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Notas Bíblicas – Geraldo Morujão - Santíssima Trindade a 17º Dom Comum |
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Daniel 10, 2a, 5-6.12-14ab São Lucas 2, 8-14
Deuteronómio 4, 32-34.39-40 Romanos 8, 14-17 São Mateus 28, 16-20
Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo Êxodo 24, 3-8 Hebreus 9, 11-15 São Marcos 14, 12-16.22-26
Ezequiel, 17, 22-24 2 Coríntios 5, 6-10 S. Marcos 4, 26-34
Oseias 11, 1.3-4.8c-9 Efésios 3, 8-12.14-19 São João 19, 31-37
Nascimento de S. João Baptista (Missa da vigília) Jeremias 1, 4-10 1 São Pedro 1, 8-12 São Lucas 1, 5-17
Nascimento de S. João Baptista (Missa do dia) Isaías 49, 1-6 Actos dos Apóstolos13,22-26 São Lucas 1, 57-66.80
Job 38, 1.8-11 2 Coríntios 5, 14-17 São Marcos 4, 35-41
S. Pedro e S. Paulo (Missa da vigília) Actos dos Apóstolos 3, 1-10 Gálatas 1, 11-20 São João 21, 15-19
S. Pedro e S. Paulo (Missa do dia) Actos dos Apóstolos12, 1-11 2 Timóteo 4, 6-8.17-18 São Mateus 16, 13-19
Sabedoria 1, 13-15; 2, 23-25 (23-24) 2 Coríntios 8, 7.9.13-15 Marcos 5, 21-43
Ezequiel 2, 2-5 2 Coríntios 12, 7-10 São Marcos 6, 1-6
Amós 7, 12-15 Efésios 1, 3 14 São Marcos 6, 7-13
Jeremias 23, 1-6 Efésios 2, 13-18 São Marcos 6, 30-34
2 Reis 4, 42-44 Efésios 4, 1-6 São João 6, 1-15
Sir 39, 8-14 São Mateus 5, 13-19
Isaías 61, 9-11 São Lucas 2, 41-51
Zacarias 2, 14-17 São Mateus 12, 46-50 |
1ª leitura Daniel 10, 2a, 5-6.12-14ab
2aNaqueles dias, 5ergui os olhos e vi um homem vestido de linho, com um cinturão de ouro puro. 6O seu corpo era semelhante ao topázio e o rosto tinha o fulgor do relâmpago; os olhos eram como fachos ardentes, os braços e as pernas eram brilhantes como o bronze polido e o som das suas palavras era como o rumor duma multidão. 12Ele disse-me: «Não temas, Daniel, porque desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração para compreender e te humilhaste diante do teu Deus, as tuas palavras foram ouvidas. É por causa das tuas palavras que eu venho. 13O chefe do reino da Pérsia resistiu-me durante vinte e um dias. Então Miguel, um dos chefes principais, veio em meu auxílio. Eu estive lá, a fazer frente ao chefe dos reis da Pérsia, 14abe vim para te explicar o que vai suceder ao teu povo, no fim dos tempos».
A leitura está respigada dos sonhos e visões de Daniel (2ª parte do livro: 7, 1 – 12, 13), onde, na última visão, uma figura excelsa explica o que irá suceder nas guerras do séc. II a. C. entre os selêucidas e os lágidas, e como uma personalidade abominável (Antíoco IV da Síria) virá trazer grandes desgraças ao povo, mas acabará por ser derrotado, graças à intervenção libertadora de Miguel (este nome hebraico – mi-ka-el – significa: quem como Deus?). A leitura foi escolhida para a festa de hoje certamente pela descrição da figura angélica da aparição nos vv. 5-6, que evoca a visão dos Pastorinhos de Fátima.
Evangelho São Lucas 2, 8-14
Naquele tempo, 8havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. 9O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. 10Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: 11nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. 12Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». 13Imediatamente juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: 14«Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».
Também o texto escolhido nos fala dos Anjos do Natal. A glória de Deus que em Israel se manifestava no templo, manifesta-se agora no campo dos pastores. Deus manifesta-se aos simples e humildes e no meio dos seus afazeres mais correntes. (Ver notas para o dia de Natal).
1ª leitura Deuteronómio 4, 32-34.39-40
Moisés falou ao povo, dizendo: 32«Interroga os tempos antigos que te precederam, desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra. Dum extremo ao outro dos céus, sucedeu alguma vez coisa tão prodigiosa? Ouviu-se porventura palavra semelhante? 33Que povo escutou como tu a voz de Deus a falar do meio do fogo e continuou a viver? 34Qual foi o deus que formou para si uma nação no seio de outra nação, por meio de provas, sinais, prodígios e combates, com mão forte e braço estendido, juntamente com tremendas maravilhas, como fez por vós o Senhor vosso Deus no Egipto, diante dos vossos olhos? 39Considera hoje e medita em teu coração que o Senhor é o único Deus, no alto dos céus e cá em baixo na terra, e não há outro. 40Cumprirás as suas leis e os seus mandamentos, que hoje te prescrevo, para seres feliz, tu e os teus filhos depois de ti, e tenhas longa vida na terra que o Senhor teu Deus te vai dar para sempre».
Terá presidido à escolha deste texto para este dia, a preocupação de, por um lado, pôr em evidência que o mistério da Trindade divina em nada fere a sua indivisível unidade: “o Senhor é o único Deus… e não há outro” (v. 39), e, por outro, abrir-nos para a consideração de que Deus não é um mero princípio explicativo do que existe, uma força cega, mas um ser pessoal – “o Senhor teu Deus” – um pai providente, que fez pelo seu povo “tremendas maravilhas” (v. 34). A leitura é tirada da 2ª parte do 1.° discurso de Moisés, nas estepes de Moab, que aqui atinge o seu ponto culminante ao exaltar, em estilo oratório e comovente, o incomparável amor de Deus para com o seu Povo. Mas Ele não aparece como um Deus, cool (fiche), para quem tudo está sempre bem, pelo contrário, como um verdadeiro pai, que quer ver os seus filhos felizes, por isso lhes recorda como é indispensável “cumprir as sua leis e os seus mandamentos” (v. 40). Esta é uma daquelas passagens, fervorosas e ardentes, que vieram a moldar a alma do piedoso israelita.
2ª leitura Romanos 8, 14-17
Irmãos: 14Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. 15Vós não recebestes um espírito de escravidão para recair no temor, mas o Espírito de adopção filial, pelo qual exclamamos: «Abba, Pai». 16O próprio Espírito dá testemunho, em união com o nosso espírito, de que somos filhos de Deus. 17Se somos filhos, também somos herdeiros, herdeiros de Deus e herdeiros com Cristo; se sofrermos com Ele, também com Ele seremos glorificados.
Esta belíssima passagem põe em relação com as três Pessoas divinas a nossa vida cristã, que é uma vida trinitária. Pela obra redentora de “Cristo” – o Filho (v. 17) –, recebemos o “Espírito Santo” que se une ao nosso espírito (v. 16) e que nos põe em relação com o “Pai”, levando-nos a bradar: “Abbá, ó Pai!” (v. 15). Esta filiação adoptiva, põe-nos em relação com cada uma das Pessoas divinas. Tem-se discutido muito sobre o sentido desta repetição: Abbá, ó Pai!; parece não se tratar de uma simples tradução do próprio termo arameu usado pelo Senhor, mas antes de uma filial explosão de piedosa ternura para com Deus – Pai Nosso! –, uma espécie de jaculatória pessoal, correspondente à exclamação: “ó Pai, Tu que és Pai!” (M. J. Lagrange).
Evangelho São Mateus 28, 16-20
16Naquele tempo, os onze discípulos partiram para a Galileia, em direcção ao monte que Jesus lhes indicara. 17Quando O viram, adoraram-n'O; mas alguns ainda duvidaram. 18Jesus aproximou-Se e disse-lhes: «Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. 19Ide e fazei discípulos de todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».
Estamos perante o final, sóbrio mas solene de Mateus, que condensa todo o seu Evangelho num tríptico deveras paradigmático. Assim, temos: no v. 18 Jesus ressuscitado, como o Pantokrátor – “todo o poder me foi dado no Céu e na Terra!” –; no v. 17, temos a Igreja nascente que O reconhece como Senhor, apesar da vacilação de alguns – “adoraram-no, mas alguns ainda duvidaram” –; nos vv. 19-20 está a sua Igreja em missão – “ide… até ao fim dos tempos”. Ao mesmo tempo, o Evangelista introduz-nos numa visão holística e cósmica da história da salvação centrada em Cristo (cf. Ef 1, 10.23; 3, 9; Filp 3, 21; Col 1, 16.17.18.20; 3, 11), projectada para todo o Universo na abrangência dos quatro pontos cardeais, através do recurso à quádrupla repetição da palavra todo:“ todo o poder” (v. 18), “todas as nações” (v. 19), “tudo o que vos mandei” (v. 20a), “todos os dias” (v. 20b), que a tradução litúrgica traduziu por “sempre”, empobrecendo assim a força expressiva do texto. 16 “O monte que Jesus lhes indicara”, na Galileia, mas sem mais precisão. Há quem queira ver esta aparição como a referida por S. Paulo a mais de 500 irmãos (1 Cor 15, 6). 19-20 “Baptizando… em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Em nome de não significa em vez de, mas, tendo em conta o sentido dinâmico da preposição grega eis, trata-se de ser baptizado para Deus; tenha-se em conta que o nome não é um simples apelativo, mas um hebraísmo que designa o próprio ser de alguém. Sendo assim, as palavras da forma do Baptismo sugerem a substância cristã deste Sacramento, a saber, ficar radicalmente dedicado para Deus, para em todas as circunstâncias da vida Lhe dar glória (é o chamado sacerdócio baptismal comum de todos os fiéis: LG 10; cf. 1 Pe 2, 4-10). A fórmula encerra a referência mais explícita ao mistério da própria vida de Deus, o mistério da SS. Trindade: a unidade de natureza é sugerida pelo singular – em nome, não nos nomes –, e a distinção de hipóstases (não se trata de pessoas como indivíduos ou realidades separadas e autónomas!), pela indicação de cada uma delas como realmente distintas, pois para cada uma se usa o artigo grego: “em nome de o Pai e de o Filho e de o Espírito Santo”. Por outro lado, a proposição de parece corresponder à tradução de um genitivo epexegético (à maneira dum aposto), o que nos leva a entender a fórmula assim: baptizando… para (dedicar a ) Deus, que é Pai e Filho e Espírito Santo. 20 “Eu estou convosco, todos os dias, até ao fim dos tempos”. Podemos ver todo o Evangelho de Mateus marcado por uma inclusão: Mt 1, 23 – “Deus connosco” – e Mt 28, 20 – “estou sempre convosco” –. Jesus garante a assistência contínua e a indefectibilidade à sua Igreja. A História da Igreja é a melhor confirmação destas palavras de Jesus; mas Ele não prometeu que não haveria crises na sua Igreja – as provocadas quer por perseguições, quer pelo mau comportamento dos seus filhos –, mas sim que todas estas seriam seguramente superadas.
Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
1ª leitura Êxodo 24, 3-8
Naqueles dias, 3Moisés veio comunicar ao povo todas as palavras do Senhor e todas as suas leis. O povo inteiro respondeu numa só voz: «Faremos tudo o que o Senhor ordenou». 4Moisés escreveu todas as palavras do Senhor. No dia seguinte, levantou-se muito cedo, construiu um altar no sopé do monte e ergueu doze pedras pelas doze tribos de Israel. 5Depois mandou que alguns jovens israelitas oferecessem holocaustos e imolassem novilhos, como sacrifícios pacíficos ao Senhor. 6Moisés recolheu metade do sangue, deitou-o em vasilhas e derramou a outra metade sobre o altar. 7Depois, tomou o Livro da Aliança e leu-o em voz alta ao povo, que respondeu: «Faremos quanto o Senhor disse e em tudo obedeceremos». 8Então, Moisés tomou o sangue e aspergiu com ele o povo, dizendo: «Este é o sangue da aliança que o Senhor firmou convosco, mediante todas estas palavras».
Este texto refere a ratificação da antiga Aliança, por mediação de Moisés, entre dois protagonistas, Deus e o povo de Israel. O rito é descrito com dois elementos, a saber: um (vv. 3a. e 7), a leitura das cláusulas postas por Deus – “as palavras do Senhor” (debarim: ou Decálogo, cf. Ex 20) e “as leis (mixpatim: ou Código da Aliança, cf. Ex 21 – 22) –, com a correspondente aceitação pela parte do povo – “nós o poremos em prática” (vv. 3b e 7). O outro elemento é o sacrifício para selar a Aliança (vv. 4b-6). É interessante notar como a descrição deste sacrifício conserva uns traços muito primitivos, pois quem imola os animais não são sacerdotes, mas “alguns jovens” (v. 5), num altar construído ad hoc e tendo à volta doze estelas (v.4). Os ritos de sangue eram correntes entre os povos nómadas daqueles tempos, mas, para o povo de Israel, este rito encerra um significado particular. Com efeito, o sangue é a vida (cf. Gn 9, 4) e a vida é pertença só de Deus, por isso ele só deve ser derramado sobre o altar, ou ser usado para ungir pessoas consagradas a Deus (cf. Ex 29, 19-21); ao dizer-se que Moisés “aspergiu com ele o povo” todo (v. 8), deixa-se ver que esta aliança não apenas vincula o povo às cláusulas, para obedecer às leis de Deus, mas sobretudo que este povo fica a pertencer a Deus, como um povo santo, que Lhe é consagrado, um povo sacerdotal (cf. Ex 19, 3-6). O sangue derramado em partes iguais – “metade sobre o altar” (v. 6), que representa a Deus, e a outra “metade” sobre o povo (v. 8) – mostra os laços estreitos da comunhão de vida que a aliança cria entre Deus e o povo, num impressionante simbolismo. Uma tal união e aliança é a prefiguração da nova, universal e definitiva aliança, aquela que unirá para sempre, de modo sobrenatural, o homem com Deus, através do sangue de Cristo (cf. Mt 26, 28; Heb 9, 11.28: 2.ª leitura de hoje)
2ª leitura Hebreus 9, 11-15
Irmãos: 11Cristo veio como sumo sacerdote dos bens futuros. Atravessou o tabernáculo maior e mais perfeito, que não foi feito por mãos humanas, nem pertence a este mundo, 12e entrou de uma vez para sempre no Santuário. Não derramou sangue de cabritos e novilhos, mas o seu próprio Sangue, e alcançou-nos uma redenção eterna. 13Na verdade, se o sangue de cabritos e de toiros e a cinza de vitela, aspergidos sobre os que estão impuros, os santificam em ordem à pureza legal, 14quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno Se ofereceu a Deus como vítima sem mancha, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo! 15Por isso, Ele é mediador de uma nova aliança, para que, intervindo a sua morte para remissão das transgressões cometidas durante a primeira aliança, os que são chamados recebam a herança eterna prometida.
11 Cristo é apresentado como Sumo Sacerdote, numa alusão aos ritos judaicos do Dia da Expiação (Yom Kipur),em só o sumo sacerdote entrava na parte mais sagrada do santuário, o Santo dos Santos. Ele “atravessou o tabernáculo maior e mais perfeito”, isto é, segundo a interpretação feita pela tradução, o Santuário do Céu, aonde subiu e onde continua a exercer a sua mediação salvífica. 12-15 O sacrifício de Cristo, com a oferta do seu próprio sangue, isto é, da sua vida imolada, tem uma eficácia infinitamente superior à dos sacrifícios antigos que não obtinham mais do que uma pureza legal e exterior. 14 “Quanto mais o sangue de Cristo… pelo espírito eterno”. É em virtude da sua natureza divina que o seu sacrifício tem um valor infinito, que não apenas supera os sacrifícios oferecidos no templo de Jerusalém, mas os torna obsoletos.
Evangelho São Marcos 14, 12-16.22-26
12No primeiro dia dos Ázimos, em que se imolava o cordeiro pascal, os discípulos perguntaram a Jesus: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?» 13Jesus enviou dois discípulos e disse-lhes: «Ide à cidade. Virá ao vosso encontro um homem com uma bilha de água. 14Segui-o e, onde ele entrar, dizei ao dono da casa: «O Mestre pergunta: Onde está a sala, em que hei-de comer a Páscoa com os meus discípulos?» 15Ele vos mostrará uma grande sala no andar superior, alcatifada e pronta. Preparai-nos lá o que é preciso». 16Os discípulos partiram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito e prepararam a Páscoa. 22Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e disse: «Tomai: isto é o meu Corpo». 23Depois tomou um cálice, deu graças e entregou-lho. E todos beberam dele. 24Disse Jesus: «Este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens. 25Em verdade vos digo: Não voltarei a beber do fruto da videira, até ao dia em que beberei do vinho novo no reino de Deus». 26Cantaram os salmos e saíram para o Monte das Oliveiras.
Estamos no relato evangélico da última Ceia de Jesus, segundo Marcos. Tratando-se duma Ceia Pascal, é deveras impressionante que nenhum evangelista relate a comida do cordeiro, o elemento central da ceia judaica. É que todo o interesse se centra nas palavras e nos gestos de Jesus. Aqui tudo é diferente, porque o cordeiro é Ele próprio. 13-14 O pormenor aqui relatado mostra como Jesus tinha tudo previsto cuidadosamente e parece até indiciar que Jesus quereria ocultar a Judas o local da Ceia para evitar a consumação da traição neste momento. 15 “Uma grande sala grande no andar superior, alcatifada e pronta”. Estes pormenores, que não aparecem nos outros evangelistas podem denunciar, de acordo com a tradição, que o Cenáculo era propriedade de Maria de Jerusalém, a mãe de Marcos, o próprio evangelista que no-los relata. 22 “Isto é o meu Corpo”. A expressão de Jesus é categórica e terminante, com exactamente as mesmas palavras nos quatro relatos paralelos; não deixa lugar a mal entendidos. Não diz: aqui está o meu Corpo, nem isto é o símbolo do meu Corpo, mas sim: isto é o Meu Corpo, como se dissesse: “este pão já não é pão, mas é o Meu Corpo”, isto é, “sou Eu mesmo”. Todas as tentativas de entender estas palavras num sentido simbólico fazem violência ao texto; com efeito, “ser” no sentido de “ser como”, “significar”, só se verifica quando do contexto se possa depreender que se trata duma comparação, o que não se dá aqui, pois não se vê facilmente como o pão seja como o Corpo de Jesus, ou como o signifique. Por outro lado, Jesus, com a palavra “isto” não se refere à acção de partir o pão, pois não pronuncia estas palavras enquanto parte o pão, mas depois de o ter partido; por isso, não tem sentido dizer que com a fracção do pão o Senhor queria representar o despedaçar do seu Corpo por uma morte violenta; e Jesus não podia querer dizer uma tal coisa: se o quisesse dizer, teria de o explicitar, uma vez que o gesto de partir o pão era, afinal, um gesto usual do chefe da mesa, em todas as refeições, e ninguém lhe podia descobrir outro sentido; por outro lado, o gesto de beber o cálice muito menos condizia com esse tal suposto sentido. Os Apóstolos entenderam as palavras no seu verdadeiro realismo (cf. Jo 6, 51-58). Assim as entende e prega S. Paulo (1 Cor 11) e a Igreja Católica assistida indefectivelmente por Cristo e pelo Espírito Santo. O mistério eucarístico é tão transcendente que não podia passar pela cabeça humana sequer sonhá-lo (cf. a recente Encíclica Ecclesia de Eucharistia).
1ª leitura Ezequiel, 17, 22-24
22Eis o que diz o Senhor Deus: «Do cimo do grande cedro, dos seus ramos mais altos, Eu próprio vou colher um ramo novo, vou plantá-lo num monte muito alto. 23Na elevada montanha de Israel o hei-de plantar. Ele há-de lançar ramos e dar frutos e tornar-se-á um cedro majestoso. Nele farão ninho todas as aves, toda a espécie de pássaros habitará à sombra dos seus ramos. 24E todas as árvores do campo hão-de saber que Eu sou o Senhor; abato a árvore elevada e elevo a arvore abatida, faço que seque a árvore verde e reverdesça a árvore seca. Eu, o Senhor, o afirmei e o hei-de realizar.»
O Profeta Ezequiel, após a denúncia das infidelidades do seu povo sujeito a duro castigo, fala agora em nome do Senhor Deus, anunciando a restauração final do povo exilado, como obra do próprio Deus. De um simples ramo – outra forma de referir o resto de Israel – Ele fará surgir um cedro majestoso, a dar frutos, e em cujos ramos “farão ninho todas as aves” (v. 23), numa visão universalista escatológica, que preanuncia a universalidade do Reino de Deus, que Jesus descreve na parábola do grão de mostarda do Evangelho de hoje.
2ª leitura 2 Coríntios 5, 6-10
Meus irmãos: 6Nós estamos sempre cheios de confiança, sabendo que, enquanto habitarmos neste corpo, vivemos como que exilados, longe do Senhor, 7pois caminhamos pela fé e não vemos claramente. 8E, com a mesma confiança, preferíamos exilar-nos do corpo, para habitarmos junto do Senhor. 9Por isso nos empenhamos em Lhe ser agradáveis, quer continuemos a habitar no corpo, quer tenhamos de afastar-nos dele. 10Todos nós devemos aparecer a descoberto perante o tribunal de Cristo, a fim de cada qual receber a sua paga, pelas obras feitas durante a vida corporal, conforme as tiver praticado, boas ou más.
Na primeira parte da 2ª Carta aos Coríntios (cap. 1 a 7), S. Paulo, depois de fazer a sua defesa perante as acusações dos adversários, faz a apologia do seu ministério apostólico; e, no meio de tribulações sem conta (4, 7-12), é a fé em Jesus ressuscitado e a esperança no Céu que o leva a não desfalecer (4, 13 – 5, 10). O desejo de se “exilar do corpo”, isto é, de deixar esta vida terrena, “para habitar junto do Senhor” no Céu (v. 8) leva-o ao empenho em lutar por Lhe agradar (v. 9). E não deixa de aproveitar a ocasião para expor aos fiéis uma verdade de fé fundamental que nos responsabiliza, a saber, que todos havemos de ser julgados por Deus no fim desta vida. É a este mesmo “tribunal de Cristo” (v. 10) que se refere o nº 1022 do Catecismo da Igreja Católica: “Cada homem recebe, na sua alma imortal, a retribuição eterna logo depois da sua morte, num juízo particular que põe a sua vida na referência de Cristo, quer através duma purificação, quer para entrar imediatamente na felicidade do Céu, quer para se condenar imediatamente para sempre”. Chamamos a atenção para o modelo antropológico grego que S. Paulo aqui adopta; como bom comunicador, costuma lançar mão da linguagem que mais se presta a ser bem compreendido pelos destinatários.
Evangelho S. Marcos 4, 26-34
Naquele tempo, 26dizia Jesus às multidões: «O Reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. 27Dorme e levanta-se, de noite e de dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como. 28A terra produz por si, primeiro o pé, depois a espiga, por fim o trigo maduro na espiga. 29E, mal o trigo o permite, logo ele mete a foice; a seara está pronta. 30Jesus dizia também: «A que havemos de comparar o Reino de Deus? Em que parábola o havemos de apresentar? 31É como o grão de mostarda que, ao ser semeado no terreno, é a menor de todas as sementes que há na terra. 32Mas, depois de semeado, começa a crescer, torna-se a maior de todas as plantas da horta e deita ramos tão grandes que as aves do céu vêm abrigar-se à sua sombra.» 33Jesus pregava-lhes a palavra Deus com muitas parábolas destas, conforme eram capazes entender. 34E não lhes falava senão por meio de parábolas, e, em particular, tudo explicava aos discípulos.
Após a interrupção com o tempo da Quaresma e da Páscoa, retomamos hoje a sequência da leitura do evangelista do ano, S. Marcos com duas parábolas do Reino de Deus no final do cap. 4, a saber, a do germinar e crescer da semente e a do grão de mostarda. A primeira (vv. 26-29) é uma das poucas passagens exclusivas de S. Marcos; ela apresenta o processo do desenvolvimento da semente, deveras misterioso sobretudo para os antigos, pois tudo acontece sem que o semeador saiba como e sem que intervenha de qualquer modo: “Dorme e levanta-se, de noite e de dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como” (v. 27). O Reino de Deus cresce não por virtude, preocupação ou mérito do pregador, mas pela sua energia interna, pela força da graça de Deus que actua onde, como e quando quer. São Paulo dirá aos Coríntios, ufanos em grupos à volta dos diversos pregadores do Evangelho: “Eu plantei, Apolo regou, mas foi Deus quem deu o crescimento. Assim, nem o que planta nem o que rega é alguma coisa, mas só Deus, que faz crescer” (1 Cor 3, 6-7). Também se pode fazer uma leitura espiritual (lectio divina) da parábola aplicando-a à acção da graça na alma: Deus faz que brotem dentro de nós, sem sabermos como, santas inspirações, boas resoluções, fidelidade, maior entrega… Ele realiza em nós e à nossa volta aquilo que nem sequer podíamos sonhar, desde que lancemos a semente e não estorvemos a obra de Deus. 30-32 A pergunta retórica com que a parábola do grão de mostarda é introduzida é um recurso bem semítico destinado a atrair a atenção dos ouvintes. Trata-se da semente mais pequena então conhecida, que pode em pouco tempo vir a dar uma planta de cerca de três metros. Esta parábola põe em evidência a desproporção entre a insignificância dos começos do Reino de Deus e a sua vasta e rápida expansão. O livro de Actos dos Apóstolos sublinha constantemente o crescimento progressivo da Igreja; por sua vez, em S. Lucas, Jesus anima-nos a não temer a insignificância dos começos: “Não temais, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino” (Lc 12, 32).
1ª leitura Oseias 11, 1.3-4.8c-9
Eis o que diz o Senhor: 1«Quando Israel era ainda criança, já Eu o amava; do Egipto chamei o meu filho. 3Eu ensinava Efraim a andar e trazia-o nos braços; mas não compreenderam que era Eu quem cuidava deles. 4Atraía-os com laços humanos, com vínculos de amor. Tratava-os como quem pega um menino ao colo, inclinava-Me para lhes dar de comer. 8cO meu coração agita-se dentro de Mim, estremece de compaixão. 9Não cederei ao ardor da minha ira, nem voltarei a destruir Efraim. Porque Eu sou Deus e não homem, sou o Santo no meio de ti e não venho para destruir».
O profeta do reino do Norte, ainda antes da sua invasão pelos exércitos da Assíria e da queda de Samaria (721 a. C.), depois de ter denunciado audazmente os pecados e a infidelidade do povo nos capítulos 4 a 11, tem uma das mais enternecedoras passagens de todo o Antigo Testamento, que nos revelam em linguagem humana o que se pode chamar “a psicologia de Deus”, com um “coração que se agita e estremece de compaixão”! (. 8). Não obstante a infidelidade (prostituição) do povo, Deus permanece fiel ao seu amor misericordioso; Ele cuida do seu povo com a ternura de mãe e coração de pai, ensinando-o a caminhar, tomando-o nos braços (v. 3), inclinando-se sobre ele para o alimentar e atraindo-o com laços de amor (v. 4). 3 “Efraim”. Designação corrente nos profetas para indicar o Reino do Norte, cuja principal tribo era a de Efraim, correspondente ao nome dum dos filhos de José. 9 “Eu sou Deus, e não homem”. Porque Deus é Deus, a sua justiça nunca anda separada da misericórdia, como tantas vezes sucede entre os homens, que se deixam dominar pela ira e indignação. É assim a misericórdia do Coração de Cristo, o coração de Deus a pulsar em carne humana.
2ª leitura Efésios 3, 8-12.14-19
Irmãos: 8A mim, o último de todos os santos, foi concedida a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo 9e de manifestar a todos como se realiza o mistério escondido, desde toda a eternidade, em Deus, criador de todas as coisas. 10E agora é por meio da Igreja, que se dá a conhecer aos principados e potestades celestes a multiforme sabedoria de Deus, realizada, 11conforme o eterno desígnio, em Jesus Cristo, nosso Senhor. 12Assim, é pela fé em Cristo que podemos aproximar-nos de Deus com toda a confiança. 14Por isso, dobro os joelhos diante do Pai, 15de quem recebe o nome toda a paternidade nos céus e na terra, 16para que Se digne, segundo as riquezas da sua glória, armar-vos poderosamente pelo seu Espírito, para que se fortifique em vós o homem interior 17e Cristo habite pela fé em vossos corações. Assim, profundamente enraizados na caridade, 18podereis compreender, com todos os santos, a largura, o comprimento, a altura 19e a profundidade do amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento, e assim sejais totalmente saciados na plenitude de Deus.
O texto pertence à parte final da secção doutrinal da carta. Nos vv. 1-13 aparece Paulo a falar da sua missão, de acordo com plano misterioso de Deus. Nos vv. 14-19 temos uma bela oração de louvor a Deus e de súplica pelos fiéis, a fim de que “sejais totalmente saciados na plenitude de Deus”, isto é, na plenitude da vida cristã que deriva do Pai e se nos dá em Cristo, pela adesão a Ele, cabeça da Igreja. Mas não se trata de uma simples adesão exterior, mas da que procede do amor com que se procura corresponder à “profundidade do amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento” (v. 19).
Evangelho São João 19, 31-37
31Por ser a Preparação da Páscoa, e para que os corpos não ficassem na cruz durante o sábado – era um grande dia aquele sábado – os judeus pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. 32Os soldados vieram e quebraram as pernas ao primeiro, depois ao outro que tinha sido crucificado com ele. 33Ao chegarem a Jesus, vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas, 34mas um dos soldados trespassou-Lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. 35Aquele que viu é que dá testemunho e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que diz a verdade, para que também vós acrediteis. 36aconteceu para se cumprir a Escritura, que diz: «Nenhum osso lhe será quebrado». 37Diz ainda outra passagem da Escritura: «Hão-de olhar para Aquele que trespassaram».
A crucifixão, reservada a escravos (cf. Filp 2, 7), era a pena de morte mais tremenda e mais horrível; a morte dava-se após uma dolorosíssima agonia, com febre, sede, cãibras que causavam uma asfixia lenta; para que o sofrimento não se prolongasse por vários dias os soldados podiam partir as pernas (crurifrágio) aos condenados para a asfixia ser mais rápida, ou dar-lhes um golpe de lança no coração. Foi este segundo modo de proceder que tiveram para com a Jesus, apesar de já morto. No golpe da lança, no sangue e na água que brotaram da ferida do peito, um fenómeno fisiologicamente explicável (soro do pericárdio ou exsudação pleural…), S. João vê muito mais do que uma confirmação da morte de Jesus; contempla o cumprimento das Escrituras e o sacrifício do verdadeiro cordeiro pascal (cf. Ex 12, 46; Nm 9, 12; Salm 34, 21; Zac 12, 10; Apoc 1, 7) e parece insinuar, para além do dom da vida eterna (o sangue: cf. 6, 53-54) e do Espírito Santo (a água: cf. 4, 14; 7, 38-39; 3, 5), os Sacramentos da iniciação cristã, a Eucaristia e o Baptismo e a própria Igreja, a nova Eva a sair do lado do novo Adão. 35 “Ele bem sabe que diz a verdade”: há quem queira ver aqui uma espécie de juramento, a saber, o apelo a uma segunda testemunha abonatória, o próprio Cristo glorioso, ou mesmo o Pai, não faltando quem pense numa glosa. De qualquer modo, uma afirmação tão solene faz apelo a factos reais, que excluem uma simbologia desvinculada da história. E, de facto, uma história como a da Paixão e Morte do Senhor não se inventa; é mesmo verdade; é impossível vê-la doutra forma. A testemunha privilegiada foi certamente o discípulo amado de Jesus. 36-37 “Para se cumprir a Escritura: cf. Ex 12, 46; Zac 12, 10; Nm 9, 12; Salm 34, 21; Apoc 1, 7.
Nascimento de S. João Baptista (Missa da vigília)
1ª Leitura Jeremias 1, 4-10
4No tempo de Josias, rei de Judá, o Senhor dirigiu-me a palavra, dizendo: 5«Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta entre as nações». 6Então eu disse: «Ah, Senhor Deus, mas eu não sei falar, porque sou uma criança». 7O Senhor respondeu-me: «Não digas: ‘Sou uma criança’, porque irás ao encontro daqueles a quem Eu te enviar e dirás tudo quanto Eu te mandar dizer. 8Não tenhas receio diante deles, porque Eu estou contigo, para te salvar – diz o Senhor». 9Depois o Senhor estendeu a mão, tocou-me na boca e disse-me: «Eu ponho as minhas palavras na tua boca. 10Hoje dou-te poder sobre os povos e os reinos, para arrancar e destruir, para arruinar e demolir, para edificar e plantar».
Não é casual a escolha desta leitura que relata a vocação do Profeta Jeremias. Foi escolhida pela alusão que se quer ver à santificação de João no ventre materno: “antes que saísses do seio da tua mãe, Eu te consagrei” (cf. Lc 1, 44). 6 “Mas eu não sei falar”. É a reacção habitual do homem, quando se enfrenta com a vocação divina, a chamada a uma missão que exige a entrega de toda a vida a Deus para O servir numa missão que transcende a nossa limitação e franqueza. Mas a uma primeira reacção de medo segue-se uma certeza, segurança e serenidade que Deus infunde: “Eu estarei contigo!” (v. 8).
2ª Leitura 1 São Pedro 1, 8-12
Caríssimos: 8Vós amais Cristo Jesus sem O terdes visto, acreditais n’Ele sem O verdes ainda. Isto é para vós fonte de uma alegria inefável e gloriosa, 9porque conseguis o fim da vossa fé: a salvação das vossas almas. 10Esta salvação foi objecto das investigações e meditações dos Profetas que predisseram a graça a vós destinada. 11Procuraram descobrir a que tempos e circunstâncias se referia o Espírito de Cristo que estava neles, quando predizia os sofrimentos de Cristo e as glórias que se lhes haviam de seguir. 12Foi-lhes revelado que não era para eles, mas para vós, que no seu ministério transmitiam essa mensagem. É essa mensagem que agora vos anunciam aqueles que, movidos pelo Espírito Santo enviado do Céu, vos pregam o Evangelho, a qual os próprios Anjos desejam contemplar.
8-9 “Vós amais Cristo Jesus... acreditais nele...” Estes cristãos da Ásia Menor a quem S. Pedro se dirige, como também nós, já não conheceram Jesus na sua vida mortal, mas exactamente como nós hoje e os cristãos de todos os tempos acreditavam em Jesus Cristo e amavam apaixonadamente a sua pessoa adorável como alguém que está vivo e actuante, enchendo-nos daquela alegria inefável que procede de sabermos que a nossa fé vai desembocar na visão da glória, o fim da nossa fé, a salvação das nossas almas. 10 “Os profetas”, mais provavelmente os do Antigo Testamento. 12 Os Anjos, ao tomarem conhecimento do plano de salvação da humanidade, extasiam-se a contemplá-lo com atenção na vida da igreja (cf. Ef 3, 10).
Evangelho São Lucas 1, 5-17
5Nos dias de Herodes, rei da Judeia, vivia um sacerdote chamado Zacarias, da classe de Abias, cuja esposa era descendente de Aarão e se chamava Isabel. 6Eram ambos justos aos olhos de Deus e cumpriam irrepreensivelmente todos os mandamentos e leis do Senhor. 7Não tinham filhos, porque Isabel era estéril e os dois eram de idade avançada. 8Quando Zacarias exercia as funções sacerdotais diante de Deus, no turno da sua classe, 9coube-lhe em sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no Santuário do Senhor para oferecer o incenso. 10Toda a assembleia do povo, durante a oblação do incenso, estava cá fora em oração. 11Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor, de pé, à direita do altar do incenso. 12Ao vê-lo, Zacarias ficou perturbado e encheu-se de temor. 13Mas o Anjo disse-lhe: «Não temas, Zacarias, porque a tua súplica foi atendida. Isabel, tua esposa, dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João. 14Será para ti motivo de grande alegria e muitos hão-de alegrar-se com o seu nascimento, 15porque será grande aos olhos do Senhor. Não beberá vinho nem bebida alcoólica será cheio do Espírito Santo desde o seio materno 16e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. 17Irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, a fim de preparar um povo para o Senhor».
A leitura corresponde ao início do chamado Evangelho da Infância de Lucas. O teólogo genial que é S. Lucas, não prescinde do seu génio de historiador e começa por situar na História o acontecimento: “Nos dias de Herodes, rei da Judeia” (v. 5). “Zacarias”, era um nome corrente entre judeus, que significa “Yahwéh recordou-se ”. Isabel, Elixabet, era o nome da mulher de Aarão (Êx 6, 23) e significa “Deus é a plenitude”, ou “Deus jurou”. Zacarias pertencia à turma de Abias, isto é, ao oitavo turno semanal ao serviço do Templo (cf. 1 Par 24, 10). Segundo conta o historiador Flávio José, os 24 turnos semanais estavam em pleno funcionamento nesta data. 6 “Ambos justos aos olhos de Deus”. A sua santidade não era meramente externa e legal. Justo equivale a fiel cumpridor de toda a vontade de Deus, pessoa que ajusta todo o seu pensar e actuar à lei do Senhor. Então, como hoje, é de pais justos e santos que procedem os grandes homens, os grandes santos. 9-10 “Para oferecer o incenso”. Um sacrifício que se repetia duas vezes ao dia e às 3 horas da tarde. O sacerdote eleito desta vez foi Zacarias, talvez a única vez na vida que lhe coube tamanha honra, segundo as instruções de Mixná. Então pôde penetrar no Santuário, na primeira câmara chamada “o Santo”, onde se encontravam os 12 pães da proposição que representavam as 12 tribos de Israel na presença do Senhor, bem como o candelabro de 7 braços, a menoráh. Zacarias, totalmente só e no máximo recolhimento, ao sinal da trombeta, tinha de deitar incenso sobre as brasas que estavam sobre o pequeno altar de oiro, enquanto o povo espalhado pelos átrios, o dos israelitas e o das mulheres, fazia subir as suas preces até Deus: a nuvem do fumo do incenso que se erguia do altar dos perfumes era a imagem bem expressiva da oração, segundo as palavras do Salmo 141(140), 2. A afluência dos fiéis costumava ser grande, a fim de rezar neste preciso momento, sobretudo na oferenda da tarde. 14-17 “Terás alegria…” Logo a seguir são apontados os motivos de tamanha alegria: a grandeza e santidade excepcionais do filho (v. 15), cheio de Espírito Santo (santificado no ventre materno, segundo a exegese habitual, ou dotado do carisma profético): será instrumento para a salvação de muitos (v. 16): preparará a vinda do Messias (v. 17). É interessante notar como o Evangelista, apesar de saber que João preparou a vinda de Jesus, o Messias, não instrumentaliza um relato que se move num ambiente e perspectiva “pré-cristã” e numa linguagem vétero-testamentária; é mais um indício da fidelidade de Lucas às suas fontes (aqui talvez um relato de família, conservado em círculos afectos ao Baptista). É por isso que não diz: “irá à frente do Messias” (como seria de esperar), mas “irá à frente de Yahwéh”.
Nascimento de S. João Baptista (Missa do dia)
1ª Leitura Isaías 49, 1-6
1Terras de Além-Mar, escutai-me povos de longe, prestai atenção. O Senhor chamou-me desde o ventre materno, disse o meu nome desde o seio de minha mãe. 2Fez da minha boca uma espada afiada, abrigou-me à sombra da sua mão. Tornou-me semelhante a uma seta aguda, guardou-me na sua aljava. 3E disse-me: «Tu és o meu servo, Israel, por quem manifestarei a minha glória». 4E eu dizia: «Cansei-me inutilmente, em vão e por nada gastei as minhas forças». 5Mas o meu direito está no Senhor e a minha recompensa está no meu Deus. E agora o Senhor falou-me, Ele que me formou desde o seio materno, para fazer de mim o seu servo, a fim de Lhe restaurar as tribos de Jacob e reconduzir os sobreviventes de Israel. Eu tenho merecimento aos olhos do Senhor e Deus é a minha força. 6Ele disse-me então: «Não basta que sejas meu servo, para restaurares as tribos de Jacob e reconduzires os sobreviventes de Israel. Farei de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra».
Este texto é o II Cântico do Servo de Yahwéh. O sentido profundo desta passagem visa o Messias, Luz das nações (v. 6; cf. Lc 2, 32). No entanto, temos aqui, como tantas vezes na Liturgia, uma adaptação deste texto a outra figura que não é o Messias, mas o seu Precursor, João Baptista. Joga-se, portanto, com o sentido acomodatício, que não é um sentido propriamente bíblico; é um sentido que nós pomos na Sagrada Escritura, tendo em conta uma certa semelhança de fundo ou meramente verbal. Aqui trata-se suma “acomodação real ou por extensão”, pois há uma grande semelhança de fundo entre o texto e o que realmente se passou com o Baptista: v. 1b – Chamado antes do nascimento (cf. Lc 1, 13-17); v. 1b – Santificado no ventre materno (cf. Lc 1, 15.41-44); Chamado antes do nascimento (cf. Lc 1, 13-17); 1b – Santificado no ventre materno (cf. Lc 1, 15.41-44); 2 – Pregador intrépido das exigências divinas (cf. Mt 3, 7-10; 14, 4); 5-6 – Reconduz Israel a Deus e restaura o Povo (cf. Lc 1, 16-17; 3, 1-20.
2ª leitura Actos dos Apóstolos 13, 22-26
Naqueles dias, Paulo falou deste modo: 22«Deus concedeu aos filhos de Israel David como rei, de quem deu este testemunho: ‘Encontrei David, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará sempre a minha vontade’. 23Da sua descendência, como prometera, Deus fez nascer Jesus, o Salvador de Israel. 24João tinha proclamado, antes da sua vinda, um baptismo de penitência a todo o povo de Israel. 25Prestes a terminar a sua carreira, João dizia: ‘Eu não sou quem julgais mas depois de mim, vai chegar Alguém, a quem eu não sou digno de desatar as sandálias dos seus pés’. 26Irmãos, descendentes de Abraão e todos vós que temeis a Deus: a nós é que foi dirigida esta palavra de salvação».
A leitura é tirada do discurso de São Paulo em Antioquia da Pisídia, por ocasião da primeira grande viagem, o primeiro discurso querigmático do Apóstolo a ser registado nos Actos dos Apóstolos. Corresponde a um modelo primitivo, mas a redacção de Lucas tem presente certamente os seus leitores, a quem se dirige ao redigir a sua obra. 24-25 “João dizia”. Breve referência à substância da pregação do Baptista: a preparação do povo para receber bem o Messias que ele anunciava. Mas a santidade de João era tão grande e impressionante que ele precisou de deixar bem claro que “eu não sou aquilo que julgais”, pois o tinham como o Messias (cf. Jo 1, 20-30; 3, 25-30).
Evangelho São Lucas 1, 57-66.80
Naquele tempo, 57chegou a altura de Isabel ser mãe e deu à luz um filho. 58Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor lhe tinha feito tão grande benefício e congratularam-se com ela. 59Oito dias depois, vieram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60Mas a mãe interveio e disse: «Não, Ele vai chamar-se João». 61Disseram-lhe: «Não há ninguém da tua família que tenha esse nome». 62Perguntaram então ao pai, por meio de sinais, como queria que o menino se chamasse. 63O pai pediu uma tábua e escreveu: «O seu nome é João». Todos ficaram admirados. 64Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua e começou a falar, bendizendo a Deus. 65Todos os vizinhos se encheram de temor e por toda a região montanhosa da Judeia se divulgaram estes factos. 66Quantos os ouviam contar guardavam-nos em seu coração e diziam: «Quem virá a ser este menino?». Na verdade, a mão do Senhor estava com ele. 80O menino ia crescendo e o seu espírito fortalecia-se. E foi habitar no deserto até ao dia em que se manifestou a Israel.
A leitura de hoje apresenta-nos o relato do nascimento do Precursor bem como da imposição do nome e circuncisão. Na vigília já se leu o anúncio do nascimento. 63 “O seu nome é João”. Com grande surpresa para toda a família, o menino não recebe o nome do pai, ou, como era mais frequente, o do avô paterno, mas o nome anunciado pelo Arcanjo Gabriel: João, que quer dizer “Yahwéh concedeu uma graça”. Do versículo anterior deduz-se que Zacarias estava mudo e surdo, pois lhe “perguntaram por sinais” (v. 62). 80 “E foi habitar no deserto”. Não é crível que João tenha ido para o deserto ainda menino muito pequeno, como dizem os apócrifos, nem apenas pouco tempo antes da vida pública de Cristo. O facto de Lucas dizer logo neste momento que João foi para o deserto, corresponde a uma técnica da composição lucana, chamada técnica de eliminação: antes de passar a outro assunto, avança com coisas que se referem à pessoa de que está a falar, eliminando o que entrementes sucedeu, sem se preocupar da cronologia; assim se explica que a Virgem Maria não apareça no nascimento do Baptista, etc. João, tendo à sua frente uma carreira brilhante, pois era da classe sacerdotal, renuncia a ela, para levar uma vida recolhida e penitente, vida que havia de conferir grande autenticidade e autoridade à sua futura pregação. Não foi para um deserto arenoso, mas para uma zona pobre e árida, provavelmente a Noroeste do Mar Morto. Por ali se fixaram os essénios, concretamente a seita de Qumrã, dirigida pelos sacerdotes sadoquitas dissidentes do sacerdócio oficial de Jerusalém. Até que ponto manteve João contacto com estes essénios é coisa para nós desconhecida, ainda que provável.
1º Leitura Job 38, 1.8-11
1O Senhor respondeu a Job do meio da tempestade, dizendo: 8«Quem encerrou o mar entre dois batentes, quando ele irrompeu do seio do abismo, 9quando Eu o revesti de neblina e o envolvi com uma nuvem sombria, 10quando lhe fixei limites e lhe tranquei portas e ferrolhos? 11E disse-lhe: ‘Chegarás até aqui e não irás mais além, aqui se quebrará a altivez das tuas vagas’».
A leitura é um pequenino extracto da parte final do livro de Job, em que Deus é apresentado, não a desvendar o mistério do sofrimento do inocente, mas apelando a que o sofredor inocente eleve o seu espírito para Deus, contemple as maravilhas da natureza e reconheça humildemente a soberania absoluta de Deus e a sua admirável sabedoria: Deus sabe mais e os seus desígnios, que são sempre justos, ultrapassam a nossa pobre compreensão e os nossos acanhados pontos de vista. A leitura foi escolhida em função do Evangelho de hoje, em que Jesus é apresentado como Deus, pois, como nesta passagem do livro de Job, Ele é o Senhor do mar, dominando o seu assombroso poder, “a altivez das sua vagas” (v. 11). Já S. Gregório Magno, nos Comentários Morais ao livro de Job, relacionava este texto com o do Evangelho em que Jesus acalma a tempestade.
2ª leitura 2 Coríntios 5, 14-17
Irmãos: 14O amor de Cristo nos impele, ao pensarmos que um só morreu por todos e que todos, portanto, morreram. 15Cristo morreu por todos, para que os vivos deixem de viver para si próprios, mas vivam para Aquele que morreu e ressuscitou por eles. 16Assim, daqui em diante, já não conhecemos ninguém segundo a carne. Ainda que tenhamos conhecido a Cristo segundo a carne, agora já não O conhecemos assim. 17Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram: tudo foi renovado.
Estes poucos versículos aparecem num contexto em que S. Paulo, face aos seus detractores, trata de justificar o seu comportamento honrado e coerente para com os fiéis de Corinto (vv. 11-13). A leitura é mais uma das impressionantes sínteses paulinas da essência da essência da vida cristã. “O amor de Cristo”, quer se entenda como o que Ele nos tem ou como o que nós Lhe devemos, é o que impele o Apóstolo no seu actuar. A morte de Cristo por nós não pode deixar ninguém indiferente. 14 “Todos, portanto, morreram”. Pela nossa união a Cristo, pelo Baptismo (cf. Rom 6), também nós participarmos misticamente da Morte de Cristo, associando-nos a ela, como membros que somos de Cristo; daqui deriva S. Paulo a necessidade de morrer para o pecado, já que Cristo, morreu pelo pecado. 16 “Já O não conhecemos assim”: S. Paulo, que outrora conheceu a Cristo “segundo a carne”, isto é, segundo os preconceitos da gente da sua raça sem fé, agora já tem dele um novo e perfeito conhecimento, a partir da graça da fé. 17 “É uma nova criatura”. O Baptismo operou no cristão mudança tão radical que se pode falar duma nova criação, um novo ser a partir do nada e de menos que nada, do pecado. “As coisas antigas passaram”, isto é, o pecado, o erro, os preconceitos, as ideias puramente humanas, etc.
Evangelho São Marcos 4, 35-41
35Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse aos seus discípulos: «Passemos à outra margem do lago». 36Eles deixaram a multidão e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado. Iam com Ele outras embarcações. 37Levantou-se então uma grande tormenta e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água. 38Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa almofada. 39Eles acordaram-no e disseram: «Mestre, não Te importas que pereçamos?» Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: «Cala-te e está quieto». O vento cessou e fez-se grande bonança. 40Depois disse aos discípulos: «Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?» 41Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?»
Continuamos com o Evangelista do ano, numa secção do seu Evangelho que conta uma série de milagres e a actividade de Jesus na Galileia. Para começar, temos o milagre da tempestade acalmada, que tem servido para aplicações pertinentes à vida da Igreja e também à vida de cada fiel. Na barca agitada pela fúria das ondas vê-se uma imagem da Igreja avançando por meio de grandes perigos, que ameaçam afogá-la: as perseguições, as heresias, os escândalos dos seus filhos... Jesus adormecido aparece como o silêncio de Deus, que não parece prestar atenção aos seus filhos em perigo. No grito dos Apóstolos, que na barca despertam a Jesus, está uma imagem da oração dos fiéis, mais expressiva em Mateus, que não emprega o apelativo usado pelos Apóstolos – “Mestre” (v. 39) – mas o título de “Senhor”: “Senhor, salva-nos que perecemos!” (cf. Mt 8, 25); esta era a forma como os cristãos já então invocavam a Jesus. Mas o Senhor vela sempre pela sua Igreja, por isso tem actualidade a sua suave advertência: “Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?” (v. 40). 38 “Com a cabeça numa almofada”. Este episódio evangélico é o único em que os três Sinópticos nos apresentam Jesus a dormir, algo tão humano e tão natural, mas só Marcos fala da almofada; este é um pormenor, que, como tantos outros, empresta ao Evangelho de S. Marcos aquele colorido tão típico; atrás de detalhes como este adivinha-se uma testemunha ocular, o próprio Apóstolo Pedro, de quem Marcos foi discípulo e colaborador directo. 41 “Quem é este homem?” A pergunta dos discípulos é a interrogação que o Evangelista quer que façam os seus leitores e as pessoas de todos os tempos. Não é possível que alguém se depare com a pessoa de Jesus sem se interrogar sobre quem é Ele. Perante Ele não se pode ficar na indiferença. E o Evangelho fornece a chave do mistério da sua pessoa.
S. Pedro e S. Paulo (Missa da vigília)
1ª leitura Actos dos Apóstolos 3, 1-10
Naqueles dias, 1Pedro e João subiam ao templo para a oração das três horas da tarde. 2Trouxeram então um homem, coxo de nascença, que colocavam todos os dias à porta do templo, chamada Porta Formosa, para pedir esmola aos que entravam. 3Ao ver Pedro e João, que iam a entrar no templo, pediu-lhes esmola. 4Pedro, juntamente com João, olhou fixamente para ele e disse-lhe: «Olha para nós». 5O coxo olhava atentamente para Pedro e João, esperando receber deles alguma coisa. 6Pedro disse-lhe: «Não tenho ouro nem prata, mas dou-te o que tenho: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda». 7E, tomando-lhe a mão direita, levantou-o. Nesse instante fortaleceram-se-lhe os pés e os tornozelos, 8levantou-se de um salto, pôs-se de pé e começou a andar depois entrou com eles no templo, caminhando, saltando e louvando a Deus. 9Toda a gente o viu caminhar e louvar a Deus 10e, sabendo que era aquele que costumava estar sentado, a mendigar, à Porta Formosa do templo, ficaram cheios de admiração e assombro pelo que lhe tinha acontecido.
Temos aqui o relato da cura do coxo de nascença, o primeiro milagre realizado por Pedro, com que se inicia mais uma unidade literária de Actos (Act 3, 1 – 5, 42) que refere a primeira actividade apostólica em Jerusalém, após o Pentecostes. 1 “Para a oração das 3 horas de tarde” (hora nona), a hora em que começavam no Templo as cerimónias do sacrifício vespertino que se prolongavam até ao cair da tarde; então se oferecia um cordeiro em sacrifício, como também de manhã, segundo Ex 12, 6. 2 “Porta Formosa”, porta assim chamada pelos seus ricos adornos, que dava do átrio dos gentios para o átrio das mulheres, em frente do pórtico de Salomão (v. 11), que rodeava a zona do templo do lado Leste. 6 “Em nome de Jesus…” Os prodígios operados pelos Apóstolos não eram feitos em nome próprio, como Jesus fazia, revelando a sua divindade ao não precisar dum poder alheio para os realizar, como é o caso de Pedro.
2ª leitura Gálatas 1, 11-20
11Eu vos declaro, irmãos: O Evangelho anunciado por mim não é de inspiração humana, 12porque não o recebi ou aprendi de nenhum homem, mas por uma revelação de Jesus Cristo. 13Certamente ouvistes falar do meu proceder outrora no judaísmo e como perseguia terrivelmente a Igreja de Deus e procurava destruí-la. 14Fazia mais progressos no judaísmo do que muitos dos meus compatriotas da mesma idade, por ser extremamente zeloso das tradições dos meus pais. 15Mas quando Aquele que me destinou desde o seio materno e me chamou pela sua graça, 16Se dignou revelar em mim o seu Filho para que eu O anunciasse aos gentios, decididamente não consultei a carne e o sangue, 17nem subi a Jerusalém para ir ter com os que foram Apóstolos antes de mim mas retirei-me para a Arábia e depois voltei novamente a Damasco. 18Três anos mais tarde, subi a Jerusalém para ir conhecer Pedro e fiquei junto dele quinze dias. 19Não vi mais nenhum dos Apóstolos, a não ser Tiago, irmão do Senhor. 20– O que vos escrevo, diante de Deus o afirmo: não estou a mentir.
S. Paulo escreve aos cristãos da Galácia, mais provavelmente da Galácia do Norte, na Turquia actual. Eram cristãos na maior parte convertidos de tribos pagãs originárias da Gália, que estavam a ser perturbados por pregadores cristãos de tendência judaizante, que os intimidavam dizendo-lhes que, para se salvarem, não bastava o Baptismo e a fé cristã, mas que necessitavam de ser circuncidados. Para imporem a sua teoria, tentavam desacreditar a pessoa de S. Paulo, afirmando que ele não era um verdadeiro Apóstolo, pois não tinha recebido a sua missão directamente de Jesus. Nesta carta o Apóstolo começa por declarar e explicitar como foi o próprio Senhor que lhe revelou o Evangelho – os principais mistérios – que ele pregava. Sendo assim, logo após a conversão, não teve necessidade de vir imediatamente a Jerusalém para ouvir os Apóstolos, retirou-se para a Arábia (o reino nabateu, a sul de Damasco) e só ao fim de três anos é que foi estar com os Apóstolos. Pergunta-se, então, que fez S. Paulo durante esses três anos? Uns pensam que foram anos de pregação, outros que teria sido um tempo de retiro espiritual, em que ele assenta ideias, confrontando a revelação que teve com os dados do Antigo Testamento e da fé dos primeiros cristãos. 19 “Só vi Tiago”. A forma de falar não significa necessariamente que este irmão do Senhor fosse um dos 12 Apóstolos. Para que tenha sentido a frase, basta que se trate duma figura proeminente da igreja jerosolimitana; para isto bastaria o simples título de “irmão (parente) do Senhor” e a participação da missão apostólica. Por isso, hoje, muitos exegetas entendem que este Tiago é distinto do apóstolo, “filho de Alfeu.”, o “São Tiago Menor. Não se pode tratar de Tiago, irmão de João, pois, segundo o testemunho de Flávio José, foi martirizado por Herodes Agripa I, pelos anos 42-43 (cf. Act 12, 2).
Evangelho São João 21, 15-19
Quando Jesus Se manifestou aos seus discípulos junto ao mar de Tiberíades, 15depois de comerem, perguntou a Simão Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?». Ele respondeu-Lhe: «Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo». Disse-lhe Jesus: «Apascenta os meus cordeiros». 16Voltou a perguntar-lhe segunda vez: «Simão, filho de João, tu amas-Me?». Ele respondeu-Lhe: «Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo». Disse-lhe Jesus: «Apascenta as minhas ovelhas». 17Perguntou-lhe pela terceira vez: «Simão, filho de João, tu amas-Me?». Pedro entristeceu-se por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez se O amava e respondeu-Lhe: «Senhor, Tu sabes tudo, bem sabes que Te amo». Disse-lhe Jesus: «Apascenta as minhas ovelhas. 18Em verdade, em verdade te digo: Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias mas quando fores mais velho, estenderás a mão e outro te cingirá e te levará para onde não queres». 19Jesus disse isto para indicar o género de morte com que Pedro havia de dar glória a Deus. Dito isto, acrescentou: «Segue-Me».
É fácil de ver na tripla confissão de amor de Pedro uma reparação da sua tripla negação (Jo 18, 17.25-27); na redacção do texto grego, pode ver-se também um jogo de palavras muito expressivo, pois na 1ª e 2ª pergunta Jesus interroga Pedro com um verbo de amor mais divino, profundo e intelectual (amas-Me? – agapâs me), ao passo que Pedro responde com um verbo de simples afeição e amizade (sou teu amigo – filô se); à 3ª vez, aparece Jesus condescendendo com Pedro, ao usar este segundo verbo, e Pedro ficou triste por pensar que esta mudança de Jesus se devia à imperfeição do seu amor. Toda a Tradição católica viu neste encargo de pastorear todo o rebanho de Cristo (cordeiros e ovelhas) o cumprimento da promessa do ministério petrino (Mt 16, 17-19 e Lc 22, 31-32; cf. 1 Pe 5, 2.4). Recorde-se, a propósito, o que diz o Concílio Vaticano II, LG, 22: “O colégio ou corpo episcopal não tem autoridade a não ser em união com o Pontífice Romano, sucessor de Pedro, entendido como sua cabeça, permanecendo inteiro o poder do seu primado sobre todos, quer pastores, quer fiéis. Pois o Romano Pontífice, em virtude do seu cargo de Vigário de Cristo e Pastor de toda a Igreja, nela tem pleno, supremo e universal poder, que pode sempre exercer livremente”. 18-19 “Estenderás as mãos... Segue-Me”. Pedro havia de seguir a Cristo até ao ponto de vir a morrer crucificado em Roma, na perseguição de Nero (64-68), segundo a tradição documentada já por S. Clemente, no século I. Também se diz que, por humildade, pediu para ser crucificado de cabeça para baixo. 21-22. Jesus não satisfaz curiosidades inúteis, mas apela à fidelidade: “segue-me”. Tendo em conta que Pedro já morrera havia uns 40 anos, não deixa de impressionar a ligação tão íntima entre o discípulo amado e Pedro, aparecendo este sempre numa posição de superioridade (cf. Jo 13, 24; 18, 15-16; 20, 1-8; 21, 1-12.15.20-23); há quem veja nisto um apelo a um critério a seguir nas relações entre as comunidades joaninas da Ásia Menor e a Igreja de Roma.
S. Pedro e S. Paulo (Missa da vigília)
1ª leitura Actos dos Apóstolos 12, 1-11
1Naqueles dias, o rei Herodes começou a perseguir alguns membros da Igreja. 2Mandou matar à espada Tiago, irmão de João, 3e, vendo que tal procedimento agradava aos judeus, mandou prender também Pedro. Era nos dias dos Ázimos. 4Mandou-o prender e meter na cadeia, entregando-o à guarda de quatro piquetes de quatro soldados cada um, com a intenção de o fazer comparecer perante o povo, depois das festas da Páscoa. Enquanto 5Pedro era guardado na prisão, a Igreja orava instantemente a Deus por ele. 6Na noite anterior ao dia em que Herodes pensava fazê-lo comparecer, Pedro dormia entre dois soldados, preso a duas correntes, enquanto as sentinelas, à porta, guardavam a prisão. 7De repente, apareceu o Anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela da cadeia. 8O Anjo acordou Pedro, tocando-lhe no ombro, e disse-lhe: «Levanta-te depressa». E as correntes caíram-lhe das mãos. Então o Anjo disse-lhe: «Põe o cinto e calça as sandálias». Ele assim fez. Depois acrescentou: «Envolve-te no teu manto e segue-me». 9Pedro saiu e foi-o seguindo, sem perceber a realidade do que estava a acontecer por meio do Anjo julgava que era uma visão. 10Depois de atravessarem o primeiro e o segundo posto da guarda, chegaram à porta de ferro, que dá para a cidade, e a porta abriu-se por si mesma diante deles. Saíram, avançando por uma rua, e subitamente o Anjo desapareceu. 11Então Pedro, voltando a si, exclamou: «Agora sei realmente que o Senhor enviou o seu Anjo e me libertou das mãos de Herodes e de toda a expectativa do povo judeu».
1-2 “Herodes”: é Herodes Agripa I, o terceiro monarca do mesmo nome a ser nomeado no NT; era filho da Aristóbulo e sobrinho de Herodes Antipas (o que mandara matar o Baptista) e neto de Herodes, o Grande (o da construção do Templo e da matança dos inocentes). Depois de uma vida libertina em Roma, obteve o favor de Calígula, vindo a poder usar o título de rei dum território quase tão grande como o do avô, apresentando-se muito zeloso da religiosidade judaica. “Tiago” é o filho de Zebedeu e Salomé, irmão do Apóstolo João evangelista. O seu martírio deve ter sido um ano ou dois após a tomada de posse de Herodes, a qual se deu no ano 41. 4-6 “Guarda de 4 piquetes de 4 soldados”: note-se o contraste entre a severidade da segurança e a serenidade de Pedro que dorme; cada piquete correspondia a uma das quatro vigílias da noite; Pedro “dormia entre dois soldados”, com uma das mãos atada à mão de um soldado e a outra à do outro, enquanto “a Igreja orava instantemente a Deus por ele” (belo fundamento bíblico da oração assídua pelo Papa). 7-10 A intervenção libertadora do “Anjo do Senhor” já tinha sido assinalada em semelhante circunstância (cf. Act 5, 18-19); esta está na linha da fé da Igreja na protecção dos anjos da guarda, conforme lembra o Catecismo da Igreja Católica, nº 336: “Desde a infância até à morte, a vida humana é acompanhada pela sua assistência e intercessão…”.
2ª leitura 2 Timóteo 4, 6-8.17-18
Caríssimo: 6Eu já estou oferecido em libação e o tempo da minha partida está iminente. 7Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. 8E agora já me está preparada a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me há-de dar naquele dia e não só a mim, mas a todos aqueles que tiverem esperado com amor a sua vinda. 17O Senhor esteve a meu lado e deu-me força, para que, por meu intermédio, a mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada e todos os pagãos a ouvissem e eu fui libertado da boca do leão. 18O Senhor me livrará de todo o mal e me dará a salvação no seu reino celeste. Glória a Ele pelos séculos dos séculos. Amen.
A leitura é um extracto da parte final da Carta, em que o Paulo, pressentindo a morte iminente, faz como que um balanço da sua vida toda devotada à causa da Boa Nova. Consideramos o escrito dotado de autenticidade criticamente segura, não obstante uma certa tendência negativa mesmo entre diversos autores católicos. De facto aqui, como em muitos outros pontos das Cartas Pastorais, observam-se pormenores biográficos de tal maneira vivos, concretos e coerentes, que não se podem atribuir a um falsário. Há quem pense na intervenção dum secretário diferente dos habituais, que muito bem poderia ter sido o seu discípulo e companheiro (cf. v. 11) no segundo cativeiro romano, Lucas (Spicq). 6-7 “Já estou oferecido em libação”, isto é, “sinto que a morte se avizinha”; é uma linguagem que bem pode proceder do costume, referido por Tácito, de se fazerem libações por ocasião da morte de alguém. “Combati o bom combate”: São Paulo sempre gostou de comparar a vida cristã e as lides apostólicas a lutas desportivas, pugilismo, corridas... (cf. Filp 2, 16; 3, 12-14; 1 Cor 9, 24-26; Gal 2, 2); “terminei a minha carreira”, à letra, corrida. 17 “A mensagem... fosse proclamada a todos…” Pensa-se haver aqui uma referência a algum testemunho público nalguma audiência do tribunal perante grande multidão. “Fui libertado da boca do leão”, o que não significa forçosamente que estivesse para ser lançado às feras, mas simplesmente o adiamento da condenação à pena capital, talvez para se proceder a melhor estudo da causa, em face do surpreendente testemunho do heróico pregador do Evangelho, que teria deixado os seus juízes perplexos…
Evangelho São Mateus 16, 13-19
Naquele tempo, 13Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?». 14Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas». Jesus perguntou: 15«E vós, quem dizeis que Eu sou?». 16Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». 17Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus. 18Também Eu te digo: Tu és Pedro sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. 19Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».
O texto da leitura consta de duas partes distintas, mas intimamente ligadas: a confissão de fé de Pedro (vv. 13-16), comum a Marcos 8, 27-30 e a Lucas 9, 18-21 (cf. Jo 6, 67-71), e a promessa feita a Pedro (vv. 17-19), exclusiva de Mateus (cf. Jo 21, 15, 23). 13 “Cesareia de Filipe” era a cidade construída por Filipe, filho de Herodes, o Grande, em honra do César romano, nas faldas do Monte Hermon, a uns 40 quilómetros a Nordeste do Lago de Genesaré. 13-17 “Quem dizem os homens… E vós, quem dizeis que Eu sou?” É uma pergunta que, em face de Jesus – uma pessoa tão singular, surpreendente e apaixonante –, não pode deixar de ser feita em todos os tempos. As respostas podem ser variadas e até contraditórias, mas só uma é a certa, a resposta de Pedro, a resposta esclarecida da fé, resposta que Jesus aprova: “Feliz de ti, Simão” (v. 17). “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (v. 16): Messias é a forma hebraica da palavra do texto original grego, Cristo, que quer dizer ungido (os reis eram ungidos com azeite na cabeça ao serem investidos). Jesus é o Rei (ungido) anunciado pelos Profetas e esperado pelo povo. Quando se diz Jesus Cristo é como confessar a mesma fé de Pedro, reconhecer que Jesus é o Cristo, isto é, o Messias, mas num sentido mais denso e profundo, a saber, o Filho de Deus, num sentido que ultrapassa o corrente e que só o dom divino da fé pode fazer descobrir, segundo as palavras de Jesus a Pedro: “Não foram a carne e o sangue que to revelaram” (v. 17). A fé de Pedro, como a nossa, não pode proceder dum mero raciocínio humano, da sagacidade natural, mas da luz, da certeza e da firmeza, que procede da revelação de Deus. “A carne e o sangue” é uma forma semítica de designar o homem enquanto ser débil e exposto ao erro e ao pecado. 18 “Tu és Pedro”. É significativo que o texto grego não tenha conservado a palavra aramaica “kêphá”, aliás usada noutras passagens do N. T. sem ser traduzida, como é habitual com os patronímicos. Aqui o evangelista teve o cuidado de usar o nome correntemente dado ao Apóstolo Simão: Pedro. É expressivo o trocadilho, com efeito Pedro é a pedra sobre a qual assenta a solidez de toda a Igreja do Senhor. Note-se que o apelido de Pedro = Pedra não existia na época, nem em aramaico (Kêphá), nem em grego (Pétros), nem em latim (Petrus), uma circunstância que reforça o seu significado e originalidade. Além disso, este apelido também não era apto para caracterizar o temperamento ou o carácter do Apóstolo, pois aquilo que distingue a sua personalidade não é precisamente a dureza ou firmeza da pedra, mas antes a debilidade, mobilidade e até inconstância (cf. Mt 14, 28-31; 26, 33-35.69-75; Gal 2, 11-14). Se Jesus assim o chama, é em razão da função ou cargo em que há-de investi-lo. “Edificarei a minha Igreja”. Jesus, ao dizer a minha, significa que tem intenção de fundar algo de novo, uma nova comunidade de Yahwéh. “Ekklêsía” é a tradução grega corrente dos LXX para a designação hebraica da Comunidade de (qehal) Yahwéh, isto é, “o povo escolhido de Deus reunido para o culto de Yahwéh” (cf. Dt 23, 2-4.9). Não é, portanto, a Igreja uma seita dentro do judaísmo, é uma realidade nova e independente. “Jesus pôde dizer minha, porque Ele a salva, Ele a adquire com o seu sangue, Ele a convoca, Ele realiza nela a presença divina, a aliança, o sacrifício”. “As portas do inferno não prevalecerão”. Esta linguagem tipicamente bíblica (Is 38, 10; Sab 16, 13; cf. Job 38, 17; Salm 9, 14) é uma sinédoque com que se designa a parte pelo todo. Inferno tanto pode designar a destruição e a morte (xeol=inferi=os infernos), como Satanás e os poderes hostis a Deus. Por ocasião da eleição do Papa Bento XVI viu-se bem como estes poderes hostis à verdadeira Igreja de Cristo mais uma vez se assanharam… 19 “Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus”. Os poderes conferidos a Pedro não são para ele vir a exercer no Céu, mas aqui neste mundo, onde a Igreja, o Reino de Deus em começo e em construção, tem de ser edificada. No judaísmo e no Antigo Testamento (cf. Is 22, 22), lidar com as chaves é uma atribuição de quem representa o próprio dono, significa administrar a casa. Ligar-desligar significa tomar decisões com tal autoridade e poder supremo que serão consideradas válidas por Deus, “nos Céus”. É de notar que Jesus diz a todos os Apóstolos esta mesma frase (Mt 18, 18), mas sem que seja tirada qualquer força à autoridade suprema de Pedro, a quem é dado um especial poder de “ligar e desligar” na Igreja, enquanto pedra fundamental e pastor supremo a ser investido após a Ressurreição (Jo 21, 15-17). Este primado de Pedro sobre toda a Igreja – que hoje se designa por ministério petrino – não é conferido apenas a ele, mas a todos os seus sucessores; com efeito Jesus fala a Pedro na qualidade de chefe duma edificação estável e perene, a Igreja; se o edifício é perene também o será a pedra fundamental. Como recorda o Catecismo da Igreja Católica, nº 882, “o Papa, Bispo de Roma e sucessor de S. Pedro, «é princípio perpétuo e visível, e fundamento da unidade que liga, entre si, todos os bispos com a multidão dos fiéis» (LG 23). Em virtude do seu cargo de vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja, o pontífice romano tem sobre a mesma Igreja um poder pleno, supremo e universal, que pode sempre livremente exercer” (LG 22). Este é um dos pontos cruciais do diálogo ecuménico, que terá uma saída feliz quando todos os que se consideram cristãos compreenderem que o carisma petrino, por vontade de Cristo, é o indispensável instrumento de união e unidade na legítima diversidade.
1ª leitura Sabedoria 1, 13-15; 2, 23-25 (23-24)
13Não foi Deus quem fez a morte, nem Ele se alegra de os vivos perecerem. 14Pela criação, deu o ser a todas as coisas e o que nasce no mundo destina-se ao bem. Em nada existe o veneno que mata, nem o poder da morte reina sobre a Terra, 15pois a justiça é imortal. 23Deus criou o homem para ser incorruptível e fê-lo à imagem do que Ele é em Si mesmo. 24A morte entrou no mundo pela inveja do Demónio, e os seus partidários sentem-lhe os efeitos.
A leitura contém cinco versículos respigados da 1ª parte do livro da Sabedoria, o mais recente dos livros do A. T. e escrito em grego. O autor inspirado mostra como a verdadeira felicidade consiste em fazer a vontade de Deus e disso depende a sorte de cada um após a morte, pois “a justiça (de Deus) é imortal” (v. 15), não deixa de haver uma retribuição justa pelo proceder de cada um. E Deus não quer a morte de ninguém, mas esta é consequência do pecado: “não foi Deus quem fez a morte” (v. 13). Mais adiante (vv. 23-24) insiste-se na mesma ideia, depois de censurar os ímpios que perseguem o justo, cuja vida santa consideram para eles uma repreensão do seu mau proceder. Como pano de fundo do texto, temos a narrativa do Génesis (Gn 3), embora não citada expressamente; na origem do mal e da morte – “não foi Deus quem fez a morte” (v. 23) – está “a serpente antiga, chamada Diabo e Satanás, que seduz toda a humanidade” (Apoc 12, 9), “assassino desde o princípio… mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44); notar que a tradução litúrgica utilizou uma expressão mais suave, “demónio”, em vez do termo grego Diabo, que significa caluniador, acusador, a tradução do nome hebraico Satanás.
2ª leitura 2 Coríntios 8, 7.9.13-15
Meus irmãos: 7vós sois ricos em tudo: na fé, na eloquência, no conhecimento da doutrina, em toda a espécie de atenções e na caridade que recebestes de nós. Mostrai-vos também ricos em generosidade. 9Conheceis a generosidade de Nosso Senhor Jesus Cristo: Ele, que era rico, fez-se pobre por vossa causa, para que vos tornásseis ricos pela sua pobreza. 13Não se trata de vos sobrecarregar a vós, para aliviar os outros, trata-se de procurar a igualdade. 14Na presente ocasião, aquilo que vos sobra compensa o que falta aos vossos irmãos, para que um dia, o que venha a sobrar-lhes compense o que vier a faltar-vos. E assim haverá igualdade, como esta escrito: 15«A quem tinha muito não sobejou, e a quem tinha pouco não faltou.»
A leitura é tirada da segunda parte da Carta (2 Cor 8 – 9), escrita da Macedónia; contém um forte apelo do Apóstolo ao desprendimento e à generosidade dos fiéis de Corinto na esmola para socorrer os pobres de Jerusalém. No regresso da sua 3ª viagem missionária, Paulo vai passar por Corinto e ali recolher o fruto da colecta, já recomendada na sua 1ª Carta, a fazer “no primeiro dia da semana”, certamente na Liturgia dominical (cf, 1 Cor 16, 2.5) como veio a ser um costume cristão, já referido por S. Justino no século II: “Desde o princípio, com o pão e o vinho para a Eucaristia, os cristãos trazem as suas ofertas para a partilha com os necessitados. Este costume, sempre actual, da colecta inspira-se no exemplo de Cristo, que Se fez pobre para nos enriquecer” (Catecismo da Igr. Cat., nº 1351; cf. S. Justino, Apol. I, 67, 6). A imitação de Cristo passa também pelo exercício das virtudes do desprendimento e da generosidade: “Ele, que era rico, fez-se pobre por vossa causa, para que vos tornásseis ricos pela sua pobreza” (v. 9). S. Paulo faz ainda apelo a uma justa repartição de bens (vv. 13-15), recorrendo ao texto de Ex 16, 18, que se refere à recolha equitativa do maná no deserto.
Evangelho Forma longa: Marcos 5, 21-43. Forma breve: Marcos 5, 21-24.35b-43
Naquele tempo, 21Jesus voltou a atravessar, de barco, para a outra margem do lago. Reuniu-se junto d'Ele grande multidão, e Ele permaneceu a beira-mar. 22Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Ao ver Jesus, 23caiu-lhe aos pés e suplicou-Lhe com insistência: «A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe a mão, para que seja salva e viva.» 24Jesus foi com ele. Acompanhava-O tão grande multidão, que O comprimia. [25Certa mulher tinha hemorragias havia doze anos. 26Sofrera muito com grande número de médicos e gastara todos os seus bens, sem ter obtido qualquer resultado; antes piorava cada vez mais. 27Como tinha ouvido falar Jesus, veio por detrás, no meio da multidão, e tocou-Lhe na capa. 28Pois dizia consigo: «Se eu, ao menos, Lhe tocar nas vestes, ficarei curada.» 29No mesmo instante, estancou-se-lhe o sangue, e sentiu no seu corpo que estava curada da doença. 30Jesus notou logo em Si mesmo que saíra d’Ele uma força. Voltou-Se no meio da multidão e perguntou: «Quem Me tocou nas vestes?» 31Diziam-Lhe os discípulos: «Tu vês a multidão que Te aperta e perguntas: «Quem Me tocou?» 32Mas Jesus olhou em volta, para ver aquela que o tinha feito. 33E a mulher, assustada e a tremer, por saber o que Lhe tinha sucedido, veio prostrar-se diante de Jesus e disse-Lhe toda a verdade. 34Jesus replicou-Lhe: «Minha filha, foi a tua fé que te salvou! Vai em paz e fica sarada do teu mal.»] 35Ainda Ele falava, quando vieram dizer da casa do chefe da sinagoga: «A tua filha morreu. Porque estás ainda a importunar o Mestre?» 36Mas Jesus, que surpreendera as palavras proferidas, disse ao chefe da sinagoga: «Não tenhas receio. Crê somente.» 37E não deixou que ninguém O acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. 38Chegaram a casa do chefe da sinagoga. E Jesus deparou com o reboliço e com a gente que chorava e gritava muito. 39Ao entrar, perguntou-lhes: «Porque estais nesta agitação a chorar? A criança não morreu, está a dormir!» 40E riam-se d’Ele. Jesus, depois de os ter mandado sair a todos, tomou consigo o pai e a mãe da criança e os que vinham com ele, e entrou no local onde estava a criança. 41Pegou na mão da criança e disse-lhe: «Menina, Eu te ordeno: levanta-te». 42Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar, pois tinha doze anos. E logo se encheram de grande pasmo. 43Jesus fez-lhes instantes recomendações, para que ninguém soubesse do caso, e mandou que dessem de comer à menina.
Voltamos hoje ao nosso Evangelho do ano, com mais dois milagres de Jesus (na forma longa da leitura). “O encadeamento destas duas narrações de milagres é tão íntimo e tão natural, que é impossível considerá-lo como obra do evangelista ou da tradição donde as tomou. Trata-se evidentemente da reprodução da realidade histórica. O carácter vivo e gráfico da descrição remete-nos mais uma vez para uma testemunha ocular, Pedro” (Josef Schmid). 22 “Um dos chefes da sinagoga”, certamente uma pessoa importante na terra, responsável pela orientação da sinagoga, especialmente nas celebrações dos sábados e dias festivos; competia-lhe dirigir o canto e as orações, bem como designar o leitor e comentador dos sedarim (secções) em que estava dividido o Pentateuco na Palestina no tempo de Jesus, para ser lido por ciclos de três anos, em forma de lectio continua. É de notar como um homem importante recorre a Jesus numa situação extrema, com a filha a morrer. Marcos, com uma informação mais directa, não enfatiza a situação como Mateus, que fala de que a filha já estava morta (cf. Mt 9, 18). 25 “Certa mulher tinha hemorragias havia doze anos”. A hemorragia, constituía uma impureza legal da infeliz mulher, que também tornava impuro tudo e rodos os que ela tocasse. Já farta de sofrer – havia já 12 anos – e de ser maltratada pelos humilhantes métodos curativos rabínicos, atreve-se a recorrer a Jesus. É impressionante a fé humilde e delicada daquela mulher envergonhada, que pensa que não precisa de se sujeitar a expor o seu mal; mas também se considera indigna de tocar em Jesus e, do meio da multidão, sem que fosse notada, limita-se a tocar-lhe na capa pela parte detrás (v. 27). Sentindo-se curada, não o manifesta logo, e, ao ouvir de Jesus que tinha sido tocado (v. 30), fica confundida pelo seu atrevimento e, “assustada e a tremer… veio prostrar-se diante de Jesus e disse-lhe toda a verdade”. Não foram, porém, palavras de censura as que ouviu do seu médico, mas o louvor da sua fé e a paz que lhe inundou a alma com a garantia dada duma cura definitiva: “Minha filha, foi a tua fé que te salvou! Vai em paz e fica sarada do teu mal” (v. 34). 36-40 “Não tenhas receio. Crê somente”. Para quem crê, Jesus nunca chega demasiado tarde (cf. v. 35) e sobra-lhe o reboliço da gente, o choro e o grito das carpideiras… Jesus, ao fazer bem, não quer dar espectáculo nem provocar alarido que venha a perturbar o seu ministério, por isso só o pai e a mãe da menina hão-de presenciar o milagre, além de Pedro Tiago e João, de que Jesus que fazer como que o núcleo duro dos Doze, pois são os mesmos que hão-de presenciar a Transfiguração e a Agonia, em dois montes contrapostos. 41-43 “Menina, levanta-te!” Inexplicavelmente a versão litúrgica omitiu a expressão original de Jesus «talitá qumi» , umas palavras que terão causado tal impacto nos ouvintes, que jamais se lhes apagaram da memória, e que a tradição conservou tal qual, mesmo quando o Evangelho passou a ser pregado e finalmente escrito na língua grega. Não deixa de ser interessante o pormenor tão realista e tão humano de Jesus ao mandar que dessem de comer à menina, mesmo depois de ela já ter começado a andar.
1ª leitura Ezequiel 2, 2-5
Naqueles dias, 2o Espírito entrou em mim e fez-me levantar. Ouvi então Alguém que me dizia: 3«Filho do homem, Eu te envio aos filhos de Israel, a um povo rebelde que se revoltou contra Mim. Eles e seus pais ofenderam-Me até ao dia de hoje. 4É a esses filhos de cabeça dura e coração obstinado que te envio, para lhes dizeres: ‘Eis o que diz o Senhor’. 5Podem escutar-te ou não – porque são uma casa de rebeldes –, mas saberão que há um profeta no meio deles».
A leitura refere a vocação e a missão do profeta Ezequiel, no exílio de Babilónia. É impressionante o contraste entre grandeza da glória do Senhor antes descrita gongoricamente no capítulo 1º e a debilidade do seu profeta; é Deus que lhe dá força e o anima a dirigir-se a “um povo de cabeça dura”. 3 “Filho de homem”. Esta expressão, com que repetidamente é designado o profeta, põe em contraste a pouquidão humana com a grandeza divina. Quase só em Ezequiel aparece este título. Jesus assumirá este título para designar a aparência humilde com que se revela; a expressão era uma forma discreta de se referir a si (um asteísmo), equivalente a este homem; mas, em parte, a expressão era também um título glorioso (cf. Dan 7, 13). De qualquer modo, é um título exclusivamente usado pelo próprio Jesus, pois mais ninguém assim O chama.
2ª leitura 2 Coríntios 12, 7-10
Irmãos: 7Para que a grandeza das revelações não me ensoberbeça, foi-me deixado um espinho na carne, – um anjo de Satanás que me esbofeteia – para que não me orgulhe. 8Por três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. 9Mas Ele disse-me: «Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu poder». Por isso, de boa vontade me gloriarei das minhas fraquezas, para que habite em mim o poder de Cristo. 10Alegro-me nas minhas fraquezas, nas afrontas, nas adversidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor de Cristo, porque, quando sou fraco, então é que sou forte.
A leitura é tirada da 3.ª parte de 2 Cor, em que S. Paulo entra em polémica com os que pretendiam desautorizá-lo. Não receia mesmo apelar para “revelações” extraordinárias (12, 1-6). O texto é rico de ensinamentos para a vida cristã: a humildade, a confiança no poder da graça de Deus e a necessidade da oração. “Um espinho na carne”: a natureza deste espinho é muito discutida. Parece menos provável que se trate de tentações violentas ou de angustiantes preocupações pastorais. É mais provável que se trate de alguma doença que o afligia (paludismo, doença nervosa, doença nos olhos, sendo esta última explicação a mais seguida, a partir dos elementos deduzidos de Act 9, 8-9.18; 23, 5; Gal 4, 15; 6, 11.
Evangelho São Marcos 6, 1-6
Naquele tempo, 1Jesus dirigiu-Se à sua terra e os discípulos acompanharam-n’O. 2Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam: «De onde Lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos? 3Não é Ele o carpinteiro, Filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão as suas irmãs aqui entre nós?» E ficavam perplexos a seu respeito. 4Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa». 5E não podia ali fazer qualquer milagre; apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. 6Estava admirado com a falta de fé daquela gente. E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.
Por este episódio fica claro que Jesus, embora socialmente aparecesse como um mestre entre tantos, Ele não o era como os restantes, pois não tinha o curriculum de mestre, por isso não vêem nele mais do que um simples carpinteiro, alguém que vivera em tudo uma vida igual à dos seus conterrâneos. “Tiago e José” eram primos de Jesus, filhos duma outra Maria, como se diz em Mt 27, 57 (cf. Mc 15, 47); irmão era uma forma de designar todos os familiares. 3 “O filho de Maria”. Alguns deduzem daqui que S. José já tinha morrido, o que é mais do que provável; com efeito, em todas as passagens onde se fala de parentes de Jesus, nunca se nomeia S. José. Há porém aqui um pormenor curioso: nos lugares paralelos de Mateus e Lucas, Jesus é chamado “filho do carpinteiro” (Mt 13, 55) e “filho de José” (Lc 4, 22). No entanto, não são os Evangelistas a designá-lo assim, mas os ouvintes do Senhor. Mateus e Lucas, que já tinham deixado clara a virgindade de Maria, nos episódios da infância de Jesus, não têm receio de recolher a designação corrente de “filho de José”. S. Marcos, que não tinha referido ainda a virgindade da Mãe de Jesus, evita cuidadosamente a designação de “filho de José”, para que os seus leitores não venham a confundir as coisas. É pois destituído de fundamento afirmar que S. Marcos ignorava a virgindade de Maria.
1ª leitura Amós 7, 12-15
Naqueles dias, 12Amasias, sacerdote de Betel, disse a Amós: «Vai-te daqui, vidente. Foge para a terra de Judá. Aí ganharás o pão com as tuas profecias. 13Mas não continues a profetizar aqui em Betel, que é o santuário real, o templo do reino». 14Amós respondeu a Amasias: «Eu não era profeta, nem filho de profeta. Era pastor de gado e cultivava sicómoros. 15Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse: ‘Vai profetizar ao meu povo de Israel’».
A leitura é tirada da 3ª parte do livro de Amós, “o ciclo das visões proféticas” (7, 1 – 9, 10). A visão do fio-de-prumo (7, 6-9) tinha denunciado a falta de rectidão e corrupção que grassava no Reino do Norte, que se encontrava como uma parede desaprumada, a ameaçar ruína iminente. O sacerdote Amasias, apaniguado do rei Joroboão II, vê no profeta uma ameaça para a sua privilegiada situação e por isso previne o rei contra o profeta que anunciava a sua morte e a destruição do Reino do Norte (vv. 10-11) e dá ordens a Amós para que se retire para o Reino de Judá (vv. 12-13), chamando-lhe “vidente”, um outro nome dado aos profetas. Amós confessa que era um simples trabalhador, mas que Deus inesperadamente o chamou e enviou a profetizar (vv. 14-15): “Eu não era profeta nem filho de profeta”. Temos aqui a única alusão à sua vocação. Este texto deixa ver a genuinidade do carisma profético de Amós, que não era um mero elemento dum grupo profético, ou um profeta profissional ou cortesão, ao serviço dos homens.
2ª leitura Forma longa: Efésios 1, 3 14 Forma breve: Efésios 1, 3-10
3Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. 4N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. 5Ele nos predestinou, de sua livre vontade, para sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, 6para que fosse enaltecida a glória da sua graça, com a qual nos favoreceu em seu amado Filho. 7N’Ele, pelo seu sangue, temos a redenção, a remissão dos pecados. Segundo a riqueza da sua graça, 8que Ele nos concedeu em abundância, com plena sabedoria e inteligência, 9deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade: segundo o beneplácito que n’Ele de antemão estabelecera, 10para se realizar na plenitude dos tempos: instaurar todas as coisas em Cristo, tudo o que há nos Céus e na terra. [11Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, 12para servir à celebração da sua glória, nós que desde o começo esperámos em Cristo. 13Foi n’Ele que vós também, depois de ouvirdes a palavra da verdade, o Evangelho da vossa salvação, abraçastes a fé e fostes marcados pelo Espírito Santo prometido, 14que é o penhor da nossa herança, para a redenção do povo que Deus adquiriu para louvor da sua glória.]
Este início da epístola aos Efésios de que é extraída a leitura tem o aspecto de um hino litúrgico e é uma das mais ricas sínteses doutrinais paulinas. A primeira parte (vv. 3-10), exalta as bênçãos que encerra o projecto divino de salvação em Cristo, por isso é chamda o benedictus paulino. Assim se exprime Bento XVI: “Cada semana, a Liturgia das Vésperas apresenta à oração da Igreja o solene hino de abertura da Carta aos Efésios… Pertence ao género das «berakot», ou seja, as «bênçãos», que já aparecem no A. T. e que terão uma ulterior difusão na tradição judaica. Trata-se, portanto, de uma constante cadeia de louvor elevada a Deus, que na fé cristã é celebrado como «Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo»” (Audiência geral de 23-XI-2005). 3 “Em Cristo”. Toda a graça – “bênçãos espirituais” – que Deus concede ao homem, após o pecado, é concedida pela mediação de Cristo e através da união com Ele. 4-5 “Santos”. “Filhos”. O objectivo desta eleição eterna de Deus é “sermos santos”, isto é, destacados do profano e pecaminoso para servir ao culto e glória divina: “diante d’Ele”, isto é, na presença de Deus. Estamos chamados a estar sempre diante de Deus para O glorificar a partir de tudo o que fazemos, dizemos ou pensamos, como ensina o Concílio Vaticano II: “Todos os cristãos são, pois, chamados e devem tender à santidade e perfeição do próprio estado” (LG 42). A santidade está em sermos “participantes da natureza divina” (2 Pe 1, 4; Rom 12, 1), sendo filhos de Deus e vivendo como tais, imitando a Cristo, o Filho de Deus por natureza (cf. Rom 8, 15-29; Gal 4, 5-7; 1 Jo 3, 1-3). A expressão “santos e irrepreensíveis” faz pensar nas vítimas oferecidas a Deus no Antigo Testamento (cf. Lv 20, 20-22), insinuando-se assim o carácter oblativo e sacrificial de toda a vida do cristão (cf. 1 Pe 2, 5), bem como a perfeição que devemos pôr em tudo o que fazemos, e não se trata duma pureza meramente exterior e ritual, mas de um culto em espírito e verdade (cf. Jo 4, 23), “na sua presença” (de Deus) “que examina os rins e o coração” (Salm 7, 10), isto é, que perscruta o que há de mais íntimo no homem, a sua consciência, afectos e intenções. 7 “Pelo seu Sangue temos a Redenção”. A salvação que Cristo nos traz não é uma mera libertação; é apresentada como um resgate, uma remissão dos pecados (cf. Col 1, 14), que custou o Sangue de Cristo, a sua vida oferecida em sacrifício pelos pecados (cf. Ef 1, 14; 1 Tes 5, 9; 1 Cor 6, 2; 7, 23; GaI 3, 13; 4, 5. 1 Pe 2, 9; 2 Pe 2, 1; Act 20, 28; Apoc 5, 9; 14, 3). 9 “O mistério da sua vontade” é o plano redentor que Deus tem guardado para salvar todos os homens: tendo permanecido oculto durante muito tempo, foi-nos revelado agora em Cristo (cf. Col 1, 26). 10 “Instaurar todas as coisas em Cristo”, ou “Reunir sob a chefia de Cristo todas as coisas”. O verbo grego “anakêfalaiôsasthai”, é de significação bastante discutida. Assim a Vulgata, preferiu o sentido de “instaurare omnia in Christo”, (tradução mantida na actual tradução litúrgica), decidindo-se pela ideia de restaurar todas as coisas, fazendo voltar ao princípio, à santidade original toda a Criação transtornada pelo pecado (assim, à partícula aná que entra na composição do verbo grego é dado um sentido iterativo). Porém outros, apoiando-se no elemento central da palavra, “kêfaláion” – “resumo”, “ponto principal” –, traduzem por “concentrar ou reunir todas as coisas em Cristo”, enquanto que Ele é o centro de convergência, o principio de unidade, ou o cume de toda a Criação. Finalmente, outros, atendendo ao contexto (v. 22; 4, 15; 5, 23; Col 1, 18; 2, 10.19), onde Cristo é apresentado como “Cabeça”, em grego, “kêfalê”, preferem traduzir por: “reunir sob a chefia de Cristo”. Nesta linha parece estar a Neovulgata ao traduzir “recapitulare”. Entretanto, parece-nos que o sentido literal não se fica somente no aspecto de fazer com que tudo tenha a Cristo por Cabeça, mas que visa também o aspecto de reunir. Também a tradução por “reunir sob a chefia de Cristo” não parece suficientemente expressiva. Com efeito, todos os seres criados estão desconjuntados e desunidos tanto entre si, como relativamente a Deus; pela Redenção de Cristo voltam a unir-se entre si e com Deus, em Cristo, ao unirem-se a Cristo e ao serem vivificados por Ele, constituído como cabeça de toda a Criação. A verdade é que este primado e capitalidade de Cristo por enquanto só é universal “de direito”; para que o seja “de facto” são os homens chamados a uma missão corredentora, esforçando-se por “pôr Cristo no cume de todas as actividades humanas, dando forma a tudo segundo o espírito de Jesus, colocando Cristo no âmago de todas as coisas” (S. Josemaria, Cristo que passa, n.º 105).
Evangelho São Marcos 6, 7-13
Naquele tempo, 7Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois. Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros 8e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; 9que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas. 10Disse-lhes também: «Quando entrardes em alguma casa, ficai nela até partirdes dali. 11E se não fordes recebidos em alguma localidade, se os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés como testemunho contra eles». 12Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento, 13expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos.
Esta missão dos 12 é restrita aos judeus e vai ser uma espécie de estágio ou treino para a missão universal, após a Ressurreição (cf. Mc 16, 15). Entre as recomendações de Jesus sobressai a do desprendimento; com efeito, o pregador há-de pregar sobretudo com o exemplo da sua vida. 11 “Sacudi o pó...” Gesto habitual dos judeus ao entrarem na Terra Santa, para não a contaminarem com a terra dos gentios, que se tenha colado às sandálias. Com tal gesto mostrava-se aos que os não recebessem que os consideravam como gentios. 13 “Ungiam com óleo numerosos doentes”. Aqui aparece insinuado o Sacramento da Unção dos Enfermos, que o Senhor terá instituído talvez mais adiante e que mais tarde foi recomendado e promulgado aos fiéis. na epístola de S. Tiago 5, 14 ss.
1ª leitura Jeremias 23, 1-6
Diz o Senhor: 1«Ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho!» 2Por isso, assim fala o Senhor, Deus de Israel, aos pastores que apascentam o meu povo: «Dispersastes as minhas ovelhas e as escorraçastes, sem terdes cuidado delas. Vou ocupar-Me de vós e castigar-vos, pedir-vos contas das vossas más acções – oráculo do Senhor. 3Eu mesmo reunirei o resto das minhas ovelhas de todas as terras onde se dispersaram e as farei voltar às suas pastagens, para que cresçam e se multipliquem. 4Dar-lhes-ei pastores que as apascentem e não mais terão medo nem sobressalto; nem se perderá nenhuma delas – oráculo do Senhor. 5Dias virão, diz o Senhor, em que farei surgir para David um rebento justo. Será um verdadeiro rei e governará com sabedoria; há-de exercer no país o direito e a justiça. 6Nos seus dias, Judá será salvo e Israel viverá em segurança. Este será o seu nome: ‘O Senhor é a nossa justiça’».
Jeremias, depois de ter anunciado o desterro (cap. 21 e 22), devido às infidelidades do povo e aos maus pastores, anuncia uma nova era, em que o próprio Deus tomará a seu cargo as suas ovelhas (vv. 2-3). “Dar-lhes-ei pastores” (v. 4) é a palavra de esperança de João Paulo II, a propósito das vocações sacerdotais, na célebre exortação apostólica com este mesmo título. O texto da leitura foi escolhido, tendo em conta as palavras de Jesus no Evangelho de hoje (Mc 6, 34): Jesus é realmente Yahwéh a conduzir as suas ovelhas, isto é, o seu Povo; Ele é o rebento de David (v. 5) assim também anunciado em Isaías 11, 1.
2ª leitura Efésios 2, 13-18
Irmãos: 13Foi em Cristo Jesus que vós, outrora longe de Deus, vos aproximastes d’Ele, graças ao sangue de Cristo. 14Cristo é, de facto, a nossa paz. Foi Ele que fez de judeus e gregos um só povo e derrubou o muro da inimizade que os separava, 15anulando, pela imolação do seu corpo, a Lei de Moisés com as suas prescrições e decretos. E assim, de uns e outros, Ele fez em Si próprio um só homem novo, estabelecendo a paz. 16Pela cruz reconciliou com Deus uns e outros, reunidos num só Corpo, levando em Si próprio a morte à inimizade. 17Cristo veio anunciar a boa nova da paz, paz para vós, que estáveis longe, e paz para aqueles que estavam perto. 18Por Ele, uns e outros podemos aproximar-nos do Pai, num só Espírito.
Nesta leitura expõe-se um dos aspectos do plano salvífico (tema central da epístola): judeus e gentios, até agora separados, ficam unidos, ao participarem da mesma salvação trazida por Cristo, autor da paz: Cristo é de facto “a nossa paz” (v. 14). 14-16 Jesus, ao fazer de judeus e gentios um só povo, acabou com a inimizade e barreira que os separava. Cristo tornou nula a Lei de Moisés. Com efeito, por um lado, satisfez as exigências punitivas dessa Lei ao morrer pelos pecados; e, por outro lado, pela imolação do seu Corpo, alcançou o perdão dos pecados, tornando inútil uma lei punitiva, como era a de Moisés (cf. Rom 8, 3; Gal 2, 14). A Lei de Moisés era de facto uma grande barreira para a união entre judeus e não judeus. Se é verdade que ela tinha, até Cristo, contribuído para defender os israelitas do paganismo, agora já não faz sentido, uma vez que também os gentios são igualmente chamados à mesma salvação em Cristo.
Evangelho São Marcos 6, 30-34
Naquele tempo, 30os Apóstolos voltaram para junto de Jesus e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado. 31Então Jesus disse-lhes: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir que eles nem tinham tempo de comer. 32Partiram, então, de barco para um lugar isolado, sem mais ninguém. 33Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam; e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar e chegaram lá primeiro que eles. 34Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se de toda aquela gente, que eram como ovelhas sem pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas.
O Evangelho de hoje está na continuação da leitura do Domingo anterior, contando o regresso dos Apóstolos enviados a pregar (a Liturgia omite o relato intermédio da martírio do Baptista). Eles contaram a Jesus “tudo o que tinham feito e ensinado” (v. 30), um pormenor diríamos paradigmático, pois o apóstolo de todos os tempos não pode limitar-se à acção esquecendo o diálogo com o Senhor. Também este episódio nos mostra como Jesus e os Apóstolos se entregavam inteiramente ao ministério, sem lhes sobrar tempo, faltando-lhes até tempo de comer. Assim ficou para sempre registado um exemplo de zelo apostólico. Por outro lado, fica patente o senso comum de Jesus ao não fazer nem exigir esforços absolutamente superiores à natureza: daqui o imperativo do descanso. Esta leitura presta-se a fazer uma homilia sobre o sentido cristão do descanso e do aproveitamento das férias.
1ª leitura 2 Reis 4, 42-44
Naqueles dias, 42veio um homem da povoação de Baal-Salisa e trouxe a Eliseu, o homem de Deus, pão feito com os primeiros frutos da colheita. Eram vinte pães de cevada e trigo novo no seu alforge. Eliseu disse: «Dá-os a comer a essa gente». 43O servo respondeu: «Como posso com isto dar de comer a cem pessoas?» Eliseu insistiu: «Dá-os a comer a essa gente, porque assim fala o Senhor: ‘Comerão e ainda há-de sobrar’». 44Deu-lhos e eles comeram, e ainda sobrou, segundo a palavra do Senhor.
O nosso texto é extraído do chamado “ciclo de Eliseu” (2 Rs 2, 13 – 13, 25), onde se contam grandes prodígios deste profeta. Foi escolhido para a Liturgia de hoje para pôr em evidência a superioridade de Jesus sobre o maior taumaturgo de todos os profetas. De facto, o contraste é flagrante: com 20 pães Eliseu alimentou 100 pessoas, ao passo que Jesus, com 5 pães, alimenta 5000. A desproporção é de 1 para 5 e de 1 para mil, e nem sequer o aspecto prodigioso se situa no mesmo plano, pois não se diz que Eliseu multiplicou o pão, mas apenas que fartou a sua gente.
2ª leitura Efésios 4, 1-6
Irmãos: 1Eu, prisioneiro pela causa do Senhor, recomendo-vos que vos comporteis segundo a maneira de viver a que fostes chamados: 2procedei com toda a humildade, mansidão e paciência; suportai-vos uns aos outros com caridade; 3empenhai-vos em manter a unidade de espírito pelo vínculo da paz. 4Há um só Corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança na vida a que fostes chamados. 5Há um só Senhor, uma só fé, um só Baptismo. 6Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, actua em todos e em todos Se encontra.
A leitura corresponde ao início das exortações morais da Epístola (cap. 4 – 6). Pelo que diz no v. 1 – “estou na prisão”– ficamos a saber que S. Paulo escreve estando prisioneiro. Segundo a opinião tradicional, S. Paulo estaria no primeiro cativeiro romano, entre os anos 60-61 e 62-63; o Apóstolo não estava num calabouço, mas no regime da “custodia libera”, com o braço direito preso ao esquerdo dum soldado que se revezava, esperando, numa certa liberdade, vivendo por conta própria (cf. Act 28, 16), a hora de ser julgado no tribunal imperial. 3-6 A unidade de espírito, para que se apela tem uma base doutrinal sólida: “Há um só Corpo”, o de Cristo, que é uma única Igreja (cf. Ef 1, 22-23); “há um só Espírito”, o Espírito Santo, a alma da Igreja; “uma só esperança”, o mesmo Céu para todos, a vida eterna a que estamos destinados; “há só Senhor, uma só fé…”. Como diz o Vaticano II, no decreto sobre o ecumenismo, “o Espírito Santo, que habita nos crentes, enche e rege toda a Igreja, realiza aquela maravilhosa comunhão dos fiéis e une a todos tão intimamente em Cristo, que é o princípio da unidade da Igreja” (UR, 2).
Evangelho São João 6, 1-15
Naquele tempo, 1Jesus partiu para o outro lado do mar da Galileia, ou de Tiberíades. 2Seguia-O numerosa multidão, por ver os milagres que Ele realizava nos doentes. 3Jesus subiu a um monte e sentou-Se aí com os seus discípulos. 4Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus. 5Erguendo os olhos e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?» 6Dizia isto para o experimentar, pois Ele bem sabia o que ia fazer. 7Respondeu-Lhe Filipe: «Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um». Disse-Lhe um dos discípulos, 8André, irmão de Simão Pedro: 9«Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?» 10Jesus respondeu: «Mandai sentar essa gente». Havia muita erva naquele lugar e os homens sentaram-se em número de uns cinco mil. 11Então, Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo com os peixes; e comeram quanto quiseram. 12Quando ficaram saciados, Jesus disse aos discípulos: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca». 13Recolheram-nos e encheram doze cestos com os bocados dos cinco pães de cevada que sobraram aos que tinham comido. 14Quando viram o milagre que Jesus fizera, aqueles homens começaram a dizer: «Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo». 15Mas Jesus, sabendo que viriam buscá-l’O para O fazerem rei, retirou-Se novamente, sozinho, para o monte.
A importância doutrinal deste capítulo 6 do Quarto Evangelho é posta em evidência pelo facto de ser o mais comprido de todos os relatos joaninos. Não deixa de ser significativo que tenhamos nos Evangelhos seis relatos de multiplicação do pão: esta insistência parece corresponder a um interesse motivado pela relação deste milagre com a Eucaristia, podendo observar-se em todos esses relatos uma grande semelhança de linguagem com os da instituição da Eucaristia, os quais, por sua vez, têm fortes ressonâncias litúrgicas, provenientes certamente da vida das primitivas comunidades. Em João o relato do milagre serve mesmo de introdução ao discurso do pão do Céu que se lhe segue. Por outro lado, fica patente que a pregação de Jesus se dirige a pessoas que não são puros espíritos, mas são gente que precisa tanto do pão para a boca como do pão para a alma. Vêm a propósito as palavras de Bento XVI, Deus caritas est, nº 32: “A prática da caridade é um acto da Igreja enquanto tal, e também ela, tal como o serviço da Palavra e dos Sacramentos, faz parte da sua missão originária”. É interessante verificar que S. João, além de conservar muitos pormenores que os Sinópticos não transmitiram, em nada contradiz o relato dos outros três Evangelhos. Com efeito, ele refere a ocasião da Páscoa (v. 4), que os pães eram de cevada {v. 9), que o chão tinha erva abundante (v. 10), conserva o nome dos dois discípulos (vv. 5.8) e que quem tinha os 5 pães era um rapaz (v. 9). Por outro lado, o IV Evangelho dá maior relevo à figura de Jesus que é quem toma iniciativas (vv. 6.12). 1. A tradição cristã palestina considera que “o outro lado do mar da Galileia” não é a margem oriental, mas o outro lado dum golfo existente na mesma margem ocidental (Tabga). 4ss. A referência à proximidade da Páscoa, sublinhada com a referência à muita erva própria da época pascal (v. 10), é como a chave para que o leitor descubra que o milagre da multiplicação do pão prefigura a Páscoa cristã e a instituição da Santíssima Eucaristia. 14. “O Profeta”, isto é, o novo Moisés, o Messias anunciado em Dt 18, 15.
1ª leitura Sir 39, 8-14 (grego 6-11)
A leitura começa (v. 8) fazendo apelo à ideia central do livro de Jesus Ben Sira: “Aquele que se dedica à Lei possuirá a sabedoria” (15, 1). Com efeito, logo no início da obra se diz que a sabedoria está em Deus (1, 1-8) e que Ele a comunica a toda a criação, muito em particular àqueles que O amam (1, 9-10). O trecho da leitura é extraído daquele conjunto em que se faz o elogio do escriba sábio (38, 25 – 39, 15). Estas são palavras que a liturgia aplica aos Santos Doutores da Igreja.
Evangelho Mt 5, 13-19
13 “O sal” preserva da corrupção e dá gosto aos alimentos, mas sem chamar a atenção com a sua presença. Assim a acção do cristão preserva o mundo da corrupção com a sua acção apostólica despretensiosa, agradável e cheia de naturalidade, mas sem deixar nunca de estar actuante; esta força vem-lhe da sua união a Cristo, da sua preocupação de santidade pessoal. Vem a propósito recordar a Nota doutrinal sobre algumas questões relativas ao compromisso e à conduta dos católicos na vida política da Congregação para a Doutrina da Fé datada de 24.11.2002, que pretende “iluminar um dos aspectos mais importantes da unidade de vida que caracteriza o cristão, a saber: a coerência entre fé e vida, entre o Evangelho e a cultura, recolhida pelo Concílio Vaticano II”. Por outro lado, tenha-se em conta que o sal, usado nos sacrifícios do A. T., também significava a perpetuidade e a inviolabilidade da aliança com Deus (cf. Lv 2, 13; Nm 18, 19). 16 “Glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus”. O cristão tem de ser “luz” para iluminar, mas com grande rectidão de intenção: na sua acção apostólica não deve buscar o seu prestígio pessoal, mas ter plena consciência de que a luz maravilhosa da doutrina evangélica não é sua e de que “as suas boas obras” não as faz principalmente pelas suas próprias forças; actua como instrumento nas mãos do artista divino; tem de brilhar, não com luz própria, mas reflectindo a luz de Cristo.
1ª leitura Isaías 61, 9-11
A linhagem do povo de Deus será conhecida entre os povos e a sua descendência no meio das nações. Quantos os virem terão de os reconhecer como linhagem que o Senhor abençoou. Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu num manto de justiça, como noivo que cinge a fronte com o diadema e a noiva que se adorna com as suas jóias. Como a terra faz brotar os germes e o jardim germinar as sementes, assim o Senhor Deus fará brotar a justiça e o louvor diante das nações.
O Terceiro Isaías (Is 56 – 66) não se cansa de cantar as glórias de Jerusalém, em especial nos capítulos 60 a 64, donde é extraído o trecho da leitura. Jerusalém é uma figura da Igreja e a Liturgia, como acontece frequentemente aplica a Virgem Maria o que se diz da Igreja de quem ela é Mãe, modelo e tipo (cf. LG 53). 10 “A minha alma rejubila… com as vestes da salvação”. O capítulo 61 de Isaías canta as alegrias do regresso do exílio, mas com um profundo sentido messiânico, como consta do discurso de Jesus na sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4, 16-22). É por isso que os Padres gostavam de identificar estas “vestes da salvação” com o manto de Sol da Mulher do Apocalipse (cf. Apoc 12, 1): Cristo é o Sol da Justiça que purifica de toda a mancha a sua Mãe desde o primeiro instante da sua concepção (cf. o artigo de Karol Wojtyla na obra colectiva: “Im Gewande des Heils”, Essen, 1979).
Evangelho São Lucas 2, 41-51
41Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. 42Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. 43Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. 44Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos. 45Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. 46Passados três dias, encontraram-no no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. 47Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. 48Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados e sua Mãe disse-Lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». 49Jesus respondeu-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?». 50Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. 51Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso. Sua Mãe guardava todos estes acontecimentos em seu coração.
Segundo a Mixnáh (Niddáh, V, 6), depois dos 13 anos, o rapaz israelita começava a ser “bar-hamitswáh”, “filho-da-lei”, isto é, passava ter os deveres e direitos da Lei mosaica, incluindo o dever de peregrinar a Jerusalém, mas os pais piedosos costumavam antecipar um ano ou dois o cumprimento deste dever. Os judeus tinham por hábito deslocar-se em caravanas e em grupos separados de homens e de mulheres, podendo as crianças fazer viagem em qualquer dos grupos; nas paragens do caminho, as famílias reuniam-se. É neste contexto que se desenrola o relato. Para o leitor, a atitude de Jesus de ficar em Jerusalém é deveras surpreendente. Não deveria ter avisado os pais ou outros familiares? Mas não faz sentido buscar a explicação do episódio relatado numa rebeldia ou na irresponsabilidade dum adolescente – este rapaz é o Filho de Deus –, embora o relato evangélico possa fornecer luzes aos pais que se deparam com situações similares de filhos perdidos. A teologia de Lucas talvez nos possa dar alguma pista para a compreensão do episódio narrado. “Jerusalém” não é simplesmente o centro da vida religiosa de Israel. Para os evangelistas, e de modo singular para Lucas, Jerusalém representa o culminar de toda a obra salvadora de Jesus, por ocasião da Páscoa da Paixão, Morte e Ressurreição; é por isso que Lucas, ao pôr em evidência a tensão de Jesus para a sua Paixão, apresenta grande parte do seu ensino “a caminho de Jerusalém” (Lc 9, 51 – 19, 27), onde Jesus tem de padecer para ir para o Pai e entrar na sua glória (cf. Lc 24, 26). A teologia de Lucas não é abstracta e desligada da realidade. Ora a realidade é que Jesus não é apenas “o Mestre”, Ele é “o Profeta”, e, por isso mesmo, não ensina apenas quando exerce a função de rabi, mas em todos os passos da sua vida actua como Profeta, ensinando através dos seu agir, mormente através de acções simbólicas de profundo alcance, por vezes bem chocantes. O “Menino perdido” não aparece como um simples menino, é apresentado como um Profeta que realiza uma acção simbólica para proclamar quem é e qual é a sua missão: “Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?”. Ele é o Filho de Deus, e tem de cumprir a missão que o Pai lhe confiou, em Jerusalém, ainda que isto lhe custe bem e tenha de fazer sofrer aqueles que mais ama – “aflitos à tua procura” (v. 48). O episódio passa-se em Jerusalém, como prenúncio e paralelo de um sofrimento bem maior, também em Jerusalém. A lição é clara: não se pode realizar plenamente a vontade do Pai do Céu e, ao mesmo tempo, evitar todo o sofrimento próprio e dos seres mais queridos; subir a Jerusalém é subir à Cruz, e subir à Cruz é “elevar-se” ao Céu, também em Jerusalém (cf. Lc 24, 50-51). 41 “Os pais de Jesus. Teu pai” (v. 48). Uma vez que Lucas tinha acabado de falar tão explicitamente da concepção virginal de Jesus, não tem agora qualquer receio de nomear S. José como pai (virginal) do Senhor. 49 “Eu devia estar na Casa de Meu Pai”. A tradução de tá toû Patrós mou pode significar tanto “a casa de meu Pai”, como “as coisas (assuntos, vontade) de meu Pai”. A verdade é que o redactor pode ter querido dar à resposta de Jesus uma certa ambiguidade: “Não sabíeis que Eu tenho de estar nas coisas de meu Pai” (e que, por isso mesmo, me deveria encontrar aqui no Templo)? 50 “Eles não entenderam”. A resposta do Menino envolve um sentido muito profundo que ultrapassa uma simples justificação da sua “independência”. O evangelista sublinha que não alcançam ver até onde poderia ir este “estar nas coisas do Pai”, mas também deixa ver que não se atrevem a fazer mais perguntas, o que evidencia a sua extrema delicadeza e reverência, ditada por uma profunda fé. Estamos postos perante o mistério do ser e da missão de Jesus, perante mais um “sinal” e mais uma “espada” (cf. Lc 2, 34-35).
1ª leitura Zac 2, 14-17
Este trecho do profeta Malaquias, um dos profetas do tempo do regresso do desterro de Babilónia e um dos mais citados e aludidos no N. T., é extraído da parte final da terceira visão (vv. 2-17). Convida o povo – “a filha de Sião” – à alegria, porque o Senhor vem “habitar no meio de ti”. Estas palavras fazem lembrar a saudação do Anjo à Virgem Maria – “alegra-te!” (Lc 1, 28) –, por outro lado, a designação de “filha de Sião” (cf. Sof 3, 14) costuma ser considerada uma prefiguração da SS. Virgem, pois a Ela se aplica de modo eminente a expressão “eis que venho habitar no meio de ti”, pelo mistério da Incarnação do Verbo. Também o contexto da libertação do exílio (vv. 10-13) se presta a simbolizar a libertação das almas do Purgatório, um favor atribuído à intercessão da Virgem Maria, com o título de Nossa Senhora do Carmo.
Evangelho Mt 12, 46-50
Esta perícope põe em evidência quem é a verdadeira família de Jesus, mas sem pôr em causa o amor de Jesus a sua Mãe. Ele deixa ver que os laços espirituais que nos unem a Deus são superiores e têm direitos e exigências mais urgentes que os laços de sangue (cf. Lc 8, 19). Poderíamos dizer que Jesus ama sua Mãe, mais do que pelos vínculos de sangue, pelos da graça; mas a própria maternidade de Maria já é uma graça, a maior de todas e a fonte de todas as outras graças. 46 “Seus Irmãos”. Cf. Mt 13, 55-56 onde se nomeiam Tiago, José, Simão e Judas; os dois primeiros eram filhos de uma mulher chamada Maria, distinta da SS.ma Virgem (cf. Mt 27, 56). Não é admissível que os “irmãos” de Jesus fossem filhos de Nossa Senhora, pois a Igreja sempre defendeu a sua perpétua virgindade. Também não é provável que fossem filhos de S. José. O uso da palavra “irmão” entre os semitas, cujo vocabulário era pobre e reduzido, indicava não apenas os irmãos de sangue, mas também outros graus de parentesco e até todos aqueles que pertenciam à mesma família, clã ou tribo (cf. Gn 13, 8; 14, 14.16; 29, 15; Tb 7, 9-11). |