diadema real nas mãos do teu Deus. 4Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta», mas hão-de chamar-te «Predilecta» e à tua terra «Desposada», porque serás a predilecta do Senhor e a tua terra terá um esposo. 5Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus.
Ver supra, notas da Primeira Leitura da Vigília do Natal
LEITURA II
«Um só e o mesmo Espírito , distribuindo a cada um conforme Lhe agrada» 1 Coríntios 12, 4-11 Irmãos: 4Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. 5Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. 6Há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. 7Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. 8A um o Espírito dá a mensagem da sabedoria, a outro a mensagem da ciência, segundo o mesmo Espírito. 9É um só e o mesmo Espírito que dá a um o dom da fé, a outro o poder de curar; 10a um dá o poder de fazer milagres, a outro o de falar em nome de Deus; a um dá o discernimento dos espíritos, a outro o de falar diversas línguas, a outro o dom de as interpretar. 11Mas é um só e o mesmo Espírito que faz tudo isto, distribuindo os dons a cada um conforme Lhe agrada.
Nos capítulos 12 a 14 de 1 Cor, S. Paulo aborda directamente o tema dos carismas para dar algumas normas práticas a fim de que tudo decorra com ordem nas reuniões litúrgicas; reconhece e aprecia a grande variedade e diversidade de dons, mas todos eles devem concorrer para o bem de todos. Assim como num corpo os diversos membros integram a unidade desse corpo, assim sucede na Igreja. 4-6 «Dons espirituais (carismas). Ministérios. Operações». Esta tripla designação parece referir-se sempre à mesma realidade, considerada segundo aspectos diferentes: a gratuitidade, a utilidade, a manifestação do poder divino, apropriando estas qualidades ao «Espírito» (Santo), ao Filho: «o Senhor» e ao Pai: «Deus», que, precedido do artigo definido, indica a pessoa do Pai, em todo o grego do Novo Testamento. 7 «Dom ... em ordem ao bem comum». Aqui trata-se de dons, ou graças, que a Teologia chama «gratis datæ», ou carismas, e que Deus concede primariamente em ordem à utilidade dos outros, e não ao proveito individual. 8-10 O Apóstolo apresenta um elenco dos carismas que o Espírito Santo concede, mas não pretende dar a lista completa deles (cf. vv. 28-31; Rom 12, 6-8; Ef 4, 11). Não é fácil indicar a natureza de cada carisma e como se distinguem entre si. «A mensagem da sabedoria» diz respeito à faculdade de conhecer e expor os mistérios divinos (cf. 2, 6-7). «A mensagem da ciência» refere-se à faculdade de conhecer e de expor as verdades básicas do cristianismo. «O dom da fé» não parece ser a virtude teologal, mas a plena confiança em Deus, e as obras de fé (que procedem da fé, «capaz de transportar montanhas»). O dom de «falar em nome de Deus» – à letra, de «profetizar» – não diz respeito apenas ao dom de conhecer e manifestar o futuro oculto, mas ao poder de falar em nome de Deus, para «edificação, exortação e consolação» dos fiéis (14, 3). Algumas vezes, porém, os profetas manifestavam também as coisas futuras e ocultas e os segredos dos corações (cf. 14, 25). O dom do «discernimento dos espíritos», – avaliar dons espirituais – completa o dom da profecia e relaciona-se com o poder de julgar se uma coisa deva ser atribuída ao bom ou ao mau espírito. «O dom de falar diversas línguas» não era o poder de anunciar o Evangelho em línguas desconhecidas, mas o de louvar e adorar a Deus (cf. 14, 2) em línguas e expressões insólitas, numa espécie de exaltação extática. Complemento do dom das línguas era «o dom de as interpretar», porque aquilo que dizia o favorecido pelo dom das línguas não era compreendido pelos demais e, às vezes, nem pelo próprio. 11 «Conforme Lhe agrada». Estes dons carismáticos não pertencem à perfeição da vida cristã, não podendo o cristão reivindicá-los; e seria uma desordem mesmo até desejá-los no que têm de extraordinário, antepondo-os à caridade (cf. v. 31).
EVANGELHO
O primeiro milagre de Jesus São João 2, 1-11 Naquele tempo, 1realizou-se um casamento em Caná da Galileia e estava lá a Mãe de Jesus. 2Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento. 3A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho». 4Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». 5Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». 6Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, levando cada uma de duas a três medidas. 7Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. 8Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. 9Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, – ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam – chamou o noivo 10e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora». 11Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele.
O evangelista não visa contar o modo como Jesus resolveu um problema numas bodas, mas centra-se na figura de Jesus, que «manifestou a sua glória», donde se seguiu que «os discípulos acreditaram n’Ele» (v. 11). Toda a narração converge para as palavras do chefe da mesa ao noivo: «Tu guardaste o melhor vinho até agora!» (v. 10). Esta observação encerra um sentido simbólico; o próprio milagre é um «sinal» (v. 11), um símbolo ou indício duma realidade superior a descobrir, neste caso: quem é Jesus. Podemos pressentir a típica profundidade de visão do evangelista, que acentua determinados pormenores pelo significado profundo que lhes atribui. O vinho novo aparece como símbolo dos bens messiânicos (cf. Is 25, 6; Joel 2, 24; 4, 18; Am 9, 13-15), a doutrina de Jesus, que vem substituir a sabedoria do A. T., esgotada e caduca. A abundância e a qualidade do vinho – 6 (=7-1) vasilhas [de pedra] «de 2 ou 3 metretas» (480 a 720 litros) – é um dado surpreendente, que ilustra bem como Jesus veio «para que tenham a vida e a tenham em abundância» (Jo 10, 10; cfr Jo 6, 14: os 12 cestos de sobras). O esposo das bodas de Caná sugere o Esposo das bodas messiânicas, o responsável pelo sucedido: n’Ele se cumprem os desposórios de Deus com o seu povo (cf. Is 54, 5-8; 62, 5; Apoc 19, 7.9; 21, 2; 22, 17). Também se pode ver, na água das purificações rituais que dão lugar ao vinho, um símbolo da Eucaristia – o sangue de Cristo –, que substitui o antigo culto levítico, e pode santificar em verdade (cf. Jo 2, 19.21-22; 4, 23; 17, 17). Há quem veja ainda outros simbolismos implícitos: como uma alusão ao Matrimónio e mesmo à Ressurreição de Jesus, a plena manifestação da sua glória, naquele «ao terceiro dia» do v. 1 (que não aparece no texto da leitura). Por outro lado, também se costuma ver aqui o símbolo do papel de Maria na vida dos fiéis (cf. Apoc 19, 25-27; 12, 1-17), Ela que vai estar presente também ao pé da Cruz (Jo 19, 25-27): «e estava lá a Mãe de Jesus» (v. 1). Ao contrário dos Sinópticos, nas duas passagens joaninas fala-se da Mãe de Jesus, como se Ela não tivesse nome próprio; é como se o seu ser se identificasse com o ser Mãe de Jesus, a sua grande dignidade. Trata-se de duas menções altamente significativas: os capítulos 2 e 19 aparecem intimamente ligadas precisamente pela referência à «hora» de Jesus, numa espécie de inclusão de toda a vida de Cristo. Ela não é mais um convidado numas bodas; é uma presença actuante e com um significado particular, nomeada por três vezes (vv. 1.3.5), atenta ao que se passa: dá conta da situação irremediável, intervém e fala, quando o milagre que manifesta a glória de Jesus podia ser relatado sem ser preciso falar da sua Mãe, mas Ela é posta em foco. 1 «Caná»: só S. João fala desta terra (cf. 4, 46; 21, 2), habitualmente identificada com Kefr Kenna, a 7 Km a NE de Nazaré, o lugar de peregrinação, mas as indicações de F. Josefo fazem pensar antes nas ruínas de Hirbet Qana, a 14 Km a N de Nazaré. 3 «Não têm vinho». A expressão costuma entender-se como um pedido de milagre. A exegese moderna tende a fixar-se em que a frase não passa duma forma de pôr em relevo uma situação irremediável, de molde a fazer sobressair o milagre. Mas, sendo a Mãe de Jesus a chamar a atenção para o problema, consideramos que Ela é apresentada numa atitude de oração. Com efeito, a oração de súplica e de intercessão não consiste em exercer pressão sobre Deus, para O convencer, mas é colocar-se na posição de necessitado e mendigo perante Deus, é pôr-se a jeito para receber os seus dons. A intercessão de Maria consiste em pôr-se do nosso lado, em vibrar connosco, de modo que fique patente a nossa carência e se dilate a nossa alma para nos dispormos a receber os dons do Céu. Ela aparece aqui como ícone da autêntica oração de súplica e de intercessão; e é lícito pensar que isto não é alheio à redacção joanina, pois o milagre acaba por se realizar na sequência da intervenção da Mãe de Jesus (mesmo que alguns não considerem primigénio o diálogo dos vv. 3-4). 4 «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». A expressão «que a Mim e a Ti?»(ti emoi kai soi?) é confusa, pois pode significar concordância – «que desacordo há entre Mim e Ti?» –, ou então recusa – «que de comum [que acordo] há entre Mim e Ti?». Sendo assim, a expressão «ainda não chegou a minha hora», presta-se a diversas interpretações, conforme o modo de entender «a hora»: ou a hora de fazer milagres, ou a hora da Paixão. Para os que a entendem como a de fazer milagres, uns pensam que Jesus se escusa: «que temos que ver com isso Tu e Eu? (=porque me importunas?), com efeito ainda não chegou a minha hora», e só a insistência de Maria é que levaria à antecipação desta hora; ao passo que outros (E. Boismard, na linha de alguns Padres) entendem a frase como de um completo acordo: «que desacordo há entre Mim e Ti? porventura já não chegou a minha hora?»; assim se justificaria melhor a ordem que Maria dá aos serventes. Para os que entendem «a hora» como a da Paixão, também as opiniões de dividem acerca de como entender a resposta de Jesus; para uns, significaria acordo, como se dissesse: «que desacordo há entre Mim e Ti? com efeito, ainda não chegou a minha hora, a de ficar sem poder; por isso não há dificuldade para o milagre» (Hanimann); para outros, que entendem a hora do Calvário como a hora da glorificação de Jesus, de manifestar a sua glória, dando o Espírito, a expressão quer dizer: «que temos a ver Tu e Eu, um com o outro?» («que tenho Eu a ver contigo?»), uma expressão demasiado forte, a mesma que é posta na boca dos demónios (cf. Mc 5, 7; 1, 24). Com uma expressão tão contundente, a redacção joanina põe em evidência a atitude de Jesus, que, longe de ser ofensiva para a sua Mãe, o que pretende é mostrar a independência de Jesus relativamente a qualquer autoridade terrena, incluindo a materna (Gächter). Mas o apelo para que Maria não intervenha tem um limite: é apenas até que chegue a hora de Jesus; até lá, tem de ficar na penumbra (o que é confirmado pelas ditas «passagens anti-marianas»: Lc 2, 49; 8, 19-21 par; 11, 27-28). Então Ela vai estar como a nova Eva, a Mãe da nova humanidade, ao lado do novo Adão, junto à árvore da Cruz, daí que seja chamada «Mulher» em Jo 19, 26, como nas Bodas de Caná.
LEITURA I «Liam o Livro da Lei e explicavam o seu sentido» Neemias 8, 2-4a.5-6.8-10 Naqueles dias, 2o sacerdote Esdras trouxe o Livro da Lei perante a assembleia de homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Era o primeiro dia do sétimo mês. 3Desde a aurora até ao meio dia, fez a Leitura do Livro, no largo situado diante da Porta das Águas, diante dos homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Todo o povo ouvia atentamente a Leitura do Livro da Lei. 4aO escriba Esdras estava de pé num estrado de madeira feito de propósito. Estando assim em plano superior a todo o povo, 5Esdras abriu o Livro à vista de todos; e quando o abriu, todos se levantaram. 6Então Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todos responderam, erguendo as mãos: «Amen! Amen!». E prostrando-se de rosto por terra, adoraram o Senhor. 8Os levitas liam, clara e distintamente, o Livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura. 9Então o governador Neemias, o sacerdote e escriba Esdras, bem como os levitas, que ensinavam o povo, disseram a todo o povo: «Hoje é um dia consagrado ao Senhor vosso Deus. Não vos entristeçais nem choreis». – Porque todo o povo chorava, ao escutar as palavras da Lei –. 10Depois Neemias acrescentou: «Ide para vossas casas, comei uma boa refeição, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que não têm nada preparado. Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza».
Estamos num dos momentos mais expressivos da vida do povo eleito, após o desterro de Babilónia, um verdadeiro marco miliário da sua história: marca a reconstrução da vida da nação, a instauração oficial do judaísmo propriamente dito, em que o acento já não se põe tanto no Templo, mas na Lei, por isso a sua leitura não aparece feita no lugar sagrado, mas «no largo situado diante da Porta das Águas» (v. 3). 2 «Esdras», o grande organizador do Povo de Deus após o desterro, em pleno séc. V a. C., como comunidade judaica, uma fraternidade religiosa, uma verdadeira «igreja» estruturada na Lei de Moisés. «O primeiro dia sétimo mês, isto é, do mês correspondente a Setembro-Outubro, chamado «Tisri»; este dia correspondia ao início dos sete dias da festa dos Tabernáculos (parece que coincidia com a festa do Ano Novo), que o capítulo 9 deixa ver como anterior à festa da Expiação, um artifício para mostrar como a leitura da Lei levou à penitência, ligada ao Yôm Kippur (cf. Lv 23, 26-32). 9 «Todo o povo chorava», naturalmente, ao tomar consciência bem clara de que tinha quebrantado a Lei, merecendo os castigos nela cominados. De qualquer modo, a contrição não devia impedir a alegria, antes pelo contrário, pois era a ocasião asada para uma solene renovação da aliança (cf. capítulo 10).
LEITURA II
«Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um na sua parte» Forma longa: 1 Coríntios 12, 12-30; forma breve: 1 Coríntios 12, 12-14.27 Irmãos: 12Assim como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim sucede também em Cristo. 13Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos baptizados num só Espírito para constituirmos um só corpo e a todos nos foi dado a beber um só Espírito. 14De facto, o corpo não é constituído por um só membro, mas por muitos. [15Se o pé dissesse: «Uma vez que não sou mão, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. 16E se a orelha dissesse: «Uma vez que não sou olho, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. 17Se o corpo inteiro fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo ele fosse ouvido, onde estaria o olfacto? 18Mas Deus dispôs no corpo cada um dos membros, segundo a sua vontade. 19Se todo ele fosse um só membro, que seria do corpo? 20Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo. 21O olho não pode dizer à mão: «Não preciso de ti»; nem a cabeça dizer aos pés: «Não preciso de vós». 22Pelo contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos são os mais necessários; 23os que nos parecem menos honrosos cuidamo-los com maior consideração; e os nossos membros menos decorosos são tratados com maior decência: 24os que são mais decorosos não precisam de tais cuidados. Deus organizou o corpo, dispensando maior consideração ao que dela precisa, 25para que não haja divisão no corpo e os membros tenham a mesma solicitude uns com os outros. 26Deste modo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele.] 27Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um por sua parte. [28Assim, Deus estabeleceu na Igreja em primeiro lugar apóstolos, em segundo profetas, em terceiro doutores. Vêm a seguir os dons dos milagres, das curas, da assistência, de governar, de falar diversas línguas. 29Serão todos apóstolos? Todos profetas? Todos doutores? Todos farão milagres? 30Todos terão o poder de curar? Todos falarão línguas? Terão todos o dom de as interpretar?]
«Assim como o corpo...» A comparação não é original, mas da literatura profana. S. Paulo adapta-a maravilhosamente à Igreja, concebida como um corpo onde não pode haver rivalidades e divisão: «Vós sois Corpo de Cristo» (v. 27). Já está aqui latente a doutrina do Corpo Místico explanada em Colossenses e Efésios. No entanto, ainda não se considera de facto a Igreja universal, o Corpo de Cristo (com artigo); apenas se considera que os cristãos de Corinto são um organismo – «corpo» (sem artigo!) – dependente de Cristo e com a mesma vida de Cristo (v. 27). 13 «E a todos nos foi dado beber um único Espírito». Os exegetas, tendo em conta que no v. anterior já se tinha falado do Baptismo, pensam que pode haver aqui uma referência ao Sacramento da Confirmação, pois que então estes Sacramentos se costumavam receber juntos (cf. Act 19, 5-61). 27 «Seus membros, cada um por sua parte». A Vulgata diz: «membros uns dos outros», devido a uma confusão de palavras gregas: «melos» (membro) por «meros» (parte).
EVANGELHO
«Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura» São Lucas 1, 1-4; 4, 14-21 1Já que muitos empreenderam narrar os factos que se realizaram entre nós, 2como no-los transmitiram os que, desde o início, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, 3também eu resolvi, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, escrevê-las para ti, ilustre Teófilo, 4para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado. 14Naquele tempo, Jesus voltou da Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. 15Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos. 16Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura. 17Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: 18«O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos 19e a proclamar o ano da graça do Senhor». 20Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. 21Começou então a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».
A leitura faz preceder o início da pregação de Jesus (4, 14) do célebre prólogo do III Evangelho (1, 1-4) da autoria de Lucas, que se mostra como um historiador sério e um bom cultor da língua grega de cunho clássico. 1 «Muitos». Referência à grande diversidade de escritores, em que se devem incluir os escritos inspirados: um primitivo Evangelho de Mateus e o Evangelho de S. Marcos, fontes que utilizou abundantemente. Sobre outros escritos prévios nada de certo sabemos, mas a crítica interna dos Evangelhos faz-nos entrever nos Sinópticos a preexistência de pequenos fragmentos que deixaram rastos na falta de conexão entre muitas perícopes e no agrupamento artificial de vários episódios sobre um mesmo tema. É natural que tais documentos parciais e provisórios se tenham perdido, ao aparecerem os Evangelhos. «Factos que se realizaram entre nós». O Evangelho transmite-nos factos realmente acontecidos e muito próximos, daquela mesma época, por isso diz: «entre nós». 2 «Como no-los transmitiram..». S. Lucas não é um discípulo directo de Cristo, mas conhece com verdade os acontecimentos que vai referir através de testemunhas do máximo valor, por um lado, «testemunhas oculares» e, por outro, «ministros da palavra», isto é, do Evangelho; os mesmos que tinham a missão de pregar tinham sido antes testemunhas oculares. Entre as testemunhas oculares, como fonte de informação de Lucas, devem-se pôr os Apóstolos e, com toda a probabilidade, a SSª Virgem, as Santas Mulheres, os «irmãos de Jesus» e outras pessoas que conviveram com Ele. 3 «Também eu resolvi… escrevê-las». Isto em nada contradiz a acção de Deus ao inspirar S. Lucas, uma vez que Ele pode influir na inteligência e na vontade do homem, mesmo sem que este dê conta desse influxo. «Por ordem» (temos no original grego kathexês, que a tradução litúrgica omitiu, talvez uma errata a corrigir). Embora o seu Evangelho não seja primariamente uma biografia sistemática – uma crónica – com todos os dados possíveis sobre a vida de Jesus, também não se limita a um mero ensinamento doutrinal sobre a mensagem de Jesus. S. Lucas pretende transmitir-nos esta mensagem dentro dum vasto quadro histórico de acontecimentos, mas sem a preocupação duma minúcia cronológica maior do que aquela que as suas fontes lhe forneciam. Há, porém, o cuidado de uma certa ordem lógica. 3-4 «Depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens». S. Lucas não é um, mero «evangelista» que se preocupe só com transmitir uma mensagem, ele tem uma preocupação cuidadosa de tudo investigar desde o início e com um fim muito concreto, a saber, que o leitor possa «ter um conhecimento seguro do que lhe foi ensinado». É sabido que Lucas tem uma visão teológica própria; é um teólogo da história, com mentalidade de historiador; de modo nenhum um criador estórias. O pregador do Evangelho avança de mãos dadas com o historiador e o apologista. «Ilustre Teófilo». O adjectivo faz supor que se trata de um cristão de elevada condição a pessoa a quem Lucas dedica os seus dois livros. O título de «ilustre» ou «excelentíssimo» usava-se para a nobreza romana e para pessoas com altos cargos na administração do Estado. 4, 14 É aqui que começa S. Lucas a narrar o ministério de Jesus com a pregação na Galileia. «Com a força do Espírito», o mesmo é dizer que com a força e poder divino que estavam em Jesus, dada a sua natureza divina. Há em S. Lucas, uma constante referência ao Espírito Santo, que é um «leitmotiv» desta obra e de Actos. Com efeito, estamos nos tempos messiânicos, e Jesus é o Messias e, como tal, portador do «Espírito do Senhor» (v. 18). 16-21 «Foi então a Nazaré». Não se sabe se S. Lucas, nesta passagem, narra a mesma visita à sua terra natal contada pelos outros evangelistas (cf. Mt 13, 54-58; Mc 6, 1-6), ou se outra, ou se funde duas visitas num único relato. De qualquer modo, ao apresentá-la logo no início da vida pública, não teve em vista uma simples ordem cronológica, mas sim uma ordem lógica, melhor dito, teológica, com o intuito de começar por fazer ver que Jesus é o Messias, aqui o «Pregoeiro (mebasser) de boas notícias (besorá, evangelho), sobre quem repousa o Espírito Santo, segundo o oráculo de Isaías (Is 61, 1-2). «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura» (v. 21) equivale a dizer «Eu sou esse pregoeiro de boas notícias aos pobres». J. Dupont diz que, com este relato inicial, Lucas pretende, logo de entrada, sugerir a resposta a três questões fundamentais: quem é Jesus, qual a sua missão, e a quem se destina esta sua missão. 18 «O Espirito… me ungiu». A unção no A. T. era para pessoas que tinham uma missão especial dada por Deus: o rei (1 Sam 9, 16; 2 Sam 5, 1-13), o sacerdote (Ex 29, 7; 40, 15), o profeta (para este, pode ser em sentido simbólico: Is 61, 1; Ez 16, 9), sendo o messias davídico o ungido por excelência. A Teologia explicita o símbolo da unção recebida por Jesus no momento da Incarnação: designa em especial a chamada «união hipostática», em que a natureza humana é assumida pela Pessoa do Verbo. Note-se que de Jesus não se diz, como dos Santos, que recebeu graças e dons do Espírito Santo, mas diz-se que foi ungido, para indicar a plenitude de graça recebida com a união hipostática, de cuja plenitude todos nós recebemos (cf. Jo 1, 16). «Os pobres», aparecem explicitados pelo paralelismo da segunda parte do v. 18: «os cativos, os cegos, os oprimidos». Trata-se duma noção desenhada na pregação dos profetas (cf. Sam 2, 3), fortemente espiritualizada – a dos anawim – que é retomada por Jesus (cf. Mt 5, 3; 18, 9-14). Jesus não se dirige a uma determinada classe ou condição social, mas sobretudo àqueles que têm uma determinada atitude religiosa de indigência, humildade e abertura perante Deus, própria de quem confia na sua misericórdia, e não nos méritos ou recursos pessoais. Com efeito, o sentido desta passagem não se esgota na preocupação de Jesus pelos «pobres», que são os «presos», os «cegos», os «oprimidos», no sentido de miséria física, pois Jesus, podendo fazê-lo, não curou todos os doentes, nem resolveu todos os problemas de miséria. Jesus e a sua Igreja (cf. Lumen Gentium, n.° 8) preocupam-se pelos necessitados, mas a sua missão não se reduz à beneficência e promoção humana, nem sequer se pode centrar nela; o seu objectivo é a redenção da miséria do pecado, causa de todos os males, é a libertação da escravidão do demónio e da morte eterna. 19 «Um ano favorável». Alusão clara ao ano jubilar judaico de 50 em 50 anos (Lv 25, 8-10), em que ficavam libertos os homens e as terras que por necessidade tinham sido vendidos. Esta libertação material era uma espécie de utopia – não está suficientemente documentada a sua prática na história de Israel – que simboliza e prefigura a libertação espiritual e redenção trazida pelo Messias.
LEITURA I
«Eu te constituí profeta entre as nações» Jeremias 1, 4-5.17-19 No tempo de Josias, rei de Judá, 4a palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 5«Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta entre as nações. 17Cinge os teus rins e levanta-te, para ires dizer tudo o que Eu te ordenar. Não temas diante deles, senão serei Eu que te farei temer a sua presença. 18Hoje mesmo faço de ti uma cidade fortificada, uma coluna de ferro e uma muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e dos seus chefes, diante dos sacerdotes e do povo da terra. 19Eles combaterão contra ti, mas não poderão vencer-te, porque Eu estou contigo para te salvar».
O texto refere a vocação divina do Profeta de Anatot, em que se evidenciam três elementos: a eleição, a missão e a protecção divinas, que tronam possível a superação da incapacidade humana e de todas as dificuldades; por isso, Deus diz: «Não temas…» «Eu estou contigo…» A vocação do Profeta dá-se no tempo de Josias, que reinou entre 640 e 609 a. C.. 5 «Eu te escolhi» (à letra: «Eu te conheci»). Trata-se de um conhecimento de Deus que equivale a escolher e predestinar; cf. Am 3, 2; Rom 8, 29 (quos præscivit, et prædestinavit); de facto, com o chamar à vida, Deus já tem um projecto particular para cada uma das suas criaturas.
LEITURA II
«Agora permanecem a fé, a esperança e a caridade;mas a maior de todas é a caridade» Forma longa: 1 Coríntios 12, 31 – 13, 13; forma breve: 1 Coríntios 13, 4-13 Irmãos: [31Aspirai com ardor aos dons espirituais mais elevados. Vou mostrar-vos um caminho de perfeição que ultrapassa tudo: 1Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como bronze que ressoa ou como címbalo que retine. 2Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu possua a plenitude da fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou. 3Ainda que distribua todos os meus bens aos famintos e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita.] 4A caridade é paciente, a caridade é benigna; não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa; 5não é inconveniente, não procura o próprio interesse; não se irrita, não guarda ressentimento; 6não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; 7tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. 8O dom da profecia acabará, o dom das línguas há-de cessar, a ciência desaparecerá; mas a caridade não acaba nunca. 9De maneira imperfeita conhecemos, de maneira imperfeita profetizamos. 10Mas quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. 11Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Mas quando me fiz homem, deixei o que era infantil. 12Agora vemos como num espelho e de maneira confusa, depois, veremos face a face. Agora, conheço de maneira imperfeita, depois, conhecerei como sou conhecido. 13Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade.
Este texto paulino é o mais sublime elogio da caridade jamais feito, uma das páginas mais belas de toda a Bíblia, que tanto entusiasmava Teresa de Lisieux. Nos vv. 31.1-3 temos a exaltação da caridade acima dos carismas mais elevados; nos vv. 4-7, o elogio da caridade, apontando o que ela exclui e o que ela engloba; nos vv. 8-12, a exposição de como, ao contrário dos carismas e da própria fé e esperança, ela não acaba nunca; daí a sua perfeição e superioridade. 12 «Agora», isto é, nesta vida terrena; «depois», isto é, na eterna bem-aventurança do Céu. «Com num espelho», a saber, de maneira indirecta e confusa (à letra: «como coisa enigmática»); com efeito, na época, os espelhos, mesmo os melhores, como eram os de Corinto, não permitiam observar a imagem com toda a nitidez como sucede agora com os nossos espelhos. «Face a face»: assim será no Céu a nossa visão de Deus, pois «vê-lo-emos tal como Ele é» (1 Jo 3, 2), à maneira de «como sou conhecido» (por Deus), numa contemplação cheia de amor e directa, através daquilo que os teólogos chamam o «lumen gloriæ».
EVANGELHO
Como Elias e Eliseu, Jesus não é enviado somente aos judeus São Lucas 4, 21-30 Naquele tempo, 21Jesus começou a falar na sinagoga de Nazaré, dizendo: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». 22Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca. E perguntavam: «Não é este o filho de José?» 23Jesus disse-lhes: «Por certo Me citareis o ditado: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’. Faz também aqui na tua terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum». 24E acrescentou: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra. 25Em verdade vos digo que havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; 26contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidónia. 27Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã». 28Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga. 29Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo. 30Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.
Temos hoje a conclusão do Evangelho do Domingo anterior: o resultado da pregação de Jesus na sinagoga de Nazaré. 22 «Todos davam testemunho em seu favor». Esta foi a primeira reacção, uma reacção positiva. Algum autor, porém, traduziu: «todos se declaravam contra», o que não parece correcto. Com efeito, embora o verbo grego possa indicar tanto um testemunho a favor, como um testemunho contra, a verdade é que o contexto não autoriza uma tal tradução, tanto os lugares paralelos (Mt 13, 54; Mc 6, 2), como o contexto próximo, que sugere o passar duma atitude de admiração para uma atitude de repulsa (v. 22 e v. 28); o facto de não ser citado mais texto de Isaías (61, 2), onde se fala do «dia da vingança do Senhor», não é razão suficiente para concluir que todos se declaravam contra pelo facto de não ter levado mais adiante a citação; o texto de Lucas (criticamente seguro) não diz que a reacção foi devida a citar «só» «as palavras da graça» (a tradução litúrgica diz «cheias de graça», uma interpretação aceitável). «Não é este o filho de José?». Lucas não tem qualquer escrúpulo de usar esta expressão posta na boca do povo, que ignora a origem divina de Jesus, pois já tinha antes deixado bem clara a sua concepção virginal. S. Marcos, porém, no lugar paralelo, tem «o filho de Maria», pois, não tendo relatado a concepção virginal de Jesus, parece ter querido evitar qualquer mal entendido dos seus leitores. 23 «O que ouvimos dizer…». Isto é uma prova de que esta pregação na sinagoga de Nazaré não foi o primeiro momento da pregação de Jesus; Lucas adopta uma ordem lógica ou teológica, não necessariamente uma ordem cronológica (ver nota 16 ao Evangelho do passado Domingo). 30 «Seguiu o seu caminho», isto é, não fugiu, como tentaria fazer um falso profeta. A serenidade majestosa de Jesus é suficiente para deixar paralisados os que se Lhe opunham movidos pelo ressentimento, desconfiança e desdém.
(Quando esta festa não ocorre ao domingo, escolhe-se apenas uma das seguintes leituras antes do Evangelho)
LEITURA I
«Entrará no seu templo o Senhor a quem buscais» Malaquias 3, 1-4 2Assim fala o Senhor Deus: «Vou enviar o meu mensageiro, para preparar o caminho diante de Mim. Imediatamente entrará no seu templo o Senhor a quem buscais, o Anjo da Aliança por quem suspirais. Ele aí vem–diz o Senhor do Universo –. 2Mas quem poderá suportar o dia da sua vinda, quem resistirá quando Ele aparecer? Ele é como o fogo do fundidor e como a lixívia dos lavandeiros. 3Sentar-Se-á para fundir e purificar: purificará os filhos de Levi, como se purifica o ouro e a prata, e eles serão para o Senhor os que apresentam a oblação segundo a justiça. 4Então a oblação de Judá e de Jerusalém será agradável ao Senhor, como nos dias antigos, como nos anos de outrora.
A leitura é um pequeno extracto da passagem (2, 17 – 3, 5) relativa aos tempos escatológicos – o dia do Senhor –, em que se dará uma radical purificação do sacerdócio («os filhos de Levi», v. 3). 1 «Anjo da Aliança». Ele é o próprio Senhor «por quem suspirais». A profecia teve o seu pleno cumprimento em Jesus Cristo, o Filho de Deus enviado à terra. A vinda deste «Anjo da Aliança» será preparada por um mensageiro, que, segundo a interpretação dada em Mt 11, 10, é João Baptista, o Precursor. Daqui o facto de na Liturgia se dar o titulo de Santo Anjo a Cristo. Tenha-se em conta que, por vezes, no Antigo Testamento, se designa com o nome de Anjo o próprio Deus que se manifesta: assim em Gn 16, 7.13 e Ex 3, 2, etc.. Nestes casos, «anjo» não tem o sentido corrente de enviado de Deus, mas o de presença ou manifestação visível de Deus.
LEITURA II [ 2ª Leitura (nos anos em que calha ao Domingo)
«Devia tornar-Se semelhante em tudo aos seus irmãos» Hebreus 2, 14-18 14Uma vez que os filhos dos homens têm o mesmo sangue e a mesma carne, também Jesus participou igualmente da mesma natureza, para destruir, pela sua morte, aquele que tinha poder sobre a morte, isto é, o diabo, 15e libertar aqueles que estavam a vida inteira sujeitos à escravidão, pelo temor da morte. 16Porque Ele não veio em auxílio dos Anjos, mas dos descendentes de Abraão. 17Por isso devia tornar-Se semelhante em tudo aos seus irmãos, para ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel no serviço de Deus, e assim expiar os pecados do povo. 18De facto, porque Ele próprio foi provado pelo sofrimento, pode socorrer aqueles que sofrem provação.
Este trecho de Hebreus – para ser lido nos anos em que a festa coincide com um domingo – foi escolhido tendo em vista que em Jesus se cumpre plenamente o anúncio de Malaquias (cf. 1ª leitura) de uma renovação radical do sacerdócio, com a instituição da nova aliança com o seu sangue, tendo já entrado de uma vez para sempre no santuário (8, 1-2), figurado no Templo. A apresentação de Jesus no Templo tem um profundo significado simbólico. 18 Aqui está uma ideia em que se insiste na Epístola aos Hebreus: Jesus Cristo, sujeitando-se à provação e padecendo, tomando sobre Si todas as nossas fraquezas, excepto o pecado (4, 15), está em condições de nos prestar ajuda a nós que sofremos as mesmas contrariedades. É este um extraordinário motivo de confiança em Jesus Cristo, na sua ajuda omnipotente, na sua mediação em que concilia a misericórdia para connosco com a fidelidade para com o Pai, na sua missão de expiar os pecados do povo (v. 17). ]
EVANGELHO
«Os meus olhos viram a vossa salvação» Forma longa: São Lucas 2, 22-40 Forma breve: São Lucas 2, 22-32 22Ao chegarem os dias da purificação, segundo a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apresentarem ao Senhor, 23como está escrito na Lei do Senhor: «Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor», 24e para oferecerem em sacrifício um par de rolas ou duas pombinhas, como se diz na Lei do Senhor. 25Vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão, homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel e o Espírito Santo estava nele. 26O Espírito Santo revelara-lhe que não morreria antes de ver o Messias do Senhor 27e veio ao templo, movido pelo Espírito. Quando os pais de Jesus trouxeram o Menino para cumprirem as prescrições da Lei no que lhes dizia respeito, 28Simeão recebeu-O em seus braços e bendisse a Deus, exclamando: 29«Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, 30porque os meus olhos viram a vossa salvação, 31que pusestes ao alcance de todos os povos: 32luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo». [33O pai e a mãe do Menino Jesus estavam admirados com o que d’Ele se dizia. 34Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição – 35e uma espada trespassará a tua alma – assim se revelarão os pensamentos de todos os corações». 36Havia também uma profetiza, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada 37e tinha vivido casada sete anos após o tempo de donzela e viúva até aos oitenta e quatro. Não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações. 38Estando presente na mesma ocasião, começou também a louvar a Deus e a falar acerca do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. 39Cumpridas todas as prescrições da Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. 40Entretanto, o Menino crescia e tornava-Se robusto, enchendo-Se de sabedoria. E a graça de Deus estava com Ele.]
A ida de Maria a Jerusalém para cumprir a lei da purificação das parturientes (Lv 12) serve de ocasião para que José e Maria procedam a um gesto que não estava propriamente prescrito pela Lei. Apresentar ali o Menino ao Senhor, é um gesto de oferta que mostra que Ele não lhes pertence e que se sentem meros depositários dum tesoiro de infinito valor. Pode também ver-se o sentido de imitação do gesto de Ana, mãe de Samuel (Sam 1, 11.22-28). Mas se a lei não preceituava a «apresentação», obrigava ao resgate do primogénito varão (não pertencente à tribo de Levi). Segundo Ex 13, o primogénito animal devia ser oferecido em sacrifício, ao passo que o primogénito humano devia ser resgatado, tudo isto em reconhecimento pelos primogénitos dos israelitas não terem sido sacrificados juntamente com os dos egípcios. O preço do resgate eram 5 siclos do santuário. Cada siclo de prata, no padrão do santuário, constava de vinte grãos com o peso total de 11,4 gramas. S. Lucas não fala deste resgate de 57 gramas de prata, que podia ser pago a qualquer sacerdote em qualquer parte da nação judaica; o evangelista apenas faz uma referência genérica ao cumprimento da Lei (v. 23; cf. Ex 13, 2.12-13). 24 A lei da purificação atingia toda a parturiente, a qual contraía impureza legal durante 7 dias, se dava à luz um rapaz, (Ex 12, 28, mas a jurisprudência judaica já tinha acrescentado mais 33 dias, um total de 40) e durante 14 dias, se tinha uma menina (tinha subido na época para 80 dias). No fim desse tempo, devia ser declarada pura mediante a oferta no templo duma rês menor (podia ser um cordeiro) e duma pomba ou rola. Quando a mãe não dispunha de meios para oferecer uma rês menor, podia oferecer um par de pombas ou rolas, como aqui se refere. Tenha-se em conta que a «impureza legal ou ritual» não incluía a noção de pecado, ou de impureza moral). De modo particular todas as coisas relativas à transmissão da vida, mesmo no caso de serem moralmente boas, como a maternidade e o uso legítimo do matrimónio, ou moralmente indiferentes, como a menstruação e a polução nocturna, tornavam a pessoa impura, isto é, inapta para o culto de Deus Santo. A razão disto estava no carácter sagrado da vida e da sua transmissão. Parece que tudo isto implicava alguma perda de vitalidade, que devia ser reparada mediante certos ritos, para de novo poder entrar em comunhão com Deus, a plenitude e a fonte da vida. Estas leis tinham uma finalidade eminentemente didáctica: o povo de Israel era um povo santo, especialmente dedicado a Deus e ao seu culto, e em comunhão com Ele (cf. Ex 19, 5-6; Lv 19, 2). Todas as normas de pureza ritual faziam-no tomar constantemente consciência das suas relações particularíssimas com Deus e do sentido cultual da sua vida diária. A verdade é que a frequência e abundância dos ritos nem sempre foi alicerçada num coração dedicado a Deus, tendo degenerado no formalismo religioso tão denunciado pelos profetas e por Jesus Cristo (cf. Is 29, 13; Mt 15, 7-9). Em face disto, o rito da Purificação de Maria, não pressupõe a aparência sequer de qualquer imperfeição moral ou legal da parte da SSª Virgem, como se poderia pensar. O gesto de Maria aparece como uma singular lição de naturalidade, de obediência e de pureza, cumprindo uma lei a que não estava sujeita, por ser a aeiparthénos, a sempre Virgem; Maria, a tão privilegiada, não quer para si um regime de excepção e privilégio. 25 «Simeão», de quem não temos mais notícias (em parte nenhuma se diz que era velho), aparece como um dos «piedosos» do judaísmo que esperava não um messias revolucionário (como os zelotas), mas o verdadeiro Salvador – «a consolação de Israel». Apesar do que se diz no v. 34, não parece ser sacerdote, não estando no serviço do templo, mas tendo vindo lá «movido pelo Espírito» (v. 27). Há quem o considere pai do célebre Gamaliel I (Vacari; cf. Act 5, 34; 22, 3), mas sem provas convincentes. 33 A naturalidade com que S. Lucas chama a S. José «pai de Jesus» não implica qualquer contradição com o que antes afirmou em 1, 26-38. Aqui visa o poder e missão paterna, de modo nenhum a ascendência carnal. 35 «Assim se revelarão os pensamentos de todos os corações». Estas palavras ligam-se a «sinal de contradição». É que, diante de Jesus, não há lugar para a neutralidade: a sua pessoa, a sua obra e a sua mensagem fazem com que os homens revelem o seu interior, tomando uma atitude pró ou contra; a aceitação e a fé será, para muitos, motivo de salvação, ou «ressurgimento espiritual» (de que «se levantem»), ao passo que a rejeição culpável será motivo de que muitos se condenem (de que «muitos caiam»). 36-37 Põe-se em relevo a sua longa viuvez, como algo digno de veneração. 38 Não se afasta do Templo: hipérbole para indicar a frequência diária. 39 Este v. corresponde a Mt 2, 23, mas Lucas não relata aqui a fuga para o Egipto. 40 A Teologia explicita que «o Menino crescia», não só na manifestação da sabedoria, mas também no conhecimento experimental.
LEITURA I
«Eis-me aqui: podeis enviar-me» Isaías 6, 1-2a.3-8 1No ano em que morreu Ozias, rei de Judá, vi o Senhor, sentado num trono alto e sublime; a fímbria do seu manto enchia o templo. 2aÀ sua volta estavam serafins de pé, que tinham seis asas cada um 3e clamavam alternadamente, dizendo: «Santo, santo, santo é o Senhor do Universo. A sua glória enche toda a terra!» 4Com estes brados as portas oscilavam nos seus gonzos e o templo enchia-se de fumo. 5Então exclamei: «Ai de mim, que estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros, moro no meio de um povo de lábios impuros e os meus olhos viram o Rei, Senhor do Universo». 6Um dos serafins voou ao meu encontro, tendo na mão um carvão ardente que tirara do altar com uma tenaz. 7Tocou-me com ele na boca e disse-me: «Isto tocou os teus lábios: desapareceu o teu pecado, foi perdoada a tua culpa». 8Ouvi então a voz do Senhor, que dizia: «Quem enviarei? Quem irá por nós?» Eu respondi: «Eis-me aqui: podeis enviar-me».
É curioso que o relato da vocação de Isaías não apareça, como em Jeremias e Ezequiel, no início do livro, mas aqui, como a abertura do chamado «livro do Emanuel» (Is 7 –12). Isto deve-se a que os livros proféticos, tais como os temos, foram precedidos, em geral, de colecções parciais que, depois, vieram a unir-se num só volume, bastante desordenadamente. «No ano da morte do rei Osias». Julga-se que foi no ano 740 (ou no ano 738) a. C., mas ainda em vida deste rei (cf. Is 1, 1). 2 «Serafins». Considerados seres angélicos. É a única vez que são nomeados em toda a Sagrada Escritura. O nome, que significa «Ardentes» ou «Abrasadores» (semelhantes ao fogo), pode indicar tanto o fervor para com Deus (vv. 3-4), como o papel que um deles desempenha de purificar com o fogo (v. 6) o próprio profeta. 3 «Santo, Santo, Santo», isto é, santo no grau mais elevado: para exprimir o superlativo, em hebraico é frequente repetir duas vezes o adjectivo; aqui repete-se três vezes! Os Padres viram neste triságio uma alusão ao mistério da SSª Trindade. Esta experiência mística única, no início da vocação do profeta, havia de marcar toda a sua vida; ele vem a ser o profeta por excelência da santidade e transcendência divina e tem o seu modo próprio de designar Deus, o «Santo de Israel» (1, 4; 5, 19.24; 10, 17.20; 41, 14..16.20; etc., ao todo umas 26 vezes, quando no resto da Bíblia se diz apenas 5 vezes); A própria Liturgia havia de fazer seu este Sanctus. 5 «Ai de mim...» Perante a revelação da sublime grandeza de Deus, Isaías fica deveras estarrecido, ao tomar consciência do abismo da sua pequenez e indignidade, para poder estar diante da sua santíssima presença (pensava-se mesmo que não se podia ver a Deus sem morrer), e sente mais vivamente a sua indignidade precisamente naquele ponto no qual Deus se queria apoiar para o transformar em seu arauto: os seus lábios. «Senhor do Universo, em hebraico», Yahwéh tseba’ôth, «Senhor dos Exércitos», indica a Deus enquanto Rei, isto é, chefe, não só dos exércitos de Israel, mas também dos exércitos celestes, que incluem não só os anjos mas também os astros, todo o Universo; daí que actualmente tenhamos adoptado uma tradução que, por um lado é inteligível (Tsabaot não nos diz nada) e, por outro lado, evita todo o aspecto bélico, e, além disso, tem em conta a correspondente tradução grega: Pantocrátor. 8 «Quem enviarei? Quem irá por nós?» É significativa esta passagem do singular ao plural: quem dá a vocação é só Deus, mas Deus digna-se associar os Anjos (aqui, os Serafins) à execução dos seus planos (não se trata duma revelação antecipada do mistério da SS. Trindade). «Eis-me aqui: podeis enviar-me». É extraordinária esta afoiteza do profeta, após aquela primeira sensação de pavor. A cena passa-se no Templo (v. 1, em hebraico no hekal, isto é, na sala que precede o debir, ou Santo dos Santos, quer dizer, o lugar mais santo de todos).
LEITURA II
«É assim que pregamos e foi assim que acreditastes» 1 Coríntios Cor 15, 1-11; forma breve: 1 Coríntios 15, 3-8.11 [1Recordo-vos, irmãos, o Evangelho que vos anunciei e que recebestes, no qual permaneceis 2e pelo qual sereis salvos, se o conservais como eu vo-lo anunciei; aliás teríeis abraçado a fé em vão.] 3Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu mesmo recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, 4segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, 5e apareceu a Pedro e depois aos Doze. 6Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maior parte ainda vive, enquanto alguns já faleceram. 7Posteriormente apareceu a Tiago e depois a todos os Apóstolos. 8Em último lugar, apareceu-me também a mim, como o abortivo. [9Porque eu sou o menor dos Apóstolos e não sou digno de ser chamado Apóstolo, por ter perseguido a Igreja de Deus. 10Mas pela graça de Deus sou aquilo que sou e a graça que Ele me deu não foi inútil. Pelo contrário, tenho trabalhado mais que todos eles, não eu, mas a graça de Deus, que está comigo. Por conseguinte,] 11tanto eu como eles, é assim que pregamos; e foi assim que vós acreditastes.
1-7 Temos aqui uma das mais ricas passagens do Novo Testamento onde se contém o kérigma primitivo, o núcleo da própria pregação apostólica em ordem a chamar à fé os ouvintes, e que depois servia de base à catequese dos neófitos. Este testemunho de excepcional valor acerca da ressurreição de Cristo, escrito uns 25 anos após, é condizente com os testemunhos posteriores dos quatro Evangelhos. Não podia, pois, tratar-se de uma mistificação, só possível a longo prazo, demais que as testemunhas se contavam às centenas e, então, «a maior parte ainda vive» (v. 6). E a fé pregada por S. Paulo não é nenhuma teoria à mercê de gostos ou caprichos, tem um conteúdo objectivo, que tem de ser conservado na sua integridade, para levar à salvação: «Sereis salvos, se o conservardes como eu vo-lo anunciarei» (v. 2). 3 «Morreu pelos nossos pecados». Este é um ponto capital da fé: a morte de Cristo tem valor redentor. «Segundo as Escrituras»: isto é dito tanto da Morte como da Ressurreição de Jesus (cf. Lc 24, 25-27); para a Morte, ver Is 53; Salm 22 (21); para a Ressureição, ver Salm 16 (15), 8-11 (cf. Act 2, 25-32); e também Os 6, 2 (texto de referência possível, embora não citado explicitamente no N. T.). 7 «Apareceu a Tiago». Só desta aparição é que não temos mais testemunhos no Novo Testamento. Este seria «o primo (irmão) do Senhor», chefe da Igreja de Jerusalém, cuja identidade com o Apóstolo Tiago Menor é muito discutida. Terá sido só após a Ressurreição que os familiares («irmãos») de Jesus começaram a acreditar n’Ele. 8 «Como o abortivo». De facto Paulo veio à luz da fé de modo anormal e violento. Pode ser que o Apóstolo fale aqui com certa ironia, tendo em conta esta maneira com que os adversários o apodariam para o desacreditar. De qualquer modo, a expressão vinca bem o milagre da sua conversão, que não foi fruto duma evolução lenta e progressiva do seu pensamento, como pensam alguns, o que esbate a força do estrondoso milagre moral duma conversão que é um poderoso motivo de credibilidade a favor da verdade do cristianismo. 9-10 Aqui se vê a autêntica humildade do Apóstolo, que nada tem de deprimente complexo de inferioridade; é que Paulo tem uma consciência tão clara da sua indignidade (v. 9), como, por outro lado, da graça que nele actua: «pela graça de Deus sou aquilo que sou» (v. 10). 11 «Tanto eu como eles assim é que pregamos». Fica clara a identidade entre a pregação de Paulo e a dos Apóstolos – «transmiti-vos o que eu mesmo recebi» (v. 3) –; na passagem paralela de 1 Cor 11, 23, diz, a propósito da Eucaristia: «eu recebi do Senhor o que precisamente vos transmiti», o que indica um ensino recebido da tradição da Igreja primitiva, com origem no Senhor (em grego apó toû Kyríou), não necessariamente do próprio Jesus (então diria melhor: pará toû Kyríou).
EVANGELHO
«Deixaram tudo e seguiram Jesus» São Lucas 5, 1-11 Naquele tempo, 1estava a multidão aglomerada em volta de Jesus, para ouvir a palavra de Deus. Ele encontrava-Se na margem do lago de Genesaré 2e viu dois barcos estacionados no lago. Os pescadores tinham deixado os barcos e estavam a lavar as redes. 3Jesus subiu para um barco, que era de Simão, e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra. Depois sentou-Se e do barco pôs-Se a ensinar a multidão. 4Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca». 5Respondeu-Lhe Simão: «Mestre, andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada. Mas, já que o dizes, lançarei as redes». 6Eles assim fizeram e apanharam tão grande quantidade de peixes que as redes começavam a romper-se. 7Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco para os virem ajudar; eles vieram e encheram ambos os barcos de tal modo que quase se afundavam. 8Ao ver o sucedido, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe: «Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador». 9Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele e de todos os seus companheiros, por causa da pesca realizada. 10Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens». 11Tendo conduzido os barcos para terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus.
Após esta pesca milagrosa, que antecipa simbolicamente a futura missão apostólica dos discípulos, Lucas apresenta, só agora e sinteticamente, o seu chamamento – centrado na pessoa de Simão Pedro –, os quais «deixaram tudo e seguiram Jesus» (v. 11), ao passo que os outros Sinópticos narram esse chamamento com mais pormenor e logo no início do ministério público do Senhor (Mc 1, 18-22; Mt 4, 16-20; cf. Jo 1, 35-51). 8 «Afasta-te de mim». Isto não quer dizer que Simão queira que Jesus fuja dele, apenas pretende expressar o sentimento de humildade de quem se sente indigno de estar na presença do Senhor; Pedro começa a dar conta da maneira singular como Deus está presente em Jesus, por isso sente tão ao vivo a sua condição de pecador. Esta reacção tão natural e tão sobrenatural é semelhante à de Isaías, perante o divino – tremendum et fascinans – da 1.ª leitura. 10 «Serás pescador de homens». O episódio tem um quê de paradigmático. Esta vai ser a missão da Igreja (cf. Mt 28, 18-20) – «fazer-se ao largo e lançar as redes para a pesca» (cf. v. 4) –, mas, como então, os discípulos, se trabalharem em nome próprio, afadigam-se «sem apanhar nada» (v. 5a); se, porém, lançam as redes em nome do Senhor – «já que o dizes» ( v. 5b) –, então o resultado será deveras maravilhoso (vv. 6-7).
LEITURA I
«Maldito quem confia no homem; bendito quem confia no Senhor» Jeremias 17, 5-8 5Eis o que diz o Senhor: «Maldito quem confia no homem e põe na carne toda a sua esperança, afastando o seu coração do Senhor. 6Será como o cardo na estepe que nem percebe quando chega a felicidade: habitará na aridez do deserto, terra salobre, onde ninguém habita. 7Bendito quem confia no Senhor e põe no Senhor a sua esperança. 8É como a árvore plantada à beira da água, que estende as suas raízes para a corrente: nada tem a temer quando vem o calor e a sua folhagem mantém-se sempre verde; em ano de estiagem não se inquieta e não deixa de produzir os seus frutos».
A composição de sabor sapiencial, que serve de portada ao Saltério, o Salmo 1, tem grande afinidade com este trecho do Profeta de Anatot. Porém aqui, para começar, em vez dum macarismo ou bem-aventurança, temos uma maldição que é de fazer pensar. 5 Este versículo está construído segundo o chamado paralelismo simétrico: «carne» é um sinónimo de homem, na sua condição de ser frágil; apoiar-se no que é frágil é cavar a sua própria ruína; só confiar no Senhor é que vale (v. 7).
LEITURA II
«Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé» 1 Coríntios 15, 12.16-20 Irmãos: 12Se pregamos que Cristo ressuscitou dos mortos, porque dizem alguns no meio de vós que não há ressurreição dos mortos? 16Se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. 17E se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, ainda estais nos vossos pecados; 18e assim, os que morreram em Cristo pereceram também. 19Se é só para a vida presente que temos posta em Cristo a nossa esperança, somos os mais miseráveis de todos os homens. 20Mas não. Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram.
16-17 «Se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou». Os cristãos de Corinto aceitavam a ressurreição de Cristo, uma verdade que pertencia ao núcleo essencial da fé anunciada, o «kérigma» (cf. nota 3-7 da II leitura do domingo anterior), mas talvez influenciados pelas filosofias gregas (cf. Act 17, 32), que consideravam a matéria má e o corpo um cárcere de que a alma se libertava ao morrer, mostrariam uma certa descrença quanto à ressurreição geral, aliás também negada pelos saduceus (cf. Mt 22, 23; Act 23, 7). Paulo apoia-se num facto indiscutível, a ressurreição de Cristo, para demonstrar a possibilidade e a própria verdade da ressurreição universal. Argumenta ab absurdo, desenvolvendo de maneira convincente todas as consequências absurdas da hipótese de não existir ressurreição dos mortos; então também Cristo não teria ressuscitado. Neste caso, a pregação e a fé seriam totalmente vãs, vazias de sentido; os Apóstolos seriam falsas testemunhas de Deus, e os crentes estariam totalmente enganados; os que morreram teriam perecido para sempre (Paulo não considera aqui a salvação da alma separada do corpo, embora noutros textos a admita: cf. 2 Cor 5, 2-3.7); e os cristãos que vivem não só permaneceriam no pecado, como seriam «os mais miseráveis de todos os homens», pois, tendo renunciado a gozar tantos dos prazeres fáceis desta vida, ficavam incapacitados de alcançar a vida eterna, ganha pelo mistério pascal de Cristo. 20 «Como primícias dos que morreram», isto é, como os primeiros frutos que pela Lei pertenciam a Deus (os israelitas não podiam comer da nova colheita, sem as suas primícias terem sido oferecidas a Yahwéh). Cristo, que assumiu a nossa natureza e nos fez participar da sua vida divina, também assim nos precede em dignidade e no tempo, ressuscitando primeiro (cf. v. 23). Mas, este «primeiro» – primícias – não é meramente cronológico, pois é a causa eficiente e exemplar da ressurreição de todos os que estão unidos a Ele, e que já vivem como ressuscitados. Por outro lado, Cristo antecipou para Si o fim dos tempos em que se dará a ressurreição universal. Note-se como S. Paulo não foca a perspectiva da ressurreição dos condenados que aliás não nega (cf. Jo 5, 29), pois esse não era o ponto que estava em questão.
EVANGELHO
«Bem-aventurados os pobres. Ai de vós, os ricos» São Lucas 6, 17.20-26 Naquele tempo, 17Jesus desceu do monte, na companhia dos Apóstolos, e deteve-Se num sítio plano, com numerosos discípulos e uma grande multidão de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e Sidónia. 20Erguendo então os olhos para os discípulos, disse: 21Bem-aventurados vós, os pobres, porque é vosso o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados. 22Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem, quando vos rejeitarem e insultarem e prescreverem o vosso nome como infame, por causa do Filho do homem. 23Alegrai-vos e exultai nesse dia, porque é grande no Céu a vossa recompensa. Era assim que os seus antepassados tratavam os profetas. 24Mas ai de vós, os ricos, porque já recebestes a vossa consolação. 25Ai de vós, que agora estais saciados, porque haveis de ter fome. Ai de vós, que rides agora, porque haveis de entristecer-vos e chorar. 26Ai de vós, quando todos os homens vos elogiarem. Era assim que os seus antepassados tratavam os falsos profetas.
Temos hoje o início de todo um conjunto (vv. 20-49) de ensinamentos de Jesus que em Lucas corresponde, em boa parte, ao «sermão da montanha» de Mt 5 – 7. Começa também pelas «Bem-aventuranças», mas há diferenças entre as 8 Bem-aventuranças de Mt 5, 3-10 e estas 4 (mais directas, porque na 2.ª pessoa do plural: «vós»), seguidas de 4 antíteses, que faltam em S. Mateus. É verosímil que Jesus repetisse, com algumas variantes, a mesma pregação em sítios e ocasiões diferentes; por outro lado, cada evangelista, inspirado por Deus, não deixa de ser um verdadeiro autor, e, como tal, pode produzir variantes redaccionais, ao escrever as palavras de Cristo, pensando no proveito dos seus imediatos destinatários: Mateus adaptando-se a cristãos vindos do judaísmo; Lucas, aos vindos do paganismo, por isso faz notar que seguiam Jesus pessoas vindas de zonas gentílicas, «do litoral de Tiro e Sidónia» (v. 17). Daí um diferente trabalho de resumir, agrupar e explicar as palavras do Senhor (cf. Dei Verbum, n.° 19). Isto bastaria para acharmos normal uma diferente redacção das Bem-aventuranças pelos dois evangelistas. De qualquer modo, muitos exegetas inclinam-se para que a formulação de S. Lucas, mais simples, directa e contundente, com o recurso ao paralelismo antitético, ao jeito semita, esteja mais próxima das palavras do Senhor; S. Mateus faz ressaltar mais o sentido espiritual das palavras de Jesus, patenteando a sua ressonância vétero-testamentária. 17 «Num sítio plano». Em Mateus temos um «monte»; em face do que acabámos de dizer, não precisamos de recorrer ao subterfúgio da «encosta» do monte para resolver a discrepância entre Lucas e Mateus; este ao escrever para cristãos vindos do judaísmo pretenderia que o leitor visse no «monte» uma alusão ao novo Sinai, onde o novo Moisés promulga a nova Lei. 20 «Bem-aventurados vós, os pobres». O facto de S. Lucas não acrescentar, como Mt 5, 3 «em espírito», não significa que pretendia inculcar um ideal de pobreza diferente; pensa-se que seja a linguagem mais próxima da de Jesus. 25-26 «Mas ai de vós!» Com estes quatro «ais», Jesus não lança maldições, mas sim um sério alerta para todos, para não se deixarem seduzir por falsas miragens: a sedução dos bens do mundo (v. 24), da gula (v. 25a), do gozo hedonista (v. 25b), da vanglória e ambição de honrarias e aplauso humano (v. 26).
LEITURA I
«O Senhor entregou-te nas minhas mãos, mas eu não quis atentar contra ti» 1 Samuel 26, 2.7-9.12-13.22-23 Naqueles dias, 2Saul, rei de Israel, pôs-se a caminho e desceu ao deserto de Zif com três mil homens escolhidos de Israel, para irem em busca de David no deserto. 7David e Abisaí penetraram de noite no meio das tropas: Saul estava deitado a dormir no acampamento, com a lança cravada na terra à sua cabeceira; Abner e a sua gente dormia à volta dele. 8Então Abisaí disse a David: «Deus entregou-te hoje nas mãos o teu inimigo. Deixa que de um só golpe eu o crave na terra com a sua lança e não terei de o atingir segunda vez». 9Mas David respondeu a Abisaí: «Não o mates. Quem poderia estender a mão contra o ungido do Senhor e ficar impune?» 12David levou da cabeceira de Saul a lança e o cantil e os dois foram-se embora. Ninguém viu, ninguém soube, ninguém acordou. Todos dormiam, por causa do sono profundo que o Senhor tinha feito cair sobre eles. 13David passou ao lado oposto e ficou ao longe, no cimo do monte, de sorte que uma grande distância os separava. 22Então David exclamou: «Aqui está a lança do rei. Um dos servos venha buscá-la. 23O Senhor retribuirá a cada um segundo a sua justiça e fidelidade. Ele entregou-te hoje nas minhas mãos e eu não quis atentar contra o ungido do Senhor».
Este episódio, de que a leitura respiga alguns versículos, mostra a coragem de David e a sua benevolência e magnanimidade para com Saúl, que o perseguia de morte; tem bastantes semelhanças com o que é relatado no capítulo 24, mas sucedido na caverna de Engadi, parecendo mesmo a alguns tratar-se dum duplicado. «Zif» fica no Néguev, a Sudoeste do Mar Morto. 7 «Com a lança cravada na terra». Como insígnia de poder e comando, ainda hoje é usada por tribos árabes. «Abner», comandante das tropas de Saúl e seu grande apoiante.
LEITURA II
«Assim como trazemos em nós a imagem do homem terreno, procuremos também trazer em nós a imagem do homem celeste» 1 Coríntios 15, 45-49 Irmãos: 45O primeiro homem, Adão, foi criado como um ser vivo; o último Adão tornou-se um espírito que dá vida. 46O primeiro não foi o espiritual, mas o natural; depois é que veio o espiritual. 47O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o segundo homem veio do Céu. 48O homem que veio da terra é o modelo dos homens terrenos; o homem que veio do Céu é o modelo dos homens celestes. 49E assim como trouxemos em nós a imagem do homem terreno, procuremos também trazer em nós a imagem do homem celeste.
S. Paulo, ao falar da ressurreição, estabelece um paralelo com a antítese entre Adão – «primeiro homem» (em hebraico adam significa «homem») – e Cristo, o «último Adão». O «primeiro» é simplesmente um ser vivo, em contraste com o «segundo», que dá a vida. Depois de acentuar as diferenças – alguns autores pensam que, ao dizer que «o primeiro não foi o espiritual», quis rebater as ideias de Filon de Alexandria, que falava dum Adão celeste, espiritual e assexuado, anterior ao primeiro homem de que fala a Bíblia –, exorta os Coríntios a identificarem-se com o modelo (imagem) do «homem celeste», Jesus Cristo (v. 49).
EVANGELHO
«Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso» São Lucas 6, 27-38 Naquele tempo, Jesus falou aos seus discípulos, dizendo: 27«Digo-vos a vós que Me escutais: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam; 28abençoai os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos injuriam. 29A quem te bater numa face, apresenta-lhe também a outra; e a quem te levar a capa, deixa-lhe também a túnica. 30Dá a todo aquele que te pedir e ao que levar o que é teu, não o reclames. 31Como quereis que os outros vos façam, fazei-lho vós também. 32Se amais aqueles que vos amam, que agradecimento mereceis? Também os pecadores amam aqueles que os amam. 33Se fazeis bem aos que vos fazem bem, que agradecimento mereceis? Também os pecadores fazem o mesmo. 34E se emprestais àqueles de quem esperais receber, que agradecimento mereceis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, a fim de receberem outro tanto. 35Vós, porém, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Então será grande a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, que é bom até para os ingratos e os maus. 36Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso. 37Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados. 38Dai e dar-se-vos-á: deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, sacudida, a transbordar. A medida que usardes com os outros será usada também convosco».
Temos hoje a segunda parte do chamado «sermão da planície» (v. 17, correspondente ao da «montanha» em Mt 5, 1ss), que contém ensinamentos sobre o amor aos inimigos (vv. 27-36) e um apelo à magnanimidade e generosidade (vv. 37-38). Em Mateus, estes ensinamentos apareciam em confronto com a Lei antiga: «ouvistes o que foi dito…, mas Eu digo-vos…» (cf. Mt 5, 38-42.43-48), tendo em atenção aos destinatários do seu Evangelho, vindos do judaísmo, ao passo que para os destinatários de Lucas (vindos do mundo gentio) essa antítese não tinha interesse. Estes ensinamentos constituem o núcleo da mensagem de Cristo sobre o amor e a misericórdia, a grande originalidade dos seus ensinamentos, em face do ensino moral não só dos rabinos, como de todos os grandes líderes religiosos de todos os tempos. 27-28 O amor e o perdão aos inimigos. Por mais incompreensível que pareçam estas palavras, elas constituem a base mais sólida para evitar de raiz a violência e a guerra. Não é uma utopia, mas um programa de acção (é também a tese do autor judeu Pinchas Lapide, que lamenta que se tenha atenuado e adocicado o que de radical e exigente há em The Sermon on the Mount). Não se trata de uma «ética para os fracos», pois exige-se muitíssimo mais força de ânimo para perdoar do que para alimentar desejos de vingança. E o próprio Lucas sublinha o exemplo de Jesus, sobretudo ao perdoar aos que O crucificavam (cf. Lc 23, 34). 29-30 «Apresentar a outra face… deixar também a túnica… não reclamar». Trata-se de expressões chocantes, que visam a força expressiva através do efeito de contraste, bem ao gosto semítico; indicam graficamente qual é o espírito de Cristo, sintetizado no v. 31: o perdão completo, a magnanimidade, a caridade que se deve sobrepor à reclamação dos direitos (o que não significa que sempre tenhamos de renunciar ao que nos é devido). 31 «Como quereis que os outros vos façam, fazei-lho vós…» É a preciosa regra de ouro da caridade cristã, simples e prática, a ter sempre em conta. 35-38 Uma interpretação fundamentalista do v. 35 levou, a que, noutros tempos, alguns pensassem que era contrário ao Evangelho cobrar juros do dinheiro emprestado, como se sempre se tratasse de usura. O espírito de generosidade e magnanimidade permanece válido para sempre, tendo como referência a misericórdia de Deus a imitar (v. 36); trata-se dum comportamento que não é sem contrapartida, mas essa não é terrena: «a grande recompensa» (v. 35) será na outra vida. E essa retribuição de Deus remunerador tem uma «medida»: «a que usardes com os outros será usada [isto é, «Deus usará» – o chamado passivo divino] também convosco» (v. 38).
Nossa Senhora de
Lourdes
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