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"et quasi flos rosarum in diebus vernis" (Sir. 50,8) 

 

 

 

CELEBRAÇÃO - ANO B

1.º Dom  Advento a 8.ºDom Comum

Quarta-feira de Cinzas a  Páscoa

2.º Dom da Páscoaa Dom de Pentecostes

Santíssima Trindade a 17º Dom Comum

Transfiguração do Senhor a 26.º Dom Comum

27.º Dom Comum a Cristo, Rei

 

Notas Bíblicas – Geraldo Morujão - 1.º Dom Advento a 8.ºDom Comum

 

1.º Domingo do Advento

Isaías 63,16b-17.19b; 64, 2b-7

1 Coríntios 1, 3-9

São Marcos 13, 33-37

 

2.º Domingo do Advento

Isaías 40, 1-5.9-11

2 São Pedro 3, 8 14

São Marcos 1, 1-8

 

Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

Génesis 3, 9-15.20

Efésios 1, 3-6.11-12

São Lucas 1, 26-38

 

3.º Domingo do Advento

Isaías 61, 1-2a.10-11 1 Tessalonicenses 5, 16-24

São João 1, 6-8.19-28

 

4.º Domingo do Advento

2 Samuel 7, 1-5.8b-12.14a.16

Romanos 16, 25-27Lc 1, 26-38

 

Natal do Senhor (Missa da Vigília)

Isaías 62, 1-5

Actos 13, 16-17.22-25

São Mateus 1, 1-25  

 

Natal do Senhor (Missa da Meia-Noite)

Isaías 9, 1-6

Tito 2, 11-14

São Lucas 2, 1-14

 

Natal do Senhor (Missa da Aurora)

Isaías 62, 11-12

Tito 3, 4-7

São Lucas 2, 15-20

 

Natal do Senhor (Missa do Dia)

Isaías 52, 7-10

Hebreus 1, 1-6

São João 1, 1-18    

 

Sagrada Família de Jesus, Maria e José

Ben-Sirá 3, 3-7.14-17a (gr. 2-6.12-14)

Colossenses 3, 12-21

São Mateus 2, 13-15.19-23

 

Santa Maria Mãe de Deus

Números 6, 22-27

Gálatas 4, 4-7

São Lucas 2, 16-21

 

Epifania do Senhor

Isaías 60, 1-6

Efésios 3, 2-3a.5-6

São Mateus 2, 1-12

 

Baptismo do Senhor

Isaías 42, 1-4.6-7

Actos dos Apóstolos 10, 34-38

São Marcos 1, 7-11

 

2.º Domingo Comum

1 Samuel 3, 3b-10.191

Coríntios 6, 13c-15a.17-20

São João 1, 35-42

 

3.º Domingo Comum

Jonas 3, 1-5.101

Coríntios 7, 29-31

São Marcos 1, 14-20

 

4.º Domingo Comum

 Deuteronómio 18, 15-20

1 Coríntios 7, 32-35

São Marcos 1, 21-28

 

Apresentação do Senhor

Malaquias 3, 1-4

Hebreus 2, 14-18

Lc 2, 22-40

 

5.º Domingo Comum

Job 7, 1-4.6-7

1 Coríntios 9, 16-19.22-23

São Marcos 1, 29-39

 

6.º Domingo Comum

Levítico, 13, 1-2.44-46

1 Coríntios 10, 31 – 11, 1

São Marcos 1, 40-45

 

7.º Domingo Comum

Isaías 43, 18-19.21-22.24b-25

2 Coríntios 1, 18-22

São Marcos 2, 1-12

 

8.º Domingo Comum

Oseias 2, 16b.17b.21-22

2 Coríntios 3, 1b-6

São Marcos 2, 18-22

 

 in Celebração Litúrgica

1.º Domingo do Advento

1ª Leitura Isaías 63, 16b-17.19b; 64, 2b-7

13bVós, Senhor, sois nosso Pai e nosso Redentor, desde sempre, é o vosso nome. 17Porque nos deixais, Senhor, desviar dos vossos caminhos e endurecer o nosso coração, para que não Vos tema? Voltai, por amor dos vossos servos e das tribos da vossa herança. 19bOh, se rasgásseis os céus e descêsseis! Ante a vossa face estremeceriam os montes! 2bMas Vós descestes e perante a vossa face estremeceram os montes. 3Nunca os ouvidos escutaram, nem os olhos viram que um Deus, além de Vós, fizesse tanto em favor dos que n’Ele esperam. 4Vós saís ao encontro dos que praticam a justiça e recordam os vossos caminhos. Estais indignado contra nós, porque pecámos e há muito que somos rebeldes, mas seremos salvos. 5Éramos todos como um ser impuro, as nossas acções justas eram todas como veste imunda. Todos nós caímos como folhas secas, as nossas faltas nos levavam como o vento. 6Ninguém invocava o vosso nome, ninguém se levantava para se apoiar em Vós, porque nos tínheis escondido o vosso rosto e nos deixáveis à mercê das nossas faltas. 7Vós, porém, Senhor, sois nosso Pai e nós o barro de que sois o Oleiro; somos todos obra das vossas mãos.

O texto desta leitura, tirado do Terceiro Isaías (Is 56 – 66), é um veemente e comovente apelo à misericórdia de Deus, de grande afinidade com alguns Salmos, e também um hino ao seu amor de Pai.

16b «Nosso Pai». Já no A. T. Deus é designado Pai, mas é no N. T. que se revela o sentido profundo da sua paternidade e sobretudo a nossa condição de «filhos no Filho». «E nosso Redentor» (goél, em hebraico). A Deus é dado o mesmo nome que se dava ao parente mais próximo encarregado de defender a pessoa oprimida e necessitada: o goél tinha obrigação de resgatar quem caísse na escravidão, de resgatar uma propriedade, de vingar o sangue dum parente assassinado, e até de obviar à falta de filhos de uma viúva dum parente, casando com ela. Quando se designa a Deus Redentor (goél) de Israel, indica-se que Yahwéh é o responsável pela defesa do povo que elegeu para si. Chamar-lhe Redentor é apelar para a sua segura defesa e protecção.

19 «Oh, se rasgásseis os céus e descêsseis!» A Liturgia do Advento aplica este texto à vinda de Deus à terra no mistério da Incarnação: Jesus Cristo é o próprio Deus que vem resgatar-nos do pecado e da perdição eterna.

1-2a.5-6 «Pecámos». Os primeiros versículos do capítulo 64 são obscuros, traduzidos de diversos modos (a versão litúrgica atém-se basicamente ao texto oficial da Neovulgata). Uma ideia, porém, fica clara: o reconhecimento das culpas é o ponto de partida para o veemente apelo do Profeta à misericórdia divina. Também não se poderia exprimir com mais veemência a repugnante situação de impureza do pecador perante Deus: «as nossas acções justas eram todas como veste imunda» (a Vulgata traduz à letra o original hebraico bem expressivo e realista – «pannus menstruatæ» –, que, para não ferir a sensibilidade de algum leitor, a Neovulgata suavizou para «pannus inquinatus», «um trapo sujo»). A confissão humilde dos nossos pecados é também uma atitude básica para preparar o Natal, aliás este poderia ficar reduzido a um bonito folclore, mas vazio.

8 «Nós o barro...» Esta imagem tão frequente na Escritura (cf. Is 29, 16; 30, 14; 45, 9; Jer 18, 1-6; 19, 1-13; Sir 33, 13; Rom 9, 9-20-21) é muito expressiva, pois, por um lado, exprime a fragilidade do homem, por outro, o domínio total de Deus sobre nós. Pode-se tirar partido da imagem para falar da docilidade à acção do Espírito Santo na alma, a fim de que Deus possa moldar-nos segundo a imagem de Cristo, que quer «nascer» em nós.

2ª leitura 1 Coríntios 1, 3-9

Irmãos: 3A graça e a paz vos sejam dadas da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. 4Dou graças a Deus, em todo o tempo, a vosso respeito, pela graça divina que vos foi dada em Cristo Jesus. 5Porque fostes enriquecidos em tudo: em toda a palavra e em todo o conhecimento; 6e deste modo, tornou-se firme em vós o testemunho de Cristo. 7De facto, já não vos falta nenhum dom da graça, a vós que esperais a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo. 8Ele vos tornará firmes até ao fim, para que sejais irrepreensíveis no dia de Nosso Senhor Jesus Cristo. 9Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão com seu Filho, Jesus Cristo, Nosso Senhor.

S. Paulo, nas suas cartas, utiliza o formulário epistolar greco-romano. A leitura de hoje contém a segunda parte (vv. 3-9) do início (a præscriptio) da sua carta, deixando de parte os vv. 1-2 (o remetente, a superscriptio – «Paulo e Sóstenes», e os destinatários, a adscriptio: «à Igreja de Deus que está em Corinto…»). A nossa leitura começa no v. 3, com a saudação (salutatio). A saudação judaica era «a paz!» (a que muitas vezes acrescentavam «a bênção»; a sudação entre os gregos era «alegra-te!» khaire / khairein; entre os romanos era «tem saúde!, salutem). Paulo utiliza simultaneamente a saudação grega e a judaica, mas dando-lhes um novo sentido, o sentido cristão; assim não diz khairein (alegria), mas sim kháris (graça); e a sudação «paz» é especificada acrescentando «da parte de Deus… e do Senhor Jesus», pondo assim em evidência o dom gratuito da salvação que vem de Deus por Jesus. Como era corrente à saudação segue-se um agradecimento, mas aqui é «a Deus» que Paulo agradece os dons concedidos à comunidade de Corinto (vv. 4-7).

7-8 «Esperais a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo». É a manifestação que corresponde ao «dia de Nosso Senhor Jesus Cristo», o dia da segunda e última vinda de Jesus, para o julgamento final de todos os homens (cf. Mt 25, 31-46). Em cada festa de Natal toda a Igreja recorda e revive a primeira vinda do Senhor e antecipa e prepara a sua segunda vinda (a parusía, assim chamada noutros lugares), ou manifestação [apokálypsis]. Pensa-se que S. Paulo, nalgum momento, poderia mesmo ter chegado a participar da esperança que havia entre os primeiros cristãos de uma vinda próxima de Jesus; com efeito, sendo estes conscientes de que em Jesus se dava o culminar da história da salvação, não podiam imaginar que Ele pudesse tardar a sua manifestação definitiva; com efeito, do plano teológico era fácil resvalar para o plano cronológico; mas isto nunca foi objecto propriamente do ensino apostólico.

Evangelho São Marcos 13, 33-37

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 33«Acautelai-vos e vigiai, porque não sabeis quando chegará o momento. 34Será como um homem que partiu de viagem: ao deixar a sua casa, deu plenos poderes aos seus servos, atribuindo a cada um a sua tarefa, e mandou ao porteiro que vigiasse. 35Vigiai, portanto, visto que não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se de manhãzinha; 36não se dê o caso que, vindo inesperadamente, vos encontre a dormir. 37O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!»

O texto evangélico de hoje é o final do discurso escatológico de S. Marcos (Mc 13, 1-37), o Evangelista do ano B.

33 «Vigiai, porque não sabeis quando chegará o momento». O momento em que Jesus «de novo há-de vir a julgar os vivos e os mortos» é-nos absolutamente desconhecido. Esta ignorância não nos deve assustar, mas sim estimular-nos a aproveitar bem o tempo, com sentido de urgência e a estar sempre preparados para comparecer diante do nosso Salvador, que aparecerá como Juiz remunerador. No seu Comentário ao Diatéssaron, 18, 15-17, Santo Efrém diz que o Senhor «quis ocultar-nos isto a fim de permanecermos vigilantes e para que cada um de nós possa pensar que este acontecimento se produzirá durante a sua vida. Ele disse muito claramente que há-de vir, mas sem precisar em que momento. E assim todas as gerações O esperam ardentemente». E a Liturgia do Advento desperta em nós esta atitude de espera ansiosa.

2.º Domingo do Advento

1.ª leitura Isaías 40, 1-5.9-11

1Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. 2Falai ao coração de Jerusalém e dizei-lhe em alta voz que terminaram os seus trabalhos e está perdoada a sua culpa, porque recebeu da mão do Senhor duplo castigo por todos os seus pecados. 3Uma voz clama: «Preparai no deserto o caminho do Senhor, abri na estepe uma estrada para o nosso Deus. 4Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas. 5Então se manifestará a glória do Senhor e todo o homem verá a sua magnificência, porque a boca do Senhor falou».9Sobe ao alto dum monte, arauto de Sião! Grita com voz forte, arauto de Jerusalém! Levanta sem temor a tua voz e diz às cidades de Judá: «Eis o vosso Deus. 10O Senhor Deus vem com poder, o seu braço dominará. Com Ele vem o seu prémio, precede-O a sua recompensa. 11Como um pastor apascentará o seu rebanho e reunirá os animais dispersos; tomará os cordeiros em seus braços, conduzirá as ovelhas ao seu descanso».

A leitura corresponde ao início do Segundo Isaías (Is 40, 1 – 55, 13), também chamado “Livro da Consolação”, que começa com uma voz misteriosa que diz em nome de Deus: “Consolai, consolai o meu povo, diz o nosso Deus” (v. 1). O contexto deuteroisaiano é o da situação do Povo no cativeiro de Babilónia, para onde os judeus mais válidos e importantes tinham sido levados em sucessivas deportações, que culminaram com a destruição de Jerusalém e do Templo em 587. O Profeta, continuador do grande Isaías do século VIII, começa, no início da 1ª parte desta obra (cap. 40 – 48), por animar os deportados abatidos a disporem-se para o caminho de regresso à terra-mãe, aproveitando o decreto de Ciro, rei dos Persas, que, tendo em 539 conquistado Babilónia, autorizava os deportados a regressarem às suas terras de origem. O Profeta esclarece que esta libertação é obra de Deus, Senhor do mundo e do curso da história, que se serve do rei Ciro, como seu “ungido”, para trazer a liberdade ao Povo. Este regresso, difícil sobretudo para quem já tinha nascido no desterro e para quem ali se encontrava sofrivelmente instalado, é enaltecido e apresentado poeticamente como um “novo êxodo”, ainda mais maravilhoso do que o primeiro. O regresso não será um caminho difícil e penoso, pois o Senhor vai fazer grandes prodígios a favor dos retornados.

3 “Uma voz clama: 'Preparai no deserto o caminho do Senhor…’”, tem uma esplêndida actualização na abertura do Evangelho de S. Marcos, o Evangelista deste ano B. Na tradição bíblica o deserto, passa a ter um profundo significado simbólico, como o lugar do encontro com Deus, na solidão e na intimidade da alma em oração, como o tempo de prova e purificação. O abater dos montes e o altear das terras abatidas para construir estradas – coisa então impensável sem a potente maquinaria moderna – é uma ousada metáfora, que se presta a ser aplicada às disposições da alma para que Deus entre nela. O texto da leitura, admiravelmente musicado no início do Messias de Händel, é bem adequado para nos introduzir no espírito do Advento, a preparar a vinda do Senhor, com disposições de humildade e rectidão para endireitar tudo o que na nossa vida ande mais ou menos desviado da vontade de Deus (cf. v. 4).

2.ª leitura 2 São Pedro 3, 8-14

8Há uma coisa, caríssimos, que não deveis esquecer: um dia diante do Senhor é como mil anos e mil anos como um dia. 9O Senhor não tardará em cumprir a sua promessa, como pensam alguns. Mas usa de paciência para convosco e não quer que ninguém pereça, mas que todos possam arrepender-se. 10Entretanto, o dia do Senhor virá como um ladrão: nesse dia, os céus desaparecerão com fragor, os elementos dissolver-se-ão nas chamas e a terra será consumida com todas as obras que nela existem. 11Uma vez que todas as coisas serão assim dissolvidas, como deve ser santa a vossa vida e grande a vossa piedade, 12esperando e apressando a vinda do dia de Deus, em que os céus se dissolverão em chamas e os elementos se fundirão no ardor do fogo! 13Nós esperamos, segundo a promessa do Senhor, os novos céus e a nova terra, onde habitará a justiça. 14Portanto, caríssimos, enquanto esperais tudo isto, empenhai-vos, sem pecado nem motivo algum de censura, para que o Senhor vos encontre na paz.

No final desta epístola o autor inspirado tenta dar uma resposta aos que estavam perplexos com a demora da segunda vinda de Cristo; com efeito, tão grande era o desejo de que Ele chegasse, que chegaram a convencer-se da sua proximidade! Temos aqui um apelo à fé, pois o Senhor sempre cumpre o que promete, mas a verdade é que o dia da sua vinda nos é desconhecido e todos os cálculos humanos estão destinados a falhar, uma vez que para Deus “mil anos são como um só dia”, no dizer do Salmo 89 (90), 4; por outro lado, Ele quer dar tempo para que “todos se possam arrepender” (v. 9).

10 “O dia do Senhor chegará como um ladrão” é uma expressão tradicional que consta dos ensinamentos de Jesus e dos Apóstolos: cf. Mt 24, 36.43-44.48-50; Lc 12, 35-48; 1 Tes  5, 4-6;2 Tim 2, 13-14; Apoc 3, 3.

12-13 “Os céus se dissolverão em chamas e os elementos se fundirão no ardor do fogo”: Não parece que se esteja a falar dos quatro elementos da Natureza, segundo os antigos: terra, água, ar e fogo; pela oposição à “Terra”, parece que a expressão se refere aos corpos celestes. No entanto, o género destas expressões é claramente apocalíptico, uma linguagem figurada, grandiosa e aterradora, com que se alude a uma poderosa intervenção de Deus, mas sem que nada de concreto se possa especificar. Mas não se pense que tudo vá terminar na destruição; acabará certamente este tipo de vida e, em vez de aniquilamento, o que acontecerá há-de ser uma radical transformação – “os novos céus e a nova terra” –, que também não sabemos em que vai consistir. Estamos perante uma outra rara citação do A. T. na Secunda Petri (Is 65, 17; 66, 22; cf. Rom 8, 18-30; 2 Cor 5, 14-15; Apoc 21, 1; cf. tb. Jds 24). Trata-se de uma nova ordem de coisas, “onde habitará a justiça”, isto é, a santidade e a plena harmonia de acordo com o projecto de Deus, pois não haverá mais pecado e os pecadores rebeldes estarão para sempre apartados para o fogo eterno (cf. Mt 25, 41). O mais que se diga é especulação e alimento mais ou menos edificante da imaginação.

Evangelho São Marcos 1, 1-8

1Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. 2Está escrito no profeta Isaías: «Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, que preparará o teu caminho. 3Uma voz clama no deserto: 'Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas'». 4Apareceu João Baptista no deserto a proclamar um baptismo de penitência para remissão dos pecados. 5Acorria a ele toda a gente da região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém e eram baptizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. 6João vestia-se de pêlos de camelo, com um cinto de cabedal em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. 7E, na sua pregação, dizia: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. 8Eu baptizo-vos na água, mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo».

S. Marcos começa o seu Evangelho com umas breves referências à pregação do Baptista (vv. 2-8) e ao Baptismo de Jesus (vv. 9-11) e uma brevíssima alusão às tentações no deserto (vv. 12-13), que constituem como que o prólogo da sua obra. À primeira vista, poderia parecer que no 1º versículo – “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” – a palavra Evangelho designaria o seu escrito. Mas a verdade é que estas palavras são como que a síntese de toda a obra: “Jesus” é “Cristo”, isto é, o Messias anunciado pelos profetas e também o “Filho de Deus”. Todo o Evangelho de Marcos está enquadrado nesta confissão de fé, com que também finaliza a vida terrena de Jesus: ”verdadeiramente este homem era Filho de Deus (Mc 15, 39). O próprio Jesus é Ele mesmo o “princípio” da salvação, pois Ele é a Boa Nova, o “Evangelho”. A palavra grega “evangelho” significa boa notícia; no Novo Testamento é o feliz anúncio da salvação que Deus comunica aos homens por meio de seu Filho.

A citação inicial (vv. 2-3) de Isaías 40, 3 (cf. 1ª leitura de hoje) tem o valor da citação do Profeta messiânico por excelência, por isso engloba na citação uma parte que nem sequer é de Isaías, o v. 2, mas do profeta Malaquias (Mal 3, 1; cf. Ex 23, 20). A grandeza de Jesus é posta em relevo pela humildade de João que afirma: “eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias” (v. 7); com efeito desatar as sandálias era considerado algo tão humilhante, que nem sequer se podia exigir a uma escravo que fosse judeu. O convite do Baptista à “penitência” (v. 4) é o melhor apelo a “preparar o caminho do Senhor” para o Natal que se aproxima; o próprio João aparece como um modelo de preparação: um homem desprendido e penitente (cf. v. 6).

Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

1ª Leitura Génesis 3, 9-15.20

9Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?». 10Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». 11Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?». 12Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor 13Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi». 14Disse então o Senhor Deus à serpente: «Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Hás-de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida. 15Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar». 20O homem deu à mulher o nome de «Eva», porque ela foi a mãe de todos os viventes.

A leitura é extraída do segundo bloco do livro do Génesis, que vai do v. 4b do capítulo 2 até ao fim do capítulo 4, que os estudiosos atribuem à chamada «tradição javista», onde se encontra a narrativa da criação do homem e da mulher, do pecado dos primeiros pais com as suas consequências e da continuidade da vida humana marcada pelo pecado. É evidente que esta narrativa não é um relato jornalístico, pois tudo é descrito numa linguagem simbólica, muito expressiva e densa; a narrativa coloca o leitor perante realidades transcendentes que dizem respeito ao «ser humano» – o adam –, o homem de todos os tempos. O autor sagrado, que deu forma definitiva e inspirada ao Pentateuco, quis dar-nos um panorama coerente da história da salvação – que arranca da eleição divina e se concretiza na aliança e nas promessas de salvação – desenvolvendo-se por etapas correspondentes a um maravilhoso projecto divino, a que não escapa o enigma das origens.

Se perdêssemos de vista este plano divino, que conhecemos pela Revelação, a curiosidade científica poderia levar-nos a ficar atolados nos aspectos arqueológicos e episódicos, como poderia suceder a alguém que, para estudar um monumento antigo, se ficasse no estudo das pedras e na análise dos materiais de construção; por mais científica que fosse a sua análise, ficaria sem se aperceber da harmonia do conjunto, do significado histórico desse monumento e da sua verdade mais profunda. A doutrina da Igreja sobre o pecado original, de que Maria foi isenta por singular privilégio, não se fundamenta na narrativa do Génesis; muito menos se pode partir do estudo das fontes do Génesis para negar a existência desse pecado (uma ridícula ingenuidade, além do mais); a doutrina da fé encontra a sua sólida base na obra redentora de Cristo e nos ensinamentos do Novo Testamento, nomeadamente de S. Paulo; no entanto, a fé projecta grande luz sobre esta narrativa simbólica das origens.

10 «Tive medo porque estava nu; e então escondi-me». Deste modo se descreve, com fina psicologia, o sentimento de culpabilidade e de vergonha que não podia deixar de ser estranho ao primeiro pecado e igualmente ao pecado de todo aquele que não empederniu a sua consciência; esta, que antes de pecar era o aviso de Deus, toma-se depois uma premente censura. Este dar conta da própria nudez parece também indicar, por um lado, a enorme frustração de quem, ao pecar, em vão tinha tentado «ser igual a Deus» e, por outro lado, sugere o descontrolo das tendências instintivas (a concupiscência): depois do primeiro pecado, sentem-se dominados por movimentos e apetites contrários à razão, que tentam esconder (v. 7).

Não resistimos a citar algumas palavras da profunda reflexão antropológica de João Paulo II, nas audiências gerais de Maio de 1980: «Por meio destas palavras (v. 10) desvela-se certa fractura constitutiva no interior da pessoa humana, quase uma ruptura da original unidade espiritual e somática do homem. Este dá-se conta pela primeira vez de que o seu corpo cessou de beber da força do espírito, que o elevava ao nível da imagem de Deus. A sua vergonha original traz em si os sinais duma específica humilhação comunicada pelo corpo. (...) O corpo não está sujeito ao espírito como no estado da inocência original, tem em si um foco constante de resistência ao espírito e ameaça de algum modo a unidade do homem pessoa. (...) A concupiscência, em particular a concupiscência do corpo, é ameaça específica à estrutura da auto-posse e do autodomínio, por meio do qual se forma a pessoa humana».

14 «Hás-de rastejar e comer do pó da terra». Na narrativa, a sentença é dada primeiro contra a serpente, a primeira a fazer mal. Ninguém pense que o autor quer insinuar que dantes as cobras tinham patas: a sentença é proferida contra o demónio tentador; a expressão designa uma profunda humilhação (cf. Salm 71(72), 9; Is 49, 23; Miq 7, 17), infligida contra o demónio, que é o sentenciado, não as serpentes (cf. Apoc 12, em especial os vv. 9 e 17).

15 «Esta te esmagará a cabeça». Todo o versículo constitui o chamado Proto-Evangelho, o primeiro anúncio da boa nova da salvação que se lê na Bíblia. Não se limita esta passagem a anunciar o estado de guerra permanente entre as potências diabólicas – «a tua descendência» – e toda a Humanidade – «a descendência dela». É sobretudo uma vitória que se anuncia. Note-se que essa vitória é expressada não tanto pelo verbo, que no original hebraico é o mesmo para as duas partes em luta (xuf – na Neovulgata conterere), mas sim pela parte do corpo atingida nessa luta: a serpente será atingida na cabeça (ferida mortal, daí a tradução «esmagará»), ao passo que a descendência será apenas atingida no calcanhar (ferida leve, daí a tradução «atingirás»).

Mas, pergunta-se, a quem é que designa o pronome «esta» (v. 15)? Segundo o original hebraico, podia ser a descendência da mulher. A verdade, porém, é que esta descendência pecadora fica incapacitada para, por si, vencer o demónio e o pecado em que se precipitara. Assim, o tradutor grego da Septuaginta (inspirado?) referiu o dito pronome ao Messias (traduzindo-o na forma masculina, designando um indivíduo, autós, em vez da forma neutra (designando uma colectividade), autó, referindo este pronome a descendência, (que em grego se diz com a palavra neutra, sperma); esta tradução visava pôr em evidência que quem vence o pecado e o demónio é Ele, o Messias. A tradição cristã, e com ela a tradução da Vetus Latina seguida pela Vulgata, ao traduzir o pronome pelo feminino ipsa, aplicou este texto à Virgem Maria, explicitando um sentido (chamado eminente), que entreviu nesta passagem (se quisesse designar a descendência – semen – teria empregado o neutro ipsum, e não ipsa).

Eis como se costuma explicar o sentido mariano da passagem: a vitória é prometida à descendência de Eva, mas quem faz possível essa vitória é Jesus Cristo, com a sua obra redentora. Assim, unidos a Cristo, todos somos vencedores, mas Maria é a vencedora de um modo eminente, porque Mãe do Redentor e Mãe de toda a comunidade dos redimidos, a Igreja. O próprio contexto facilita esta referência a Maria: é que, contra tudo o que era de esperar, a profecia aparece dita a Eva, e não a Adão. Segundo o ensino da Igreja (cf. Bula «Ineffablis Deus» do Beato Pio IX), esta vitória de Maria sobre o demónio, inclui a perfeita isenção de toda a espécie de mancha do pecado, incluindo o original.

2ª leitura Efésios 1, 3-6.11-12

3Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. 4N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. 5Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, 6para louvor da sua glória e da graça que derramou sobre nós, por seu amado Filho. 11Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, 12para sermos um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperámos em Cristo.

Este início da epístola aos Efésios de que é extraída a leitura tem o aspecto de um hino litúrgico e é uma das mais ricas sínteses doutrinais paulinas.

3 «Em Cristo». Toda a graça – «bênçãos espirituais» – que Deus concede ao homem, após o pecado original, incluindo a Imaculada Conceição da Virgem Maria, é concedida pela mediação de Cristo e através da união com Ele.

4-5 «Santos». «Filhos». O objectivo desta eleição eterna de Deus é «sermos santos», isto é, destacados do profano e pecaminoso para servir ao culto e glória divina: «diante d’Ele», isto é, na presença de Deus; estamos chamados a estar sempre diante de Deus para O glorificar a partir de tudo o que fazemos, dizemos ou pensamos, como ensina o Concílio Vaticano II: «Todos os cristãos são, pois, chamados e devem tender à santidade e perfeição do próprio estado» (LG 42). A santidade está em sermos «participantes da natureza divina» (2 Pe 1, 4; Rom 12, 1), sendo filhos de Deus e vivendo como tais, imitando a Cristo, o Filho de Deus por natureza (cf. Rom 8, 15-29; Gal 4, 5-7; 1 Jo 3, 1-3). E o modelo humano mais perfeito de santidade é Maria.

A expressão «santos e irrepreensíveis» faz pensar nas vítimas oferecidas a Deus no Antigo Testamento (cf. Lv 20, 20-22), insinuando-se assim o carácter oblativo e sacrificial de toda a vida do cristão (cf. 1 Pe 2, 5), bem como a perfeição que devemos pôr em tudo o que fazemos, demais que não se trata duma pureza meramente exterior e ritual, mas de um culto em espírito e verdade (cf. Jo 4, 23), «na sua presença» (de Deus) «que examina os rins e o coração» (Salm 7, 10), isto é, que perscruta o que há de mais íntimo no homem, a sua consciência, afectos e intenções.

Evangelho São Lucas 1, 26-38

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».

A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma singular densidade, pois encerra o mistério mais assombroso da História da Salvação, a Incarnação do Filho eterno de Deus. Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria!

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo do grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita es tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus.

3.º Domingo do Advento

1ª leitura Isaías 61, 1-2a.10-11

1O espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova aos pobres, a curar os corações atribulados, a proclamar a redenção aos cativos e a liberdade aos prisioneiros, 2aa promulgar o ano da graça do Senhor. 10Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu num manto de justiça, como noivo que cinge a fronte com o diadema e a noiva que se adorna com as suas jóias. 11Como a terra faz brotar os germes e o jardim germinar as sementes, assim o Senhor Deus fará brotar a justiça e o louvor diante de todas as nações.

O texto da leitura é tirado daquilo que poderíamos chamar o cerne do Terceiro Isaías (Is 60, 1 – 64, 11): no centro de Is 56 – 66 situa-se o anúncio da salvação para todas as nações a partir da nova Jerusalém (Sião) ideal (símbolo de uma nova ordem universal: cf. Apoc 21, 1 – 22, 5). E é em Is 61 que está o cume deste esplendoroso anúncio: o capítulo começa com os primeiros versículos que integram a leitura de hoje, em que aparece a falar, num denso monólogo, o mensageiro da boa nova libertadora. Por um lado, estes dois vv. têm grande afinidade com os poemas messiânicos do Servo de Yahwéh (cf. Is 49, 1-6 e 42, 1) e, por outro lado, o sentido profético destas palavras aparece realçado na parafraseada tradução aramaica (Targum), de que Jesus se teria servido na sinagoga de Nazaré. Com efeito, esta acrescentava no início deste texto: «Assim diz o profeta»; deste modo, o texto na boca de Jesus adquiria uma força surpreendente, ao pôr em evidência que Ele era o profeta-mensageiro de que falava Isaías – «hoje cumpriu-se esta Escritura…» (Lc 4, 21) – e o próprio Messias, isto é, o Ungido (Cristo) pelo Senhor.

«Anunciar a boa nova aos pobres». Estes pobres – em hebraico, anavim, um termo técnico do A. T. – não são propriamente os que sofrem de miséria material ou moral, mas os que vivem numa piedosa atitude de indigência e humildade diante de Deus, isto é, os que confiam na bondade e misericórdia de Deus e não nos seus próprios bens ou merecimentos. «Um ano de graça» encerra uma alusão ao ano sabático (cf. Ex 21, 2-11; Jer 34, 14; Ez 46, 17), ou antes ao ano jubilar, cada ano cinquenta, em que os escravos eram restituídos à liberdade e a propriedade regressava aos seus amigos donos (cf. Lv 25).

10-11 «Exulto de alegria»… O texto adapta-se bem ao tema tradicional da alegria para este «Domingo Gaudete». A alegria a que se refere – uma alegria comparável à dos noivos na sua festa nupcial e à do lavrador em face duma boa colheita – corresponde à maravilhosa restauração de Jerusalém; é a alegria messiânica, pois o horizonte do oráculo é claramente escatológico, isto é, o de uma intervenção de Deus em ordem à salvação definitiva. É, pois, coerente que a Liturgia veja nesta alegria a da Igreja pelo nascimento de Cristo.

2ª leitura 1 Tessalonicenses  5, 16-24

Irmãos: 16Vivei sempre alegres, 17orai sem cessar, 18dai graças em todas as circunstâncias, pois é esta a vontade de Deus a vosso respeito em Cristo Jesus. 19Não apagueis o Espírito, 20não desprezeis os dons proféticos; 21mas avaliai tudo, conservando o que for bom. 22Afastai-vos de toda a espécie de mal. 23O Deus da paz vos santifique totalmente, para que todo o vosso ser espírito, alma e corpo se conserve irrepreensível para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. 24É fiel Aquele que vos chama e cumprirá as suas promessas.

A leitura contém em parte recomendações finais da Carta. Entre os conselhos, S. Paulo insiste na alegria – «Vivei sempre alegres»– (v. 16), que é uma virtude profundamente cristã, consequência lógica da nossa condição de filhos de Deus. Daqui os apelos constantes do N. T. a viver a alegria: Filp 2, 18; 3, 1; 4, 4; 2 Cor 2, 11; 7, 4; Col 1, 24; Mt 5, 12; Jo 15, 11; 16, 22.24. 17, 13.

18 «É esta a vontade de Deus»: que estejamos sempre alegres, rezemos sem cessar e demos acções de graças sempre; e isto «em Cristo Jesus», pois a vontade de Deus comunicada a nós pela palavra e exemplos de Jesus torna-se coisa praticável mediante a obra redentora do Senhor que nos dá forças para tanto com a sua graça.

19-21 «Não apagueis o Espírito... mas avaliai tudo, conservando o que é bom». Há aqui uma referência aos dons carismáticos – atribuídos ao Espírito Santo –, dons concedidos aos fiéis para o bem espiritual dos outros, concretamente ao dom da profecia; mais do que para adivinhar, este servia para «edificar, exortar e consolar» (cf. 1 Cor 14, 1-15). Parece que esta exortação vai dirigida aos chefes da comunidade, para que não se oponham sistematicamente aos carismas suscitados por Deus nos fiéis, uma recomendação fortemente expressiva, pois o Espírito Santo é por excelência luz e fogo. Não é a Hierarquia quem programa a acção do Espírito Santo, «que sopra onde quer» (Jo 3, 8), mas ela tem a missão de avaliar e discernir a genuinidade dos carismas (cf. Lumen Gentium, n.º 12).

24 «É fiel Aquele que vos chama». Aqui está o firme garantia da perseverança na graça e na vocação cristã. S. Paulo, na linha da doutrina já revelada no A. T., insiste frequentemente na fidelidade divina: 1 Cor 1, 9; 10, 13; 2 Cor 1, 18; Filp 1, 6; 2 Tes 3, 3; 2 Tim 1, 12…

Evangelho São João 1, 6-8.19-28

6Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. 7Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. 8Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. 19Foi este o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram, de Jerusalém, sacerdotes e levitas, para lhe perguntarem: «Quem és tu?» 20Ele confessou a verdade e não negou; ele confessou: «Eu não sou o Messias». 21Eles perguntaram-lhe: «Então, quem és tu? És Elias?», «Não sou», respondeu ele. «És o Profeta?». Ele respondeu: «Não». 22Disseram-lhe então: «Quem és tu? Para podermos dar uma resposta àqueles que nos enviaram, que dizes de ti mesmo?» 23Ele declarou: «Eu sou a voz do que clama no deserto: ‘Endireitai o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías». 24Entre os enviados havia fariseus 25que lhe perguntaram: «Então, porque baptizas, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?» 26João respondeu-lhes: «Eu baptizo em água, mas no meio de vós está Alguém que não conheceis: 27Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias». 28Tudo isto se passou em Betânia, além Jordão, onde João estava a baptizar.

O texto evangélico é extraído das referencias a João Baptista que aparecem no Prólogo do IV Evangelho e do início da narrativa joanina.

6-8 «Um homem… chamado João» O único João de que se fala no IV Evangelho é o Baptista, sem nunca contar a sua vida e pregação (como os Sinópticos: cf. Lc 3, 1-22 par.); apenas se refere o seu testemunho a favor de Jesus (1, 15.19-35; 3,27-30; 5,33), a fim de que todos acreditassem.

19-28 Nesta secção deixa-se ver o prestígio excepcional do Baptista e a sua humildade, bem como o ambiente de expectativa messiânica. É interessante notar como o IV Evangelho abre com o testemunho de João (Baptista), e termina com  o do Evangelista (João), ambos apontando Cristo como o Cordeiro de Deus imolado: 19, 35-36.

A propósito de Elias, ver Mal 3, 23; Sir 48, 10-11; Mt 11, 14; 17, 19; e de o Profeta, ver Dt 18, 15; Jo 6, 14; Act 3, 22.

19 «Os judeus». S. João costuma designar assim os chefes judaicos, e geralmente com uma conotação de inimigos de Jesus. Isto explica-se por escrever para cristãos vindos da gentilidade e a muitos anos de distância dos acontecimentos (estamos perto do ano 100), por isso não implica anti-judaísmo. Os «levitas» pertencentes à tribo sacerdotal de Levi; eram os auxiliares dos sacerdotes, e não podiam oferecer os sacrifícios.

20 «Ele confessou a verdade e não negou. Confessou...» Esta insistência do Evangelista põe em evidência a hombridade e rectidão do Baptista, assim como a especial força do seu testemunho. É também de supor que esta insistência tenha por objectivo animar os fiéis a confessarem a sua fé em Cristo, apesar do furor das perseguições.

21 «Elias… o profeta». Segundo a crença popular, Elias, elevado ao céu sem morrer (cf. 2 Re 2, 11-12), deveria regressar no fim dos tempos: Mal 3, 23 (4, 5); Sir 48, 10; Mt 17, 10-13. Note-se que não perguntam a João se ele é um profeta, mas o profeta. Com efeito, os judeus esperavam um profeta distinto do Messias para introduzir os tempos messiânicos, apoiados em Dt 18, 15. Também a Regra da Comunidade, daquela época, achada nas grutas do Mar Morto, fala da chegada de um novo profeta que acompanhará os dois Messias esperados pelos essénios: um, sacerdote, da tribo de Levi, e outro, rei, da tribo de Judá.

26 «Eu baptizo em água». Baptizar era mergulhar na água. Tratava-se dum banho ritual que significava a purificação legal de alguma impureza prevista pela Torá escrita ou oral. Na época, existia também o baptismo dos prosélitos, para incorporar um gentio no judaísmo, e ainda o baptismo dos essénios, um rito de iniciação e purificação dos adeptos que entravam na seita de Qumrã. O baptismo de João não era um rito de incorporação ou de iniciação, mas de conversão interior; as palavras de exortação do Baptista e o reconhecimento público e humilde dos pecados dispunham o penitente para vir a receber a graça de Cristo, que já vivia entre o povo, mas que o povo não conhecia na sua qualidade de Messias. Os profetas tinham anunciado uma purificação com a água nos tempos messiânicos: Zac 13, 1; Jer 4, 14; Ez 36, 25; 37, 23. O baptismo de João dispunha para a limpeza da alma, mas o Baptismo de Jesus concede eficazmente o perdão dos pecados (cf. Mt 3, 11; Mc 1, 4). Dadas as circunstâncias da época, o simbolismo do rito de baptizar era então muito mais evidente do que nos nossos dias, mas a eficácia do Baptismo de Jesus só se pode captar pela fé.

28 «Em Betânia, além Jordão», em frente de Jericó, na margem esquerda do rio (cf. Jo 10, 39-40), é diferente da terra de Lázaro (cf. Jo 11, 1.18), a uns três quilómetros a leste de Jerusalém.

4.º Domingo do Advento

1ª Leitura 2 Samuel 7, 1-5.8b-12.14a.16

1Quando David já morava em sua casa e o Senhor lhe deu tréguas de todos os inimigos que o rodeavam, 2o rei disse ao profeta Natã: «Como vês, eu moro numa casa de cedro e a arca de Deus está debaixo de uma tenda». 3Natã respondeu ao rei: «Faz o que te pede o teu coração, porque o Senhor está contigo». 4Nessa mesma noite, o Senhor falou a Natã, dizendo: 5«Vai dizer ao meu servo David: Assim fala o Senhor: Pensas edificar um palácio para Eu habitar? 8bTirei-te das pastagens onde guardavas os rebanhos, para seres o chefe do meu povo de Israel. 9Estive contigo em toda a parte por onde andaste e exterminei diante de ti todos os teus inimigos. Dar-te-ei um nome tão ilustre como o nome dos grandes da terra. 10Prepararei um lugar para o meu povo de Israel; e nele o instalarei para que habite nesse lugar, sem que jamais tenha receio e sem que os perversos tornem a oprimi-lo como outrora, 11quando Eu constituía juízes no meu povo de Israel. Farei que vivas seguro de todos os teus inimigos. O Senhor anuncia que te vai fazer uma casa. Quando chegares ao termo dos teus dias e fores repousar com teus pais estabelecerei em teu lugar um descendente que há-de nascer de ti e consolidarei a tua realeza. Ele construirá um palácio ao meu nome e Eu consolidarei para sempre o seu trono real. Serei para ele um pai e ele será para Mim um filho. 16A tua casa e o teu reino permanecerão diante de Mim eternamente e o teu trono será firme para sempre».

David tinha exposto ao profeta Natã o seu projecto de vir a construir para a arca da aliança uma casa digna, que substituísse de vez o modesto tabernáculo feito de cortinados. O profeta apoia a ideia do rei, mas Deus falou a Natã transmitindo-lhe uma mensagem do mais alto alcance: não seria David a erguer uma casa a Yahwéh, mas Yahwéh a fazer uma casa a David! O profeta joga com o duplo sentido de bayit, casa e dinastia (v. 11).

16 «O teu trono será firme para sempre». Este versículo contém uma das mais importantes profecias do messianismo régio. A profecia aparece cumprida no N. T., uma vez que Jesus é descendente legal de David. O seu reino, não tem fim (Lc 1, 33), pois a realeza manteve-se dentro da casa (família) de David; o seu reino é eterno, entenda-se, no sentido religioso, não no sentido político.

2ª leitura Romanos 16, 25-27

Irmãos: 25Àquele que tem o poder de vos confirmar, segundo o meu Evangelho e a pregação de Jesus Cristo a revelação do mistério encoberto desde os tempos eternos 26mas agora manifestado e dado a conhecer a todos os povos pelas escrituras dos Profetas segundo a ordem do Deus eterno, dado a conhecer a todos os gentios para que eles obedeçam à fé 27a Deus, o único sábio, por Jesus Cristo, seja dada glória pelos séculos dos séculos. Amen.

Temos aqui a doxologia com que, de modo singular, termina a epístola. A verdade é que esta mesma doxologia aparece nalguns códices no fim ou do capítulo 14 ou do 15, devido à supressão de ou dois capítulos finais para o uso litúrgico da epístola, por se tratar de partes pessoais de menos interesse para os fiéis de outras comunidades.

«O meu Evangelho» identifica-se com «a (minha) pregação» que tem por objecto Jesus Cristo (a sua Pessoa, os seus ensinamentos e a sua obra). «O mistério… agora manifestado» e apenas vislumbrado pelos Profetas é o plano divino de salvar todos os homens (judeus e gentios) por meio da obra redentora de Jesus, que fez de nós um só corpo, a família dos filhos de Deus.

Evangelho: Lc 1, 26-38

Ver supra, notas para a Solenidade da Imaculada Conceição

Natal do Senhor (Missa da Vigília)

1ª Leitura Isaías 62, 1-5

2Por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não terei repouso, enquanto a sua justiça não despontar como a aurora e a sua salvação não resplandecer como facho ardente. 2Os povos hão-de ver a tua justiça e todos os reis da terra a tua glória. Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará. 3Serás coroa esplendorosa nas mãos do Senhor, diadema real nas mãos do teu Deus. 4Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta»; mas hão-de chamar-te «Predilecta» e à tua terra «Desposada», porque serás a predilecta do Senhor e a tua terra terá um esposo. 5Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus.

Neste trecho temos um belo canto à Jerusalém (Sião), que o Profeta anseia por ver renovada após a prova do exílio de Babilónia.

1 «A sua justiça», ao aparecer paralela a «a sua salvação» (1b) e a «a tua glória» (v. 2), trata-se duma justiça que visa mais a acção de Deus que salva e glorifica Jerusalém, do que o simples restabelecimento dos direitos espezinhados. Esta «justiça que desponta como a aurora» é o prenúncio e a figura da vinda de Jesus Cristo à terra, o «Sol da Justiça» (cf. Mal 3, 20). A Vulgata (já não assim a Neovulgata) tinha personificado (na linha da Septuaginta) esta «justiça» e esta «salvação», traduzindo por «justo» e «salvador» (iustus eius et salvator eius). Se o profeta, em primeira intenção, visa a restauração de Jerusalém após o exílio, a profecia tem o seu pleno cumprimento com a vinda do Messias.

4-5 «Abandonada»: Jerusalém, durante o exílio, é comparada a uma esposa abandonada. Este anúncio feliz tem um cumprimento imediato e imperfeito com o regresso do cativeiro, mas o seu pleno cumprimento dá-se na Igreja, a nova Jerusalém (cf. Apoc 21, 2), a fiel «Esposa» de Cristo, «santa e imaculada» (Ef 5, 27). «O teu Construtor te desposará»: a Neovulgata, contra o que seria de esperar, manteve a tradução da Vulgata: «os teus filhos te desposarão», mas não assim as traduções modernas em geral (apesar da pontuação massorética); a confusão deve-se a que as mesmas consoantes hebraicas, bnyk, podem traduzir-se das duas maneiras, conforme as vogais adoptadas, tendo a tradução grega dos LXX optado pela versão que fazia mais sentido, «o teu construtor».

2ª Leitura Actos 13, 16-17.22-25

Naqueles dias, 16Paulo chegou a Antioquia da Pisídia. Uma vez em que ele estava na sinagoga, levantou-se, fez sinal com a mão e disse: «Homens de Israel e vós que temeis a Deus, escutai: 17O Deus deste povo de Israel escolheu os nossos pais e fez deles um grande povo, quando viviam como estrangeiros na terra do Egipto. 22Depois, com seu braço poderoso, tirou-os de lá. Por fim, suscitou-lhes David como rei, de quem deu este testemunho: ‘Encontrei David, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará sempre a minha vontade’. 23Da sua descendência, Deus fez nascer, segundo a sua promessa, um Salvador, Jesus. 24João tinha proclamado, antes da sua vinda, um baptismo de penitência a todo o povo de Israel. 25Prestes a terminar a sua carreira, João dizia: ‘Eu não sou quem julgais; mas depois de mim, vai chegar Alguém, a quem eu não sou digno de desatar as sandálias dos seus pés’».

Temos aqui um pequeno extracto do primeiro discurso de Paulo em Actos: uma breve síntese da história da salvação, que culmina em Jesus Cristo. Foi seleccionada a parte do texto que põe em evidência que, de acordo com as promessas de Deus, «Jesus, é o Salvador de Israel», sendo «da descendência de David» (v. 23); o último elo da corrente que prepara a sua vinda é João.

16 Os «tementes a Deus» eram os gentios simpatizantes do judaísmo, que aderiam ao seu monoteísmo e esperança messiânica; embora não se sujeitassem às práticas da lei judaica, frequentavam a liturgia sinagogal.

Evangelho Forma longa São Mateus 1, 1-25  Forma breve: São Mateus 1, 18-25

1(Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão: 2Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacob; Jacob gerou Judá e seus irmãos. 3Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara; Farés gerou Esrom; Esrom gerou Arão; 4Arão gerou Aminadab; Aminadab gerou Naásson; Naásson gerou Sálmon; Sálmon gerou, de Raab, Booz; 5Booz gerou, de Rute, Obed; Obed gerou Jessé; Jessé gerou o rei David. 6David, da mulher de Urias, gerou Salomão; 7Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; 8Asa gerou Josafat; Josafat gerou Jorão; Jorão gerou Ozias; 9Ozias gerou Joatão; Joatão gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; 10Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias; 11Josias gerou Jeconias e seus irmãos, durante o desterro de Babilónia. 12Depois do desterro de Babilónia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; 13Zorobabel gerou Abiud; Abiud gerou Eliacim; Eliacim gerou Azor; 4Azor gerou Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud; 15Eliud gerou Eleazar; Eleazar gerou Matã; Matã gerou Jacob; 16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. 17Assim, todas estas gerações são: de Abraão a David, catorze gerações; de David ao desterro de Babilónia, catorze gerações; do desterro de Babilónia até Cristo, catorze gerações).

18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». 22Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do profeta, que diz: 23«A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». 24Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa. 25E não a tinha conhecido, quando Ela deu à luz um filho, a quem ele pôs o nome de Jesus.

S. Mateus centra o seu relato do nascimento de Jesus na figura de S. José (S. Lucas na de Maria), com uma clara intencionalidade teológica de apresentar Jesus como o Messias, anunciado como descendente de David. Isto é posto em evidência logo de início: «Genealogia de Jesus Cristo (=Messias), Filho de David» (v. 1). Como a linha genealógica passava pelo marido, é a de José que é apresentada. Os elos são seleccionados para que apareçam três séries de 14 nomes, obedecendo a uma técnica rabínica, chamada gematriáh, ou recurso ao valor alfabético dos números; assim o número 14, reforçado pela sua tripla repetição – «catorze gerações» – (no v. 17), sugere o nome de David, que em hebraico se escreve com três consoantes (em hebraico não se escrevem as vogais) que dão o número catorze ([D=4]+[V=6]+ [D=4]=14). A concepção virginal antes de ser explicada e justificada pelo cumprimento das Escrituras (vv. 18-25), é logo anunciada na genealogia, pois para todos os seus elos se diz «gerou», quando para o último elo se diz que «gerou», mas: «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus» (v. 16).

18 «Antes de terem vivido em comum»: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

«Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo»: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se «por virtude do Espírito Santo», não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra «espírito» (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera criaturas, Deus cria-as. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos.

19 «Mas José, seu esposo…». Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou. A verdade é que não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois em face dos dados das suas fontes nem sequer disso precisava. Do texto parece depreender-se que Maria nada tinha revelado a José do mistério que nela se passava. José vem a saber da gravidez de Maria por si mesmo ou pelas felicitações do paraninfo (o «amigo do esposo»), e o que devia ser para José uma grande alegria tornou-se o mais cruel tormento. Em circunstâncias idênticas, qualquer outro homem teria actuado drasticamente, denunciando a noiva ao tribunal como adúltera. Mas José era um santo, «justo», por isso, não condenava ninguém sem ter as provas evidentes da culpa. E aqui não as tinha e, conhecendo a santidade singular de Maria, não admite a mais leve suspeita, mas pressente que está perante o sobrenatural, já sentido por Isabel… (ou não teria tido alguma iluminação divina acerca da profecia de Isaías 7, 14?…) Então só lhe restava deixar Maria, para não se intrometer num mistério em que julga não lhe competir ter parte alguma. É assim que «resolveu repudiá-la em segredo», evitando, assim, «difamá-la» (colocá-la numa situação infamante) ou simplesmente «tornar público» («deigmatísai») o mistério messiânico. Mas podemos perguntar: porque não interrogava antes Maria para ser ela esclarecer o assunto? É que pedir uma explicação já seria mostrar dúvida, ofendendo Maria; a sua delicadeza extrema levá-lo-ia a não a humilhar ou deixar embaraçada. E porque razão é que Maria não falou, se José tinha direito de saber do sucedido? Mas como é que Maria podia falar de coisas tão colossalmente extraordinárias e inauditas?! Como podia provar a José a Anunciação do Anjo? Maria calava, sofria e punha nas mãos de Deus a sua honra e as angústias por que José iria passar por sua causa; e Deus, que tinha revelado já a Isabel o mistério da sua concepção, podia igualmente vir a revelá-lo a José. De tudo isto fica para nós o exemplo de Maria e de José: não admitir suspeitas temerárias e confiar em Deus sempre.

20 «Não temas receber Maria, tua esposa». O Anjo não diz: «não desconfies», mas: «não temas». Segundo a explicação anterior, José deveria andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: julga-se indigno de Maria e decide não se imiscuir num mistério que o transcende. Como explica S. Bernardo, S. José «foi tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, que a quis deixar ocultamente... José tinha-se, por indigno...». Segundo alguns exegetas modernos (Zerwick), o texto sagrado poderia mesmo traduzir-se: «embora o que nela foi gerado seja do Espírito Santo, Ela dar(-te-)á à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus, exercendo assim para Ele a missão de pai». Assim, o Anjo não só elucida José, como também lhe diz que ele tem uma missão a cumprir no mistério da Incarnação, a missão e a dignidade de pai do Salvador. Comenta Santo Agostinho: «A José não só se lhe deve o nome de pai, mas este é-lhe devido mais do que a qualquer outro. Como era pai? Tanto mais profundamente pai, quanto mais casta foi a sua paternidade... O Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e amor de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus».

23 «Será chamado Emanuel». No original hebraico de Isaías 7, 14, temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqara’t referido a virgem, que é a que põe o nome = «e ela chamará»). Mateus, porém, usa o plural, que não aparece na tradução litúrgica, (kai kalésousin: «e chamarão»), um plural de generalização, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai «legal» de Jesus (notar que a célebre profecia isaiana, ao dizer que seria a virgem a pôr o nome ao seu filho até parece prestar-se a significar que este não nasceria de germe paterno). Mateus, em face do papel providen­cial desempenhado por S. José, não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa muito mais rica do que a letra do anúncio profético. Contudo, esta técnica do Evangelista para «actualizar» um texto antigo (chamada deraxe) não é arbitrária, pois baseia-se na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey («não leias»), a qual consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de «não ler» as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular na forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular da tradução dos LXX: weqara’t «e tu chamarás»), mas trata-se de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqara’ta «e tu chamarás» – lembrar que em hebraico há diferentes formas masculina e feminina para as 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, «com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: «e (tu, José) o chamarás».

Eis, a propósito, o maravilhoso comentário de S. João Crisóstomo, apresentando Deus a falar a José: «Não penses que, por ser a concepção de Cristo obra do Espírito Santo, tu és alheio ao serviço desta divina economia; porque, se é certo que não tens nenhuma parte na geração e a Virgem permanece intacta, não obstante, tudo o que pertence ao ofício de pai, sem atentar contra a dignidade da virgindade, tudo to entrego a ti, o pôr o nome ao filho. (...) Tu lhe farás as vezes de pai, por isso, começando pela imposição do nome, Eu te uno intimamente com Aquele que vai nascer» (Homil. in Mt, 4).

25 «E não a tinha conhecido...». S. Mateus pretende realçar que Jesus nasceu sem prévias relações conjugais, mas por um milagre de Deus. Quanto à posterior virgindade o Evangelista não só não a nega, como até a parece insinuar no original grego, ao usar o imperfeito de duração («não a conhecia») em vez do chamado aoristo complexívo como seria de esperar, caso quisesse abranger apenas o tempo até ao parto (Zerwick). Uma tradução mais à letra seria «até que Ela deu à luz», em vez de: «quando Ela deu à luz». De qualquer modo, esta afirmação não significa que depois já não se verificasse o que até este momento acontecera, como é o caso de Jo 9, 18.

Natal do Senhor (Missa da Meia-Noite)

1ª Leitura Isaías 9, 1-6

2«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar. 3Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. 4Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor. 5Todo o calçado ruidoso da guerra e toda a veste manchada de sangue serão lançados ao fogo e tornar-se-ão pasto das chamas. 6Porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz». 7O seu poder será engrandecido numa paz sem fim, sobre o trono de David e sobre o seu reino, para o estabelecer e consolidar por meio do direito e da justiça, agora e para sempre. Assim o fará o Senhor do Universo.

Este belíssimo texto é um trecho do chamado livro do Emanuel (Is 7 – 12), onde, em face da iminência de várias guerras, se abrem horizontes de esperança que se projectam em tempos vindouros, muito para além das soluções empíricas e imediatas: é a utopia messiânica de paz e alegria que veio a ter o seu pleno cumprimento com a vinda de Cristo ao mundo. Enquadra-se às mil maravilhas na noite de Natal, em que «uma luz começou a brilhar». Esta luz é o «Menino» (v. 5) que nasce para nós nesta noite, «luz do mundo» (Jo 8, 12; 1, 5.9).

4 «Como no dia de Madiã». Referência à grande vitória de Gedeão sobre os medianitas (Jz 7).

7 O «poder» e a «paz sem fim» serão garantidos para o trono de David pelo Menino de predicados divinos verdadeiramente surpreendentes (v. 5) que, embora expressos em termos semelhantes aos dos soberanos egípcios e assírios, suplantam os predicados de qualquer rei empírico e correspondem ao mistério de Jesus, Deus feito homem.

2ª Leitura Tito 2, 11-14

Caríssimo: 11Manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens, 12ensinando-nos a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos para vivermos, no tempo presente, com temperança, justiça e piedade, 13aguardando a ditosa esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, 14Jesus Cristo, que Se entregou por nós, para nos resgatar de toda a iniquidade e preparar para Si mesmo um povo purificado, zeloso das boas obras.

Este breve texto é tirado da 2ª parte da breve carta a Tito. Depois de lhe ter dado orientações pastorais para a organização da Igreja em Creta (cap. 1), passa a desenvolver o tema das exigências da vida cristã (cap. 2 e 3). Na leitura queremos fazer ressaltar o v. 13 que foi adoptado pela liturgia da Missa (final do embolismo) e o v. 14 que é uma síntese da soteriologia paulina.

11 A graça do Baptismo mete-nos no caminho da «renúncia» (recordem-se as renúncias do ritual do Baptismo), pois sem renúncia não se pode seguir a Cristo (Lc 9, 23).

13 «Nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo». É uma das mais categóricas afirmações da divindade de Jesus Cristo em todo o N. T. Com efeito, como no original grego há um só artigo para «Deus e Salvador», estas duas designações, Deus e Salvador, referem-se à mesma pessoa, Jesus Cristo.

14 «Um povo especialmente seu», isto é, a Igreja, povo que Jesus Cristo conquista, não pelo poder das armas, mas pelo resgate do seu sangue redentor. A Igreja é o novo povo de Deus.

Evangelho São Lucas 2, 1-14

1Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto, para ser recenseada toda a terra. 2Este primeiro recenseamento efectuou-se quando Quirino era governador da Síria. 3Todos se foram recensear, cada um à sua cidade. 4José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e da descendência de David, 5a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava para ser mãe. 6Enquanto ali se encontravam, chegou o dia de ela dar à luz 7e teve o seu Filho primogénito. Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. 8Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. 9O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. 10Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: 11nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. 12Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». 13Imediatamente, juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: 14«Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».

A narrativa do nascimento do Filho eterno de Deus – nunca houve nem haverá Menino como este! – é deveras encantadora na sua simplicidade. O teólogo Lucas, dotado de génio de historiador nada precisa de inventar, para a sua peculiar teologia. Dispondo provavelmente de não muitos dados, como bom historiador, começa por situar o acontecimento no tempo e no lugar. Ainda ninguém apresentou nenhuma razão convincente para pôr em dúvida o lugar do nascimento de «Jesus de Nazaré» em Belém (a pari, todo o mundo fala de Santo António de Pádua e a verdade é que nasceu em Lisboa!). Por outro lado, as referências do nosso historiador ao tempo não são contaminadas pela sua preocupação teológica de apresentar o nascimento do Salvador, em contraste com o César romano, Augusto, que se ufanava do título de salvador da humanidade. Embora o recenseamento geral na época de Quirino como governador da Síria – que está bem documentado – seja bastante posterior (no ano 6 da era cristã), a verdade é que houve muitos outros censos; Lucas poderia não dispor de dados muito precisos, mas o historiador teólogo não precisava de mais pormenor para que o nascimento de Jesus ficasse enquadrado na História geral. De qualquer modo, a história profana documenta-nos vários recenseamentos a que na época se procedeu; papiros descobertos no Egipto falam de censos ali feitos, em que se obrigavam também as mulheres casadas a acompanharem os seus maridos (para se garantir a verdade das declarações), e a apresentarem-se ante o recenseador ou seu delegado para a prestação das declarações tributárias; assim se explica que Maria tivesse de acompanhar a José numa viagem tão incómoda (cerca de 150 Km). Da escassa documentação romana depreende-se que com Quirino se poderia mesmo ter iniciado um recenseamento durante a sua primeira missão (militar, não como governador) na Síria, entre os anos 10 a 6 a. C.. Dado que o nascimento de Jesus se deu uns sete anos a. C., em virtude do erro cometido por Dionísio, o Exíguo, quando no séc. VI fez as contas para a adopção da era cristã, a época referida por Lucas concorda substancialmente com os dados da história profana.

«César Augusto», o imperador Octávio, que reinou dos anos 27 a. C. a 14 d. C.

«Belém», em hebraico bet-léhem, significa casa do pão; ali nasce o «Pão da vida». Fica a uns 8 Km a sul de Jerusalém. Deduz-se que S. José ali teria a sua origem próxima, ou alguma propriedade ou condomínio.

6 «Enquanto ali se encontravam». O texto deixa ver, como é compreensível, que estiveram em Belém durante algum tempo antes de o Menino nascer. De facto é inverosímil a aventura de empreenderem uma viagem de cerca de 150 Km nas vésperas do parto.

7 «Filho primogénito». Ao chamar-se Jesus «primogénito» não se faz referência a outros filhos que depois a Santíssima Virgem de facto não veio a ter, mas sim aos direitos e deveres do filho varão que uma mãe dava à luz pela primeira vez (pertencia a Deus, tinha que ser resgatado, etc.). Também perece que «primogénito» era uma designação corrente para o primeiro filho independentemente de que fosse o único, segundo se depreende de uma inscrição egípcia da época, encontrada em 1922 perto do Tell-el-Jeduiyeh, onde se diz que uma tal Arsinoe morreu com as dores do parto do seu filho primogénito.

«Manjedoira». A palavra grega, fátnê, também pode significar curral. Seja como for, fica patente a extrema humildade em que quis nascer o Senhor do mundo. Segundo uma tradição que vem do séc. II (S. Justino, nascido aqui perto), Jesus nasceu numa gruta natural, já fora de Belém. Ali Santa Helena, mãe de Constantino, nos princípios do séc. IV, ergueu uma basílica de cinco naves que, depois de várias modificações, chegou até nós, sendo, por isso, a mais antiga igreja de toda a Cristandade. A confirmar a tradição da gruta, temos vários testemunhos que falam da profanação desta nos tempos do imperador Adriano, que ali erigiu uma estátua de Adónis. Isto confirma que se tratava de um lugar de culto dos primeiros cristãos.

«Hospedaria». A palavra grega, katályma, oferece alguma dificuldade de tradução devido ao facto de tanto poder significar «hospedaria» (o kan que existia em muitas povoações), como «sala de cima» (cf. Lc 22, 11; Mc 14, 14), o aposento superior ao rés-do-chão, que tanto podia servir de salão como de dormitório. É estranho que, em qualquer dos casos, não coubessem mais duas pessoas, dada a boa hospitalidade oriental. Mas, para a hora do parto, não haveria o mínimo de condições de privacidade, por isso se recolhem para uma gruta ou curral. Um relato destes não se inventa, pois não era este o lugar digno para o Messias glorioso que se esperava. É impressionante verificar que para o «Senhor» de toda a Criação não havia na terra um sítio digno!

8 «Pastores». É significativo que os primeiros a quem o Messias se manifesta seja gente desprezada e sem valor aos olhos da sociedade judaica, que os incluía entre os «publicanos e pecadores», pois a sua ignorância religiosa levava-os a constantemente infringirem as inúmeras prescrições legais. O facto de guardarem o gado de noite não significa que não fosse inverno, embora não saibamos nem o dia nem sequer o mês em que Jesus nasceu, o que se compreende, pois então só se celebrava o aniversário natalício dos filhos dos reis e pouco mais. Só tardiamente se começou a celebrar o nascimento de Jesus (em Roma já se celebrava no séc. IV a 25 de Dezembro). Ao chegar a noite, os pastores reuniam o gado numa vedação campestre (redil) e eles abrigavam-se da inclemência do tempo nalguma cabana feita de ramos, mesmo durante o inverno.

14 Com o nascimento de Jesus, Deus é glorificado – «glória a Deus» e advém para os homens a síntese de todos os bens – «a paz». O texto original grego pode ter uma dupla tradução, qual delas a mais rica: «homens de boa vontade» (que possuem boa vontade, segundo a interpretação tradicional), ou «os homens que são objecto de boa vontade» (ou da benevolência divina)». Os textos litúrgicos preferiram a segunda, mais de acordo com a visão universalista de Lucas. Segundo uma variante textual (menos provável) teríamos uma frase com três membros: «glória a Deus..., paz na terra, benevolência divina entre os homens».

Natal do Senhor (Missa da Aurora)

1ª Leitura Isaías 62, 11-12

11Eis o que o Senhor proclama até aos confins da terra: «Dizei à filha de Sião: Eis que vem o teu Salvador. Com Ele vem o seu prémio e precede-O a sua recompensa. 12Serão chamados ‘Povo santo’, ‘Resgatados do Senhor’; e tu serás chamada ‘Pretendida’, ‘Cidade não abandonada’».

A leitura recolhe dois versículos do III Isaías, referidos à Jerusalém restaurada após o exílio. «Até aos confins da terra»: a perspectiva universalista típica da última parte de Isaías corresponde bem à realidade de um «Natal para todos».

«Filha de Sião, Filha de Jerusalém», forma poética de o profeta se dirigir aos habitantes da cidade, e mesmo a todos os israelitas (como aqui sucede). A Igreja é o novo «Israel de Deus», «o monte Sião» (Gal 4, 26; 6, 16; Hebr 12, 22; Apoc 14, 1; 21). «Sião» (etimologicamente lugar seco) era a cidadela da capital, Jerusalém. Inicialmente designava a fortaleza conquistada por David aos jebuseus, a colina oriental de Jerusalém (Ofel), que começou a ser chamada «cidade de David», para onde este transladou a Arca da Aliança. Quando Salomão construiu o Templo, a Norte de Sião, e para lá levou a arca, também se começou a dar a esse lugar o nome de Sião. Depois veio a designar o conjunto da cidade de Jerusalém, ou todos os seus habitantes e mesmo todo o povo de Israel. Na tradição cristã, veio a dar-se uma confusão acerca da localização topográfica do monte Sião, ao situá-lo no Cenáculo, na colina ocidental da cidade alta. Esta confusão parece ter origem em que o Cenáculo foi considerado a sede da primitiva Igreja de Jerusalém, o novo «monte Sião», segundo Hebr 12, 22 e Apoc 14, 1. Actualmente a Arqueologia veio esclarecer estes locais.

2ª Leitura Tito 3, 4-7

Caríssimo: 4Ao manifestar-se a bondade de Deus nosso Salvador e o seu amor para com os homens, Ele salvou-nos, 5não pelas obras justas que praticámos, mas em virtude da sua misericórdia, pelo baptismo da regeneração e renovação do Espírito Santo, 6que Ele derramou abundantemente sobre nós, por meio de Jesus Cristo nosso Salvador, 7para que, justificados pela sua graça, nos tornássemos, em esperança, herdeiros da vida eterna.

Esta belíssima síntese soteriológica bem podia ser uma espécie de fórmula de fé corrente na Igreja primitiva que tenha sido inserida na Carta.

5 O «banho de regeneração e renovação do Espírito Santo» é o Baptismo, que nos faz nascer de novo (Jo 3, 3.5) e que nos torna «nova criatura» (Gal 6, 15; 2 Cor 5, 17). O Natal é ocasião propícia para meditar também no nosso natal, o Baptismo, e para daí tirar consequências práticas: «reconhece, ó cristão, a tua dignidade; tornado participante da natureza divina, não regresses à antiga baixeza duma vida depravada; lembra-te de que Cabeça e de que Corpo és membro. Pelo Baptismo, tornaste-te templo do Espírito Santo» (S. Leão Magno, Homilia para o dia de Natal).

Evangelho São Lucas 2, 15-20

15Quando os Anjos se afastaram dos pastores em direcção ao Céu, começaram estes a dizer uns aos outros: «Vamos a Belém, para vermos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer». 16Para lá se dirigiram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura. 17Quando O viram, começaram a contar o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino. 18E todos os que ouviam admiravam-se do que os pastores diziam. 19Maria guardava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração. 20Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes tinha sido anunciado.

A leitura mostra a reacção dos pastores perante o anúncio do nascimento de Jesus que bem pode marcar a atitude do cristão ao tomar consciência do Natal de Jesus: a decisão (tão presente nos nossos vilancetes), de ir a Belém, apressadamente, sem delongas nem escusas ao encontro pessoal com Jesus, Maria e José

18 Os «pastores» contaram as maravilhas daquela noite, mas os conterrâneos não os deveriam tomar muito a sério. Como poderia o Messias revelar-se a gente tão miserável, mal conceituada e tida por pecadora?

19 «Maria» ensina-nos a viver o mistério do Natal no recolhimento, ponderação e intimidade com Jesus.

Natal do Senhor (Missa do Dia)

1ª Leitura Isaías 52, 7-10

7Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz a boa nova, que proclama a salvação e diz a Sião: «O teu Deus é Rei». 8Eis o grito das tuas sentinelas que levantam a voz. Todas juntas soltam brados de alegria, porque vêem com os próprios olhos o Senhor que volta para Sião. 9Rompei todas em brados de alegria, ruínas de Jerusalém, porque o Senhor consola o seu povo, resgata Jerusalém. 10O Senhor descobre o seu santo braço à vista de todas as nações e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus.

Esta página maravilhosa de Isaías que se refere à boa nova do fim do desterro trazida a Jerusalém pelos «belos pés do mensageiro do mensageiro que anuncia a paz», serve, na Liturgia de hoje, como de um hino triunfal a Cristo que vem à terra.

10 «O Senhor descobre o seu santo braço». Antropomorfismo que contém uma expressiva e frequente metáfora: o braço designa o poder e a força. Descobrir o braço é manifestar o poder.

2ª Leitura Hebreus 1, 1-6

1Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. 2Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo. 3Sendo o Filho esplendor da sua glória e imagem da sua substância, tudo sustenta com a sua palavra poderosa. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, sentou-Se à direita da Majestade no alto dos Céus 4e ficou tanto acima dos Anjos quanto mais sublime que o deles é o nome que recebeu em herança. 5A qual dos Anjos, com efeito, disse Deus alguma vez: «Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei»? E ainda: «Eu serei para Ele um Pai e Ele será para Mim um Filho»? 6E de novo, quando introduziu no mundo o seu Primogénito, disse: «Adorem-n’O todos os Anjos de Deus».

Hebreus, o célebre escrito doutrinal e exortatório, começa com um prólogo solene que nos situa, sem rodeios, perante a suma dignidade da pessoa de Jesus Cristo, à semelhança do prólogo do Evangelho de S. João. Começa por mostrar que é n’Ele que o Pai nos fala e se revela de modo exaustivo e definitivo, em contraste com toda a revelação anterior, fragmentária, variada e feita numa fase da história da salvação já superada. «Falou-nos por seu Filho», por isso a história da salvação chegou ao seu apogeu e plenitude, de modo que já não há lugar para mais nenhuma revelação ulterior (cf. DV, 4). Como observa S. João da Cruz, o Pai tendo-nos dito a sua própria Palavra, já não tem mais outra palavra para nos dizer (cf. Subida ao Monte Carmelo, 2, 22).

3 «Esplendor da glória de Deus. Fórmula muito expressiva no original, mas dificilmente traduzível em toda a sua riqueza. O Filho é a irradiação da substância do Pai, distinto d’Ele, mas da mesma substância; é «Deus de Deus, luz de luz», como diz o símbolo de Niceia para exprimir a processão ou origem do Filho no Pai, sendo com Ele um mesmo e único Deus.

«Imagem do ser divino». À letra, «reprodução da sua essência». Mais que imagem, quer significar, no original, a marca deixada pelo sinete no lacre, por um selo branco no papel, ou pela matriz na moeda cunhada. O Filho identifica-se com o Pai, quanto ao ser divino, mas esta imagem põe em evidência sobretudo a distinção de Pessoas na igualdade, como o cunho se distingue do objecto cunhado. A primeira expressão visa mais a identidade da natureza («esplendor», ou luz e irradiação).

Evangelho Forma longa: São João 1, 1-18   Forma breve: São João 1, 1-5.9-14

1No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, 2Ele estava com Deus. 3Tudo se fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito. 4N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens. 5A luz brilha nas trevas e as trevas não a receberam. 16(Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. 7Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. 8Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz.). 9O Verbo era a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem. 10Estava no mundo e o mundo, que foi feito por Ele, não O conheceu. 11Veio para o que era seu e os seus não O receberam. 12Mas, àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. 13Estes não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. 14E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito, cheio de graça e de verdade. 15(João dá testemunho d’Ele, exclamando: «Era deste que eu dizia: ‘O que vem depois de mim passou à minha frente, porque existia antes de mim’». 16Na verdade, foi da sua plenitude que todos nós recebemos graça sobre graça. 17Porque, se a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. 18A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer.)

A leitura evangélica de hoje é o prólogo do IV Evangelho, que constitui a chave para uma profunda compreensão de toda a obra do discípulo amado e da Pessoa adorável de Jesus Cristo: Ele é o Verbo incriado, o Deus Unigénito, que assumiu a nossa condição humana e nos oferece a possibilidade de ser filhos de Deus. Discute-se se o Evangelista compôs este texto para encabeçar a sua obra, ou se aproveitou algum hino litúrgico já existente (a que acrescentaria os vv. 6-9.13.15.17-18). Tem a forma dum poema em que os seus 18 versos que se podem agrupar em 4 estrofes (vv. 1-5; 6-8; 9-13; 14-18), cada uma com uma ideia central, que se vai ampliando e esclarecendo progressivamente. Este prólogo é como uma solene abertura de uma grande obra musical, onde os grandes temas a desenvolver ao longo do Evangelho começam por ser apontados: o Verbo Incarnado, Luz e Vida dos homens, Messias e revelador do Pai, os testemunhos a seu favor, a resposta humana de aceitação ou de rejeição, bem como as consequências de transcendental importância que tem a dramática alternativa em que o homem é posto perante a pessoa de Jesus.

1 «No princípio». Esta expressão faz-nos pensar no início do Génesis, onde se falava da Primeira Criação, que culminou com a criação do homem; no IV Evangelho fala-se duma Nova Criação, a Redenção operada pelo Verbo Incarnado, que culmina na elevação do homem à dignidade de filho de Deus. A própria noção de «princípio» é diferente em Gn 1, 1 e em Jo 1, 1: lá designava o início do tempo, aqui exprime o princípio absoluto que transcende o tempo e nos situa na própria eternidade de Deus. É muito expressivo o imperfeito de duração do verbo grego «eimi» repetido no v. 1, com três matizes: havia ou existia, estava, era, em contraposição com o aoristo de verbo «gínomai» no v. 3: tudo «foi feito», ao passo que o Verbo «existia», permanecia na existência («havia o Verbo»)! Não é possível fazer uma afirmação mais forte e clara da divindade de Jesus – o Verbo que se fez homem (v. 14) – do que esta com que S. João inicia o seu Evangelho: «O Verbo era Deus». Com razão desde os Santos Padres o IV Evangelista é figurado pela águia (cf. Ez 1, 10), pois o seu voo sobe de chofre até às alturas da divindade de Cristo e o seu olhar aquilino penetra nas profundezas do mistério da Pessoa divina de Jesus, no seio da Santíssima Trindade.

3 «Tudo foi feito por Ele». Esta expressão não significa que o Verbo foi o meio ou instrumento de que o Pai se serviu para criar. Ele age juntamente com o Pai e com o mesmo e único poder. A preposição grega «diá» («por») não se usa com genitivo para indicar apenas a causa instrumental; também pode indicar a causa principal como é aqui o caso e em Rom 11, 36. Esta expressão também evidencia que o Verbo não é criatura, uma vez que tudo o que foi feito, foi feito por Ele, em aberto contraste com a sabedoria, que Provérbios e Eclesiástico personificam (Prov 8, 22 ss; Sir 1, 4; 24, 8-9), a qual foi criada e nasceu.

4 «Vida». «Luz». São estes dois dos grandes temas do IV Evangelho (cf. Jo 8, 12; 14, 6). «A Vida era a Luz dos Homens»: o Verbo é a Luz da Vida (Jo 8, 12), Luz que conduz à Vida, Vida que é Luz, e Luz que é Vida. São dois conceitos que caracterizam a esfera da divindade, em oposição antagónica com as trevas, que são o reino de Satanás e seus sequazes. Este antagonismo que está patente ao longo dos escritos paulinos e joaninos, era corrente na literatura da época tanto judaica (em especial de Qumrã), como depois na gnóstica.

5 «As trevas não a receberam». Também se pode traduzir «não a compreenderam», ou «não a dominaram» (tendo em conta o contexto joanino da luta entre a luz e as trevas).

6-8 João não se interessa no seu Evangelho por nos dar a conhecer a vida ou a pregação moral do seu antigo mestre (Jo 1, 37 ss), mas não perde uma ocasião de pôr em realce o seu «testemunho» em favor de Jesus (Jo 1, 16.19.29.35; 3, 27; 5, 33). A insistência, em especial nestes versículos do prólogo (6-8.15) que interrompem o ritmo do poema, concretamente ao dizer que João «não era a Luz», pode dever-se a querer refutar os «joanitas», uma espécie de seita que seguia o Baptista, sem ter chegado a aderir a Cristo (cf. Act 19, 3-4).

9 Este versículo tem diversas traduções legítimas; a litúrgica segue a tradução preferível da Neovulgata, ao passo que a Vulgata dizia: «era a luz verdadeira que ilumina todo o homem que vem a este mundo».

10 «Não O conheceu», isto é, não O reconheceu como o Verbo de Deus e Salvador.

11 «Os seus» poderia designar o povo de Israel, enquanto propriedade de Deus (cf. Ex 19, 5; Dt 7, 6), mas parece designar, dado o paralelismo com o v. anterior, a humanidade no seu conjunto. A observação amarga de S. João (cf. Jo 12, 37) não tem vigência só para o dia de Natal (cf. Lc 2, 7), pois também cada um de nós sempre pode «acolher» melhor a Jesus.

12 «Deu-lhes o poder», isto é, concedeu-lhes a graça, dom e favor inteiramente gratuito que supera as possibilidades de qualquer criatura. «O Filho de Deus fez-se homem, para que os filhos do homem, os filhos de Adão, se fizessem filhos de Deus... Ele é o Filho de Deus por natureza, nós pela graça» (Santo Atanásio).

13 «E estes». Textos muito antigos e de grande valor têm o singular – «Este» – (adoptado pela Bíblia de Jerusalém) referido a Jesus, indicando assim simultaneamente a concepção e o parto virginal da Santíssima Virgem (um nascimento sem sangue).

14 Duma penada, S. João exprime toda a riqueza do mistério do Natal, sem se deter a narrar os seus pormenores, como S. Lucas. «Fez-se carne» é um hebraísmo para dizer que Se fez homem; de qualquer modo, põe-se o acento no aspecto mortal e passível: o Verbo eterno, a Segunda Pessoa divina, torna-se um de nós, sem deixar de ser Deus, em tudo igual a nós, excepto no pecado (cf. Hbr 4, 15).

«Habitou», literalmente significa: «ergueu a sua tenda no meio de nós». Parece haver aqui uma alusão à presença de Deus no meio do seu povo, na nuvem branca que pairava, no deserto, sobre a Tenda da Reunião. Esta alusão torna-se mais clara, se temos em conta o texto original grego – «eskénôsen» (ergueu a tenda) – que tem uma certa assonância com «xekhniná» a presença de Deus no meio do Povo (cf. Ex 40, 34-38). Esta presença misteriosa, mas real, continua-se na Santíssima Eucaristia, «Incarnação continuada».

A «Glória» do Verbo incarnado, que S. João e os demais viram, é a manifestação externa da sua divindade: os seus milagres, a sua transfiguração, a sua ressurreição, etc..

«Filho Unigénito». S. João, ao longo de todo o seu Evangelho, tem o cuidado de sempre reservar um termo grego para designar Jesus como Filho do Pai – yiós –, usando outra palavra para se referir a nós, enquanto filhos de Deus: téknon (cf. v. 12). Nós «tornamo-nos» filhos de Deus, (v. 12), ao passo que Jesus é o Filho por natureza, igual ao Pai, o «Unigénito» (vv. 14.18). O termo «Unigénito» (muitos traduzem por «Único») presta-se a exprimir o que a Teologia veio a explicitar como a «geração» eterna e única do Verbo no Pai.

«Cheio de graça e de verdade». S. João aplica ao Verbo incarnado a mesma definição que Yahwéh dá de Si mesmo a Moisés em Ex 34, 6: «Deus de muito amor e fidelidade». Por um lado, é mais uma referência à divindade de Cristo, por outro, põe em relevo as qualidades que resumem a grandeza do seu Coração de «pontífice misericordioso e fiel» (Hebr 2, 17).

16 «Graça sobre graça», isto é, graças em catadupa, umas atrás das outras, procedentes da plenitude de Cristo, como duma fonte inexaurível (cf. Jo 7, 37-39), ou também, como pensam alguns, «graça após graça», ou «graça em vez de graça» (Cristo-Moisés, Antiga-Nova Aliança), ou ainda «graça correspondente à graça» (a do Verbo: graça criada-graça incriada).

17 «Jesus Cristo» é aqui identificado explicitamente com o Verbo. A Lei mosaica limitava-se a dar normas, mas só por si não podia salvar ninguém, só a graça que Cristo nos trouxe a salvação.

18 «A Deus nunca ninguém O viu. Todas as «visões» de Deus eram indirectas, pois o homem não pode ver a Deus sem morrer (cf. Ex 19, 21; Is 6, 5), mas em Jesus temos a máxima manifestação de Deus à criatura nesta vida, a tal ponto que, mesmo sem contemplarmos a essência divina, quem vê a Jesus vê o Pai (Jo 14, 9). Com a Incarnação do Verbo temos a maior revelação de Deus à Humanidade.

«O Filho Unigénito, que está no seio do Pai». Outra variante possível na transmissão do texto original: «Deus Unigénito» (adoptada pela Neovulgata).

Sagrada Família de Jesus, Maria e José

1ª Leitura Ben-Sirá 3, 3-7.14-17a (gr. 2-6.12-14)

3Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe. 4Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados 5e acumula um tesouro quem honra sua mãe. 6Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos e será atendido na sua oração. 7Quem honra seu pai terá longa vida, e quem lhe obedece será o conforto de sua mãe. 14Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida. 15Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida, 16porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida 17ae converter-se-á em desconto dos teus pecados.

Esta leitura é extraída da Sabedoria de Jesus Ben Sirac, título grego do livro do A.T. mais lido na Liturgia, depois do Saltério, o que lhe veio a merecer, na Igreja latina, o nome de Eclesiástico, como já lhe chama no séc. III S. Cipriano. O autor inspirado escreve pelo ano 180 a. C., quando a Palestina acabava de passar para o domínio dos Selêucidas (198). Então, a helenização, favorecida pelas classes dirigentes, começava a tornar-se uma sedução para o povo da Aliança, com a adopção de costumes totalmente alheios à pureza da religião. Perante tão perigosa ameaça, Ben Sirac vê na família o mais poderoso baluarte contra o paganismo invasor. Assim, os seus ensinamentos vão insistentemente dirigidos aos filhos, e estes são continuamente exortados a prestar atenção às palavras do pai.

O nosso texto é um belíssimo comentário inspirado ao 4.º mandamento do Decálogo (Ex 20, 12; Dt 5, 16), concretizando alguns deveres: o cuidado com os pais na velhice (v. 14a); não lhes causar tristeza (v. 14b); ser indulgente para com eles, se vierem a perder a razão (15a); nunca os votar ao desprezo (15b).

2ª Leitura Colossenses 3, 12-21

Irmãos: 12Como eleitos de Deus, santos e predilectos, revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. 13Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se algum tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, assim deveis fazer vós também. 14Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. 15Reine em vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados para formar um só corpo. E vivei em acção de graças. 16Habite em vós com abundância a palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria; e com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração a Deus a vossa gratidão. 17E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai. 18Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor. 19Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza. 20Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor. 21Pais, não exaspereis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo.

A leitura é tirada da parte final da Carta, a parte parenética, ou de exortação moral, em que o autor fundamenta a vida moral do cristão na sua união com Cristo a partir do Baptismo: trata-se duma «vida nova em Cristo».

12-15 Temos aqui a enumeração de uma série de virtudes e de atitudes indispensáveis à vida doméstica, diríamos nós agora, para que ela se torne uma imitação da Sagrada Família de Nazaré. Estas virtudes são apresentadas com a alegoria do vestuário, como se fossem diversas peças de roupa, que, para se ajustarem bem à pessoa, têm de ser cingidas com um cinto, que é «a caridade, o vínculo da perfeição». Na linguagem bíblica, «revestir-se» não indica algo de meramente exterior, de aparências, mas assinala uma atitude interior, que implica uma conversão profunda.

18-21 O autor sagrado não pretende indicar aqui os deveres exclusivos de cada um dos membros da família, mas sim pôr o acento naqueles que cada um tem mais dificuldade em cumprir; com efeito, o marido também tem de «ser submisso» à mulher, e a mulher também tem de «amar» o seu marido.

Evangelho São Mateus 2, 13-15.19-23

13Depois de os Magos partirem, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto e fica lá até que eu te diga, pois Herodes vai procurar o Menino para O matar». 14José levantou-se de noite, tomou o Menino e sua Mãe e partiu para o Egipto 15e ficou lá até à morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor anunciara pelo profeta: «Do Egipto chamei o meu filho». 19Quando Herodes morreu, o Anjo apareceu em sonhos a José no Egipto 20e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e vai para a terra de Israel, pois aqueles que atentavam contra a vida do Menino já morreram». 21José levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe, e voltou para a terra de Israel. 22Mas, quando ouviu dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai, Herodes, teve receio de ir para lá. E, avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galileia 23e foi morar numa cidade chamada Nazaré, para se cumprir o que fora anunciado pelos Profetas: «Há-de chamar-Se Nazareno».

Este Evangelho foi escolhido para a festa da Sagrada Família não só para apresentar o lugar onde Jesus passou a maior parte da sua vida terrena, uma vida em família, mas sobretudo para que vejamos como a mais santa de todas as famílias não tendo sido poupada a tão grandes perigos e dificuldades, confiou na Providência divina e correspondeu fielmente aos planos divinos.

13 «Foge para o Egipto e fica por lá até que eu te diga». Eis o comentário da homilia de S. João Crisóstomo, pondo em evidência a fé, obediência e fidelidade de S. José, o chefe da Sagrada Família: «Ao ouvir isto José não se escandalizou nem disse: isto parece um enigma! Tu próprio, ainda não há muito, dizias-me que Ele salvaria o seu povo, e agora não é capaz de se salvar nem sequer a si mesmo, mas até temos necessidade de fugir, de empreender uma viagem, uma longa deslocação; isto é contrário à tua promessa! Mas não diz nada disto, porque José é um varão fiel. Também não pergunta pela data do regresso, apesar de o Anjo a ter deixado indeterminada, pois lhe tinha dito: fica lá até que eu te avise. Não obstante, nem por isso levanta dificuldades, mas obedece e crê e suporta todas as provações com alegria. É bem verdade que Deus, amigo dos homens, mistura mágoas e alegrias, procedimento que adopta com todos os santos. Porém, nem as penas nem as consolações no-las envia ininterruptamente, mas com umas e outras Ele vai tecendo a vida dos justos. Isto mesmo fez com S. José».

15 «Para se cumprir o que o Senhor anunciara...» Se bem que o sentido literal imediato que o profeta Oseias pôs nestas palavras (Os 11, 1) dissesse respeito a Israel o povo, filho de Deus que o Senhor liberta e chama do Egipto, a verdade é que o Evangelista, inspirado por Deus, descobre naquela passagem um sentido mais profundo: «do Egipto chamei o meu Filho». Esta actualização do texto do A. T. é considerada por uns como um sentido típico, isto é, uma figura do chamamento de Jesus; por outros, como um sentido pleno, isto é, mais profundo, já contido nas palavras do profeta, sem que este se apercebesse dele, mas querido por Deus ao inspirar o texto.

20 «Pois aqueles... já morreram». Com este plural de generalização é designado Herodes, o Grande, tão grande pelas suas construções, como pela sua crueldade. Não há dúvida de que estas referências a Herodes e a Arquelau por parte do Evangelista são um valioso indício humano do valor histórico do relato. Aqui não aparece nada de fantástico, tudo tem naturalidade e verosimilhança. Com efeito, a morte do tirano não aparece como um castigo divino, como é próprio de relatos lendários. É certo que a medida de matar os inocentes de Belém era descabida e inadequada, mas coaduna-se com a crueldade de Herodes e com a arbitrariedade dum tirano que num acesso de fúria faz o que lhe vem à cabeça só para satisfazer a sua ira.

23 «Há-de chamar-se Nazareno». S. Mateus, sabendo como o título de Nazareno usado pelos judeus incrédulos tinha uma decidida intenção de vexame (cf. Act 24, 5) para Jesus e para os cristãos, e, dado que Nazaré era uma aldeia insignificante e de mau nome (cf. Jo 1, 46), quis deixar ver como afinal o ser apodado do humilhante titulo de Nazareno era mais uma prova de que Ele era o Messias, cumprindo assim as profecias. Se é certo que não há nenhuma passagem do Antigo Testamento que fale do Messias como Nazareno, há algumas que se referem às humilhações a que o Messias será sujeito (Sal 22 (21); Is 53, 2 ss; etc.) e, sobretudo, há outras profecias que o anunciam como «o rebento (em hebraico nétser) de Jessé», pai de David (Is 11, 1; Zac 3, 8; 6, 12; etc.); assim, para os destinatários do 1.º Evangelho, cristãos de origem judaica, esta referência era clara, dada a perfeita equivalência entre «nétser», «rebento», e «notsri», «nazareno» (na literatura judaica Jesus é chamado: Yexu-ha-notsri); S. Mateus recorreu a uma técnica (deraxe) de interpretação rabínica, chamada «al-tiqrey» («não leias»), entenda-se, com umas vogais (as vogais da palavra nétser, rebento), mas com outras vogais (as vogais da palavra «notsri», nazareno), tendo em conta que em hebraico não se escrevem as vogais, mas apenas as consoantes, variando o sentido das mesmas palavras conforme as vogais com que as palavras sejam lidas. (Podem ver-se mais comentários na solenidade da Epifania).

Santa Maria Mãe de Deus

1ª Leitura Números 6, 22-27

22O Senhor disse a Moisés: 23«Fala a Aarão e aos seus filhos e diz-lhes: Assim abençoareis os filhos de Israel, dizendo: 24‘O Senhor te abençoe e te proteja. 25O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. 26O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz’. 27Assim invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel e Eu os abençoarei».

24-26 Esta é uma bênção própria da liturgia judaica, ainda hoje usada. É tripla e crescente: com três palavras a primeira; com 5 palavras e com 7 as seguintes (no original hebraico). A tríplice invocação do Senhor, faz-nos lembrar a bênção da Igreja, em nome das Três Pessoas da SS. Trindade.

Quando, ao começar o ano civil, nos saudamos desejando Ano Novo feliz, aqui temos as felicitações, isto é, as bênçãos que o Senhor – e a Igreja – nos endereça. 

2ª Leitura Gálatas 4, 4-7

Irmãos: 4Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei, 5para resgatar os que estavam sujeitos à Lei e nos tornar seus filhos adoptivos. 6E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: «Abbá! Pai!». 7Assim, já não és escravo, mas filho. E, se és filho, também és herdeiro, por graça de Deus.

O texto escolhido para hoje corresponde à única vez que S. Paulo, em todas as suas cartas, menciona directamente a Virgem Maria. Não deixa de ser interessante a alusão à Mãe de Jesus, sem mencionar o pai, o que parece insinuar a maternidade  virginal de Maria.

5 Segundo o pensamento paulino, Cristo, sofrendo e morrendo, satisfaz as exigências punitivas da Lei, que exigia a morte do pecador; assim «resgatou os que estavam sujeitos à Lei» e mereceu-nos vir a ser filhos adoptivos de Deus. O Natal é a festa do nascimento do Filho de Deus e também a da nossa filiação divina.

6 «Abbá». Porque somos realmente filhos de Deus, podemos dirigirmo-nos a Ele com a confiança de filhos pequenos e chamar-Lhe, à maneira das criancinhas: «Papá». «Abbá» é o diminutivo carinhoso com que ainda hoje, em Israel, os filhos chamam pelo pai (abbá). S. Paulo, escrevendo em grego e para destinatários que na maior parte não sabiam hebraico, parece querer manter a mesma expressão carinhosa e familiar com que Jesus se dirigia ao Pai, a qual teria causado um grande impacto nos próprios discípulos, porque jamais um judeu se tinha atrevido a invocar a Deus desta maneira; esta é a razão pela qual a tradição não deixou perder esta tão significativa palavra original de Jesus.

Evangelho São Lucas 2, 16-21

Naquele tempo, 16os pastores dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura. 17Quando O viram, começaram a contar o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino. 18E todos os que ouviam admiravam-se do que os pastores diziam. 19Maria conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração. 20Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes tinha sido anunciado. 21Quando se completaram os oito dias para o Menino ser circuncidado, deram-Lhe o nome de Jesus, indicado pelo Anjo, antes de ter sido concebido no seio materno.

Texto na maior parte coincidente com o do Evangelho da Missa da Aurora do dia de Natal (ver notas supra).

21 Repetidas vezes se insiste em que o nome de Jesus é um nome designado por Deus: o nome, etimologicamente, significa aquilo que Jesus é na realidade, «Yahwéh que salva».

Epifania do Senhor

1ª Leitura Isaías 60, 1-6

1Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor. 2Vê como a noite cobre a terra e a escuridão os povos. Mas sobre ti levanta-Se o Senhor e a sua glória te ilumina. 3As nações caminharão à tua luz e os reis ao esplendor da tua aurora. 4Olha ao redor e vê: todos se reúnem e vêm ao teu encontro; os teus filhos vão chegar de longe e as tuas filhas são trazidas nos braços. 5Quando o vires ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração, pois a ti afluirão os tesouros do mar, a ti virão ter as riquezas das nações. 6Invadir-te-á uma multidão de camelos, de dromedários de Madiã e Efá. Virão todos os de Sabá; hão-de trazer ouro e incenso e proclamarão as glórias do Senhor.

O texto canta a glória da Jerusalém renovada, figura da «Jerusalém nova descida do Céu» (cf. Apoc 21, 2.23-24). A visão universalista que o poema apresenta corresponde à realidade da Igreja, que é católica, universal.

3 «As nações caminharão à tua luz, e os reis ao esplendor da tua aurora». Não há dúvida de que se pode adaptar perfeitamente este texto isaiano ao mistério hoje celebrado: os «magos» – este texto terá contribuído para se lhes chamar «reis» –, que seguem a «luz» da estrela, são os pioneiros de entre os povos gentios a acorrer ao encontro do Messias.

6 A menção de povos do Oriente – «Madiã e Efá» –, dos ricos comerciantes de «Sabá», a sul da Arábia (Yémen) e, sobretudo, os produtos que trazem – «ouro e incenso» – fazem lembrar o que nos relata o Evangelho: a vinda dos Magos do Oriente que trazem «oiro, incenso e mirra».  

2ª Leitura Efésios 3, 2-3a.5-6

Irmãos: 2Certamente já ouvistes falar da graça que Deus me confiou a vosso favor: 3apor uma revelação, foi-me dado a conhecer o mistério de Cristo. Nas gerações passadas, 5ele não foi dado a conhecer aos filhos dos homens como agora foi revelado pelo Espírito Santo aos seus santos apóstolos e profetas: 6os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho.

Nesta passagem de Efésios, S. Paulo define em que consiste o «mistério de Cristo» (v. 4). Os gentios, que vêm à Igreja, estão no mesmo pé de igualdade que os judeus procedentes do antigo povo de Deus: não há lugar para cristãos de primeira e de segunda! O texto original é muito expressivo: os gentios vêm a ser «co-herdeiros» («recebem a mesma herança que os judeus», traduz, parafraseando, o texto português oficial), «com-corpóreos» (isto é, «pertencem ao mesmo Corpo» Místico de Cristo, que é a Igreja una), e «com-participantes na Promessa» («beneficiam da mesma promessa» de salvação). E é este o mistério que também se celebra na Festa da Epifania: Cristo igualmente Salvador de gentios e judeus.

Evangelho São Mateus 2, 1-12

1Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. 2«Onde está – perguntaram eles – o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O». 3Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda a cidade de Jerusalém. 4Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. 5Eles responderam: «Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo profeta: 6‘Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo’». 7Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela. 8Depois enviou-os a Belém e disse-lhes: «Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-l’O». 9Ouvido o rei, puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino. 10Ao ver a estrela, sentiram grande alegria. 11Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, caindo de joelhos, prostraram-se diante d’Ele e adoraram-n’O. Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra. 12E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho.

O Evangelho da adoração dos Magos foi objecto das mais belas reflexões teológico-espirituais ao longo da história: já nos fins do séc. II, Tertuliano via nas ofertas dos Magos símbolos do reconhecimento de quem era Jesus: oferecem-lhe «ouro» como Rei, «incenso» como Deus, «mirra» (outra resina aromática, usada na sepultura) como Homem. Santo Ambrósio fixa-se em que os Magos vão por um caminho e voltam por outro, porque regressam melhores, depois do encontro com Cristo. Santo Agostinho vê nos Magos as primitiæ gentium, a par dos pastores que são as primícias dos judeus, etc.. Mas ainda hoje os comentadores retomam e actualizam os temas do relato: Cristo como verdadeira luz, o caminho dos pagãos para Cristo, o simbolismo dos presentes, a fé e perseverança dos Magos, a busca do sentido da Escritura e o sentido de procura do caminho, etc..

O próprio relato encerra um grande alcance teológico: Jesus é o verdadeiro «rei» que merece ser procurado e adorado por todos; a Ele acorrem, vindas de longe, gentes guiadas por uma estrela e pela Escritura; ainda menino e sem falar, já divide os homens a favor e contra Ele; a homenagem que Lhe prestam os Magos é a resposta humana ao «Emanuel, Deus connosco»; n’Ele se cumprem as profecias que falavam da vinda de reis e de todos os povos a Jerusalém (Is 60 e Salm 72). Mais ainda, ao nível da própria redacção de Mateus, o relato ilustra a teologia específica do evangelista: sendo este Evangelho dirigido a judeo-cristãos, confrontados com a Sinagoga, que não aceita Jesus, o episódio dos Magos documenta bem a teologia do «messias rejeitado», pois Jesus, logo ao nascer, encontra a hostilidade do poder e a indiferença das autoridades religiosas; é também uma ilustração das palavras de Jesus, «virão muitos do Oriente…» (Mt 8, 11).

Em face de tudo isto, o estudioso não pode deixar de se interrogar se não estaremos perante um teologúmeno, uma criação de Mateus para dar corpo a uma ideia teológica. A verdade é que em toda a tradição cristã se deu grande valor à adoração dos Magos e à festa da Epifania. Se detrás disto não há realidade nenhuma, o significado de tudo fica privado da sua base mais sólida.

Nota sobre a questão da historicidade do relato: A crítica bíblica moderna tem proposto teorias bastante discordantes; por um lado, temos um grupo em que R. E. Brown reúne as objecções que se têm levantado contra a historicidade do relato, que denotam – diz – «uma inverosimilhança intrínseca»: o movimento da estrela de Norte para Sul (Jerusalém – Belém), a sua paragem sobre a casa, a consulta de Herodes aos escribas e sacerdotes, seus inimigos, a indicação de Belém como um dado desconhecido ao contrário de Jo 7, 42, a imperdoável ingenuidade de Herodes que não manda espiar os Magos, o facto de não se ter identificado o menino após a visita de homens de fora a uma pequena povoação, o silêncio de Lucas sobre a visita; estes autores concluem que se trata, então, de uma construção artificial feita com textos do Antigo Testamento. Por outro lado, temos autores mais recentes como R. T. France (The Gospel according to Mathew) que defendem a credibilidade histórica do relato, demonstrando que as dificuldades contra têm solução. Com efeito, embora estejam subjacentes no relato vários textos do A. T., apenas um é citado, podendo mesmo ser suprimido sem interromper o discurso (vv. 5b-6), o que é sinal de que a citação foi acrescentada a um relato preexistente, não sendo a citação a dar origem ao relato. Os pretensos traços duma lenda edificante, ou midraxe hagadá, nada têm de historicamente improvável, fora o caso da estrela que pára sobre a casa, mas já S. João Crisóstomo observava que a estrela não vinha de cima, mas de baixo, pois não era uma estrela natural e não é provável que a Igreja, que bem cedo entrou em conflito com a astrologia, tivesse inventado uma história a favorecê-la. O facto de Herodes não ter mandado espiar os Magos não revela ingenuidade, mas prudência para que os seus guardas não viessem a dificultar a descoberta do Menino, e também uma plena confiança em que os Magos voltassem; finge colaborar com eles, a fim de obter mais dados. Também René Laurentin sublinha a credibilidade histórica de certos pormenores, como a existência de astrólogos viajantes («magos») no Oriente, ou a astúcia e crueldade de Herodes (matou a maior parte das suas 10 mulheres, vários filhos e muitas pessoas influentes na política); e, sobretudo, Mateus revela «sensibilidade histórica», ao não fazer coincidir bem os factos que narra com as citações e alusões ao A. T.: se os factos fossem inventados, teriam sido forjados de molde a que se adaptassem bem às passagens bíblicas (a estrela da profecia de Balaão – Num 24, 17 – não é a estrela que indica o Messias, mas sim o próprio Messias, etc.). Também a propaganda religiosa judaica tinha despertado a expectativa do nascimento do Messias (ver, por ex., a IV écloga de Virgílio ) e fervorosos aderentes entre os gentios, o que torna mais compreensível a visita destes estranhos. A. Díez Macho afirma que «a intenção de Mateus é narrar história confirmada com profecias ou paralelos vétero-testamentários», e descobre no episódio do Magos uma grande quantidade de «alusões» ao A. T. (o chamado rémez, figura retórica muito do gosto dos semitas e frequente na Bíblia). Este célebre biblista espanhol (assim também G. Segalla) diz que o fenómeno da estrela pode muito bem corresponder à conjunção de Júpiter e Saturno que se deu na constelação de Peixe, e que teve lugar três vezes no ano 7 a. C., data provável de nascimento de Cristo. Mas a verdade é que não se pode negar o carácter popular do relato, que dá a entender que a estrela se deslocava de Norte para Sul até parar sobre a casa.

Baptismo do Senhor

1ª leitura Isaías 42, 1-4.6-7

Diz o Senhor: 1«Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito, para que leve a justiça às nações. 2Não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças; 3não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega: 4proclamará fielmente a justiça. Não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra, a doutrina que as ilhas longínquas esperam. 6Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça; tomei-te pela mão, formei-te e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações, 7para abrires os olhos aos cegos, tirares do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas».

Este texto pertence ao primeiro dos quatro «cantos do Servo de Yahwéh», dispersos pelo Segundo Isaías (Is 40 – 55), mas que, na origem; talvez fizessem parte de um único poema.

«Eis o meu servo». Trata-se de um mediador através do qual Deus levará a cabo o seu plano de salvação. Torna-se difícil determinar quem é designado em primeiro plano, se é uma personalidade individual (um rei de Judá, o profeta, ou o messias), ou uma colectividade (todo o povo de Israel ou parte dele), ou um indivíduo como símbolo de todo o povo. O nosso texto deixa ver uma personagem deveras misteriosa, humilde (vv. 2-3) e poderosa (v. 4.7), escolhido por Deus e com uma missão universal (v. 1.6). Pondo de parte a complexa e discutida questão da personalidade originária deste magnífico poema, o certo é que o Novo Testamento está cheio de ressonâncias deste texto, vendo mesmo nesta figura singular um anúncio do Messias, com pleno cumprimento na pessoa de Jesus (v. 1: cf. Mt 3, 17 e Lc 9, 35; vv. 2-4: cf. Mt 12, 15-21; v. 6: Lc 1, 78-79 e 2, 32 e Jo 8, 12 e 9, 5; v. 7: Mt 11, 4-6 e Lc 7, 18-22). É evidente que foi escolhida esta leitura para hoje porque, assim Deus, pelo Profeta, apresenta o seu servo «enlevo da minha alma», sobre quem «fiz repousar o meu espírito»; é assim que também no Jordão Jesus é apresentado (cf. Evangelho de hoje e paralelos).

2ª leitura Actos dos Apóstolos 10, 34-38

Naqueles dias, 34Pedro tomou a palavra e disse: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, 35mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável. 36Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo, que é o Senhor de todos. 37Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: 38Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele».

Temos aqui uma pequenina parte do discurso de Pedro em casa do centurião Cornélio em Cesareia. quando recebeu directamente na Igreja os primeiros gentios, sem serem obrigados a judaizar. É surpreendente que um discurso dirigido a não judeus contenha alusões (não citações explícitas) ao Antigo Testamento: v. 34 – «Deus não faz acepção de pessoas» (cf. Dt 10, 17); v. 36 – «Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel» (cf. Salm 107, 20); «anunciando a paz» (cf. Is 52, 7); v. 38 «Deus ungiu com… Espírito Santo» (cf. Is 61, 1). Isto corresponde a que se está num ponto crucial da vida da Igreja, em que ela entra decididamente pelos caminhos da sua universalidade intrínseca, em confronto com o nacionalismo judaico; por isso era importante recorrer àquelas passagens do A. T. que se opõem a qualquer espécie de privilégio de raça ou cultura: «a palavra aos filhos de Israel» deixa ver como Deus é o «Senhor de todos», imparcial, «não faz acepção de pessoas» e que a «paz», a súmula de todos os bens messiânicos, Deus a destina a toda a humanidade. O discurso tem um carácter kerigmático evidente; e Lucas – o historiador-teólogo – ao redigi-lo, quaisquer que possam ter sido as fontes utilizadas, terá em vista, mais ainda do que a situação concreta em que foi pronunciado, o efeito a produzir nos seus leitores. Convém notar que, no entanto, ao redigir os discursos – o grande recurso de Actos –, Lucas não os inventa; embora não sejam uma reprodução literal, considera-se que correspondem aos temas da pregação primitiva.

38 «Ungiu do Espírito Santo». Estamos aqui em face de uma expressão simbólica tipicamente hebraica, alusiva à união misteriosa com o Espírito Santo (algo que pertence ao mistério trinitário, o verdadeiro ser e missão de Jesus, que se torna visível na sua Humanidade, na teofania do Jordão). É clara a referência a textos do A. T. de grande densidade messiânica, como Is 11, 2; 61, 1 (cf. Lc 2, 18). Ver supra nota à 1ª leitura do 3º Domingo do Advento (nota ao v. 26).

Evangelho São Marcos 1, 7-11

Naquele tempo, 7João começou a pregar, dizendo: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. 8Eu baptizo na água, mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo». 9Sucedeu que, naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi baptizado por João no rio Jordão. 10Ao subir da água, viu os céus rasgarem-se e o Espírito, como uma pomba, descer sobre Ele. 11E dos céus ouviu-se uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado, em Ti pus toda a minha complacência».

São Marcos inicia o seu Evangelho com os brevíssimos relatos da pregação do Baptista no deserto, do Baptismo e das tentações de Jesus

7-8 O contraste entre as duas personalidades, Jesus e João, reforça a superioridade de Jesus e do seu Baptismo: «não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias»; note-se que este gesto era considerado de tal modo humilhante, que nem sequer um judeu o podia impor a um criado da sua raça. É o próprio Baptista (assim chamado, sem mais, nos Sinópticos e também por Flávio Josefo) que estabelece o confronto entre o seu baptismo (banho) e o de Jesus: o seu apenas significava a graça e dispunha para a conversão; o de Jesus não só significa a graça purificadora e regeneradora. mas também a produz eficazmente: «Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo». Ver nota a Jo 1, 26 (supra, 3º Domingo do Advento).

9 Jesus quer ser baptizado, mas não é para se inscrever na escola do Baptista, nem sequer para ensinar a acatar a missão dum extraordinário enviado de Deus, nem mesmo simplesmente para nos deixar um exemplo de humildade; é sobretudo para realizar uma espécie de «acção simbólica», à maneira dos antigos profetas, como a entendeu a tradição patrística da Igreja: Ele que era a Vida (cf. Jo 1, 4; 14, 6), entra em contacto com a água para lhe dar a força vivificante de vir a ser a matéria do nosso Baptismo. Por outro lado, logo no início da vida pública, é-nos dado um sinal da divindade de Jesus, constituindo, por assim dizer, a sua apresentação pública como Messias e Filho de Deus, a inauguração solene do seu ministério público, credenciado pelas restantes Pessoas divinas. A SS. Trindade, que se manifesta no Baptismo do Senhor, toma posse da alma do fiel que é baptizado.

10 A «pomba», representa o Espírito Santo, porque os rabinos da época costumavam representar o Espírito de Deus por esta ave, a adejar sobre as águas na obra da criação (cf. Gn 1, 1). Segundo os Santos Padres, ela é o símbolo da paz e da reconciliação entre Deus e a Humanidade.

2.º Domingo Comum

1ª leitura 1 Samuel 3, 3b-10.19

Naqueles dias, 3bSamuel dormia no templo do Senhor, onde se encontrava a arca de Deus. 4O Senhor chamou Samuel e ele respondeu: «Aqui estou». 5E, correndo para junto de Heli, disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Mas Heli respondeu: «Eu não te chamei; torna a deitar-te». E ele foi deitar-se. 6O Senhor voltou a chamar Samuel. Samuel levantou-se, foi ter com Heli e disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Heli respondeu: «Não te chamei, meu filho; torna a deitar-te». 7Samuel ainda não conhecia o Senhor, porque, até então, nunca se lhe tinha manifestado a palavra do Senhor. 8O Senhor chamou Samuel pela terceira vez. Ele levantou-se, foi ter com Heli e disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Então Heli compreendeu que era o Senhor que chamava pelo jovem. 9Disse Heli a Samuel: «Vai deitar-te; e se te chamarem outra vez, responde: ‘Falai, Senhor, que o vosso servo escuta’». Samuel voltou para o seu lugar e deitou-se. 10O Senhor veio, aproximou-Se e chamou como das outras vezes: «Samuel, Samuel!» E Samuel respondeu: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta». 19Samuel foi crescendo; o Senhor estava com ele e nenhuma das suas palavras deixou de cumprir-se.

Esta leitura é uma selecção de versículos de 1 Sam 3, onde se relata a célebre vocação do profeta pregador que, no séc. XI, havia de imprimir novo rumo ao povo de Israel. A escolha dos versículos deixa ver que a intenção da Liturgia não se centra nos pormenores da história, nem na infidelidade de Eli, mas na lição de obediência pronta do jovem Samuel, oferecido ao Senhor por sua mãe, Ana (cf. 1, 28), que vivia com o sacerdote Eli como servidor do santuário de Silo – «no templo do Senhor» (v. 3) –, onde se guardava a Arca da Aliança. Com Samuel inicia-se em Israel o profetismo como ministério constante e ininterrupto. Como veio a suceder com os grandes profetas, a sua missão aparece precedida dum chamamento sobrenatural e bem claro de Deus. A presente leitura é a história duma vocação e fala-nos da prontidão e disponibilidade para seguir a chamada divina.

2ª leitura 1 Coríntios 6, 13c-15a.17-20

Irmãos: 13cO corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo. Deus, que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará a nós pelo seu poder. 15aNão sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? 17Aquele que se une ao Senhor constitui com Ele um só Espírito. 18Fugi da imoralidade. Qualquer outro pecado que o homem cometa é exterior ao seu corpo; mas o que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo. 19Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós e vos foi dado por Deus? Não pertenceis a vós mesmos, 20porque fostes resgatados por grande preço: glorificai a Deus no vosso corpo.

Como em todos os anos, A, B e C, sempre se inicia o tempo comum tendo como 2ª leitura respigos da 1ª aos Coríntios; neste ano B, começa-se no cap. 6; no próximo ano C. no cap. 12.

A leitura é tirada do fim dia primeira parte de 1 Cor na qual S. Paulo procura remediar vários abusos verificados naquela comunidade nascente. É bem conhecida a má fama da capital da província romana da Acaia: «viver em Corinto» – Korinthiázein – era sinónimo de levar vida libertina. O próprio vício era divinizado: no templo de Afrodite havia cerca de mil sacerdotisas dedicadas à prostituição sagrada. É, pois, fácil de compreender que, para alguns convertidos, fosse difícil abandonar uma mentalidade generalizada que legitimava a fornicação. E, para a justificarem, chegariam mesmo, segundo se depreende do v. 12, a torcer as próprias palavras de S. Paulo: «tudo me é permitido» (cf. 1 Cor 10, 23), e a dizer que se tratava duma simples necessidade corporal, como comer e beber (cf. v. 13), e não como algo em que tem um sentido superior que envolve toda a pessoa. O Apóstolo, para levar estes maus cristãos ao bom caminho e impedir que os outros se deixem perverter, não se detém a dar-lhes um curso de educação sexual, nem a insistir na fealdade do vício e das suas funestas consequências para o indivíduo e para a sociedade. Apela para os motivos da fé: «o corpo… é para o Senhor» (v. 13); ele há-de ressuscitar (v. 14); é membro de Cristo (v. 15); é «templo do Espírito Santo» (v. 19); «resgatados» por Cristo, já «não pertencemos a nós mesmos» (v. 20a); a castidade é uma afirmação cheia de alegria: «glorificai a Deus no vosso corpo» (v. 20b). S. Paulo não se limita a condenar a prostituição sagrada dos santuários idolátricos, pois não trata aqui da idolatria, mas da castidade; fala sem os eufemismos: «fornicação», traduzida pelo termo vago, «imoralidade» (v. 18), tendo-se omitido na leitura litúrgica os bem fortes versículos 15b-16: «como é possível tomar os membros de Cristo para fazer deles membros duma prostituta?…»

Evangelho São João 1, 35-42

35Naquele tempo, estava João Baptista com dois dos seus discípulos 36e, vendo Jesus que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus». 37Os dois discípulos ouviram-no dizer aquelas palavras e seguiram Jesus. 38Entretanto, Jesus voltou-Se; e, ao ver que O seguiam, disse-lhes: «Que procurais?» Eles responderam: «Rabi que quer dizer ‘Mestre’ onde moras?» Disse-lhes Jesus: 39«Vinde ver». Eles foram ver onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Era por volta das quatro horas da tarde. 40André, irmão de Simão Pedro, foi um dos que ouviram João e seguiram Jesus. 41Foi procurar primeiro seu irmão Simão e disse-lhe: «Encontrámos o Messias» que quer dizer ‘Cristo’; 42e levou-o a Jesus. Fitando os olhos nele, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas» que quer dizer ‘Pedro’.

Os três Sinópticos apresentam os primeiros discípulos noutro contexto, o do chamamento (Mt 4,18-22; Mc 1,16-20; Lc 5,1-11), ao passo que o IV Evangelho se limita a relatar um primeiro encontro, cheio de vivacidade e encanto.

35 «João». A tradução litúrgica, para desfazer equívocos, acrescentou: «Baptista». A verdade é que o 4.° Evangelho só conhece um João, por isso nunca o adjectiva de Baptista. Neste relato não se fala do nome do companheiro de André, que seria o próprio evangelista (cf. 13, 23; 18, 15; 19, 26.35; 20, 2; 21, 2.20.24), o qual, por humildade, nunca fala do seu próprio nome, o que é um sinal de que a ele se deve a autoria deste Evangelho.

36 «Eis o Cordeiro de Deus» (cf. Jo 1, 20). A Liturgia e a iconografia cristã dão grande relevo a este testemunho do Baptista. A expressão é muito rica de significado e faz referência não só ao cordeiro pascal (cf. 1 Cor 5, 7; Jo 19, 36), como também ao Servo de Yahwéh Sofredor, comparado em Is 57, a um manso cordeiro levado à morte (a própria palavra aramaica certamente usada pelo Baptista, «talyá», significa tanto cordeiro como servo).

37-40 O relato conserva a frescura e o encanto de quem viveu intensamente aquele momento único e decisivo da vida docemente subjugado pela atracção humana e fascínio divino da pessoa de Jesus. Cerca de setenta anos depois, João recorda exactamente a hora e, em pormenor, aquela inolvidável e tímida troca de palavras. Eis o comentário de Santo Agostinho: «Não O seguiram para ficar definitivamente com Ele. (...) Quiseram somente ver onde habitava… O Mestre mostrou-lhes onde habitava e eles foram e permaneceram com Ele. Que dia feliz e que feliz noite passaram! Quem poderá dizer-nos o que eles ouviram da boca do Senhor? Façamos nós também uma habitação no nosso coração, e venha o Senhor até junto de nós para nos ensinar e falar connosco!» (In Ioh. tract. 7, 9).

41-42 «Encontrámos o Messias!» (Eurêkamen ...) O grande achado da vida, que os faz exclamar mais exultantes que o sábio grego Arquimedes ao descobrir o seu célebre princípio da Física: «êureka!». E não se pode conhecer Cristo sem transmitir a outros essa grande e feliz notícia. «Messias», é uma palavra hebraica (em grego «Cristo»), que significa aquele que foi ungido, designando-se assim um novo rei David esperado para restaurar o reino de Israel no fim dos tempos (cf. 2 Sam 7, 12-16.19.25.29; 1 Cr 17, 11-14; Is 11, 1-9; Act 2, 30; Lc 1, 32-33). Cefas não era um nome, mas um apelativo original, pedra (em aramaico), para indicar, neste caso, não uma característica pessoal (Simão não se distinguia pela firmeza da rocha: cf. 18, 17.25.27), mas a missão a que Deus o destinava de vir a ser a pedra em que Jesus assenta a sua Igreja (cf. Jo 21, 15-18; Mt 16, 18-19; Lc 22, 31-33).

3.º Domingo Comum

1ª leitura Jonas 3, 1-5.10

1A palavra do Senhor foi dirigida a Jonas nos seguintes termos: 2«Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e apregoa nela a mensagem que Eu te direi». 3Jonas levantou-se e foi a Nínive, conforme a palavra do Senhor. Nínive era uma grande cidade aos olhos de Deus; levava três dias a atravessar. 4Jonas entrou na cidade, caminhou durante um dia e começou a pregar nestes termos: «Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída». 5Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, proclamaram um jejum e revestiram-se de saco, desde o maior ao mais pequeno. 10Quando Deus viu as suas obras e como se convertiam do seu mau caminho, desistiu do castigo com que os ameaçara e não o executou.  

10 «Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída». É deveras curioso, singular e significativo que um livro profético não registe mais do que esta frase da pregação de Jonas. É que o ensinamento da obra não reside em palavras pregadas, mas nos factos relatados. Tudo leva a crer que o livro é uma fina sátira contra a personagem central, um fictício profeta Jonas, que nada tem a ver com a figura histórica do profeta deste nome no séc. VIII (cf. 2 Re 14, 25-27). O Jonas do livro materializa a mentalidade da dita habdaláh («separação»), que se difundiu após a reforma de Esdras e Neemias, uma mentalidade fechada e hostil a todo o estrangeiro. Esta é posta a ridículo na figura de Jonas. Na primeira parte do livro (Jon 1 – 2) ele nega-se a ir a Nínive (não vá ela converter-se!) e na segunda (Jon 3 – 4), quando, após a sua pregação, a cidade se converte, ele entra em furor contra Deus, porque se mostrou misericordioso e perdoou à cidade arrependida. A grande lição do livro está aqui: Deus tem misericórdia de todos os pecadores e quer que todos se salvem (cf. 1 Tim 2, 4), mesmo os mais afastados, de quem Nínive, a capital da antiga Assíria, ficou como uma figura emblemática. Este Jonas faz a figura do «filho bom» – mas realmente o mau – da parábola do filho pródigo.

2ª leitura 1 Coríntios 7, 29-31

29O que tenho a dizer-vos, irmãos, é que o tempo é breve. Doravante, os que têm esposas procedam como se as não tivessem; 30os que choram, como se não chorassem; os que andam alegres, como se não andassem; os que compram, como se não possuíssem; 31os que utilizam este mundo, como se realmente não o utilizassem. De facto, o cenário deste mundo é passageiro.

O Apóstolo, no capítulo 7 da 1ª Coríntios, responde à pergunta que lhe tinha sido feita sobre a virgindade e o celibato. Pensa-se que a pergunta provinha de alguns que consideravam as relações matrimoniais como algo mau ou impróprio para um cristão. S. Paulo, depois de expor a doutrina sobre a legitimidade e indissolubilidade do matrimónio (vv. 1-16), recomenda que cada um siga a vocação a que foi chamado (vv. 17-24), passando a fazer a apologia do celibato e a dar razões da excelência da virgindade (vv. 25-38); desta parte é que são extraídos os 3 versículos da leitura. S. Paulo tira partido da consideração da brevidade desta vida – «o tempo é breve!» –, para que, na hora de se tomar uma decisão, ninguém se deixe levar pelo apego às coisas passageiras. Outras motivações são apresentadas a seguir e que pertencem à leitura do próximo Domingo.

Evangelho São Marcos 1, 14-20

14Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo: 15«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho». 16Caminhando junto ao mar da Galileia, viu Simão e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores. 17Disse-lhes Jesus: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens». 18Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O. 19Um pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco a consertar as redes; 20e chamou-os. Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados e seguiram Jesus.

Começamos neste Domingo a leitura seguida do Evangelista do Ano B, S. Marcos. E tudo começa com o início da pregação de Jesus na «Galileia», a zona norte da Palestina, politicamente separada da Judeia, onde Jesus tinha mais liberdade de movimentos para a sua pregação, por estar mais ao abrigo da oposição das autoridades judaicas de Jerusalém (cf. Jo 4, 1-3).

14-15 «Depois de João ter sido preso», à letra, «entregue». Mais do que uma nota cronológica, parece que S. Marcos visa uma precisão teológica; com efeito, abre-se agora uma nova etapa da história da salvação. Às promessas de salvação vai seguir-se agora o seu cumprimento em Jesus – «cumpriu-se o tempo» anunciado. O v. 15 é como uma espécie de sumário ou síntese, diríamos, o «programa», do Evangelho de Jesus: o «Reino de Deus» está a chegar, e isto exige uma conversão interior, a metánoia, isto é, uma renovação do entendimento e da vontade – «arrependei-vos» – e uma atitude de fé – «acreditai no Evangelho».

16-20 Embora socialmente Jesus apareça a pregar em público com um mestre entre tantos outros que então havia, Marcos, desde o início, quer deixar bem claro que Jesus não é mais um rabi, em cuja escola qualquer candidato que o deseje se pode inscrever como discípulo, mas que, pelo contrario, é Jesus quem escolhe quem quer, chamando com autoridade; por isso a resposta é pronta, o que merece ser bem sublinhado: «e eles deixaram logo…» – tudo, as redes, o barco, o pai… – «e seguiram Jesus».

4.º Domingo Comum

1ª leitura Deuteronómio 18, 15-20

Moisés falou ao povo, dizendo: 15«O Senhor teu Deus fará surgir no meio de ti, de entre os teus irmãos, um profeta como eu; a ele deveis escutar. 16Foi isto mesmo que pediste ao Senhor teu Deus no Horeb, no dia da assembleia: 'Não ouvirei jamais a voz do Senhor meu Deus, nem verei este grande fogo, para não morrer'. 17O Senhor disse-me: 'Eles têm razão; 18farei surgir para eles, do meio dos seus irmãos, um profeta como tu. Porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu lhe ordenar. 19Se alguém não escutar as minhas palavras que esse profeta disser em meu nome, Eu próprio lhe pedirei contas. 20Mas se um profeta tiver a ousadia de dizer em meu nome o que não lhe mandei, ou de falar em nome de outros deuses, tal profeta morrerá'».

Estamos perante um texto verdadeiramente institucional do profetismo em Israel. Moisés não é simplesmente o libertador da escravidão do Egipto e o legislador e organizador do povo, mas é tido como o primeiro e o modelo de todos os profetas  (cf. Dt 34, 10). O contexto dos vv. 19-22 deixa ver que profeta tem aqui um sentido colectivo; alude-se à permanência do carisma profético ao longo da história do povo. Mas também se pode incluir aqui o próprio Messias, como reconhecia a tradição judaica no tempo de Jesus, concretamente os manuscritos de Qumrã (1 QS 9). O v. 18 é citado textualmente no discurso de Pedro no Templo (Act 3, 20-23) e em S. João Jesus é chamado «o Profeta» (Jo 6, 14; 7, 40; cf. 1, 21.45). Jesus cumpre esta profecia de modo eminente.

2ª leitura 1 Coríntios 7, 32-35

Irmãos: 32Não queria que andásseis preocupados. Quem não é casado preocupa-se com as coisas do Senhor, com o modo de agradar ao Senhor. 33Mas aquele que se casou preocupa-se com as coisas do mundo, com a maneira de agradar à esposa, 34e encontra-se dividido. Da mesma forma, a mulher solteira e a virgem preocupam-se com os interesses do Senhor, para serem santas de corpo e espírito. Mas a mulher casada preocupa-se com as coisas do mundo, com a forma de agradar ao marido. 35Digo isto no vosso próprio interesse e não para vos armar uma cilada. Tenho em vista o que mais convém e vos pode unir ao Senhor sem desvios.

Na continuação do texto do passado Domingo, S. Paulo continua a fazer a apologia do celibato por amor do Senhor. Aqui recorre a outro argumento a favor: «aquele que se casou… encontra-se dividido» (v. 34). Mesmo que a pessoa casada ame o seu cônjuge por amor de Deus, com um amor recto e puro, sem mistura de egoísmo, a verdade é que nela se produz uma inevitável divisão afectiva, para além do facto de não dispor de tanto tempo para dedicar só a Deus. S. Paulo louva e encarece o celibato por amor do Reino, mas sem o impor (cfr. vv-25-26.38.40). O Magistério da Igreja definiu solenemente a superioridade do celibato apostólico sobre o matrimónio, mas isto não quer dizer que os casados não estejam chamados igualmente à santidade, nem que não possam vir a ser até mais santos do que muitos que vivem o celibato apostólico; o que sucede é que estes arrancam de um escalão mais elevado rumo à santidade – a entrega dum coração indiviso –, embora possa suceder que não cheguem tão alto como muitos casados podem chegar. Convém sublinhar que este ensinamento paulino é original e está ao arrepio da mentalidade da época, nada tendo que ver com o desprezo pelo corpo, pela mulher e pelo matrimónio, próprio do maniqueísmo posterior; a mentalidade da época era avessa à continência e até à castidade em geral; o celibato praticado pelo insignificante grupo dos essénios era um fenómeno isolado e sem qualquer impacto. O apreço de Paulo pela santidade do matrimónio leva-o a propô-lo como imagem da união entre Cristo e a Igreja (cf. 2 Cor 11, 2; Ef 5, 21-33).

Evangelho São Marcos 1, 21-28

21Jesus chegou a Cafarnaúm e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga e começou a ensinar, 22todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque os ensinava com autoridade e não como os escribas. 23Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro, que começou a gritar: 24«Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno? Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: o Santo de Deus». 25Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem». 26O espírito impuro, agitando-o violentamente, soltou um forte grito e saiu dele. 27Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: «Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade, que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!» 28E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte, em toda a região da Galileia.

O final do texto da leitura evangélica de hoje (v. 27) põe em evidência dois aspectos notáveis: a autoridade de Jesus e o seu poder sobre os demónios. Jesus ensina uma «nova doutrina» – é a novidade do Evangelho – e «com que autoridade!». Não era «como os escribas» (v. 22); de facto, estes limitavam-se a repetir as lições que procediam da tradição rabínica, a lei oral atribuída a Moisés. Jesus não é um repetidor, ainda que frequentemente recorra aos ensinamentos das mestres de Israel (cf. Strack-Billerbeck), nunca os cita e as suas palavras sempre estão iluminadas por um espírito novo. Nunca apela para os mestres rabínicos e, quando apela para Moisés, atreve-se a acrescentar: «Eu, porém, digo-vos».

O outro aspecto é o poder sobre os demónios. Que o demónio existe não se pode pôr em dúvida. Que as doenças eram então atribuídas ao demónio também é verdade. Que todas as vezes que Jesus cura um endemoninhado, o que faz é simplesmente curar algum tipo de doença psíquica era o que em 1779 escrevia o protestante J. S. Semler e alguns hoje repetem, sem que o possam provar. Recentemente a Igreja católica publicou o ritual dos exorcismos, onde aparecem orações que qualquer pessoa pode rezar para se livrar do demónio e onde estão os exorcismos propriamente ditos que só se podem fazer com autorização da autoridade diocesana e só depois de esgotados todos os recursos humanos de ciência médica.

24-25 «Eu sei quem Tu és: o Santo de Deus» Não é uma confissão de fé do demónio, mas um expediente para captar o favor de Jesus, que o Evangelista regista para mostrar quem é Jesus. «Cala-te e sai desse homem» é a forma original que Jesus emprega para expulsar demónios, ao invés dos exorcistas tradicionais, que se serviam de várias técnicas complicadas e demoradas; a palavra de Jesus encerra um poder divino, pois para Deus basta dizer, para que se faça o que Ele quer (cf. Gen 1).

Apresentação do Senhor

1ª Leitura Malaquias 3, 1-4

2Assim fala o Senhor Deus: «Vou enviar o meu mensageiro, para preparar o caminho diante de Mim. Imediatamente entrará no seu templo o Senhor a quem buscais, o Anjo da Aliança por quem suspirais. Ele aí vem–diz o Senhor do Universo –. 2Mas quem poderá suportar o dia da sua vinda, quem resistirá quando Ele aparecer? Ele é como o fogo do fundidor e como a lixívia dos lavandeiros. 3Sentar-Se-á para fundir e purificar: purificará os filhos de Levi, como se purifica o ouro e a prata, e eles serão para o Senhor os que apresentam a oblação segundo a justiça. 4Então a oblação de Judá e de Jerusalém será agradável ao Senhor, como nos dias antigos, como nos anos de outrora.

A leitura é um pequeno extracto da passagem (2, 17 – 3, 5) relativa aos tempos escatológicos – o dia do Senhor –, em que se dará uma radical purificação do sacerdócio («os filhos de Levi», v. 3).

1 «Anjo da Aliança». Ele é o próprio Senhor «por quem suspirais». A profecia teve o seu pleno cumprimento em Jesus Cristo, o Filho de Deus enviado à terra. A vinda deste «Anjo da Aliança» será preparada por um mensageiro, que, segundo a interpretação dada em Mt 11, 10, é João Baptista, o Precursor.

Tenha-se em conta que, por vezes, no Antigo Testamento, designa-se com o nome de Anjo o próprio Deus que se manifesta: assim em Gn 16, 7.13 e Ex 3, 2, etc.. Nestes casos, «anjo» não tem o sentido corrente de enviado de Deus, mas o de presença ou manifestação visível de Deus.

2ª Leitura (nos anos em que calha ao Domingo) Hebreus 2, 14-18

14Uma vez que os filhos dos homens têm o mesmo sangue e a mesma carne, também Jesus participou igualmente da mesma natureza, para destruir, pela sua morte, aquele que tinha poder sobre a morte, isto é, o diabo, 15e libertar aqueles que estavam a vida inteira sujeitos à escravidão, pelo temor da morte. 16Porque Ele não veio em auxílio dos Anjos, mas dos descendentes de Abraão. 17Por isso devia tornar-Se semelhante em tudo aos seus irmãos, para ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel no serviço de Deus, e assim expiar os pecados do povo. 18De facto, porque Ele próprio foi provado pelo sofrimento, pode socorrer aqueles que sofrem provação.

Este trecho de Hebreus – para ser lido nos anos em que a festa coincide com um domingo – foi escolhido tendo em vista que em Jesus se cumpre plenamente o anúncio de Malaquias (cf. 1ª leitura) de uma renovação radical do sacerdócio, com a instituição da nova aliança com o seu sangue, tendo já entrado de uma vez para sempre no santuário (8, 1-2), figurado no Templo. A apresentação de Jesus no Templo tem um profundo significado simbólico.

18 Aqui está uma ideia em que se insiste na Epístola aos Hebreus: Jesus Cristo, sujeitando-se à provação e padecendo, tomando sobre Si todas as nossas fraquezas, excepto o pecado (4, 15), está em condições de nos prestar ajuda a nós que sofremos as mesmas contrariedades. É este um extraordinário motivo de confiança em Jesus Cristo, na sua ajuda omnipotente, na sua mediação em que concilia a misericórdia para connosco com a fidelidade para com o Pai, na sua missão de expiar os pecados do povo (v.17). ]

Evangelho Lc 2, 22-40

Forma longa: São Lucas 2, 22-40          Forma breve: São Lucas 2, 22-32

22Ao chegarem os dias da purificação, segundo a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apresentarem ao Senhor, 23como está escrito na Lei do Senhor: «Todo o filho primogénito varão será consagrado ao Senhor», 24e para oferecerem em sacrifício um par de rolas ou duas pombinhas, como se diz na Lei do Senhor. 25Vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão, homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel e o Espírito Santo estava nele. 26O Espírito Santo revelara-lhe que não morreria antes de ver o Messias do Senhor 27e veio ao templo, movido pelo Espírito. Quando os pais de Jesus trouxeram o Menino para cumprirem as prescrições da Lei no que lhes dizia respeito, 28Simeão recebeu-O em seus braços e bendisse a Deus, exclamando: 29«Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, 30porque os meus olhos viram a vossa salvação, 31que pusestes ao alcance de todos os povos: 32luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo».

[33O pai e a mãe do Menino Jesus estavam admirados com o que d’Ele se dizia. 34Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição – 35e uma espada trespassará a tua alma – assim se revelarão os pensamentos de todos os corações». 36Havia também uma profetiza, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada 37e tinha vivido casada sete anos após o tempo de donzela e viúva até aos oitenta e quatro. Não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações. 38Estando presente na mesma ocasião, começou também a louvar a Deus e a falar acerca do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. 39Cumpridas todas as prescrições da Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. 40Entretanto, o Menino crescia e tornava-Se robusto, enchendo-Se de sabedoria. E a graça de Deus estava com Ele.]

A ida de Maria a Jerusalém para cumprir a lei da purificação das parturientes (Lv 12) serve de ocasião para que José e Maria procedam a um gesto que não estava propriamente prescrito pela Lei. Apresentar ali o Menino ao Senhor, é um gesto de oferta que mostra que Ele não lhes pertence e que se sentem meros depositários dum tesoiro de infinito valor. Pode também ver-se o sentido de imitação do gesto de Ana, mãe de Samuel (Sam 1, 11.22-28). Mas se a lei não preceituava a «apresentação», obrigava ao resgate do primogénito varão (não pertencente à tribo de Levi). Segundo Ex 13, o primogénito animal devia ser oferecido em sacrifício, ao passo que o primogénito humano devia ser resgatado, tudo isto em reconhecimento pelos primogénitos dos israelitas não terem sido sacrificados juntamente com os dos egípcios. O preço do resgate eram 5 siclos do santuário. Cada siclo de prata, no padrão do santuário, constava de vinte grãos com o peso total de 11,4 gramas. S. Lucas não fala deste resgate de 57 gramas de prata, que podia ser pago a qualquer sacerdote em qualquer parte da nação judaica; o evangelista apenas faz uma referência genérica ao cumprimento da Lei (v. 23; cf. Ex 13, 2.12-13).

24 A lei da purificação atingia toda a parturiente, a qual contraía impureza legal durante 7 dias, se dava à luz um rapaz, (Ex 12, 28, mas a jurisprudência judaica já tinha acrescentado mais 33 dias, um total de 40) e durante 14 dias, se tinha uma menina (tinha subido na época para 80 dias). No fim desse tempo, devia ser declarada pura mediante a oferta no templo duma rês menor (podia ser um cordeiro) e duma pomba ou rola. Quando a mãe não dispunha de meios para oferecer uma rês menor, podia oferecer um par de pombas ou rolas, como aqui se refere.

Tenha-se em conta que a «impureza legal ou ritual» não incluía a noção de pecado, ou de impureza moral). De modo particular todas as coisas relativas à transmissão da vida, mesmo no caso de serem moralmente boas, como a maternidade e o uso legítimo do matrimónio, ou moralmente indiferentes, como a menstruação e a polução nocturna, tornavam a pessoa impura, isto é, inapta para o culto de Deus Santo. A razão disto estava no carácter sagrado da vida e da sua transmissão. Parece que tudo isto implicava alguma perda de vitalidade, que devia ser reparada mediante certos ritos, para de novo poder entrar em comunhão com Deus, a plenitude e a fonte da vida. Estas leis tinham uma finalidade eminentemente didáctica: o povo de Israel era um povo santo, especialmente dedicado a Deus e ao seu culto, e em comunhão com Ele (cf. Ex 19, 5-6; Lv 19, 2). Todas as normas de pureza ritual faziam-no tomar constantemente consciência das suas relações particularíssimas com Deus e do sentido cultual da sua vida diária. A verdade é que a frequência e abundância dos ritos nem sempre foi alicerçada num coração dedicado a Deus, tendo degenerado no formalismo religioso tão denunciado pelos profetas e por Jesus Cristo (cf. Is 29, 13; Mt 15, 7-9).

Em face disto, o rito da Purificação de Maria, não pressupõe a aparência sequer de qualquer imperfeição moral ou legal da parte da SSª Virgem, como se poderia pensar. O gesto de Maria aparece como uma singular lição de naturalidade, de obediência e de pureza, cumprindo uma lei a que não estava sujeita, por ser a aeiparthénos, a sempre Virgem; Maria, a tão privilegiada, não quer para si um regime de excepção e privilégio.

25 «Simeão», de quem não temos mais notícias, aparece como um dos «piedosos» do judaísmo que esperava não um messias revolucionário (como os zelotas) mas o verdadeiro Salvador (o «consolo de Israel»). Apesar do que se diz no v. 34, não parece ser sacerdote, não estando no serviço do templo, mas tendo vindo lá «movido pelo Espírito» (v. 27).

33 A naturalidade com que S. Lucas chama a S. José «pai de Jesus» não implica qualquer contradição com o que antes afirmou em 1, 26-38. Aqui visa o poder e missão paterna, de modo nenhum a ascendência carnal.

35 «Assim se revelarão os pensamentos de todos os corações». Estas palavras ligam-se a «sinal de contradição». É que, diante de Jesus, não há lugar para a neutralidade: a sua pessoa, a sua obra e a sua mensagem fazem com que os homens revelem o seu interior, tomando uma atitude pró ou contra; a aceitação e a fé será, para muitos, motivo de salvação, ou «ressurgimento espiritual» (de que «se levantem»), ao passo que a rejeição culpável será motivo de que muitos se condenem (de que «muitos caiam»).

36-37 Põe-se em relevo a sua longa viuvez, como algo digno de veneração.

38 Não se afasta do Templo: hipérbole para indicar a frequência diária.

39 Este v. corresponde a Mt 2, 23, mas Lucas não relata aqui a fuga para o Egipto.

40 A Teologia explicita que «o Menino crescia», não só na manifestação da sabedoria, mas também no conhecimento experimental.

5.º Domingo Comum

1ª leitura Job 7, 1-4.6-7

1Job tomou a palavra, dizendo: «Não vive o homem sobre a terra como um soldado? Não são os seus dias como os de um mercenário? 2Como o escravo que suspira pela sombra e o trabalhador que espera pelo seu salário, 3assim eu recebi em herança meses de desilusão e couberam-me em sorte noites de amargura. 4Se me deito, digo: ‘Quando é que me levanto?’ Se me levanto: ‘Quando chegará a noite?’ e agito-me angustiado até ao crepúsculo. 6Os meus dias passam mais velozes que uma lançadeira de tear e desvanecem-se sem esperança. 7Recordai-Vos que a minha vida não passa de um sopro e que os meus olhos nunca mais verão a felicidade».

Temos aqui um precioso texto do livro de Job, livro que não só põe dramaticamente o problema da dor, mas também a descreve de modo patético e de alto valor literário, como na presente leitura.

1 «Vive… como um soldado». Uma outra tradução possível é a de S. Jerónimo seguida pela Neovulgata, mais expressiva, como a da recente tradução da Difusora Bíblica: «A vida do homem sobre a terra, não é uma vida de luta?» De facto a palavra hebraica «tsabá» tanto pode significar serviço militar, como guerra ou luta. A tradução escolhida parece empobrecer o texto, pois nós hoje entendemos por vida de soldado uma coisa mais suave e pacífica do que então se entendia, ao passo que naquela época implicava grande sacrifício e grandes riscos.

2ª leitura 1 Coríntios 9, 16-19.22-23

Irmãos: 16Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória, é uma obrigação que me foi imposta. Ai de mim se não anunciar o Evangelho! 17Se o fizesse por minha iniciativa, teria direito a recompensa. Mas, como não o faço por minha iniciativa, desempenho apenas um cargo que me está confiado. 18Em que consiste, então, a minha recompensa? Em anunciar gratuitamente o Evangelho, sem fazer valer os direitos que o Evangelho me confere. 19Livre como sou em relação a todos, de todos me fiz escravo, para ganhar o maior número possível. 22Com os fracos tornei-me fraco, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de ganhar alguns a todo o custo. 23E tudo faço por causa do Evangelho, para me tornar participante dos seus bens.

O texto é extraído do contexto da questão da legitimidade de comer carnes sacrificadas aos ídolos e vendidas no mercado (1 Cor 8, 1 – 10, 33); Paulo insiste na liberdade de espírito, que não se opõe à renúncia a legítimos direitos, dando o seu exemplo de prescindir de receber estipêndio pela seu trabalho apostólico; no exercício da sua missão, ele não reivindica direitos, mas apenas considera o ingente dever de evangelizar, que o leva a exclamar: «ai de mim se não anunciar o Evangelho!», seguindo à risca o ensinamento de Jesus – «somos servos inúteis: fizemos apenas o que devíamos fazer» (Lc 17, 10).

22-23 O zelo do Apóstolo fica patente em expressões lapidares, um lema para todos os apóstolos de todos os tempos: «tudo faço por causa do Evangelho». E de que maneira? Sendo «tudo para todos».

Evangelho São Marcos 1, 29-39

Naquele tempo, 29Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, a casa de Simão e André. 30A sogra de Simão estava de cama com febre e logo Lhe falaram dela. 31Jesus aproximou-Se, tomou-a pela mão e levantou-a. A febre deixou-a e ela começou a servi-los. 32Ao cair da tarde, já depois do sol-posto, trouxeram-Lhe todos os doentes e possessos 33e a cidade inteira ficou reunida diante da porta. 34Jesus curou muitas pessoas, que eram atormentadas por várias doenças, e expulsou muitos demónios. Mas não deixava que os demónios falassem, porque sabiam quem Ele era. 35De manhã, muito cedo, levantou-Se e saiu. Retirou-Se para um sítio ermo e aí começou a orar. 36Simão e os companheiros foram à procura d’Ele 37e, quando O encontraram, disseram-Lhe: «Todos Te procuram». 38Ele respondeu-lhes: «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim». 39E foi por toda a Galileia, pregando nas sinagogas e expulsando os demónios.

Na primeira parte da leitura temos a cura da sogra de Simão, entenda-se Pedro, na sua terra, Cafarnaúm (vv. 30-31), uma cidade completamente destruída e hoje despovoada, que guarda as ruínas da casa de Pedro, sobre as quais se construiu recentemente uma bela igreja suspensa em forma de barco. Nunca se fala nos Evangelhos da mulher de Pedro, o que faz pensar que era viúvo; de qualquer modo, Pedro e os Apóstolos deixaram tudo para seguirem a Jesus. «A febre deixou-a», isto é, foi curada imediatamente duma doença física; outra interpretação carece de base textual.

34 «Não deixava que os demónios falassem». A atitude de Jesus corresponde ao chamado segredo messiânico, muito sublinhado nos Sinópticos, mas mais insistentemente em Marcos. O facto de Jesus contrariar a publicidade não revela apenas a sua humildade, mas sobretudo o cuidado para que a sua missão não viesse a ser interpretada como um messianismo terreno; assim evita de raiz a agitação popular à sua volta. Também se pode ver uma certa intencionalidade teológica de Marcos ao insistir tanto no segredo messiânico, se consideramos que a estrutura do seu Evangelho referente ao ministério na Galileia aparece dividida em duas grandes partes à volta do tema da incompreensão e cegueira: na 1ª parte, a dos homens (1, 14 – 8, 30), na 2ª, a dos discípulos (8, 31 – 10, 52). É possível que a insistência no segredo correspondesse à intencionalidade teológica do redactor Marcos ao pôr em relevo a incompreensão acerca da pessoa e missão de Jesus, mas sem viciar em nada o valor do relato, como pretendia o crítico protestante alemão W. Wrede no princípio do sec. XX.

35 «Retirou-se para um sítio ermo e aí começou a orar». Teoricamente Jesus não teria necessidade de se retirar para estar em diálogo com o Pai, mas os Evangelhos não se cansam de anotar os «retiros» de Jesus para orar (Lucas é quem mais sublinha esta atitude); estamos perante uma referência necessária para todos os seus seguidores, ao anunciarem o Evangelho. O servo de Deus João Paulo II confidenciava: “a oração é para mim a primeira tarefa e é como o primeiro anúncio; é a primeira condição do meu serviço à Igreja e ao mundo” (alocução em 7/10/79).

6.º Domingo Comum

1ª leitura Levítico 13, 1-2.44-46

1O Senhor falou a Moisés e a Aarão, dizendo: 2«Quando um homem tiver na sua pele algum tumor, impigem ou mancha esbranquiçada, que possa transformar-se em chaga de lepra, devem levá-lo ao sacerdote Aarão ou a algum dos sacerdotes, seus filhos.44O leproso com a doença declarada 45usará vestuário andrajoso e o cabelo em desalinho, cobrirá o rosto até ao bigode e gritará: ‘Impuro, impuro!’ 46Todo o tempo que lhe durar a lepra, deve considerar-se impuro e, sendo impuro, deverá morar à parte, fora do acampamento».

Temos aqui uma pequena amostra da legislação judaica sobre a lepra, uma legislação mais religiosa do que profilática, englobando diversas doenças de pele. A lepra era considerada a pior de todas as doenças e como que uma maldição de Deus, constituindo a pessoa num estado de impureza legal. O leproso era um proscrito, impedido da convivência social, obrigado a guardar determinadas distâncias das pessoas e a avisar quando alguém se aproximava.

1 «O Senhor falou a Moisés e Aarão». Não se entende no sentido de as leis do Levítico, concretamente a chamada «Lei de pureza» (Lev 11 – 16), terem sido directamente reveladas por Deus a Moisés, mas no sentido de que Yahwéh guiou a Moisés na compilação, adaptação e adopção de leis, em grande parte comuns a outros povos; desta maneira elas se tornavam a vontade de Deus para aquele povo.

45 «Impuro». Sobre o conceito de pureza legal, ver supra, nota ao v. 24 do Evangelho da festa da Apresentação do Senhor.

2ª leitura 1 Coríntios 10, 31 – 11, 1

Irmãos: 31Quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus. 32Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à Igreja de Deus. 33Fazei como eu, que em tudo procuro agradar a toda a gente, não buscando o próprio interesse, mas o de todos, para que possam salvar-se. 1Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo.

A leitura com que se concluem neste ano B os retalhos a ler da 1ª aos Coríntios é a conclusão final da longa discussão acerca de comer ou não comer os idolótitos. 

31 «Fazei tudo para glória de Deus». Como sucede mais vezes nesta epístola, S. Paulo, querendo resolver um caso particular (aqui o da comida das carnes imoladas nos cultos idolátricos e vendidas na praça) enuncia princípios de uma validade universal. Nesta passagem temos uma dessas maravilhosas regras de oiro que resumem toda a moral e espiritualidade cristã.

32 «A Igreja de Deus». S. Paulo designa como Igreja não apenas as comunidades locais, mas também, outras vezes, toda a Igreja universal, que parece ser a visada aqui, como o é no cap. 12, 28 e sobretudo nas epístolas do cativeiro.

Evangelho São Marcos 1, 40-45

Naquele tempo, 40veio ter com Jesus um leproso. Prostrou-se de joelhos e suplicou-Lhe: «Se quiseres, podes curar-me». 41Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero: fica limpo». 42No mesmo instante o deixou a lepra e ele ficou limpo. 43Advertindo-o severamente, despediu-o com esta ordem: 44«Não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou, para lhes servir de testemunho». 45Ele, porém, logo que partiu, começou a apregoar e a divulgar o que acontecera, e assim, Jesus já não podia entrar abertamente em nenhuma cidade. Ficava fora, em lugares desertos, e vinham ter com Ele de toda a parte.

No relato da cura do leproso não se evidencia apenas o poder e a compaixão de Jesus, mas também a superação da lei antiga, que, como determinava o Lv 13 (cf. 1ª leitura de hoje), declarava impuro o contacto com um leproso. Com efeito, sem que fosse necessário, Jesus «estendeu a mão e tocou-lhe» (v. 41).

40 «Se quiseres, podes curar-me». A oração do leproso é um modelo acabado de oração no que se refere à fé no poder de Jesus e à confiança na sua bondade. Eis o comentário de S. João Crisóstomo: «Não disse: se Tu o pedires a Deus; mas apenas: se Tu o queres. E a Deus, que é misericordioso, não é preciso pedir-lhe, basta expor-lhe a nossa necessidade».

44 «Não digas nada a ninguém». Trata-se da já antes referida «disciplina do segredo messiânico», que Jesus recomendava, especialmente no princípio da vida pública. O povo devia-se ir convencendo pouco a pouco do carácter do messianismo de Jesus que era espiritual, não político. Doutro modo, prestava-se a ser instrumentalizada pelos nacionalistas exaltados, provocando-se assim uma intervenção romana que impediria a missão do Senhor (cf. Mt 8, 4; 9, 30; 16, 20; 17, 19). Uma divulgação intensiva dos seus milagres acarretaria compreensíveis efervescências populares à volta de Jesus.

7.º Domingo Comum

1ª leitura Isaías 43, 18-19.21-22.24b-25

Eis o que diz o Senhor: 18«Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados, não presteis atenção às coisas antigas. 19Eu vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer; não o vedes? Vou abrir um caminho no deserto, fazer brotar rios na terra árida. 21O povo que formei para Mim proclamará os meus louvores. 22Mas tu não Me chamaste, Jacob, não te preocupaste Comigo, Israel. 24bPelo contrário, obrigaste-Me a suportar os teus pecados, cansaste-Me com as tuas iniquidades. 25Sou Eu, sou Eu que, em atenção a Mim, tenho de apagar as tuas transgressões e não mais recordar as tuas faltas».

Este pequenino trecho é rebuscado do Segundo Isaías (Is 40 – 55), da primeira secção, chamada «Livro da Consolação» (Is 40 – 48) em que o autor foca o povo ainda no exílio. Aqui o profeta está a dirigir-se aos exilados falando-lhes do regresso à pátria, como sendo um «novo êxodo», que supera em grandiosidade o primeiro (vv. 16-21); depois de recordar, sentida mas serenamente, as infidelidades do povo (vv. 22-24), anuncia o perdão divino: «não recordarei os teus pecados» (v. 25). Esta leitura foi escolhida em função do Evangelho (Mc 2, 1-12), em que Jesus se revela como o Deus que perdoa.

2ª leitura 2 Coríntios 1, 18-22

Irmãos: 18Deus é testemunha fiel de que a nossa linguagem convosco não é sim e não. 19Porque o Filho de Deus, Jesus Cristo, que nós pregámos entre vós eu, Silvano e Timóteo não foi sim e não, mas foi sempre um sim. 20Todas as promessas de Deus são um sim em seu Filho. É por Ele que nós dizemos «Amen» a Deus para sua glória. 21Quem nos confirma em Cristo a nós e a vós é Deus. Foi Ele que nos concedeu a unção, 22nos marcou com o seu sinal e imprimiu em nossos corações o penhor do Espírito.

Começamos hoje a leitura respigada da 1ª parte da 2ª Carta ao Coríntios.

S. Paulo, defendendo-se dos seus detractores em Corinto, que o acusavam de inconstância – um problema ocasional que nada tem a ver connosco hoje –, apela para uma doutrina e princípios sempre actuais; é esta a razão da actualidade perene das suas cartas. Ao pregador e ao seguidor de Cristo não lhe resta outro caminho que não seja o de seguir a Cristo, que é a «Verdade» (cf. Jo 14, 6): «o que há n’Ele é um ‘sim’!» (v. 19), como se vê no facto de ter cumprido «todas as promessas de Deus» (v, 20). O Apóstolo joga com o sentido da palavra hebraica «amén», que por via litúrgica chegou até nós, a qual certamente também então era usada na Liturgia (cf. 1 Cor 14, 16). O «amén» (da raiz «émet»: verdade, fidelidade) aparece equiparado ao «sim», pois era uma fórmula de adesão e assentimento, que nos põe em consonância com Jesus Cristo, o qual, como nunca nenhum rabino tinha feito, garante a verdade da sua palavra fazendo preceder frequentemente as suas afirmações de «amén» (sempre repetido em S. João): «em verdade vos digo».

Por outro lado, a firmeza, o oposto a inconstância de que Paulo é acusado, é um dom concedido por Deus a todos os cristãos: «a nós e a vós» (v. 21). Pela graça estamos de tal modo unidos a Cristo, que não podemos deixar de nos identificar com Ele, permanecendo firmes na fé e numa perfeita coerência de vida. «The new Jerome biblical commentary» (Bangalore, 2001), p. 818, diz que a expressão Deus (ho Theós=o Pai) «tendo-nos ungido» poderia traduzir-se por: «tendo-nos cristificado», (tendo em conta o jogo de palavras ungir/Cristo), pois os fieis são outros Cristos (2 Cor 4, 10; Rom 8, 29). A expressão «tendo-nos selado e dado a primeira prestação» corresponde à linguagem do comércio (nas feiras selava-se a rês e pagava-se o sinal ou 1ª prestação), sendo usada esta linguagem para exprimir o efeito do Baptismo (cf. Ef 1, 13-14), que, de modo público, marca os fiéis como pertença de Cristo (cf. 1 Cor 3, 23; 6, 19) e dá o Espírito (2 Cor 5, 5) como sinal de «garantia» de cumprimento futuro. A alusão às três Pessoas da SS. Trindade também fica clara. Vem a propósito o comentário do Catecismo da Igreja Católica: «Porque indica o efeito indelével da Unção do Espírito Santo nos Sacramentos do Baptismo, da Confirmação e da Ordem, a imagem do selo (sfrágis) foi utilizada em certas tradições teológicas, para exprimir o ‘carácter’ indelével impresso por estes três sacramentos, que não podem ser repetidos» (nº 698).

Evangelho São Marcos 2, 1-12

1Quando Jesus entrou de novo em Cafarnaum e se soube que Ele estava em casa, 2juntaram-se tantas pessoas que já não cabiam sequer em frente da porta; e Jesus começou a pregar-lhes a palavra. 3Trouxeram-Lhe um paralítico, transportado por quatro homens; 4e, como não podiam levá-lo até junto d’Ele, devido à multidão, descobriram o tecto por cima do lugar onde Ele Se encontrava e, feita assim uma abertura, desceram a enxerga em que jazia o paralítico. 5Ao ver a fé daquela gente, Jesus disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados». 6Estavam ali sentados alguns escribas, que assim discorriam em seus corações: 7«Porque fala Ele deste modo? Está a blasfemar. Não é só Deus que pode perdoar os pecados?» 8Jesus, percebendo o que eles estavam a pensar, perguntou-lhes: «Porque pensais assim nos vossos corações? 9Que é mais fácil? Dizer ao paralítico ‘Os teus pecados estão perdoados’ ou dizer ‘Levanta-te, toma a tua enxerga e anda’? 10Pois bem. Para saberdes que o Filho do homem tem na terra o poder de perdoar os pecados, ‘Eu to ordeno disse Ele ao paralítico levanta-te, toma a tua enxerga e vai para casa’». 12O homem levantou-se, tomou a enxerga e saiu diante de toda a gente, de modo que todos ficaram maravilhados e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim».

Marcos, logo no início do seu Evangelho, apresenta Jesus – cumprindo o anúncio dos profetas (Jer 31, 34; Ez 36, 25) – como o próprio Deus que vem perdoar os pecados. Ele arroga-se uma prerrogativa de Deus: «quem pode perdoar os pecados, senão somente Deus?» (v. 7). Nunca é demais explicar aos fiéis que, no Sacramento da Reconciliação, quem perdoa os pecados é Deus, através do ministério dos sacerdotes, que não são detentores de um poder arbitrário.

4 «Descobriram o telhado». Em geral as casas tinham o tecto em forma de terraço construído com massa de barro com palha numa armação de madeira; servia para secar cereais e frutos e o acesso fazia-se por uma escada exterior.

10 «O Filho do homem». Uma forma discreta e simpática (um asteísmo) de Jesus se referir a si mesmo, segundo a linguagem hebraica: ben ’adam = (este) homem.  Dado que nalguma literatura apocalíptica, incluindo Dn 7, 13-14, já se lhe dava um sentido messiânico, a fórmula, que se encontra quase só nos Evangelhos – e aqui só nos lábios de Jesus –, encerra uma certa ambiguidade propositada, ao ser uma forma discreta e sugestiva de Jesus se apresentar no mistério da sua pessoa, o Homem Deus. A expressão coaduna-se bem com a grande questão de fundo que a redacção evangélica vai deixando ao leitor: «quem é este homem?» (cf Jo 4, 29; 5, 12; 7, 46; 8, 40; 9, 11.16.24; 10, 33; 11, 47.50; 18, 14.17.29; 19, 5; Mc 4, 41 par; 6, 2-3 par; etc.). O leitor inteligente é levado a dar a resposta certa: Jesus é Deus, pois perdoa os pecados.

8.º Domingo Comum

1ª leitura Oseias 2, 16b.17b.21-22 (na Vulgata: 14b-15b.19-20)

16bEis o que diz o Senhor: «Hei-de conduzir Israel ao deserto e falar-lhe ao coração. 17bAli corresponderá como nos dias da sua juventude, quando saiu da terra do Egipto. 21Farei de ti minha esposa para sempre, desposar-te-ei segundo a justiça e o direito, com amor e misericórdia. 22Desposar-te-ei com fidelidade e tu conhecerás o Senhor».

O texto da leitura é um pequeno trecho respigado de um poema central da obra deste profeta (2, 4-25), onde se esclarece o simbolismo do matrimónio de Oseias com uma mulher que lhe é infiel: o Deus da Aliança – o Esposo – mantém-se fiel, mesmo quando o seu povo – a esposa – O abandona, entregando-se ao culto de deuses estranhos (os baalim cananeus). Se o Senhor castiga Israel, a esposa infiel («as suas vinhas serão mudadas em silvados»: v. 16a), não é para se vingar, é para que volte ao primeiro amor: «é assim que a vou seduzir: hei-de conduzir Israel ao deserto e falar-lhe ao coração» (v. 16b). «Aí me responderá»: ainda hoje os judeus denominam a conversão desta maneira, «voltar à resposta» (hazar betexuvá); as consequências desta resposta ao amor de Deus é de dimensões incalculáveis, como poeticamente se diz nos vv. 23-24; e a conversão a Deus fará reviver a experiência única da intimidade e das maravilhas do deserto; o v. 17 (suprimido na leitura) evoca o vale de Acor, terra de desgraça (cf. Jos 7, 24-26), que, por ser a porta de entrada na Terra prometida, se converte em «porta de esperança».

18 «Meu marido… não mais meu baal». Deus exige um amor exclusivo, alheio a qualquer espécie de sincretismo religioso (baal – senhor – era um nome genérico dado a grande variedade de divindades locais); esta nova aliança de amor será garantia de paz (cf. v. 20).

2ª leitura 2 Coríntios 3, 1b-6

Irmãos: 1bPorventura necessitamos nós, como certas pessoas, de cartas de recomendação para vós ou da vossa parte? 2A nossa carta sois vós mesmos, carta escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens. 3É manifesto que vós sois uma carta de Cristo, confiada ao nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne que são os vossos corações. 4É por Cristo que temos esta certeza diante de Deus. 5Não é que por nós próprios possamos atribuir-nos seja o que for, como se viesse de nós. Essa capacidade vem de Deus. 6Foi Ele que nos tornou capazes de sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito dá vida.

Nesta carta conciliatória, escrita da Macedónia após as boas notícias trazidas por Tito acerca da pacificação da comunidade de Corinto (cf. 7, 6-7), perturbada pelos detractores de S. Paulo, que ali se teriam apresentado com «cartas de recomendação» (v. 1) de algum notável, ele não deixa de refutar as acusações que lhe eram feitas, aqui, de soberba e arrogância na sua pregação, como quem anda atrás de protagonismo. «A nossa carta sois vós… conhecida e lida por todos os homens» (v. 2 ), pois os frutos da pregação de Paulo numa cidade tão corrompida eram então já bem notórios e eram uma verdadeira obra de Deus, não humana – «escrita não com tinta» –; e também «não em placas de pedra» (v. 3), adiantando a ideia a desenvolver no v. 6. De facto os judaizantes, seus opositores, estavam agarrados à «letra» da Lei de Moisés, gravada em pedra; mas esse regime da Lei, entendido por eles como definitivo, tornava-se «letra que mata» (cf. v. 6), pois se limitava a apontar deveres e punições, levando a multiplicar as transgressões sem dar a graça para as evitar e para delas se redimir. Cristo instituiu uma «nova aliança», que é «espírito que dá vida», pois Ele concede o Espírito Santo a todos os que crêem. A consciência que Paulo tem de ser «ministro da nova aliança» nada tem de arrogância nem de protagonismo, pois ele bem sabe que «a nossa capacidade vem de Deus», ao saber que «não somos capazes de conceber alguma coisa como de nós mesmos» (v. 5). Preferimos esta tradução da recente Bíblia da Difusora Bíblica, por condizer mais com o original grego, com efeito, o sintagma «logísasthaí ti» (conceber alguma coisa) é entendido por muitos como «lançar alguma coisa na própria conta», um sentido bem contextualizado e aberto à utilização desta célebre passagem pelo II Concílio de Orange, can. 7 (cf. Jo 15, 5), que condenou as tendências do pelagianismo que julgavam  que o homem era capaz de, só por si e por toda a vida, cumprir toda a Lei de Deus, sem necessidade do auxílio da graça de Deus.

Evangelho São Marcos 2, 18-22

Naquele tempo, 18os discípulos de João e os fariseus guardavam o jejum. Vieram perguntar a Jesus: «Por que motivo jejuam os discípulos de João e os fariseus e os teus discípulos não jejuam?» 19Respondeu-lhes Jesus: «Podem os companheiros do noivo jejuar, enquanto o noivo está com eles? Enquanto o noivo está consigo, não podem jejuar. 20Dias virão em que o noivo lhes será tirado; e então, nesses dias jejuarão. 21põe remendo de pano novo em vestido velho, porque o remendo novo arranca parte do velho e o rasgão fica maior. 22E ninguém deita vinho novo em odres velhos, porque o vinho acaba por romper os odres e perdem-se o vinho e os odres. Para vinho novo, odres novos»

Não se diz a que propósito os fariseus «estavam a jejuar», mas sabemos que, além do jejum obrigatório do Dia da Expiação (Yom Kipur), os judeus piedosos praticavam com frequência o jejum, chegando os fariseus a jejuar duas vezes por semana (cf. Lc 18, 12), às segundas e quintas. A resposta de Jesus não é uma mera defesa dos seus discípulos; sem condenar o jejum, afirma frontalmente o princípio da liberdade cristã em face das práticas da lei antiga e da cultura judaica. Ele inaugura uma nova ordem de coisas que não pode ficar encerrada em moldes antigos e caducos: «vinho novo, em odres novos!» (v. 22).

Mais ainda, Jesus com a comparação do «noivo» (vv. 19-20), insinua que, mais do que um simples Mestre, Ele é o Messias anunciado como «o Esposo» (cf. 1ª leitura: Os 2, 21-22; Is 54, 5-6). É por isso que o jejum não é compatível com a alegria messiânica!