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"et quasi flos rosarum in diebus vernis" (Sir. 50,8) 

 

 

 

CELEBRAÇÃO - ANO B

1.º Dom  Advento a 8.ºDom Comum

Quarta-feira de Cinzas a  Páscoa

2.º Dom da Páscoaa Dom de Pentecostes

Santíssima Trindade a 17º Dom Comum

Transfiguração do Senhor a 26.º Dom Comum

27.º Dom Comum a Cristo, Rei

 

Notas Bíblicas – Geraldo Morujão - 2.º Dom da Páscoa a Dom de Pentecostes

 

2.º Domingo da Páscoa

Actos dos Apóstolos 4, 32-35

1 São João 5, 1-6

São João 20, 19-31

 

3.º Domingo da Páscoa

Actos dos Apóstolos 3, 13-15.17-19

1 São João 2, 1-5a

São Lucas 24, 35-48

 

4.º Domingo da Páscoa

Actos dos Apóstolos 4, 8-12

1 São João 3, 1-2

São João 10, 11-18

 

Nossa Senhora do Rosário de Fátima

Apocalipse 21, 1-5a

São João 19, 25-27

 

5.º Domingo da Páscoa

Actos dos Apóstolos 9,26-31

1 São João 3, 18-24

São João 15, 1-8

 

6.º Domingo da Páscoa

Actos dos Apóstolos 10, 25-26.34-35.44-48

1 São João 4, 7-10

Ou

1 São João 4, 11-18

São João 15, 9-17

Ou 

São João 17, 11b-19

 

Ascensão do Senhor (Dia Mundial das Comunicações Sociais)

Actos 1, 1-11

Efésios 1, 17-23

Hebreus 9, 24-28; 10, 19-23

São Marcos 16, 15-20

 

7º Domingo de Páscoa

Actos dos Apóstolos1,15-17. 20a.20c-26

1 Jo 4, 11-16

Jo 17, 11b-19

 

Domingo de Pentecostes Missa da Vigília

Ezequiel 37, 1-14

Romanos 8, 22-27

São João 7, 37-39

 

Domingo de Pentecostes – Missa do Dia

Actos dos Apóstolos 2, 1-11

1 Coríntios 12, 3b-7.12-13

São João 20, 19-23

 

S. José Operário

Gn 1, 26-31; 2, 1-3

Col 3, 14-15.17.23-24

Mt 13, 54-58

 

Visitação de Nossa Senhora

Sof 3, 14-18

Lc 1, 39-56

 

 

 in Celebração Litúrgica

 

2.º Domingo da Páscoa

 

1ª Leitura Actos dos Apóstolos 4, 32-35

 

32A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma; ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum. 33Os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus com grande poder e gozavam todos de grande simpatia. 34Não havia entre eles qualquer necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas e traziam o produto das vendas, 35que depunham aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se então a cada um conforme a sua necessidade.

 

Este trecho é chamado o segundo “relato sumário”. O primeiro (Act 2, 42-47) leu-se neste mesmo Domingo do ano A. O terceiro (Act 5, 12-16) lê-se no ano C. Chamam-se relatos sumários por serem uma espécie de bosquejos do estado da primitiva comunidade de Jerusalém, uma descrição um tanto idealizada, generalizando o que de mais positivo e edificante se verificou nos inícios. Todos estes três sumários focam três pontos importantes da vida dos primeiros cristãos, mas este desenvolve o cuidado dos pobres que havia entre eles. O 1º detém-se mais na sua vida religiosa, e o 3º no dom de operar milagres, que tinham os Apóstolos.

32 “Um só coração e uma só alma”. Note-se a redundância que confere grande expressividade ao facto. Assim os primeiros cristãos viviam de acordo com as palavras de Jesus na sua oração sacerdotal (Jo 17, 11.21-23; cf. Filp 1, 27). “Uma tal união brota espontaneamente duma mesma fé em Jesus e dum mesmo amor pela sua adorável Pessoa” (Renié).

32-34 “Tudo entre eles era comum. Todos... vendiam...” Esta atitude extraordinariamente generosa dos nossos primeiros irmãos de Jerusalém ficou para sempre como um lumi­noso exemplo de como “compartilhar com os outros é uma atitude cristã fundamental. Os primeiros cristãos puseram em prática espontaneamente o princípio segundo o qual os bens deste mundo são destinados pelo Criador à satisfação das necessidades de todos sem excepção” (Paulo VI). Mas esta atitude cristã nada tem a ver com a colectivização de toda a propriedade privada imposta por um estado totalitário, uma vez que aqui era respeitada a legítima liberdade individual, podendo não se pôr tudo em comum. É por isto mesmo que se louva o gesto de Barnabé, logo a seguir, nos vv. 36-37, e se censura a fraude de Ananias e Safira, que muito bem poderiam não ter vendido o seu campo ou então ter ficado para si com o produto da venda (cf. Act 5, 4). Daqui se conclui que “todos” não se deve entender à letra, ao ser uma generalização, ou uma hipérbole. Em todos os tempos da vida da Igreja, desde então até aos nossos dias, numerosos grupos de cristãos têm posto em comum os seus bens, renunciando mesmo à sua posse, total ou parcial, imitando assim voluntariamente os primeiros cristãos.

 

2ª Leitura 1 São João 5, 1-6

 

Caríssimos: 1Quem acredita que Jesus é o Messias, nasceu de Deus, e quem ama Aquele que gerou ama também Aquele que nasceu d’Ele. 2Nós sabemos que amamos os filhos de Deus quando amamos a Deus e cumprimos os seus mandamentos, 3porque o amor de Deus consiste em guardar os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados, 4porque todo o que nasceu de Deus vence o mundo. Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. 5Quem é o vencedor do mundo senão aquele que acredita que Jesus é o Filho de Deus? 6Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo; não só com a água, mas com a água e o sangue. É o Espírito que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade.

 

Nos domingos pascais do Ano B, a partir deste 2º Domingo, vamos ter como 2ª leitura trechos respigados da 1ª Carta de S. João (no ano A temos trechos de 1 Pe; no ano C, do Apoc). O facto de hoje não começarmos pelo início, mas pela parte final da epístola, só se explica pela carácter baptismal deste Domingo, que se chamou In albis, numa alusão às vestes brancas do Baptismo, e Quasi-modo pelas primeiras palavras latinas do célebre texto baptismal da Prima Petri adoptado como cântico de entrada da Missa (1 Pe 2, 2). No breve texto da leitura de hoje aparece por três vezes a palavra “água” (v. 6) e três vezes “nascer de Deus” (vv. 2a.2b.4), em que se pode ver uma alusão ao Baptismo. É interessante notar neste trecho o nexo entre a fé e o amor, e entre o amor de Deus e o dos irmãos, que, pelo Baptismo, se tornaram “filhos de Deus” (vv. 1-2).

1 “Quem ama Aquele que gerou ama também Aquele que nasceu d'Ele”. Há duas possibilidades de entender o texto original. A versão litúrgica, pela utilização das maiúsculas, vê-se que prefere o sentido de que quem ama o Pai ama também o Filho (um sentido trinitário); mas o contexto próximo do amor fraterno levou-nos a preferir outra tradução: “todo aquele que ama Quem o gerou ama também quem por Ele foi gerado” (cf. a nossa tradução na Bíblia Sagrada da Difusora Bíblica). Assim, o amor aos irmãos é proposto como uma consequência da filiação divina, a derivar do amor a Deus (cf. 1 Jo 2, 29 – 3, 2; 4, 7.15; 1 Pe 1, 22-23).

3 “O amor de Deus consiste em guardar os seus mandamentos”. O ensino de Jesus no Evangelho é neste sentido: Mt 7, 21; 12, 50; Jo 14, 15.21; 15, 14. “E os seus mandamentos não são pesados”, o que faz lembrar Mt 11, 30: “o meu jugo é suave e a minha carga é leve”.

6 “Veio com água e com sangue”: esta insistência faz pensar na intenção de refutar os gnósticos, a heresia de Cerinto, para quem o Filho de Deus tomou posse de Jesus no Baptismo – a “água” –, e o abandonou ao chegar à sua Paixão – o “sangue”. Também se costuma ver na água um símbolo do Baptismo (cf. Jo 3, 5), em que se recebe o Espírito Santo (cf. Jo 7, 37-39), e, no sangue, a Eucaristia (cf. Jo 6, 53.55-56). Os Padres viram nos três testemunhos unânimes um símbolo e um reflexo da SS. Trindade; daqui resultou que, em muitos manuscritos da Vulgata, o texto foi transcrito de diversas maneiras, sendo a mais corrente: “Três são os que dão testemunho no Céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo, e estes três são um só”. Este acrescento (o chamado comma ioanneum, que foi objecto de tanta discussão inútil) veio a entrar para o texto oficial da Igreja, mas, embora a edição da Vulgata sisto-clementina o aceite, a Neovulgata já não o mantém. Muitos autores, seguindo os Santos Padres, vêem na referência à água e ao sangue uma alusão aos Sacramentos do Baptismo e da Eucaristia, figurados, por sua vez, na água e no sangue que brotaram do lado aberto de Cristo na Cruz (Jo 19, 33-35), o Novo Adão, de cujo lado saiu a Igreja, qual nova Eva.

 

Evangelho São João 20, 19-31

 

19Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». 20Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. 21Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». 22Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: 23àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos». 24Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. 25Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». 26Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa, e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». 27Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». 28Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» 29Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». 30Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. 31Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

 

Neste breve relato pode ver-se como Jesus cumpriu a suas promessas que constam dos discursos de despedida: voltarei a vós (14, 18) – pôs-se no meio deles (v. 19); um pouco mais e ver-Me-eis (16, 16) – encheram-se de alegria por verem o Senhor (v. 20); Eu vos enviarei o Paráclito (16, 7) – recebei o Espírito Santo (v. 22); ver também Jo 14, 12 e 20, 17.

19 “A paz esteja convosco!” Não se trata duma mera saudação, a mais corrente entre os judeus, mesmo ainda hoje. Esta insistência joanina nas palavras do Senhor ressuscitado (vv. 19.21.26) é muito expressiva: com a sua Morte e Ressurreição, Jesus acabava de nos garantir a paz, a paz com Deus, origem e alicerce de toda a verdadeira paz (cf. Jo 14, 27; Rom 5, 1; Ef 2, 14; Col 1, 20).

20 O mostrar das mãos e do peito acentua a continuidade entre o Jesus crucificado e o Senhor glorioso (cf. Hebr 2, 18); a sua presença, que transcende a dimensão espácio-temporal (cf. vv. 19.26), é uma realidade que os enche de paz (vv. 19.21.26; cf. Jo 14, 27; 16, 33; Rom 5, 1; Col 1, 20) e de alegria (v. 20; cf. Jo 15, 11; 16, 20-24; 17, 13), conforme Jesus prometera. “Ficaram cheios de alegria” é uma observação que confere ao relato uma grande credibilidade; com efeito, naqueles discípulos espavoridos (v. 19), desiludidos e estonteados, surge uma vivíssima reacção de alegria, ao verem o Senhor; ao contrário do que era de esperar, e não se verifica aqui o esquema habitual das visões divinas, as teofanias do A. T., em que sempre há uma reacção de temor e de perturbação. A grande alegria dos Apóstolos procede da certeza da vitória de Jesus sobre a morte e também de verem como Jesus reatava com eles a intimidade anterior, sem recriminar a fraqueza da sua fé e a vergonha da sua deslealdade.

22 “Soprou sobre eles… Recebei o Espírito Santo”. Este soprar de Jesus não é ainda “o vento impetuoso” do dia de Pentecostes; é um sinal visível do dom invisível do Espírito (em grego é a mesma palavra que também significa “sopro”). Aqui, tem por efeito conferir-lhes o poder de perdoar os pecados, poder dado só aos Apóstolos (e seus sucessores no sacerdócio da Nova Aliança), ao passo que no dia do Pentecostes é dado o Espírito Santo também a outros discípulos reunidos com Maria no Cenáculo (cf. Act 1, 14; 2, 1), iluminando-os e fortalecendo-os com carismas extraordinários em ordem ao cumprimento da missão de que estavam incumbidos.

23 A Igreja viu nestas palavras a instituição do Sacramento da Reconciliação, que é fonte de paz e alegria, e definiu mesmo o seu sentido literal; de facto Jesus diz: “a quem perdoardes os pecados”, e não: “a quem pregardes o perdão dos pecados” (segundo entendeu a reforma protestante). A expressão é muito forte, pois deve-se ter em conta o uso judaico da voz passiva para evitar pronunciar o nome inefável de Deus (passivum divinum); sendo assim, dizer ficarão perdoados corresponde a “Deus perdoará” e “ficarão retidos” equivale a “Deus reterá”, isto é, não perdoará (cf. Mt 16, 19; 18, 18; 2 Cor 5, 18-19). Aqui se funda o ensino do Concílio de Trento ao falar da necessidade de confessar todos os pecados graves cometidos depois do Baptismo, uma doutrina que, já depois do Vaticano II, o magistério de Paulo VI reafirma: “a doutrina do Concílio de Trento deve ser firmemente mantida e aplicada fielmente na prática”; por isso, os fiéis que, em perigo de morte ou em caso de grave necessidade, tenham recebido legitimamente a absolvição comunitária ou colec­tiva de pecados graves ficam com a grave obrigação de os confessar dentro de um ano (Normas Pastorais da Congregação para a Doutrina da Fé, 16-VI-1972); também o Catecismo da Igreja Católica, nº 1497, afirma: “a confissão individual e integral dos pecados graves, seguida da absolvição, continua a ser o único meio ordinário para a reconciliação com Deus e com a Igreja”; cf. tb. o Motu proprio de João Paulo II, Misericordia Dei (7.4.2002) e Código de Direito Canónico (nº 960.).

24 “Tomé”, nome aramaico Tomá significa “gémeo”; em grego, dídymos.

28 “Meu Senhor e meu Deus!” É da boca do discípulo incrédulo que sai a mais elevada profissão de fé explícita na divindade de Cristo, a qual engloba todo o Evangelho numa unidade coerente.

29 “Felizes os que acreditam sem terem visto”. Para a generalidade dos fiéis, a fé (dom de Deus) não tem mais apoio humano verificável do que o testemunho grandemente crível da pregação apostólica e da Igreja através dos séculos (cf. Jo 17, 20). Para crer não precisamos de milagres, basta a graça, que Deus nunca nega a quem busca a verdade com humildade e sinceridade de coração. O facto de as coisas da fé não serem evidentes, nem uma mera descoberta da razão, só confere mérito à atitude do crente, que crê porque Deus revelador não se engana nem pode enganar-nos. Por isso, Jesus proclama-nos “felizes”, ao submetermos o nosso pensamento e a nossa vontade a Deus na entrega que o acto de fé implica. Como Tomé, também nós temos garantias de credibilidade suficientes para aceitar a Boa Nova de Jesus: as nossas escusas para não crer são escusas culpáveis, escusas de mau pagador. Também as estrelas não deixam de existir pelo facto de os cegos não as verem.

30-31 Temos aqui a primeira conclusão do Evangelho de S. João, que nos deixa ver o objectivo que o Evangelista se propôs: fazer progredir na fé e na vida cristã os fiéis, sem que se possa excluir também uma intenção de trazer à fé os não crentes. Este Evangelho foi escrito para crermos que “Jesus é o Messias, o Filho de Deus”. Note-se que a fé não é uma mera disposição interior de busca, ou caminhada, sem uma base doutrinal, implica um conteúdo de ensino (cf. Rom 6, 17), pois exige que se aceitem “verdades” como esta, a saber, que Jesus é o Filho de Deus, e Filho, não num sentido genérico, humano ou messiânico, pois é o “Filho Unigénito que está no seio do Pai” (Jo 1, 18), verdadeiro Deus, segundo a confissão de S. Tomé: “Meu Senhor e meu Deus” (v. 28; cf. Jo 1, 1; Rom 9, 5). Note-se que há quem veja o Evangelho segundo S. João contido dentro de uma grande inclusão, que põe em evidência a divindade de Cristo: Jo 1, 1 (O Verbo era Deus) e Jo 20, 28 (meu Senhor e meu Deus), tendo como centro e clímax a afirmação de Jesus: Eu e o Pai somos Um (10, 30).

 

3.º Domingo da Páscoa

 

1ª Leitura Actos dos Apóstolos 3, 13-15.17-19

 

Naqueles dias, Pedro disse ao povo: 13«O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus de nossos pais, glorificou o seu Servo Jesus, que vós entregastes e negastes na presença de Pilatos, estando ele resolvido a soltá-l’O. 14Negastes o Santo e o Justo e pedistes a libertação dum assassino; 15matastes o autor da vida, mas Deus ressuscitou-O dos mortos, e nós somos testemunhas disso. 17Agora, irmãos, eu sei que agistes por ignorância, como também os vossos chefes. 18Foi assim que Deus cumpriu o que de antemão tinha anunciado pela boca de todos os Profetas: que o seu Messias havia de padecer. 19Portanto, arrependei-vos e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados».

 

A leitura é extraída do segundo discurso de Pedro em Actos, após a cura do coxo que mendigava na Porta Formosa do Templo. O discurso obedece ao molde kerigmático do primeiro anúncio aos judeus, mas, na perspectiva de Lucas, visa também os seus leitores e também continua a falar-nos a nós.

13 “O seu Servo Jesus”. O termo original grego é ambíguo – “pais” –, e tanto pode significar filho, como servo. A nossa tradução preferiu “servo” pela referência que parece haver a Jesus que cumpre a figura messiânica do Servo de Yahwéh (cf. Is 42 – 53). Trata-se de um título cristológico de sabor primitivo, que se enquadra bem num discurso a ouvintes judeus.

15 “Autor”. É mais outro título cristológico, raro no N. T. (em grego, arkhêgós; assim também em 5, 31; cf. Hebr 2, 10; 12, 2). Jesus não é apenas o chefe que conduz à vida, mas é quem comunica a vida aos que nele crêem. O paradoxo é impressionante: matar o Autor da vida, uma vez que Jesus é Deus. Nas traduções, como a primitiva litúrgica, “príncipe da Vida”, deixa-se ver mais claramente o contraste estabelecido com “assassino” (v 14), isto é, aquele que tira a vida.

“E nós somos testemunhas disso” (da ressurreição). A Ressurreição de Jesus é um facto real que se comprova por testemunhas altissimamente verídicas! É certo que não é um simples facto histórico natural que tenha entrado no âmbito duma observação experimental comum, pois Jesus só Se manifestou ressuscitado quando quis, como quis e a quem quis e com um corpo glorioso (não como um cadáver reanimado); isto, porém, em nada diminui o valor histórico da sua Ressurreição. É um facto sobrenatural, mas um facto, embora não encaixe em acanhadas perspectivas historicistas.

 

2ª leitura 1 São João 2, 1-5a

 

Meus filhos, 1escrevo-vos isto, para que não pequeis. Mas se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo, o Justo, como advogado junto do Pai. 2Ele é a vítima de propiciação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro. 3E nós sabemos que O conhecemos, se guardamos os seus mandamentos. 4Aquele que diz conhecê-l’O e não guarda os seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele. 5aMas se alguém guardar a sua palavra, nesse o amor de Deus é perfeito.

 

Nestes domingos pascais continuamos a ler extractos da 1ª Carta de S. João. Prestam-se a apelar para os ensinamentos da encíclica de Bento XVI, Deus caritas est. Não presidiu à selecção litúrgica dos textos joaninos a ideia de pôr em evidência a estrutura da obra e todo o seu maravilhoso conteúdo, por isso algumas palavras-chave, como “comunhão”, “vida eterna” e “luz/trevas” não chegam a aparecer nos versículos respigados para estes domingos. A escolha parece privilegiar as noções de “cumprir os mandamentos”, “amor fraterno”, “nascer de Deus”, “filiação divina”, “libertação do pecado”, “conhecer/saber” , “verdade”, “permanecer em…”

1 “Mas, se alguém pecar…”. Se bem que “todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado (...) não peca, mas o Filho de Deus o guarda, e o maligno não o apanha” (1 Jo 3, 9; 5, 18), a verdade é que a pecabilidade não está excluída devido à nossa limitada liberdade. Mas, se alguém pecar, que não desespere da sua desgraçada situação, pois Jesus – como vítima de expiação – dá-nos a possibilidade de obter o perdão, “se confessamos os nossos pecados” (1, 9). Estas afirmações aparentemente contraditórias (confrontar 1, 8 – 2, 1; 3, 3; 5, 16-17 com 3, 6.9; 5, 18) não são um obstáculo para a unidade da Carta (negada por Bultmann), pois a contradição é apenas aparente, devendo-se ao estilo semítico do autor que gosta de afirmações absolu­tas e contundentes, sem se preocupar de as matizar devidamente; assim, “o cristão não pode pecar”, corresponde a: “o cristão não deve pecar”. De qualquer maneira, há autores que consideram que, assim como sucedeu no IV Evangelho, pode ter havido uma redacção sucessiva com a intervenção de um redactor final, discípulo e conti­nuador fiel do Apóstolo (tendo em conta o pronome plural nós joanino), assim também poderia ter acontecido com esta epístola.

1-2 “Jesus Cristo, o Justo, como advogado… vítima de expiação…”: a insistência em que Jesus é justo (cf. 1, 9: justo e fiel) facilita compreender como Ele pode libertar do pecado os pecadores. Ele é intercessor perante Deus (paráklêtos, advogado, conselheiro, um termo exclusivo da tradição joanina: cf. Jo 14, 16), na linha da teologia desenvolvida na Epístola aos Hebreus (Hebr 9 – 10), onde Cristo aparece à direita de Deus, continuando a purificar-nos com o seu sangue derramado como num sacrifício expiatório oferecido pelos pecados (cf. Hebr 9, 14-28). Vítima de expiação corresponde à linguagem sacrificial do AT (cf. Ex 29, 36-37) e apresenta a morte de Jesus como um sacrifício voluntário, revelador do seu imenso amor (cf. 1 Jo 4, 19; Rm 3, 25; 5, 8-9; 2 Cor 5, 19; Ef 2, 4-5; Apoc 5, 9).

4 “Aquele que diz: Eu conheço-o, mas não guarda…”. Esta linguagem parece ser uma crítica aos gnósticos que se ufanavam de possuir um conhecimento superior de Deus, que garantia a salvação e eximia do pecado, sem cuidar de “guardar os seus mandamentos”; quem assim fala é “mentiroso e a verdade não está nele”.

 

Evangelho São Lucas 24, 35-48

 

Naquele tempo, 35os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. 36Enquanto diziam isto, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». 37Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito. 38Disse-lhes Jesus: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? 39Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho». 40Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. 41E como eles, na sua alegria e admiração, não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa para comer?» 42Deram-Lhe uma posta de peixe assado, 43que Ele tomou e começou a comer diante deles. 44Depois disse-lhes: «Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco: ‘Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’». 45Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras 46e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, 47e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. 48Vós sois as testemunhas de todas estas coisas».

 

O trecho evangélico de hoje contém uma primeira parte (vv. 35-43), que poderíamos chamar demonstrativa do facto da Ressurreição, centrada na afirmação de Jesus “Sou Eu mesmo (em pessoa)” (v. 39), e outra mais catequética (vv. 44-48): “Depois disse-lhes…”.

35-43 A aparição aqui descrita corresponde à do Evangelho do Domingo passado, descrita em S. João (Jo 20, 19-23), mas a verdade é que nós temos dificuldade em estabelecer uma cronologia exacta das aparições, pois não era essa a preocupação dos evangelistas; o que acima de tudo lhes interessava a eles (e aos crentes) era mostrar que Jesus apareceu realmente aos seus, isto é, se deixou ver, muito cedo, logo a partir do terceiro dia, e não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus (Act 10, 41). No referido relato paralelo, João fixou-se sobretudo no dom do Espírito Santa em ordem à absolvição dos pecados; Lucas fixa-se na dificuldade que os Onze – Tomé especialmente (cf Jo 20, 24-29) – tiveram em acreditar na Ressurreição, apesar dos testemunhos que já havia naquele momento. Em ambos os Evangelistas se refere o pormenor surpreendente da entrada de Jesus com as portas fechadas: “apresentou-Se no meio deles” (v. 36), mas aqui também se mostra Jesus a tomar alimento, uma forma gráfica de pôr em evidência que não se tratava de uma alucinação, mas de verdadeiros encontros pessoais. Lucas, como bom observador psicológico, gosta de sublinhar o que não podiam deixar de ser os sentimentos de uns discípulos que, tendo admirado e amado apaixonadamente o Mestre, vieram a abandoná-lo e a negá-lo miseravelmente; como podiam eles enfrentar-se com um encontro destes tão inesperado, sem experimentarem umas emoções extraordinariamente fortes, estonteantes e contraditórias? Por isso, Lucas não se limita a referir o sentimento de alegria, como João, mas fala de que ficaram “espantados e cheios de medo” (v. 37), “perturbados” (v. 38), e dominados por um misto de alegria, admiração e dúvida (cf. v. 41).

44-48 Estes vv. constituem uma densa síntese catequética, em se salientam elementos básicos da pregação primitiva, centrados no cumprimentos das Escrituras, a desembocar na missão universal dos discípulos “a todas as nações” (v. 47), em ordem a pregar “o arrependimento e o perdão dos pecados”. Note-se o valor dado ao testemunho – “vós sois as testemunhas” – dos discípulos (v. 48): “o homem contemporâneo crê mais nas testemunhas do que nos mestres; crê mais na experiência do que na doutrina; na vida e nas acções, do que em teorias. O testemunho de vida cristã é a primeira e insubstituível forma de missão” (João Paulo II). E, para que o crente alcance uma correcta compreensão das Escrituras, é preciso que o Senhor lhe abra o entendimento (cf. v. 45).

 

4.º Domingo da Páscoa

 

1ª leitura Actos dos Apóstolos 4, 8-12

 

Naqueles dias, 8Pedro, cheio do Espírito Santo, disse-lhes: «Chefes do povo e anciãos, 9já que hoje somos interrogados sobre um benefício feito a um enfermo e o modo como ele foi curado, 10ficai sabendo todos vós e todo o povo de Israel: É em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, que vós crucificastes e Deus ressuscitou dos mortos, é por Ele que este homem se encontra perfeitamente curado na vossa presença. 11Jesus é a pedra que vós, os construtores, desprezastes e que veio a tornar-se pedra angular. 12E em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos».

 

Temos aqui a resposta de Pedro aos chefes judeus que o interrogaram acerca do milagre da cura do coxo de nascença, que mendigava junto à porta chamada Formosa, que dava para o recinto das mulheres, no Templo.

11 “Jesus é a pedra desprezada (...) pedra angular”. É uma alusão ao Salmo 117 (118), de acordo com os LXX. Em Mt 21, 42-44, Jesus aplica a Si o texto do Salmo, cujo sentido mais profundo é messiânico, mesmo que o Salmista não pensasse em mais do que no pequenino povo de Israel, desprezado por todos, mas um povo donde viria a salvação através do Messias (sentido típico).

12 “Não há salvação em nenhum outro (nome)”, isto é, em nenhuma outra pessoa. O próprio nome de Jesus – Iexúah –, escolhido por Deus, significa: Yahwéh é Salvação. Mesmo aqueles que se salvaram antes de Cristo vir à terra, puderam chegar à salvação pelos méritos de Jesus. Toda a graça depois do primeiro pecado chega ao homem pela mediação da Cristo.

 

2º leitura 1 São João 3, 1-2

 

Caríssimos: 1Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamarmos filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque não O conheceu a Ele. 2Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é.

 

No coração da 1ª Carta de João está o apelo a viver como filhos de Deus (cap.3); a uma tão grande dignidade e a tão grande dom não se pode ficar indiferente, é forçoso romper de ver com o pecado (vv. 3-10) e corresponder com obras de amor (vv. 11-24).

1 “E somo-lo de facto”. Não se diz apenas que somos chamados filhos de Deus, o que bastaria para um semita entender para quem o ser chamado (por Deus) equivalia a ser. Trata-se dum realidade sobrenatural fundamental, mas que o mundo sem fé não pode captar nem apreciar.

2 “Seremos semelhantes a Deus, porque O veremos...”. Há quem pretenda ver nesta expressão a referência a uma ideia corrente na religião helenística, segundo a qual o conhecimento de Deus diviniza aqueles que chegam a alcançá-lo. A Teologia explicita que “agora” a filiação divina já nos capacita para a glória do Céu, não se tratando de algo meramente legal e extrínseco, à maneira da adopção humana de um filho; trata-se de algo sobrenatural, que implica uma participação da natureza divina (cf. 2 Pe 1, 4). “O veremos tal como Ele é”, isto é, não apenas indirectamente através das suas obras, mas contemplando-o face a face (cf. 1 Cor 13, 12).

 

Evangelho São João 10, 11-18

 

Naquele tempo, disse Jesus: 11«Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas. 12O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas, logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa. 13O mercenário não se preocupa com as ovelhas. 14Eu sou o Bom Pastor: conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me, 15Do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a vida pelas minhas ovelhas. 16Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil e preciso de as reunir; elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só Pastor. 17Por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder retomá-la. 18Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e de a retomar: foi este o mandamento que recebi de meu Pai».

 

Todos os anos no 4º Domingo de Páscoa – o Domingo do Bom Pastor, dia mundial de oração pelas vocações –, a leitura evangélica é tirada do capítulo 10º de S. João. No ano passado, ano A, leram-se os primeiros dez versículos, onde aparecia a parábola do pastor e do ladrão; este ano temos, na sua sequência, a parábola do pastor (bom) e do mercenário, as únicas parábolas que aparecem em todo o 4.° Evangelho, se bem que se trata antes de uma alegoria, em que os seus elementos não são mero adorno, mas se revestem de significado. Para a sua compreensão devem ter-se presentes os costumes da época; durante o dia, os vários rebanhos pertencentes a distintos donos – os pastores – dispersavam-se pelas escassas pastagens da região; ao cair da noite, todos os rebanhos recolhiam a um recinto comum fechado por uma sebe ou um muro baixo – o redil – em pleno descampado, onde eram defendidos das feras e dos ladrões por um guarda – o porteiro –, que podia ser contratado – um mercenário – pelos donos; de manhã, cada pastor voltava e, da porta do recinto, chamava as suas próprias ovelhas, que já conheciam o seu grito habitual e o seguiam a caminho das pastagens; os ladrões não entravam pela porta vigiada, mas saltavam pela vedação, pois o seu objectivo não era apascentar, mas dizimar os rebanhos, roubar e matar.

11-18 “Eu sou o Bom Pastor”: a descrição da figura do Bom Pastor não é original, mas decalcada em Ezequiel 34, 1-31 e 37, 16ss; a novidade está em dar a vida pelas suas ovelhas (vv. 11 e 15). Assim, Jesus aparece a revelar-se como Deus incarnado, dando cumprimento ao anúncio profético: Eu próprio cuidarei do meu rebanho e velarei por ele (cf. Ez 34, 11.12-13.15.16.20.22.31); Deus aparece frequentemente na Escritura como o Pastor de Israel (cf. Gn 49, 24; Salm 23; 78, 52; 80, 2; Is 40, 11; Jer 31, 10…). Jesus como o Bom Pastor é uma das mais comovedoras revelações do Novo Testamen­to (cf. Mt 18, 12-14; Lc 15, 4-7; 1 Pe 2, 25; 5, 4...).

12 “O mercenário”. A propósito desta figura, pergunta e responde Santo Agostinho: “Quem é o mercenário? É aquele que vê vir o lobo e foge. Aquele que busca a sua glória, não a glória de Cristo; aquele que não se atreve, com liberdade de espírito, a reprovar (o procedimento de) os pecadores (...) Tu calas, não reprovas: tu és mercenário, pois viste vir o lobo e fugiste (...) porque te calaste; e calaste-te, porque tiveste medo”.

16 “Tenho ainda outras ovelhas”. São certamente os gentios, não os judeus da diáspora. Também a elas se dirige a missão de Jesus através dos seus mensageiros que há-de enviar a todo o mundo (cf. Mt 28, 19-20). Estes enviados – lembrar que é hoje o dia mundial de oração pelas vocações – permitirão que se venha a constituir um só rebanho: a Igreja universal (católica) que congregue todos os redimidos dos quais Jesus é o Senhor, o único Pastor.

 

Nossa Senhora do Rosário de Fátima

 

1ª leitura Apocalipse 21, 1-5a

 

1Eu, João, vi um novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido, e o mar já não existia. 2Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do Céu, da presença de Deus, bela como noiva adornada para o seu esposo. 3Do trono ouvi uma voz forte que dizia: «Eis a morada de Deus com os homens. Deus habitará com os homens: eles serão o seu povo e o próprio Deus, no meio deles, será o seu Deus. 4Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos nunca mais haverá morte, nem luto, nem gemidos, nem dor, porque o mundo antigo desapareceu». 5aDisse então Aquele que estava sentado no trono: «Vou renovar todas as coisas».

 

1 “Um novo Céu e uma nova Terra”. Designação de todo o Universo novo, isto é, renovado (isto significa o adjectivo grego original). Esta renovação visa, sem dúvida, o aspecto moral: renovação que indica, primariamente, a supressão do pecado. Não parece estar excluída também uma renovação física, sobretudo tendo em conta o que se diz em 2 Pe 3, 10-13 e Rom 8, 19-22. A expressão é tirada de Is 65, 17; 66, 22. O que se passará com o Universo no fim dos tempos, em concreto, continua sendo um mistério (cfr. Gaudium et Spes, n.º 139). De qualquer modo, a renovação de que se fala é de ordem sobrenatural e misteriosa e não aquela que é fruto dum simples processo evolutivo natural.

2 “A nova Jerusalém”: uma imagem da Igreja, a Esposa do Cordeiro (vv. 9-10): a noiva adornada para o Seu esposo. Também S. Paulo chama a Igreja “a Jerusalém lá do alto, que é nossa Mãe” (Gal 4, 26). Também é frequente, na Tradição cristã, inclusive na Liturgia, como sucede no dia 13 de Maio, acomodar esta simbologia a Nossa Senhora, a Esposa do Espírito Santo, Mãe e modelo da Igreja.

 

Evangelho São João 19, 25-27

 

25Naquele tempo, estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. 26Ao ver sua Mãe e o discípulo predilecto, Jesus disse a sua Mãe: «Mulher, eis o teu filho». 27Depois disse ao discípulo: «Eis a tua Mãe». E, a partir daquela hora, o discípulo recebeu-a em sua casa.

 

Repare-se na solenidade deste relato: é uma cena central entre as cinco passadas no Calvário; a Virgem Maria é mencionada 6 vezes em 3 versículos; há o recurso a uma “fórmula solene de revelação” (ao ver… disse… eis… ). Isto deixa ver que não se trata dum simples gesto de piedade filial de Jesus para com sua Mãe, para não a deixar ao desamparo, mas que o Evangelista lhe atribui um significado simbólico profundo: chegada a hora de Jesus, é a hora de Ela assumir (cf. Jo 2, 4) o seu papel de nova Eva (cf. Gn 3, 15) na obra redentora; por outro lado, Ela é a mulher que simboliza a Igreja (cf. Ap 12, 1-18), a mãe dos discípulos de Jesus, representados no discípulo amado, que a acolheu como coisa sua. A tradução mais corrente deste inciso (seguida pela tradução litúrgica) é: “recebeu-a em sua casa”, mas esta forma de tradução empobrece de modo notável o rico sentido originário da expressão grega “élabon eis tà idía”, uma expressão usada mais quatro vezes em S. João, mas nunca neste sentido; com efeito, a expressão tà idía – “as coisas próprias” – significa muito mais do que a própria casa, indica tudo o que é próprio da pessoa, a sua intimidade.

Jesus não fala às mulheres junto à Cruz que são 4 ou apenas 3 conforme se contar por 2 ou por 1 pessoa a irmã de sua Mãe, Maria, a mulher de Cléofas. S. Mateus fala de muitas mulheres no Calvário, a distância (Mt 27,35-36; cf. Mc 15,40-41; Lc 23,49).

É também de notar que S. João, ao contrário dos restantes Evangelistas, nunca se refere a Nossa Senhora com o nome de Maria; sempre a designa como a Mãe (de Jesus), um indício de ser tratada realmente como mãe; com efeito, ninguém jamais nomeia a própria mãe com o nome dela: para o filho a mãe é simplesmente a mãe!

 

5.º Domingo da Páscoa

 

1ª leitura Actos dos Apóstolos 9, 26-31

 

Naqueles dias, Saulo 27chegou a Jerusalém e procurava juntar-se aos discípulos. Mas todos o temiam, por não acreditarem que fosse discípulo. 28Então, Barnabé tomou-o consigo, levou-o aos Apóstolos e contou-lhes como Saulo, no caminho, tinha visto o Senhor, que lhe tinha falado, e como em Damasco tinha pregado com firmeza em nome de Jesus. 29A partir desse dia, Saulo ficou com eles em Jerusalém e falava com firmeza no nome do Senhor. Conversava e discutia também com os helenistas, mas estes procuravam dar-lhe a morte. 30Ao saberem disto, os irmãos levaram-no para Cesareia e fizeram-no seguir para Tarso. 31Entretanto, a Igreja gozava de paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria, edificando-se e vivendo no temor do Senhor e ia crescendo com a assistência do Espírito Santo.

 

A leitura relata a primeira visita do cristão Saulo a Jerusalém, após a fuga de Damasco, onde a sua vida corria perigo. Há uma correspondência perfeita com os dados que o próprio S. Paulo fornece no início da sua Carta aos Gálatas (Gal 1, 19-19). Também a vida do convertido, que não se calava, não estava segura em Jerusalém (v. 30).

27 “Barnabé”. Era levita e cipriota; o seu nome de origem aramaica, “bar nahmá”, podia significar “filho da consolação”, isto é, o amigo de consolar. Foi ele que apresentou Saulo aos Apóstolos, concretamente a Pedro (cf. Gal 1, 18) acabando-se assim com o receio de que ele fosse um falso irmão, um espião. Havia de ser o mesmo Barnabé que, passados bastantes anos (14 ou 15), após a retirada de Saulo para a sua terra natal, Tarso na Cilícia, o vai buscar para o trabalho apostólico em Antioquia da Síria (Act 11, 22-26), grande centro helenista, onde os cristãos tomam este nome e a fé se expande extraordi­nariamente. Daqui sairá Paulo e Barnabé para a primeira grande viagem missionária

29 “Helenistas”. Judeus provenientes da diáspora, isto é, emigrantes de passagem para Jerusalém ou mesmo já retornados que falavam grego e nesta mesma língua liam a Bíblia, em sinagogas próprias.

 

2ª leitura 1 São João 3, 18-24

 

Meus filhos, 18não amemos com palavras e com a língua, mas com obras e em verdade. 19Deste modo saberemos que somos da verdade e tranquilizaremos o nosso coração diante de Deus; porque, se o nosso coração nos acusar, 20Deus é maior que o nosso coração e conhece todas as coisas. 21Caríssimos, se o coração não nos acusa, tenhamos confiança diante de Deus 22e receberemos d’Ele tudo o que Lhe pedirmos, porque cumprimos os seus mandamentos e fazemos o que Lhe é agradável. 23É este o seu mandamento: acreditar no nome de seu Filho, Jesus Cristo, e amar-nos uns aos outros, como Ele nos mandou. 24Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele. E sabemos que permanece em nós pelo Espírito que nos concedeu.

 

19-20 A ideia central é a de uma absoluta confiança em Deus, consequência da nossa filiação divina de que falava o texto do passado Domingo (1 Jo 3, 1-3). É assim que, embora a consciência nos possa acusar de pecado, o cristão nunca tem motivo para deixar abalar a sua confiança em Deus, pois o amor de Deus é maior, isto é, supera toda a miséria humana; e, mesmo que não tivéssemos consciência de ter pecado, Ele, que “conhece todas as coisas”, não deixaria de nos perdoar, pois despacha favoravelmente “tudo o que Lhe pedirmos” (v. 22; cf Jo 16, 26-27); e “a pedra de toque da aceitação da parte de Deus é a boa vontade para «fazer o que Lhe é agradável» (cf. Jo 8, 29)” (Ph. Perkins).

23 “Este é o seu mandamento: acreditar… em Jesus Cristo e amar-nos uns aos outros”. A expressão aparece aqui como uma fórmula joanina correspondente ao amar a Deus e ao próximo nos Sinópticos (cf. Mc 12, 28-31 par). Há mesmo quem veja nesta fórmula uma síntese da essência do cristianismo, a saber, a fé em Jesus Cristo e o amor fraterno; também podemos ver outra síntese que define o cristianismo como amor, em 1 Jo 4, 21: “Quem ama a Deus, ame também o seu irmão”. O Papa Bento XVI desenvolve este tema que escolheu para a sua primeira encíclica.

24 “Permanece em Deus e Deus nele”. A imanência mútua é uma noção típica joanina, que aparece muitas vezes para indicar, mais que uma adesão firme de alma e coração, uma íntima comunhão, uma união vital; daí o aparecer por vezes em contextos eucarísticos (Jo 6, 56; cf. 15,4.5.6.7.9.10). Permanecer é uma das palavras-chave tanto no IV Evangelho (cf. Evangelho de hoje), como nesta Carta (cf. 1 Jo 2, 6.10.14.24.28; 3, 6.17.24; 4, 12.13.15.16. Mais ainda, se temos em conta o lugar paralelo do Evangelho de hoje: “Permanecei em Mim e Eu… em vós” (Jo 15, 3), pode-se pensar numa actualização destas palavras de Jesus feita na Carta (certamente posterior, por aparecer mais elaborada), constituindo assim o que penso poder classificar-se como um “deraxe cristológico intraneotestamentário”, isto é, uma actualização (dentro do N. T.) alusiva à divindade de Cristo, ao actualizar as palavras de Cristo apontando-o como Deus. A permanência no amor implica uma observância dos mandamentos (cf. tb. 1 Jo 2, 3-8; 5, 2-3; Jo 15, 9-17; 13, 34; 14, 15.21). “E sabemos… pelo Espírito…”: O Espírito Santo também aparece como garantia nos Escritos Paulinos (cf. Rom 8, 14; 2 Cor 1, 22); como nota Muñoz-León, “o dom do Espírito é sinal da Comunhão divina”.

 

Evangelho São João 15, 1-8

 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1«Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor. 2Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto. 3Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei. 4Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. 5Eu sou a videira, vós sois os ramos. Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. 6Se alguém não permanece em Mim, será lançado fora, como o ramo, e secará. Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem. 7Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido. 8A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos».

 

O pano de fundo para esta solene afirmação de Jesus – Eu sou a videira autêntica! – bem poderia ser a representação de uma videira de ouro com ramos e cachos, que, segundo conta Flávio Josefo, estava representada sobre a porta principal do Templo.

1-8 A imagem bíblica da “videira” designava o povo escolhido e tantas vezes infiel (cf. Os 10, 1; Is 5, 1-7; Jer 2, 21; Ez 15, 1-8; 19, 10-14; Salm 80, 9-17). Jesus inaugura um novo povo de Deus, por isso diz que Ele é “a verdadeira” (no sentido de autêntica, em grego, alêthinê) “videira ” (cf. Sir 24, 17-21), que com os seus discípulos forma uma unidade vital e não uma simples comunidade, como a de Israel, pois nela se vive a própria vida de Cristo (cf. Ef 4, 16; 1 Cor 12, 27; Gal 2, 20), em ordem a dar “fruto” para a vida eterna. Esta íntima comunhão exprime-se com o insistente apelo “permanecei em Mim” (vv. 4.5.6.7); pode-se mesmo vislumbrar uma alusão à Eucaristia (cf. Jo 6, 56); o melhor fruto desta videira seria o vinho eucarístico, que prefigura e antecipa o do banquete escatológico do Reino de Deus (cf. Mc 14, 15; 1 Cor 11, 26). Mas uma tão profunda união pressupõe a purificação, a “poda” (cf. v. 2: o verbo grego katháirei tanto significa podar como purificar). O termo traduzido por vide, ou videira, tanto designa a árvore toda (v. 1), como a cepa ou o tronco (vv. 4-5). Permanecer em Cristo aparece com toda a radicalidade evangélica, como um questão de vida ou morte: “sem Mim, nada podeis fazer” (v. 5); caso contrário, é-se ramo seco, que não pode dar fruto (v. 4); só serve para ser cortado, ser laçado fora, ser lançado ao fogo (v. 6).

  

6.º Domingo da Páscoa

 

1ª leitura Actos dos Apóstolos 10, 25-26.34-35.44-48

 

Naqueles dias, 25Pedro chegou a casa de Cornélio. Este veio-lhe ao encontro e prostrou-se a seus pés. 26Mas Pedro levantou-o, dizendo: «Levanta-te, que eu também sou um simples homem». 34Pedro disse-lhe ainda: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, 35mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável». 44Ainda Pedro falava, quando o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a palavra. 45E todos os fiéis convertidos do judaísmo, que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados ao verem que o Espírito Santo se difundia também sobre os gentios, 46pois ouviam-nos falar em diversas línguas e glorificar a Deus. 47Pedro então declarou: «Poderá alguém recusar a água do Baptismo aos que receberam o Espírito Santo, como nós?» 48E ordenou que fossem baptizados em nome de Jesus Cristo. Então, pediram-Lhe que ficasse alguns dias com eles.

 

A leitura refere a vinda de Pedro a anunciar a salvação a um gentio, “Cornélio”. Era centurião romano do destacamento militar de Cesareia, e bem podia ser descendente dalgum daqueles dez mil escravos que libertou Cornélio Sila, cerca do ano 80 a. C., os quais tomaram o apelido deste. Pertenceria à “coorte itálica”, de que nos chegaram várias inscrições. Era “justo e temente a Deus” (v. 22), isto é, homem que aceitava o único Deus de Israel e a sua lei moral, mas sem aderir ao judaísmo pela circuncisão e outras práticas rituais. Segundo Act 10, 1-8, tinha recebido uma mensagem angélica para mandar chamar Pedro a Jope, a fim de lhe vir anunciar a “Boa-Nova da paz” (cf. v. 36). Pedro, dada a visão que teve – “o que foi purificado por Deus não o chames impuro” (v. 15) –, vendo como o Espírito Santo, com manifestações semelhantes às do Pentecostes, nomeadamente a glossolalia (cf. vv. 45-46), descia sobre os ouvintes da sua pregação, não hesitou em fazer entrar os ouvintes directamente na Igreja pelo Baptismo (vv. 47-48). Isto aparece como um passo de extraordinário alcance para a vida da Igreja (por isso se conta mais uma vez no cap. 11); com efeito, a Igreja é católica desde o princípio, isto é, destinada aos homens de todas as raças, e não apenas ao fechado e estreito âmbito de judeus e judaizados. Mas nem todos os cristãos afeitos à Lei de Moisés haviam de compreender isto facilmente, o que motivou o Concílio de Jerusalém (ano 49-50); os cristãos judaizantes, porém, haveriam de continuar na sua e a fazer grande oposição a S. Paulo.

34-35 Estes versículos representam uma pequenina parte do discurso de Pedro em casa de Cornélio, em Cesareia Marítima, quando Pedro recebeu directamente na Igreja os primeiros gentios, sem terem de passar primeiro pelo judaísmo. É surpreendente que um discurso dirigido a não judeus contenha alusões (mas não citações explícitas) ao Antigo Testamento: v. 34 – “Deus não faz acepção de pessoas” (cf. Dt 10, 17); v. 36 – “Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel” (cf. Salm 107, 20), “anunciando a paz” (cf. Is 52, 7); v. 38 – “Deus ungiu com… Espírito Santo” (cf. Is 61, 1). Isto corresponde a que se está num ponto crucial da vida da Igreja, em que ela entra decididamente pelos caminhos da sua universalidade intrínseca, em confronto com o nacionalismo judaico; por isso era importante recorrer àquelas passagens do A. T. que se opõem a qualquer espécie de privilégio de raça ou cultura: “a palavra aos filhos de Israel” (v. 36) deixa ver como Deus é o “Senhor de todos”, imparcial, “não faz acepção de pessoas” e que a “paz” – a súmula de todos os bens messiânicos – Deus a destina a toda a humanidade. O discurso tem um carácter kerigmático evidente; e Lucas – o historiador-teólogo – ao redigi-lo, quaisquer que possam ter sido as fontes utilizadas, terá em vista mais ainda do que a situação concreta em que foi pronunciado, o efeito a produzir nos seus leitores. Convém notar que, no entanto, ao redigir os discursos – o grande recurso literário de Actos –, Lucas não os inventa; embora não sejam uma reprodução literal, considera-se que correspondem aos temas da pregação primitiva.

 

2ª leitura 1 São João 4, 7-10

 

Caríssimos: 7Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. 8Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. 9Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele. 10Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.

 

A Carta de S. João que temos vindo a ler no tempo pascal deste ano B atinge agora o seu ponto mais alto (vv. 1-16). O tema central da Epístola é o amor, um tema a que volta repetidas vezes, desenvolvendo-o em espiral. A chamada espiral joanina consiste em que, cada vez que volta a um tema, avança e aprofunda-o um pouco mais.

7-8 “Amemo-nos uns aos outros” é como que um refrão que S. João não se cansa de repetir (cf. 1 Jo 3, 11.23); mas aqui não se limita a apelar para “o mandamento do Senhor” (1 Jo 3, 23; cf. Jo 15, 12), pois vai até ao ponto de tocar na mais profunda razão de ser deste mandamento. É que “Deus é amor”, por isso o cristão, que “nasceu de Deus” e “conhece a Deus”, não pode deixar de amar; sendo assim, “quem não ama não conhece a Deus”, isto é, não participa da sua vida e do seu ser, não entra na sua intimidade. Notar que em S. João “conhecer” não é “ter notícia ou informação”, mas é “ter experiência pessoal, penetrar na intimidade de outro”; é assim que “conhecer a Deus” implica agir na mesma linha do amor de Deus.

9-10 A afirmação de que Deus é amor não é uma afirmação teórica, ou uma definição metafísica de Deus; é uma afirmação sapiencial, é o resultado da contemplação estonteante da sua obra salvadora, a saber, do modo como “se manifestou o amor de Deus para connosco”, que chegou ao ponto de que “enviou ao mundo o seu Filho Unigénito” (v. 9), como “vítima de expiação pelos nossos pecados” (v. 10). Este amor de Deus – a entrega do Criador à sua criatura para se dar dando a vida – é tão deslumbrante e inimaginável, que é expresso no Novo Testamento com um substantivo novo, não usado na literatura grega profana: agápê. Não estamos perante qualquer espécie de amor, mas em face da mais absoluta gratuidade, pois a referência é o próprio amor que Deus nos manifesta: “não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou” (v. 10).

 

Ou

 

1 São João 4, 11-18

 

Caríssimos: 11Se Deus nos amou tanto, também nós devemos amar-nos uns aos outros. 12A Deus ninguém jamais O viu. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e em nós o seu amor é perfeito. 13Nisto conhecemos que estamos n’Ele e Ele em nós: porque nos deu o seu Espírito. 14E nós vimos e damos testemunho de que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15Se alguém confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. 16Nós conhecemos o amor de Deus por nós e acreditamos no seu amor. Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele.

 

A espiral joanina à volta do amor, a que nos referíamos no comentário aos versículos anteriores (vv. 7-10), progride aprofundando e esclarecendo o fundamento do amor mútuo: “se Deus nos amou assim, também nós nos devemos (o grego, ofeîlomen,  indica obrigação estrita) amar uns aos outros” (v. 11). Com efeito, são os outros que visibilizam (cf. Mt 25, 40) a Deus invisível, “que nunca ninguém viu”, como filhos do mesmo Deus. Também se pode ver neste pormenor do v. 12 uma alusão aos gnósticos que se ufanavam de uma intuição directa de Deus, a epopteia das religiões mistéricas. Por outro lado, temos aqui a mais séria justificação da maravilhosa realidade da vida cristã, que ao longo de todos os séculos se tem manifestado na doação e no serviço aos outros, nomeadamente àqueles que, por serem carenciados, nada têm com que retribuir, sendo o apostolado a forma mais sublime do amor cristão.

Também o voltar ao outro tema fulcral da Carta – permanecer – atinge aqui (vv. 13-16) o seu clímax (ver supra o comentário feito a 1 Jo 3, 24, na 2ª leitura do 5º Domingo de Páscoa): “Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chega à perfeição em nós. Damos conta de que permanecemos n’Ele, e Ele em nós, por nos ter feito participar do seu Espírito” (vv. 12-13). O autor, ao mover-se na densidade de expressões de fé tão elevadas, com uma referência explícita ao mistério da Trindade e da Incarnação (vv. 13-15), apela, de uma maneira tipicamente joanina, para o testemunho alicerçado, não apenas numa experiência interior, de comunhão vital e mística (cf. v. 13), mas na própria experiência sensorial – hêmeîs tetheámetha (v. 14), “nós vimos (contemplámos)” –, não se tratando de uma mera experiência individual isolada, mas de um colectivo (pode pensar-se na dita comunidade do Discípulo amado em ligação com as primeiras testemunhas directas).

 

Evangelho São João 15, 9-17

 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 9«Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. 11Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. 12É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. 13Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. 14Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. 15Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai. 16Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. 17O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».

 

Temos hoje a continuação do chamado discurso do adeus, centrada no tema central do amor e no permanecer, correspondentes à 2ª leitura (1 Jo 4, 11-16).

9-17 Estes versículos constituem um dos cumes mais elevados de todo o Evange­lho e uma das chamadas “sínteses do cristianismo”: o anterior apelo permane­cei em Mim (v. 3) concretiza-se agora em permane­­cei no meu amor (vv. 9.10). A referência básica é o amor do Pai, “como o Pai Me amou”: é assim que Jesus nos ama (v. 9); trata-se de um amor de eleição de Jesus (v. 16), que exigem uma correspondência de fidelidade aos seus mandamentos (vv. 10.12.14.17; 13, 34; 14, 15.21). Este amor divino constitui os discípulos numa relação totalmente nova com Jesus: a da amizade (vv. 13-15; 13, 34; 1 Jo 3, 11), a tal ponto que fica esbatida a infinita distância entre Deus e o homem, entre o Senhor e os “servos”, facultando liberdade interior. Esta nova situação conduz à alegria, a uma “alegria completa” (v. 11; 16, 24; 17, 13; 1 Jo 1, 4), (v. 15), e à fecundidade, dando um fruto sobrenatural, “que permaneça” (v. 16). Por outro lado, este amor é exigência do amor mútuo, fornecendo-lhe a sua mais sólida base e a sua mais elevada medida: como Eu vos amei (v. 12), até dar a vida (v. 13). E não se pode permanecer no amor de Jesus se não se guardarem os seus mandamentos (cf. v. 10).

15-16 “Já vos não chamo servos”. Bela forma de mostrar as especiais relações de amizade que Jesus tem com os seus; um servo enquanto tal, é indigno da amizade do seu senhor e limita-se a receber ordens, mas os discípulos recebem de Jesus as mais íntimas confidências: “porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai”. É evidente que se trata de uma amizade que não se baseia em igualdade de natureza; é fruto duma eleição gratuita: “fui Eu que vos escolhi e destinei…”. Escolhidos para dar frutos que permaneçam, isto é, frutos espirituais, frutos de vida eterna – de santidade, de apostolado –, só darão esses frutos na dependência e união com Cristo (cf. v. 5); daí o apelo à oração, a qual dá garantia de eficácia: “tudo quanto pedirdes… Ele vo-lo concederá”. A oração sempre ouvida pelo Pai é a que é feita “em nome de Jesus”, isto é, em plena sintonia com Jesus, numa perfeita união de vontades; esta forma de se dirigir ao Pai tornou-se a pauta para a oração litúrgica: “por Cristo, Nosso Senhor”.

 

Ou 

 

São João 17, 11b-19

 

Naquele tempo, Jesus ergueu os olhos ao Céu e orou deste modo: 11b«Pai santo, guarda-os em teu nome, o nome que Me deste, para que sejam um, como Nós. 12Quando Eu estava com eles, guardava-os em teu nome, o nome que Me deste. Guardei-os e nenhum deles se perdeu, a não ser o filho da perdição; e assim se cumpriu a Escritura. 13Mas agora vou para Ti; e digo isto no mundo, para que eles tenham em si mesmos a plenitude da minha alegria. 14Dei-lhes a tua palavra e o mundo odiou-os, por não serem do mundo, como Eu não sou do mundo. 15Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. 16Eles não são do mundo, como Eu não sou do mundo. 17Consagra-os na verdade. A tua palavra é a verdade. Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. 18Eu consagro-Me por eles, para que também eles sejam consagrados na verdade».

 

O capítulo 17 de S. João veio a ser chamado “a oração sacerdotal de Jesus”, a partir das observações de S. Cirilo de Alexandria (PG 74, 505-508); constitui “a síntese mais completa e elevada da teologia do evangelista” (Segalla). Lê-se no 7º Domingo de Páscoa, distribuída pelos anos A, B e C, mas sempre introduzida pelo v. 1: “Jesus ergueu os olhos ao céu…”, uma forma de orar muito ao jeito de Jesus (cf. Jo 11, 41; Mt 14, 19; Mc 6, 41; Lc 9, 16; Mc 7, 34), mas mal documentada no judaísmo; com este gesto, “Jesus dava uma expressão corporal à dimensão fundamental do ser humano, a saber, a sua relação com a fonte que o ultrapassa, que está acima dele e o envolve…” (D. Mollat). Nos países, como o nosso, onde a Ascensão é celebrada no 7º Domingo, Jo 17 pode ler-se, como alternativa, no 6º Domingo de Páscoa. O trecho lido no ano B corresponde àquela parte da oração em que Jesus intercede pelos seus discípulos.

11b “Pai santo”. A circunstância de não estarmos perante uma forma usual de Jesus se dirigir ao Pai, leva a pensar numa influência litúrgica (cf. Didakhê 10, 2) na redacção desta belíssima  oração, a oração mais longa que aparece nos lábios de Jesus. “O nome que Tu Me deste” pode entender-se como a própria essência divina, comum ao Pai e ao Filho, que é Jesus; e o pedido “um só, como Nós”, sugere já uma primitiva reflexão trinitária; a unidade dos discípulos tem como primeira referência (analogatum princeps) a unidade do ser divino, na distinção de pessoas, visando uma unidade que transcende a meramente moral e sociológica; por outro lado, podemos ver, no semitismo “dar o nome”,  um sentido aberto, coadunando-se bem com a doutrina teológica da processão, ou geração eterna do Filho pelo Pai. Esta prece pela unidade dos primeiros discípulos, vai ser feita, mais adiante (vv. 20-23), de forma mais desenvolvida, pela unidade de todos os que depois hão-de vir a crer em Jesus.

12-15 Jesus, que, como Bom Pastor, guardou os discípulos, agora, consciente da sua partida, intercede “para que eles tenham sem si a plenitude da alegria”, própria de Jesus, uma alegria que deriva da sua união com o Pai. Por outro lado, roga “que os guarde do Maligno”, pois eles terão de ficar no mundo, que está “todo sob o poder do Maligno” (cf. 1 Jo 5, 19). “O mundo” é aqui tomado no seu aspecto negativo: são os homens que recusam a graça e, na sua auto-suficiência, se fecham a Deus, a ponto de odiarem a Cristo e os seus seguidores (v. 14). Os discípulos, vivendo no mundo, estão sujeitos às suas seduções, por isso Jesus não suplica que os tire do mundo, onde se desenrola a sua vida e está o seu campo de acção, mas que os guarde de serem mundanizados, deixando-se influenciar pelo “dominador deste mundo” (cf. Jo 12, 31).

17-19 “Consagra-os na verdade”, à letra, santifica-os; santificar é retirar da esfera do profano para destinar a uma missão divina (cf. Hebr 2, 11). Estas palavras não são apenas o centro da oração, mas um dos pontos altos do Evangelho: a consagração e missão dos discípulos. Este envio ao mundo encerra um mistério que se exprime através dum paradoxo: escolhidos mas não retirados do meio do mundo. É que não se trata de um simples envio pragmático, mas insere-se no mistério do envio de Jesus ao mundo (v. 18; cf. 10, 36; 15, 27; 20, 21); os discípulos não se limitam a continuar a sua missão; participam da sua própria vida (15, 1-16), uma vida que não pertence a este mundo e a que se tem acesso apenas pela palavra (v. 17) da revelação, a “verdade”. Mas, para além desta misteriosa realidade bipolar – a vocação-missão –, o texto deixa ver um outro aspecto: “Eu consagro-Me por eles” tem uma conotação sacrificial, como se dissesse “ofereço-Me em sacrifício por (em vez de ou a favor de) eles”, pois corresponde à linguagem cultual do A. T. (cf. Ex 13, 2.12.15; 28, 41; Dt 15, 19-20) e tem paralelos no N. T. (cf. 1 Cor 11, 24; 15, 3). É por isso que a oração sacerdotal adquire a dimensão de ofertório do sacrifício do Senhor, que vai ser consumado no Calvário e também a de uma declaração de intenção: Jesus entrega a sua vida por todos (cf. 11, 51-52; 15, 13), em sacrifício, a fim de que os seus, uma vez purificados, venham a ser pertença exclusiva de Deus (v. 19: “consagrados”, ou santificados). A alusão a Cristo como sumo sacerdote da nova Aliança – sacerdote oferente e vítima oferecida (cf. Hebr 9, 11-14; 10, 10) – pode ver-se na ressonância vétero-testamentária de Ex 28, 36-38. Há quem veja também alusões à Eucaristia, em especial nos vv. 21-24 (cf. Jo 15, 4-7; 6, 56; 1 Cor 10, 17).

 

Ascensão do Senhor (Dia Mundial das Comunicações Sociais)

 

Primeira Leitura Actos 1, 1-11

 

1No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar, desde o princípio 2até ao dia em que foi elevado ao Céu, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera. 3Foi também a eles que, depois da sua paixão, Se apresentou vivo com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando-lhes do reino de Deus. 4Um dia em que estava com eles à mesa, mandou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, «da Qual – disse Ele – Me ouvistes falar. 5Na verdade, João baptizou com água; vós, porém, sereis baptizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias». 6Aqueles que se tinham reunido começaram a perguntar: «Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?» 7Ele respondeu-lhes: «Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade; 8mas recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra». 9Dito isto, elevou-Se à vista deles e uma nuvem escondeu-O a seus olhos. 10E estando de olhar fito no Céu, enquanto Jesus Se afastava, apresentaram-se-lhes dois homens vestidos de branco, 11que disseram: «Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu».

 

Lucas começa o livro de Actos com o mesmo facto com que tinha terminado o seu Evangelho; a Ascensão desempenha assim na sua obra um papel de charneira, pois assinala tanto a ligação como a distinção entre a história de Jesus que se realiza aqui na terra (o Evangelho) e a história da Igreja que então tem o seu início (Actos).

3 “Aparecendo-lhes durante 40 dias”. Esta precisão do historiador Lucas permite-nos esclarecer algo que no seu Evangelho não tinha ficado claro quanto ao dia da Ascensão, pois o leitor poderia ter ficado a pensar que se tinha dado no dia da Ressur­reição. A verdade é que a Ascensão faz parte da glorificação e exaltação de Jesus; por isso S. João parece pretender uni-la à Ressurreição, nas palavras de Jesus a Madalena (Jo 20, 17), podendo falar-se duma ascensão invisível no dia de Páscoa, sem que em nada se diminua o valor do facto sucedido 40 dias depois e aqui relatado: a Ascensão visível de Jesus, que marca um fim das manifestações visíveis aos discípulos, “testemunhas da Ressurreição estabelecidas por Deus”, engloba uma certa glorifi­cação acidental do Senhor ressuscitado, “pela dignidade do lugar a que ascendia”, como diz S. Tomás de Aquino (Sum. Theol., III, q. 57, a. 1). Há numerosas referências à Ascen­são no Novo Testamento: Jo 6, 62; 20, 17; 1 Tim 3, 26; 1 Pe 3, 22; Ef 4, 9-10; Hbr 9, 24; etc.. Mas a Ascensão tem, além disso, um valor existencial excepcional, pois nos atinge hoje em cheio: Cristo, ao colocar à direita da glória do Pai a nossa frágil natureza humana unida à Sua Divindade (Cânon Romano da Missa de hoje), enche-nos de esperança em que também nós havemos de chegar ao Céu e diz-nos que é lá a nossa morada, onde, desde já, devem estar os nossos corações, pois ali está a nossa Cabeça, Cristo.

4 “A Promessa do Pai, da qual Me ouvistes falar”. Na despedida da Última Ceia, Jesus não se cansou de falar aos discípulos do Espírito Santo: Jo 14, 16-17.26; 16, 7-15.

5 “Baptizados no Espírito Santo”, isto é, inundados de enorme força e luz do Espírito Santo, cheio dos seus dons, dez dias depois (cf. Act 2, 1-4).

8 “Minhas Testemunha em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da Terra”. Estas Palavras do Senhor são apresentadas por S. Lucas para servirem de resumo temático do seu livro; o que nos vai contar ilustrará como a fé cristã se vai desenvolver progressivamente seguindo estas 3 etapas geográficas: Act 2 – 7; 8 – 12; 13 – 28.

 

Segunda Leitura Efésios 1, 17-23

 

Irmãos: 17O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda um espírito de sabedoria e de luz para O conhecerdes plenamente 18e ilumine os olhos do vosso coração, para compreenderdes a esperança a que fostes chamados, os tesouros de glória da sua herança entre os santos 19e a incomensurável grandeza do seu poder para nós os crentes. Assim o mostra a eficácia da poderosa força 20que exerceu em Cristo, que Ele ressuscitou dos mortos e colocou à sua direita nos Céus, 21acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania, acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste mundo, mas também no mundo que há-de vir. 22Tudo submeteu aos seus pés e pô-l’O acima de todas as coisas como Cabeça de toda a Igreja, 23que é o seu Corpo, a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos.

 

Neste texto temos um dos principais temas da epístola: a Igreja como Corpo (místico) de Cristo. A Igreja é a plenitude de Cristo, “o Cristo total” (S. Agostinho). A Igreja recebe da sua Cabeça, Cristo, não só a chefia, mas o influxo vital, a graça; vive a vida de Cristo. Jesus sobe ao Céu, mas fica presente no mundo, na sua Igreja.

17 “O Deus de N. S. J. Cristo”. “O Pai é para o Filho fonte da natureza divina e o criador da sua natureza humana: assim Ele é, com toda a verdade, o Deus de N. S. J. C.” (Médebielle). “O Pai da glória”, isto é, o Pai a quem pertence toda a glória, toda a honra intrínseca à sua soberana majestade. “Um espírito”, o mesmo que um dom espiritual. Não se trata do próprio Espírito Santo; uma vez que não tem artigo em grego, trata-se pois de uma graça sua.

20-22 Ternos aqui a referência a um tema central já tratado em Colosenses: a supremacia absoluta de Cristo, tendo em conta a sua SS. Humanidade, uma vez que pela divindade é igual ao Pai. A sua supremacia coloca-O “acima de todo o nome”, isto é, acima de todo e qualquer ser, de qualquer natureza que seja, e qualquer mundo a que pertença. Mas aqui a atenção centra-se num domínio particular de Cristo, a saber, na sua Igreja, da qual Ele é não apenas o Senhor, mas a Cabeça. A Igreja é o “Corpo de Cristo”; ela é o plêrôma de Cristo, isto é, o seu complemento ou plenitude: a igreja é Cristo que se expande e se prolonga nos fiéis que aderem a Ele. (Alguns autores preferem entender o termo plêrôma no sentido passivo: a Igreja seria plenitude de Cristo, enquanto reservatório das suas graças e merecimentos que ela faz chegar aos homens).

23 “Aquele que preenche tudo em todos”. A acção de Cristo é sem limites, especialmente na ordem salvífica; a todos faz chegar a sua graça, sem a qual ninguém se pode salvar. No entanto, é mais corrente preferir, com a Vulgata, outro sentido a que se presta o original grego: “A Igreja é a plenitude daquele que se vai completando inteiramente em todos os seus membros”; assim, a Igreja completa a Cristo, e Cristo é completado pelos seus membros (é uma questão de entender como passivo, e não médio, o parti­cípio grego plêrouménou, de acordo com o que acontece em outros 87 casos do N. T.).

 

Pode utilizar-se outra, como 2ª leitura:

 

Hebreus 9, 24-28; 10, 19-23

 

24Cristo não entrou num santuário feito por mãos humanas, figura do verdadeiro, mas no próprio Céu, para Se apresentar agora na presença de Deus em nosso favor. 25E não entrou para Se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote que entra cada ano no santuário, com sangue alheio; 26nesse caso, Cristo deveria ter padecido muitas vezes, desde o princípio do mundo. Mas Ele manifestou-Se uma só vez, na plenitude dos tempos, para destruir o pecado pelo sacrifício de Si mesmo. 27E como está determinado que os homens morram uma só vez – e a seguir haja o julgamento –, 28assim também Cristo, depois de Se ter oferecido uma só vez para tomar sobre Si os pecados da multidão, aparecerá segunda vez, sem aparência de pecado, para dar a salvação àqueles que O esperam. 19Tendo nós plena confiança de entrar no santuário por meio do sangue de Jesus, 20por este caminho novo e vivo que Ele nos inaugurou através do véu, isto é, o caminho da sua carne, 21e tendo tão grande sacerdote à frente da casa de Deus, 22aproximemo-nos de coração sincero, na plenitude da fé, tendo o coração purificado da má consciência e o corpo lavado na água pura. 23Conservemos firmemente a esperança que professamos, pois Aquele que fez a promessa é fiel.

 

A leitura é respigada do final da primeira parte de Hebreus em que o autor sagrado expõe a superioridade do sacrifício de Cristo sobre todos os sacrifícios da Lei antiga (8, 1 – 10, 18). Aqui Jesus é apresentado como o novo Sumo Sacerdote da Nova Aliança, em contraste com o da Antiga, que precisava de entrar cada ano – “com sangue alheio” –, no dia da expiação (o Yom Kippur: cf. Ex 16) “num santuário feito por mãos humanas”, ao passo que Jesus entra “no próprio Céu” (v. 24), não precisando de o fazer “muitas vezes” (v. 25-26), pois, “uma só vez” bastou “para destruir o pecado pelo sacrifício de Si mesmo” (v. 26), por meio do seu próprio sangue. Como habitualmente, o autor aproveitando a exposição doutrinal para fazer ricas exortações práticas apela, um pouco mais adiante (10, 19-23), para a virtude da “esperança” de também nós podermos chegar ao Céu, apoiados na certeza das promessas de Cristo. A “água pura” é certamente a do Baptismo (cf. 1 Pe 3, 21), que não pode ser encarado à margem da fé e da pureza da consciência. Notar como a SS. Humanidade de Jesus – “o caminho da sua carne” – é focada como o véu do Templo, o que bem pode evocar a nuvem da Ascensão, que ao mesmo tempo esconde e revela a presença invisível de Cristo ressuscitado.

 

Evangelho São Marcos 16, 15-20

 

Naquele tempo, Jesus apareceu aos onze Apóstolos e disse-lhes: 15«Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16Quem acreditar e for baptizado será salvo mas quem não acreditar será condenado. 17Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome falarão novas línguas, 18se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados». 19E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus. 20Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.

 

A Ascensão de Jesus é referida em S. Marcos com poucas palavras (v. 19b), o que não quer dizer de uma forma mais simples e ou mais primigénea; com efeito, pertence ao apêndice canónico do 3º Evangelho (Mc 16, 9-20, omitido nos manuscritos mais importantes), considerado bastante posterior e uma síntese dos elementos relatados em João, Mateus, Lucas e Actos. Ao prescindir dos pormenores espaciais de Actos (cf. 1ª leitura), este texto ajuda-nos a que nos fixemos no núcleo do mistério, na teologia da Ascensão, uma vez que esta não aparece como uma simples despedida de Jesus, ou um afastamento dos seus, mas sim como a exaltação do “Senhor Jesus” (só aqui Cristo é assim designado em Marcos – v. 19), como a glorificação da sua humanidade, ao ser posto ao mesmo nível da glória, da majestade e do poder de Deus: “sentou-se à direita de Deus” (este pormenor é inexplicavelmente omitido na tradução litúrgica). Por outro lado, não é Jesus que deixa os seus, mas é o Pai que o arrebata para o Céu (v. 19 –“foi levado” da tradução litúrgica é menos expressivo); “foi elevado”, na voz passiva, pressupõe Deus como o sujeito da acção, tratando-se de uma maneira de dizer muito judaica, com o fim de, por respeito, evitar pronunciar o nome divino.

Como em Actos, a Ascensão de Jesus aparece intimamente ligada à missão universal dos discípulos – “ide a todo o mundo” (v 15) –, deixando ver que a partir de agora temos o começo da acção da Igreja: “e eles partiram a pregar por toda a parte” (v. 20).

 

 

7º Domingo de Páscoa

 

1ª leitura Actos dos Apóstolos 1, 15-17.20a.20c-26

 

15Naqueles dias, estavam reunidas cerca de cento e vinte pessoas. Pedro levantou-se no meio dos irmãos e disse: 16«Irmãos, era necessário que se cumprisse o que o Espírito Santo anunciou na Escritura, pela boca de David, a respeito de Judas, que foi o guia dos que prenderam Jesus. 17Na verdade, era um dos nossos e foi-lhe atribuída uma parte neste ministério. 20aEstá escrito no Livro dos Salmos: 20c'Receba outro o seu cargo'. 21É necessário, portanto, que de entre os homens que estiveram connosco durante todo o tempo que o Senhor Jesus viveu no meio de nós, 22desde o baptismo de João até ao dia em que do meio de nós foi elevado ao Céu, um deles se torne connosco testemunha da sua ressurreição.23Apresentaram dois: José, chamado Barsabás, de sobrenome Justo, e Matias. 24E oraram nestes termos: 'Senhor, que conheceis o coração de todos os homens, indicai-nos qual destes dois escolhestes 25para ocupar, no ministério apostólico, o lugar que Judas abandonou, a fim de ir para o seu lugar'. 26Deitaram sortes sobre eles e a sorte caiu em Matias que foi agregado aos onze Apóstolos.»

 

O relato da eleição de Matias para o lugar de Judas põe em relevo características importantes da constituição da Igreja de Cristo. Refazer o número doze dos Apóstolos mostra-se extraordinariamente importante para que se perceba que a Igreja é o novo povo de Deus, assente não em doze tribos, mas num colégio de doze homens eleitos por Deus. Por outro lado, deixa-se ver como Pedro é o chefe do Colégio Apostólico, ao tomar uma iniciativa tão importante: “Pedro levantou-se no meio dos irmãos” (v. 15). É de notar como Lucas dá importância à figura de Pedro na sua obra, pois este aparece sempre como figura central dos episódios em que intervém juntamente com os outros Apóstolos ou com os discípulos (cf. Act 2, 14, 37; 3, 3-26; 4, 8.19; 5, 2-9.29; 8, 14.20…); é ele quem primeiramente admite os gentios na Igreja  (Act 10 – 11) e quem no Concílio dos Apóstolos intervém primeiramente, como quem marca o rumo a tomar (Act 15, 6-11).

21-22 “Testemunha da Ressurreição” de Jesus era uma condição essencial para os candidatos ao lugar de Judas, pois era isto o que mais garantia podia dar ao testemunho que o Apóstolo tinha a dar.

 

2ª leitura 1 Jo 4, 11-16

(Veja-se o comentário feito atrás para esta mesma leitura alternativa do 6º Domingo de Páscoa)

 

Evangelho Jo 17, 11b-19

(Veja-se o comentário feito acima para esta mesma leitura alternativa do 6º Domingo de Páscoa)

 

 

Domingo de Pentecostes – Missa da Vigília

 

Primeira Leitura Ezequiel 37, 1-14

 

Naqueles dias, 1a mão do Senhor pairou sobre mim e o Senhor levou-me pelo seu espírito e colocou-me no meio de um vale que estava coberto de ossos. 2Fez-me andar à volta deles em todos os sentidos: os ossos eram em grande número, na superfície do vale, e estavam completamente ressequidos. 3Disse-me o Senhor: «Filho do homem, poderão reviver estes ossos?» Eu respondi: «Senhor Deus, Vós o sabeis». 4Disse-me então: «Profetiza acerca destes ossos e diz-lhes: Ossos ressequidos, escutai a palavra do Senhor. 5Eis o que diz o Senhor Deus a estes ossos: Vou introduzir em vós o espírito e revivereis. Hei-de cobrir-vos de nervos, encher-vos de carne e revestir-vos de pele. 6Infundirei em vós o espírito e revivereis. Então sabereis que Eu sou o Senhor».7Eu profetizei, segundo a ordem recebida. Quando eu estava a profetizar, ouvi um rumor e vi um movimento entre os ossos que se aproximavam uns dos outros. 8Vi que se tinham coberto de nervos, que a carne crescera e a pele os revestia; mas não havia espírito neles. 9Disse-me o Senhor: «Profetiza ao espírito, profetiza, filho do homem, e diz ao espírito: Eis o que diz o Senhor Deus: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e sopra sobre estes mortos, para que tornem a viver». 10Eu profetizei, como o Senhor me ordenara, e o espírito entrou naqueles mortos; eles voltaram à vida e puseram-se de pé: era um exército muito numeroso. 11Então o Senhor disse-me: «Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eles afirmaram: ‘Os nossos ossos estão ressequidos, desvaneceu-se a nossa esperança, estamos perdidos’. 12Por isso, profetiza e diz-lhes: Assim fala o Senhor Deus: Abrirei os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel. 13Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor, quando Eu abrir os vossos túmulos e deles vos fizer ressuscitar, meu povo. 14Infundirei em vós o meu espírito e revivereis. Hei-de fixar-vos na vossa terra e reconhecereis que Eu, o Senhor, digo e faço».

 

A leitura é tirada da última parte da obra de Ezequiel, que, a partir do cap. 33, reúne oráculos de esperança e de renovação do povo (36, 16 – 39, 29) e de restauração templo e do culto (40 – 48).

12 “Vos farei ressuscitar”. Não se trata aqui da ressurreição final, mas do ressurgimento moral do povo de Deus, que, esmagado pelas duras provas do cativeiro, se ergue de novo e é reconduzido à terra de Israel, segundo a célebre visão dos ossos relatada nos primeiros versículos deste mesmo capítulo.

14 “Infundirei em vós o meu espírito” (cf. Ez 36, 27). Temos aqui um anúncio profético da acção do Espírito Santo nas almas com a obra salvadora de Cristo: “dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo; arrancarei o coração de pedra das vossas carnes e dar-vos-ei um coração de carne” (Ez 36, 26). S. Paulo, como faz na 2.ª leitura de hoje, há-de insistir nesta ideia da acção do Espírito Santo nas almas dos cristãos (Rom 8).

 

Segunda Leitura Romanos 8, 22-27

 

Irmãos: 22Nós sabemos que toda a criatura geme ainda agora e sofre as dores da maternidade. 23E não só ela, mas também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos interiormente, esperando a adopção filial e a libertação do nosso corpo. 24É em esperança que estamos salvos, pois ver o que se espera não é esperança: quem espera o que já vê? 25Mas esperar o que não vemos é esperá-lo com perseverança. 26Também o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos o que pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. 27E Aquele que vê no íntimo dos corações conhece as aspirações do Espírito, sabe que Ele intercede pelos santos, em conformidade com Deus.

 

22 “Toda a criatura geme”. S. Paulo usa de uma belíssima prosopopeia, propon­do-nos a criação irracional a suspirar também pela restauração da ordem do mundo transtornado pelo pecado. Na medida em que os filhos de Deus santificam o mundo, todas as actividades terrenas, também estas participam da glória dos filhos de Deus. De qualquer modo, o texto é de difícil interpretação, sobre a qual não há acordo entre os estudiosos.

23 “Possuímos as primícias do Espírito”, isto é, já possuímos o Espírito Santo, “mas sem que tenhamos ainda tudo o que esta posse desde já nos garante” (Pirot-Clamer); embora já sejamos filhos adoptivos de Deus (vv. 14-15), vivemos “esperando a adopção filial” em plenitude, o que acontecerá só quando se vier a verificar “a libertação do nosso corpo”, isto é, de tudo o que em nós é carnal, sujeito à corrupção e à morte (cf. 2 Cor 5, 1-5).

26 “Gemidos inefáveis”. As íntimas moções da graça, as inspirações do Espírito Santo na alma, não se podem definir, nem sequer descrever.

 

Evangelho São João 7, 37-39

 

7No último dia, o mais solene da festa, Jesus estava de pé e exclamou: «Se alguém tem sede, venha a Mim e beba: 38do coração daquele que acredita em Mim correrão rios de água viva». 39Referia-se ao Espírito que haviam de receber os que acreditassem n’Ele. O Espírito ainda não viera, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado.

 

Em cada um dos oito dias da festa dos Tabernáculos, em solene procissão, o sumo sacerdote trazia, numa jarra de oiro, água da fonte de Siloé para aspergir o altar do Templo, a fim de recordar a prodigiosa água do Êxodo e pedir chuva abundante (cf. Ex 17, 1-7). Pertenciam ao rito o canto de Is 12, 3 e a leitura de Ez 47. Não podia haver melhor enquadramento para as palavras de Jesus à multidão que então se aglomerava: “se alguém tem sede, venha a Mim!”. As palavras de Jesus parecem aludir a Ez 36, 25ss, onde se anuncia para os tempos messiânicos que o povo será purificado com uma água pura, recebendo um Espírito novo, que lhe transformará o coração de pedra; essa água é o Espírito Santo, que brotará simbolicamente do peito do Senhor aberto pela lança (cf. Jo 19, 34), se derramará no Pentecostes (Act 2, 1-36) e se recebe nos Sacramentos da iniciação cristã. Nas palavras de Jesus também se pode ver uma evocação do convite da sabedoria divina em Sir, 24, 19 e Prov 9, 4-5.

Notar que gramaticalmente são possíveis duas pontuações diferentes dos vv. 37-38: a da Neovulgata (a que corresponde a tradução litúrgica), a saber, “Se alguém tem sede, venha a Mim; e quem crê em Mim que sacie a sua sede! Como diz a Escri­tu­ra…”, e a que corresponde à Vulgata, “Se alguém tem sede, venha ter comigo e beba. Aquele que crê em Mim, como diz a Escritura, correrão das suas entranhas rios de água viva”. Segundo a primeira interpretação, trata-se do seio do Messias: do peito de Cristo, atravessado pela lança, vem-nos o Espírito Santo, como fruto maravilhoso da árvore da Cruz. Na segunda interpretação, trata-se do seio do crente, a alma do homem santificado por Cristo.

 

Domingo de Pentecostes – Missa do Dia

 

Primeira Leitura Actos dos Apóstolos 2, 1-11

 

1Quando chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar. 2Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. 3Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. 4Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem. 5Residiam em Jerusalém judeus piedosos, procedentes de todas as nações que há debaixo do céu. 6Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou muito admirada, pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua. 7Atónitos e maravilhados, diziam: «Não são todos galileus os que estão a falar? 8Então, como é que os ouve cada um de nós falar na sua própria língua? 9Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, 10da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, 11tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus».

 

1 “Pentecostes” significa, em grego, quinquagésimo (dia depois da Páscoa). Os Judeus chamavam-lhe festa das Semanas (em hebraico, xevuôth, 7 semanas depois da Páscoa). Era uma festa em que se ofereciam a Deus as primícias das colheitas, num gesto de acção de graças. Mais tarde, os rabinos também lhe deram o sentido da comemoração da promulgação da Lei no Sinai.

3 “Línguas de fogo que se iam dividindo”. O fogo toma esta forma talvez para signi­ficar o dom das línguas. Esta nova divisão das línguas tem a finalidade de unir os homens numa mesma fé e não de os separar com aquela divisão das línguas de que se fala no Génesis (11, 1-9).

4 “Começaram a falar outras línguas”. Jesus tinha anunciado este prodígio, até então desconhecido (cf. Mc 16, 17). Trata-se de um fenómeno sobrenatural, não dum simples fenómeno de exaltação. No entanto, não há total acordo entre os exegetas para explicar o milagre das línguas do Pentecostes. A explicação mais habitual é que os Apóstolos falaram então verdadeiros idiomas novos (cf. Mc 16, 17), mas em Actos não se fala de línguas novas (kainais), como em Marcos, mas de línguas diferentes (cf. v. 4: hetérais). Alguns dizem que o milagre estava nos ouvintes, que ouviam na própria língua das terras donde vinham (v. 8) aquilo que os Apóstolos diziam em aramaico. Outros, especialmente nos nossos dias, põe este milagre em relação com o dom das línguas, ou glossolalia, carisma de que se fala em 1 Cor 14, 2-33: seria um tipo de oração extática, especialmente de louvor, em que se articulavam sons ininteligíveis (algo parecido com aquele fenómeno místico a que Santa Teresa de Jesus chama “embriaguez espiritual, júbilo místico”); sendo assim, o que aconteceu de particular no dia do Pentecostes, foi que não era preciso um intér­prete (como em 1 Cor 14, 27-28) para que os ouvintes entendessem o que diziam os Apóstolos: os ouvintes de boa fé receberam o dom de interpretar o que os Apóstolos diziam, ao passo que os mal dispostos diziam que eles estavam ébrios (v. 13). De qualquer modo, em Actos nunca se diz que a pregação de Pedro (cf. vv. 14-36) foi em línguas; o discurso aparece como posterior a este fenómeno referido no v. 4; em línguas poderia ser algum tipo de oração de louvor…

9-11 Temos aqui uma vasta referência às diversas procedências dos judeus da diáspora: uns teriam mesmo vindo em peregrinação, outros seriam emigrantes que se tinham fixado na Palestina. De qualquer modo, esta enumeração bastante exaustiva e ordenada (a partir do Oriente para Ocidente) pretende pôr em evidência a universalidade da Igreja, que é católica logo ao nascer, destinada a todos os homens de todas as procedências, manifestando-se esta catolicidade na capacidade que todos têm para captar e aderir à pregação apostólica. Por outro lado, também a unidade da Igreja se deixa ver na única mensagem e no único Baptismo que todos recebem; como se lê na 2.ª leitura de hoje, (v. 13) “a todos nos foi dado beber um único Espírito”.

 

Segunda Leitura 1 Coríntios 12, 3b-7.12-13

 

Irmãos: 3bNinguém pode dizer «Jesus é o Senhor», a não ser pela acção do Espírito Santo. 4De facto, há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. 5Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. 6Há diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. 7Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. 12Assim como o corpo é um só e tem muitos membros e todos os membros, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim também sucede com Cristo. 13Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos baptizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo. E a todos nos foi dado a beber um único Espírito.

 

O contexto em que fala S. Paulo aos Coríntios é o de certa confusão que reinava na comunidade acerca dos carismas, em especial os de linguagem. Para começar avança com um critério de discernimento: que quem fala o faça de acordo com a verdadeira fé: “Jesus é o Senhor” é a confissão de fé na divindade de Jesus. Senhor equivale a Yahwéh na tradução grega dos LXX para o nome divino. Um acto de fé não se pode fazer só pelas próprias forças, é fruto da graça do Espírito Santo, que pelos seus dons, especialmente o do entendimento e o da sabedoria aperfeiçoam essa mesma fé.

4-5 Pertence à essência da vida da Igreja haver sempre, diversidade de dons espirituais (carismas), ministérios e operações. Estas três designações referem-se fundamentalmente aos mesmos dons de Deus em favor da edificação da Igreja, mas cada um destes três nomes foca um aspecto: a sua gratuidade, a sua utilidade e a sua manifestação do poder actuante de Deus. S Paulo apropria cada um destes aspectos a cada uma das três Pessoas divinas. Toda esta diversidade e variedade de dons procede da unidade divina e con­corre para que a unidade a Igreja – um só Corpo (v. 13) – seja mais rica. O Concílio Vaticano II – L. G. 12 – recorda normas práticas acerca destes carismas, ou dons que Deus concede aos fiéis para “renovação e cada vez mais ampla edificação da Igreja, para o bem comum” (v. 7). E diz que os dons extraordinários não se devem pedir temerariamente, nem deles se devem esperar, com presunção, os frutos das obras apostólicas; e o juízo acerca da sua autenticidade e recto uso, pertence àqueles que presidem na Igreja, a quem compete de modo especial não extinguir o Espírito, mas julgar e conservar o que é bom (cf. 1 Tes 5, 12.19-21). Não se pode opor o carismático ao jerárquico: a vida da Igreja, que se expande pelos carismas, tem que se manter na esfera da verdade, garantida pela Hierarquia, a fim de que seja verdadeira vida, e não mera excrescência doentia e anormal, porventura um princípio de auto-destruição.

12 “Assim como o corpo...”. A comparação não é original, mas da literatura profana. S. Paulo adapta-a maravilhosamente à Igreja, concebida como um corpo onde não pode haver rivalidades e divisão: “um só corpo”. Aqui está latente a doutrina do Corpo Místico explanada em Colossenses e Efésios, mas ainda não se considera de facto a Igreja universal, o Corpo de Cristo, apenas se considera que os cristãos de Corinto são um organismo – um corpo – dependente de Cristo e com a mesma vida de Cristo (v. 27).

13 “E a todos nos foi dado beber um único Espírito”. Os exegetas em geral, tendo em conta que no v. anterior já se tinha falado do Baptismo, pensam haver aqui uma referência ao Sacramento da Confirmação, pois então estes Sacramentos se costumavam receber juntos (cf. Act 19, 5-6).

 

Evangelho São João 20, 19-23

 

19Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». 20Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. 21Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». 22Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: 23àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

 

Este texto foi escolhido por nele se falar também de uma comunicação do Espírito Santo, esta no dia de Páscoa, e que permite à Igreja o exercício de uma das principais concretizações da sua missão salvífica: o perdão dos pecados por meio do Sacramento da Reconciliação. (Ver atrás os comentários feitos para o 2.º Domingo da Páscoa). Aqui limitamo-nos a citar um belo texto da Declaração Ecuménica das Igrejas Cristãs (Upsala 1968), baseada num conhecido texto patrístico: “Sem o Espírito Santo, Deus fica longe; Cristo pertence ao passado, o Evangelho é letra morta; a Igreja, mais uma organização; a autoridade, um domínio; a missão, uma propaganda; o culto, uma evocação; o agir cristão, uma moral de escravos. Mas, com o Espírito Santo, o cosmos eleva-se e geme na infância do Reino; Cristo ressuscita e é alento de vida; a Igreja é comunhão trinitária; e a autoridade, serviço libertador; a missão é Pentecostes; e o culto, memorial e antecipação; o agir humano torna-se realidade divina”.

 

S. José Operário

 

Primeira Leitura Gn 1, 26-31; 2, 1-3

 

A primeira página da Escritura apresenta-nos Deus não apenas como um trabalhador que descansa após uma semana de trabalho, mas como o Criador de tudo e o Senhor soberano e providente que tudo orienta para a sua obra prima, o ser humano, criado à sua “imagem e semelhança”. No texto, o ser humano aparece como um ser pessoal, interlocutor de Deus. Como comentário desta rica expressão, limitamo-nos a transcrever a síntese do Catecismo da Igreja Católica: “Porque é à imagem de Deus, o indivíduo humano possui a dignidade de pessoa: ele não é somente alguma coisa, mas alguém. É capaz de se conhecer, de se possuir e de livremente se dar e entrar em comunhão com outras pessoas. E é chamado, pela graça, a uma aliança com o seu Criador, a dar-Lhe uma resposta de fé e amor que nenhum outro pode dar em seu lugar” (nº 357). Note-se que neste texto inspirado se proclama, pela primeira vez na história da humanidade, a igual dignidade do homem e da mulher, pois ambos são igualmente imagem e semelhança de Deus (v. 27). Também na comunhão de pessoas, homem e mulher (no matrimónio), se reflecte a imagem de Deus; fazendo finca-pé na expressão “e disse-lhes” (esta força expressiva aparece diluída no “dizendo” da tradução litúrgica do v. 28), João Paulo II comenta: “O homem acolhe a palavra de Deus como pessoa, e como tal tem de orientar o exercício da sexualidade; a geração não é fruto do instinto inscrito da natureza, como no caso dos animais, mas um acto de resposta pessoal a Deus que lhe disse: crescei e multiplicai-vos”. Por outro lado, também no trabalho o homem manifesta a sua condição de imagem de Deus.

 

Ou  Col 3, 14-15.17.23-24

 

14 “A caridade, que é o vinculo da perfeição”. Eis o comentário de S. João Crisóstomo: “O Apóstolo não diz a caridade é a coroa, mas sim algo com maior alcance, o vínculo, pois que este é mais necessário do que aquela; com efeito, uma coroa culmina a per­feição, ao passo que o vínculo mantém juntas as partes da perfeição”.

15 “A paz de Cristo reine....”: O original grego (bravenétô) significa “seja o árbitro” (a Neovulgata traduz dominetur; a Vulgata, exultet). O mesmo Crisóstomo exclama: “o Apóstolo coloca nos nossos corações um estádio, jogos, e um árbitro! Realmente, se no coração do cristão falta a paz de Cristo, não só não pode haver ordem nas intenções e afectos, como também se torna difícil encaminhar os múltiplos afazeres para a glória de Deus” (cf. 1 Cor 10, 31).

17 “Seja tudo em nome do Senhor Jesus”. Deve-se fazer tudo, concretamente o trabalho, com os mesmos sentimentos de Jesus (cf. Fil 2, 5), como faria Jesus, se estivesse no nosso lugar! Assim, será feito “de boa vontade, como quem serve o Senhor” (v. 23).

 

Evangelho Mt 13, 54-58

 

55 “O filho do carpinteiro”. É o único lugar do Evangelho onde aparece a profissão de S. José. Provavelmente ele era o artesão que na aldeia de Nazaré realizava vários tipos de ofícios manuais: tanto forjaria o ferro, como construiria móveis ou arados para lavrar. Em Mc 6, 3, a mesma profissão é aplicada ao próprio Jesus, mas, ao não ter relatado a sua concepção virginal, Marcos tem o cuidado de não o chamar filho de José, como fazem Mateus aqui e Lucas no lugar paralelo (Lc 4, 22).

“Os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas”. Nas antigas línguas semíticas, hebraico, árabe, arameu, etc., não era costume usarem-se palavras diferentes para indicar os diversos graus de parentesco, como nas nossas línguas modernas (cf. Gn 13, 8; 14, 14.16; 29, 15; Tob 7, 9-11). Os que pertenciam à mesma família, clã, ou tribo, eram chamados “irmãos”. Estes irmãos de Jesus não são filhos da Virgem Maria; a fé da Igreja na sua perpétua virgindade é confirmada pelos lugares paralelos dos Evangelhos; com efeito, os dois primeiros irmãos aqui nomeados, Tiago e José, eram filhos de uma outra Maria, a esposa de Cléofas, segundo se diz em Mt 27, 56; Mc 15, 40.47; Jo 19, 25; os outros dois irmãos, Simão e Judas, ao serem nomeados em segundo lugar, com mais razão seriam simples primos de Jesus. O facto de em Israel haver uma mesma palavra para designar toda a espécie de parentes leva a que, quando se nomeia em Jo 1, 41 Simão como irmão de André, se acrescente o adjectivo próprio (ídios), para que se veja que se trata de um verdadeiro irmão, no sentido próprio, e não apenas de um simples parente.

 

Visitação de Nª Senhora

 

Primeira Leitura Sof 3, 14-18

 

O texto profético visa directamente e em primeiro plano a restauração de Israel (Sof 3, 9-20; cf. Is 54; 60; 62), a partir de um “resto”, humilde e pobre”, que permanece fiel (Sof 3, 12-13; cf. Lc 1, 48, do Evangelho de hoje) e constitui um belíssimo canto de esperança (pouco importa a discussão acerca da época da redacção do texto, se a de Josias – Sof 1, 1 –, se a do terceiro Isaías). A Liturgia, na linha dos Padres da Igreja, aplica este texto à Virgem Maria, pois de ninguém como dela se pode dizer com tanta verdade: “O Senhor, teu Deus, está no meio de ti” (v. 17; cf. Lc 1, 28). E as expressões com que se relata a Anunciação no Evangelho de S. Lucas fazem eco às palavras proféticas: “avè (khaire/alegra-te) = exulta, rejubila ” (Lc 1, 30; Sof 3, 16); “não temas” (Lc 1, 28; Sof 3, 14); = “o Senhor é convosco” = “o Senhor está no meio de ti” (Lc 1, 28; Sof 3, 17). A “Filha de Sião” (v. 14) a personifica os habitantes de Jerusalém, noutros lugares chamada “virgem filha de Sião”, tornou-se uma figura da Virgem Santa Maria.

 

Evangelho Lc 1, 39-56

 

Os exegetas descobrem neste relato uma série de ressonâncias vétero-testementárias, o que corresponde não apenas ao estilo do hagiógrafo, mas sobretudo à sua intenção teológica de mostrar como na Mãe de Jesus se cumprem as figuras do A.T.: Maria é a verdadeira e nova Arca da Aliança (comparar Lc 1, 43 com 2 Sam 6, 9 e Lc 1, 56 com 2 Sam 6, 11) e a verdadeira salvadora do povo, qual nova Judite (comparar Lc 1, 42 com Jdt 13, 18-19) e qual nova Ester (Lc 1, 52 e Est 1 – 2).

39 “Uma cidade de Judá”. A tradição diz que é Ain Karem, uma bela povoação a 6 Km a Oeste da cidade nova de Jerusalém. De qualquer modo, ficaria a uns quatro dias de viagem de Nazaré. Maria empreende a viagem movida pela caridade e espírito de serviço. A “Mãe do meu Senhor” (v. 43) não fica em casa à espera de que os Anjos e os homens venham servir a sua rainha; e Ela mesma, que se chama “escrava do Senhor” (v. 38), “a sua humilde serva” (v. 48), apressa-se em se fazer a criada da sua prima e de acudir em sua ajuda. Ali permanece, provavelmente, até depois do nascimento de João, uma vez que S. Lucas nos diz que “ficou junto de Isabel cerca de três meses”.

42 “Bendita és Tu entre as mulheres”. Superlativo hebraico: a mais bendita de todas as mulheres.

43-44 “A Mãe do meu Senhor”. As palavras de Isabel são proféticas, fruto duma luz sobrenatural que lhe fez ver que o mexer-se do menino no seu seio (v. 41) não era casual, mas que “exultou de alegria” para saudar também o Messias e sua Mãe.

46-55 O cântico de Nossa Senhora, o Magnificat, é um poema de extraordinária beleza poética e elevação religiosa. Dificilmente se poderiam ficar melhor expressos os sentimentos do coração da Virgem Maria – “a mais humilde e a mais sublime das criaturas” (Dante, Paraíso, 33, 2) –, em resposta à saudação mais elogiosa (vv. 42-45) que jamais se viu em toda a Escritura. É como se Maria dissesse que não havia motivo para uma tal felicitação: tudo se deve à benevolência, à misericórdia e à omnipotência de Deus. Sem qualquer referência ao Messias, refulge aqui a alegria messiânica da sua Mãe num magnífico hino de louvor e de agradecimento. O cântico está todo entretecido de reminiscências bíblicas, sobretudo do cântico de Ana (1 Sam 2, 1-10) e dos Salmos (35, 9; 31, 8; 111, 9; 103, 17; 118, 15; 89, 11; 107, 9; 98, 3); cf. também Hab 3, 18; Gn 29, 32; 30, 13; Ez 21, 31; Si 10, 14; Mi 7, 20. Ao longo dos tempos, muitos e belos comentários se fizeram ao Magnificat, e também nos nossos dias, como o do Pastor evangélico Hardy Meyer; mas, pelo contrário, também é conhecida a abordagem libertadora, em clave marxista de luta de classes, utópica e de cariz materialista, falsificadora do genuíno sentido bíblico, de que se faz eco a Bíblia Pastoral (São Paulo), ao dizer: “Deus assume o partido dos pobres e realiza uma transformação na história, invertendo a ordem social: os ricos e os poderosos são depostos e despojados e os pobres e oprimidos são libertos e assumem a direcção dessa nova história”. No pólo oposto está o comentário da Encíclica Redemptoris Mater, nº 36: “Nestas sublimes palavras… vislumbra-se a experiência pessoal de Maria, o êxtase do seu coração; nelas resplandece um raio do mistério de Deus, a glória da sua santidade inefável, o amor eterno que, como um dom irrevogável, entra na história do homem”.