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Notas Bíblicas – Geraldo Morujão - Quarta-feira de Cinzas a Páscoa |
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Joel 2, 12-18 2 Coríntios 5, 20 – 6, 2 São Mateus 6, 1-6.16-18
Génesis 2, 7-9; 3, 1-7 Romanos 5, 12-19 São Mateus 4, 1-11
Isaías 66, 10-14c São João 2, 1-11
Génesis 12, 1-4a2 Timóteo 1, 8b-10 São Mateus 17, 1-9
Êxodo 17, 3-7 Romanos 5, 1-2.5-8 São João 4, 5-42
1 Samuel 16, 1b.6-7.10-13a Efésios 5, 8-14 São João 9, 1-41
Ezequiel 37, 12-14 Romanos 8, 8-11 São João 11, 1-45
Evangelho da Bênção dos Ramos São Mateus 21, 1-11
Missa Isaías 50, 4-7 Filipenses 2, 6-11 Mateus 26, 14 - 27, 66
Êxodo 12, 1-8.11-14 1 Coríntios 11, 23-26 São João 13, 1-15
Sexta-Feira Santa (Celebração da Paixão do Senhor) Isaías 52, 13-15 – 53, 1-12 Hebreus 4, 14-16; 5, 7-9 São João 18, 1-40; 19, 1-42
Páscoa da Ressurreição do Senhor - Missa da Vigília Romanos 6, 3-11 São Mateus 28, 1-10
Páscoa da Ressurreição do Senhor (Missa do Dia) Actos dos Apóstolos 10, 34a.37-43 Colossenses 3, 1-4 (de manhã) 1 Coríntios 5, 6b-8 (de tarde) São João 20, 1-9 (de manhã) São Lucas 24, 13-35 (de tarde) |
in Celebração Litúrgica, 2007-2008
1ª Leitura Joel 2, 12-18
12Diz agora o Senhor: “Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. 13Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete. 14Quem sabe se Ele não vai reconsiderar e desistir deles, deixando atrás de Si uma bênção, para oferenda e libação ao Senhor, vosso Deus? 15Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. 16Reuni o povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças. Saia o esposo do seu aposento e a esposa do seu tálamo. 17Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: ‘Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo e não entregueis a vossa herança à ignomínia e ao escárnio das nações. Porque diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?’”. 18O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo.
Começa a Quaresma com um forte apelo à conversão e com a esperança no perdão do Senhor, extraído do final da primeira parte do livro do profeta Joel (1, 2 – 2, 17). Num estilo solene e apocalíptico, fala de uma invasão de gafanhotos medonhos, mas sem ficar claro se fala em sentido próprio ou figurado. Se a obra é anterior ao exílio de Babilónia, aludiria a invasões de exércitos inimigos; se é posterior, tratar-se ia de alguma praga agrícola. Joel não se detém a denunciar os pecados concretos do povo, como é costume dos grandes profetas. Diante da horrível calamidade apresentada como castigo divino, o profeta apela para uma sincera conversão, a começar pela dos sacerdotes (1, 13). 12-13 “Convertei-vos a Mim de todo o coração”. Não basta uma manifestação exterior de dor (rasgar as vestes – v. 13 – era um típico gesto de grande dor ou indignação, entre os judeus: rasgavam violentamente a túnica exterior, do pescoço até à cintura, cf. Gn 37, 29; Mt 26, 65). O coração não significa, na linguagem bíblica, apenas a afectividade. mas toda a interioridade do homem, todas as suas virtualidades, a sua inteligência e a sua vontade. Deus também nos convida a nós, mais fortemente neste tempo da Quaresma, a voltarmo-nos para Ele de todo o coração, isto é, com todas as veras da nossa alma e a rasgar o nosso coração, a dilacerá-lo pela contrição que é essa profunda mágoa de ter ofendido ao Senhor infinitamente bom. Mas esta dor não é dor angustiante e desesperada, porque é cheia de esperança no perdão, pois Ele “é clemente e compassivo, paciente e misericordioso”. A Vulgata e a Neovulgata têm “benignus et misericors est, patiens et multæ misericordiæ”. “Compassivo”, isto é, dotado de piedade e ternura, de compreensão e disposição para perdoar: o termo hebraico “rahum” é derivado de “réhem”(ventre materno), o que sugere que Deus tem entranhas de mãe, sentimentos e coração de mãe para connosco; assim, o seu amor não acaba quando nos portamos mal com Ele; então tem pena de nós, compreende e facilita a reconciliação. Por seu lado, a expressão “misericordioso” à letra, “de muita misericórdia” deixa ver que a misericórdia do Senhor (“hésed”) não é uma bondade qualquer, é a bondade de Quem se mantém fiel a Si próprio (cf. Ez 36, 22); daqui a frequente hendíadis da S. E.: “amor e fidelidade” (“hésed v-émet”). Este atributo divino tem na sua origem bíblica um matiz jurídico: a fidelidade de Deus à Aliança; uma fidelidade tal que, após o pecado, se mantém, embora já não dentro do mero âmbito legal dum pacto bilateral. Com efeito, mesmo quando o homem rompe a Aliança, Deus continua a manter-se Fiel a Si próprio, ao seu amor gratuito, ao seu dom inicial (cf. Rom 11, 29). O amor de Deus é mais forte do que o nosso desamor, as nossas traições e pecados: “jamais algum pecado do mundo poderá superar este Amor” (João Paulo II em Fátima: 13.05.82; cf. Enc. Dives in misericordia). 14 “Vai reconsiderar”. A expressão é um antropomorfismo com que se fala de Deus à maneira humana, mas de facto Deus não pode reconsiderar e mudar; se, em face da nossa penitência, Deus já não nos castiga e atende às nossas súplicas, a mudança apenas se dá em nós, não em Deus que, sempre tudo tem presente e tudo dispõe, contando com as nossas mudanças. O Profeta fala de Deus à maneira humana, ao dizer também que “Ele se encheu de zelo pela sua terra” (v. 18), em face do apelo feito ao brio do Senhor, numa súplica tão humilde como ousada da parte dos seus “ministros” (parce Domine, parce populo tuo: v. 17).
2ª leitura 2 Coríntios 5, 20 – 6, 2
20Irmãos: Nós somos embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. 21A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus. 6,1Como colaboradores de Deus, nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. 2Porque Ele diz: “No tempo favorável, Eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio”. Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação.
S. Paulo, ao fazer a sua defesa perante as acusações dos seus opositores em Corinto, exalta a grandeza do ministério apostólico de que está investido, um ministério de reconciliação com Deus alcançada pelo mistério da Morte e Ressurreição de Cristo (5, 14-15). 20 “Reconciliai-vos com Deus”. É este o insistente convite que a Igreja nos faz em nome de Deus, a mesma exortação que fazia S. Paulo, consciente de que “é Deus quem vos exorta por nosso intermédio” ; os Apóstolos, como os demais ministros de Cristo, são “embaixadores de Cristo” , não apenas “ao seu serviço” , mas actuando “em vez de Cristo e por autoridade de Cristo”; o próprio texto original grego parece dá-lo a entender com a preposição hyper (em favor de), usada com o sentido da preposição antí (em vez de: cf. Jo 11, 50; Gal 3, 13; etc.). 21 “Deus identificou-o com o pecado”, à letra, Deus fê-lo pecado , uma expressão extraordinariamente forte e chocante. Note-se, no entanto, que não se diz que Deus O tenha feito pecador; o que se pretende significar é que Deus permitiu que Jesus viesse a sofrer o castigo que cabia ao pecado. Trata-se aqui duma identificação jurídica, não moral: Cristo tornando-Se a Cabeça e o Chefe duma raça pecadora, toma sobre os seus ombros a responsabilidade, não a de uns pecados alheios, mas a dos pecados da sua raça (a raça humana), para os expiar sofrendo a pena devida por eles (cf. Gal 3, 13). O texto torna-se menos duro, se entendemos que Cristo se fez pecado, no sentido de que se fez sacrifício pelo pecado; isto, que pode parecer uma escapatória para evitar a dificuldade de interpretação, tem um certo fundamento no substrato hebraico, pois a palavra ’axam tem este duplo sentido de “violação da justiça” e de “sacrifício de reparação pelo pecado”; com efeito, pelo sacrifício de Cristo tornamo-nos “justiça de Deus”, isto é, justos diante de Deus (note-se o jogo com os dois substantivos abstractos – pecado/justiça –, num evidente paralelismo antitético, tão do gosto paulino). 6, 2 “Este é o tempo favorável”. S. Paulo cita aqui Isaías 49, 8, em que se classifica assim o momento em que aprouve à misericórdia divina libertar os israelitas do cativeiro. O Apóstolo diz que “agora” é que é o tempo realmente favorável, o tempo em que Jesus Cristo nos redimiu do cativeiro do pecado (cf. Gal 4, 4-5). A expressão paulina é ainda mais expressiva e rica do que a da versão grega de Isaías (LXX): agora é que é o momento singularmente oportuno, em que apraz à misericórdia divina realizar a nossa salvação. Não há dúvida que a Liturgia pretende fazer uma acomodação deste texto ao tempo santo da Quaresma.
Evangelho São Mateus 6, 1-6.16-18 Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1“Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. 2Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 5Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa”.
Os versículos da leitura são tirados do Sermão da Montanha de S. Mateus; por focarem práticas tipicamente judaicas, estes não têm paralelos nos outros evangelistas, que se dirigem a cristãos na sua maioria vindos dos gentios. 1 “As vossas boas obras” (à letra, a vossa justiça ), isto é, os actos tradicionais da boa piedade judaica, a esmola, a oração e o jejum. Jesus de modo algum os suprime ou diminui o seu valor, pelo facto de serem actos de piedade pessoal individual, mas exige que todos estes actos se façam sempre com rectidão de intenção, isto é, com uma sincera piedade, com o fim de agradar a Deus, e não por ostentação, ou para se receber o aplauso humano. 6 “Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto”. Segundo estas palavras de Jesus, desde crianças, fomos ensinados a rezar não apenas comunitariamente, mas também, a sós: “no teu quarto” . O Senhor ensina aqui a necessidade da oração individual (o que não quer dizer individualista). Deus chama os homens à salvação, fazendo-os entrar dentro do Povo de Deus, a sua Igreja, mas chama-os um a um ( nominatim: Jo 10, 3 ); daqui que são imprescindíveis tanto a oração púbica, que manifesta o carácter de família e povo que somos em Cristo, como a oração a sós, que manifesta a resposta pessoal e intransferível de cada um de nós ao seu Pai celeste. Por sua vez, Jesus não se limitou a pregar a necessidade da oração individual, pois Ele próprio deu este mesmo exemplo (cf. Mt 14, 23; Mc 1, 35; Lc 5, 16; 6, 12; 9, 18; 11, 1.28-29), que foi seguido pelos Apóstolos (cf. Act 10, 9-16). Também a experiência pessoal de todos os santos e dos que tomam a sério a fé cristã nos diz que é imprescindível este tipo de oração, que consiste em se recolher para, a sós, falar com Deus, frequentemente. A esta oração recolhida e íntima nos convida hoje o Senhor e a Liturgia nesta Quaresma, que agora começa.
1ª Leitura Génesis 2, 7-9; 3, 1-7 7O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo. 8Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. 9Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons para comer, entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. 1Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: «É verdade que Deus vos disse: ‘Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do jardim’?» 2A mulher respondeu: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; 3mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis’». 4A serpente replicou à mulher: «De maneira nenhuma! Não morrereis. 5Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal». 6A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu o fruto e comeu-o; depois deu-o ao marido, que estava junto dela, e ele também comeu. 7Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas.
O “relato” bíblico das origens, de que hoje se lêem alguns vv., não pode ser lido ingenuamente como um relato histórico daquilo que sucedeu no início do Universo e do ser humano, “porque, não se trata de saber quando e como surgiu materialmente o cosmos, nem quando é que apareceu o homem; mas, sobretudo, de descobrir qual o sentido de tal origem: se foi determinada pelo acaso, por um destino cego ou uma fatalidade anónima, ou, antes, por um Ser transcendente, inteligente e bom, que é Deus. E, se o mundo provém da sabedoria e da bondade de Deus, qual a razão do mal? De onde vem o mal? Quem é responsável pelo mal? E será que existe uma libertação do mesmo?” (Catecismo da Igreja Católica, nº 284). 7 “Pó da terra… sopro de vida”: a narrativa tem como ponto de referência não só o facto de que, pela sua corporeidade, o homem pertence à terra e, ao morrer, se reduz a pó, mas também o facto de que, na língua hebraica, “homem” (adam) se diz com o mesmo vocábulo com que se designa a terra avermelhada (adamáh); mas, ao mesmo tempo, o homem está animado por um princípio (“sopro”) de vida, que não vem da terra. A representação de Deus como “oleiro”, independentemente das notáveis semelhanças com outros relatos extra-bíblicos, parece sugerir que o homem está nas mãos de Deus como o barro nas mãos do oleiro (cf. Is 29, 16; Jer 18, 6; Rom 9, 20-21; Job 34, 14-15). 2, 8-9 Um jardim. Nos LXX lê-se “parádeisos”; daqui a habitual designação de “paraíso (terrestre)”. O jardim de “delícias” (éden) permite que o leitor pense, mais que num lugar geográfico, num estado de felicidade original e de comunhão com Deus; a “árvore da vida” simboliza a vida em plenitude e a imortalidade (cf. Gn 3, 22); “a árvore da ciência do bem e do mal” é o símbolo da fonte do recto actuar moral, o projecto do Criador, que o homem não pode manipular nem alterar a seu bel-prazer sem cavar a sua ruína. 3, 1-7 Num relato simbólico, numa linguagem cheia de imagens muito expressivas, seja qual for a origem literária destas figuras, deixa-se ver que os males de que o ser humano padece não procedem de Deus, mas do pecado, que, desde a origem, destruiu a harmonia do homem com Deus, consigo próprio e com a criação, com consequências desastrosas que afectam toda a humanidade (cf. a 2ª leitura de hoje: Rom 5, 12-19). Note-se, porém, que uma interpretação literal fundamentalista desta narrativa corre o perigo de levar ao absurdo de considerar a lei moral como algo caprichoso e extrínseco à natureza humana. 1 “A serpente”, um símbolo do demónio, cf. Apoc 12, 9, onde se fala da “serpente antiga”, o inimigo de Deus e dos amigos de Deus, que aqui aparece também como “caluniador” (este é o significado do seu nome grego, “diábolos”), ao apresentar a ordem divina como má, uma prepotência da parte de Deus (v. 5). Note-se a profunda observação psicológica posta na encenação do processo da tentação: estão aqui representadas as tentações de sempre; primeiro, uma insinuação inocente – “é verdade que Deus vos proibiu...”, a que se segue o efeito de começar a prestar atenção àquele a quem não se pode dar ouvidos; finalmente, uma vez aberto o diálogo, no momento preciso, o tentador entra a matar, mentindo descaradamente (cf. Jo 8, 44) – “de maneira nenhuma! Não morrereis! Mas Deus sabe que...” (v. 5). A Escritura e a Tradição da Igreja vêem no demónio, satanás, ou diabo, um anjo criado bom por Deus, mas que se tornou mau. 5 “Sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal”: Isto não significa alcançar a omnisciência divina, nem adquirir o poder de discernir o bem do mal. Este “conhecer o bem e o mal” corresponde a decidir por si o que é bem e o que é mal; trata-se, portanto, de encenar uma tentação de soberba pela qual a criatura não se conforma com a sua condição de criatura, e não aceita o supremo domínio de Deus. 6 “Fruto… para esclarecer a inteligência”. Sendo-nos desconhecido em que consistiu o pecado das origens, porque Deus não no-lo revelou, alguns exegetas procuram então averiguar qual é o tipo de pecado que o hagiógrafo aqui descreve, e vêem nesta linguagem um colorido de magia e feitiçaria (um conhecimento oculto), ou até mesmo uma alusão ao culto das serpentes para a fertilidade, de que o hagiógrafo pretenderia afastar os seus contemporâneos tão atreitos a estes desvios religiosos. 7 “Compreenderam que estavam despidos”. Note-se a fina ironia latente no contraste com a promessa sedutora: “abrir-se-ão os vossos olhos” (v. 6); os olhos abrem-se, sim, mas para contemplarem a própria nudez. Assim fica simbolizado o desgosto e a frustração que se segue ao gosto do pecado, e também a noção teológica da ruptura da harmonia primordial, nomeadamente entre o homem e a mulher (cf. 2, 25).
2ª Leitura Forma longa: Romanos 5, 12-19; forma breve: Romanos 5, 12.17-19 Irmãos: 12Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. [13De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo. Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei. 14Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado por uma transgressão à semelhança de Adão, que é figura d’Aquele que havia de vir. 15Mas o dom gratuito não é como a falta. Se pelo pecado de um só pereceram muitos, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a muitos homens. 16E esse dom não é como o pecado de um só: o julgamento que resultou desse único pecado levou à condenação, ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas, leva à justificação.] 17Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. 18Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. 19De facto, como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornarão justos.
Estamos diante dum texto da máxima importância para a Teologia e para a vida cristã. As controvérsias doutrinais contribuíram para que o ponto central das afirmações de Paulo se tenha feito deslocar da justificação pela graça para o pecado, e da obra salvadora de Cristo para o obra demolidora de Adão. É certo que não faria sentido falar da libertação por Cristo do pecado, da condenação e da morte, sem que estes males tivessem entrado de forma poderosa no mundo. Mas Adão não passa duma figura, por antítese, de Cristo, em virtude duma argumentação a fortiori de tipo rabínico (o chamado qal wa-hómer). Mas, ainda que, como pensam muitos exegetas, Paulo não trate directa e expressamente do tema do pecado original (só indirectamente), este texto não deixa de oferecer uma base legítima e sólida para a doutrina proposta pelo Magistério da Igreja, assim resumida no Catecismo da Igreja Católica, nº 403: “Depois de S. Paulo, a Igreja sempre ensinou que a imensa miséria que oprime os homens, e a sua inclinação para o mal e para a morte não se compreendem sem a ligação com o pecado de Adão e o facto de ele nos transmitir um pecado de que todos nascemos infectados e que é a ‘morte da alma’. A partir desta certeza de fé, a Igreja confessa o Baptismo para a remissão dos pecados, mesmo às crianças que não cometeram qualquer pecado pessoal”.
Evangelho São Mateus 4, 1-11 1Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Demónio. 2Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. 3O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». 4Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». 5Então o Demónio conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: 6«Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». 7Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». 8De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, 9e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». 10Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». 11Então o Demónio deixou-O e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.
Antes de mais, convém advertir que as tentações de Jesus não aparecem como uma tentação ocasional qualquer, nem sequer um ataque mais violento, mas como um duelo mortal e decisivo entre dois inimigos irredutíveis. Com efeito, não se trata de umas tentações dirigidas a fazer com que Jesus caia em meras faltas pessoais (gula, orgulho, avareza), mas têm o carácter de um ataque frontal para desvirtuar toda a obra de Jesus, desviando-a da vontade do Pai. Com efeito, «as tentações acompanham todo o caminho de Jesus, e a narração das tentações apresenta-se… uma antecipação, na qual se condensa a luta de todo o caminho. […] Os 40 dias de jejum abrangem o drama da história, que Jesus assume em Si mesmo e suporta até ao fundo».(Bento xvi, Jesus de Nazaré, pp. 57.60). Uma consideração superficial desta passagem evangélica poderia levar-nos a encarar estas tentações até como ridículas, absurdas ou míticas. Vale pena ver o belo e profundo comentário do Papa na referida obra. Mas vejamos brevemente o enorme alcance de cada uma das três tentações: 3-4 Na primeira tentação, trata-se de fazer enveredar a Jesus pelo caminho das esperanças materialistas do povo que esperava um messias que lhe trouxesse bem-estar, riqueza, prosperidade, fertilidade, pão e prazer. 5-7 Na segunda tentação, aquele “lança-te daqui abaixo”, constitui um apelo à esperança judaica num messias a descer espectacularmente do céu, à vista do povo. Mas Jesus renuncia decididamente à fácil tentação de ser um messias milagreiro e espectacular, dizendo um decidido não a um actuar à base do triunfo pessoal, do êxito humano. 8-10 Na terceira tentação, aparece diante de Jesus a sedução de se mover na linha da esperança popular num messianismo político, vitorioso, dominador dos Romanos e do mundo inteiro, a tentação de reduzir a instauração do Reino de Deus à instauração dum reino temporal. Ninguém foi testemunha destas tentações, mas Jesus, ao falar aos Apóstolos do Reino de Deus, não deixa de os prevenir contra umas tentações que haveriam de vir a sentir também os seus discípulos ao longo da história. Também assim Jesus “se tornava em tudo semelhante aos seus irmãos, para se tornar um Sumo Sacerdote misericordioso” (Hebr 2, 17). E Jesus aparece a ensinar-nos a resistir, sem dar ouvidos, como Eva, aos enganos do mafarrico, sem entrar em diálogo com ele, mas apoiando-nos sempre na certeza e na luz da Palavra de Deus e na sua graça, que Jesus ensinou a pedir no “Pai-Nosso”: “não nos deixeis cair em tentação” e “livrai-nos do Maligno” (Mt 6, 13).
I Leitura Isaías 66, 10-14c 10Alegrai-vos com Jerusalém, exultai com ela, todos vós que a amais. Com ela enchei-vos de júbilo, todos vós que participastes no seu luto. 11Assim podereis beber e saciar-vos com o leite das suas consolações, podereis deliciar-vos no seio da sua magnificência. 12Porque assim fala o Senhor: «Farei correr para Jerusalém a paz como um rio e a riqueza das nações como torrente transbordante. Os seus meninos de peito serão levados ao colo e acariciados sobre os joelhos. 13Como a mãe que anima o seu filho, também Eu vos confortarei: em Jerusalém sereis consolados. 14Quando o virdes, alegrar-se-á o vosso coração e, como a verdura, retomarão vigor os vossos membros. A mão do Senhor manifestar-se-á aos seus servos».
O texto, faz parte dum discurso dotado de rara beleza poética, no final do livro de Isaías. Jerusalém, é apresentada como uma mãe, que com seus peitos sacia de consolação e deleite os seus filhos que regressam do exílio (vv. 10-11). 12-14 “A paz como um rio” é uma figura da paz messiânica que Cristo trouxe à “nova Jerusalém” que é “nossa Mãe”, a Igreja (cf. Gal 4, 26-27), “o Israel de Deus” de que nos fala a 2.ª leitura de hoje (Gal 6, 16). “Meninos levados ao colo e acariciados…” À Virgem Maria, “tipo e figura da Igreja” (LG 63) aplicam-se com verdade estas palavras proféticas: Ela é Mãe que acaricia, anima, consola e alegra os seus meninos, necessitados e desvalidos.
Evangelho São João 2, 1-11 Naquele tempo, 1realizou-se um casamento em Caná da Galileia e estava lá a Mãe de Jesus. 2Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento. 3A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho». 4Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». 5Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». 6Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, levando cada uma de duas a três medidas. 7Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. 8Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. 9Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, – ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam – chamou o noivo 10e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora». 11Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele.
O evangelista não visa contar o modo como Jesus resolveu um problema numas bodas, mas centra-se na figura de Jesus, que «manifestou a sua glória», donde se seguiu que «os discípulos acreditaram n’Ele» (v. 11). Toda a narração converge para as palavras do chefe da mesa ao noivo: «Tu guardaste o melhor vinho até agora!» (v. 10). Esta observação encerra um sentido simbólico; o próprio milagre é um «sinal» (v. 11), um símbolo ou indício duma realidade superior a descobrir, neste caso: quem é Jesus. Podemos pressentir a típica profundidade de visão do evangelista, que acentua determinados pormenores pelo significado profundo que lhes atribui. O vinho novo aparece como símbolo dos bens messiânicos (cf. Is 25, 6; Joel 2, 24; 4, 18; Am 9, 13-15), a doutrina de Jesus, que vem substituir a sabedoria do A. T., esgotada e caduca. A abundância e a qualidade do vinho – 6 (=7-1) vasilhas [de pedra] «de 2 ou 3 metretas» (480 a 720 litros) – é um dado surpreendente, que ilustra bem como Jesus veio «para que tenham a vida e a tenham em abundância» (Jo 10, 10; cfr Jo 6, 14: os 12 cestos de sobras). O esposo das bodas de Caná sugere o Esposo das bodas messiânicas, o responsável pelo sucedido: n’Ele se cumprem os desposórios de Deus com o seu povo (cf. Is 54, 5-8; 62, 5; Apoc 19, 7.9; 21, 2; 22, 17). Também se pode ver, na água das purificações rituais que dão lugar ao vinho, um símbolo da Eucaristia – o sangue de Cristo –, que substitui o antigo culto levítico, e pode santificar em verdade (cf. Jo 2, 19.21-22; 4, 23; 17, 17). Há quem veja ainda outros simbolismos implícitos: como uma alusão ao Matrimónio e mesmo à Ressurreição de Jesus, a plena manifestação da sua glória, naquele «ao terceiro dia» do v. 1 (que não aparece no texto da leitura). Por outro lado, também se costuma ver aqui o símbolo do papel de Maria na vida dos fiéis (cf. Apoc 19, 25-27; 12, 1-17), Ela que vai estar presente também ao pé da Cruz (Jo 19, 25-27): «e estava lá a Mãe de Jesus» (v. 1). Ao contrário dos Sinópticos, nas duas passagens joaninas fala-se da Mãe de Jesus, como se Ela não tivesse nome próprio; é como se o seu ser se identificasse com o ser Mãe de Jesus, a sua grande dignidade. Trata-se de duas menções altamente significativas: os capítulos 2 e 19 aparecem intimamente ligadas precisamente pela referência à «hora» de Jesus, numa espécie de inclusão de toda a vida de Cristo. Ela não é mais um convidado numas bodas; é uma presença actuante e com um significado particular, nomeada por três vezes (vv. 1.3.5), atenta ao que se passa: dá conta da situação irremediável, intervém e fala, quando o milagre que manifesta a glória de Jesus podia ser relatado sem ser preciso falar da sua Mãe, mas Ela é posta em foco. 1 «Caná»: só S. João fala desta terra (cf. 4, 46; 21, 2), habitualmente identificada com Kefr Kenna, a 7 Km a NE de Nazaré, o lugar de peregrinação, mas as indicações de F. Josefo fazem pensar antes nas ruínas de Hirbet Qana, a 14 Km a N de Nazaré. 3 «Não têm vinho». A expressão costuma entender-se como um pedido de milagre. A exegese moderna tende a fixar-se em que a frase não passa duma forma de pôr em relevo uma situação irremediável, de molde a fazer sobressair o milagre. Mas, sendo a Mãe de Jesus a chamar a atenção para o problema, consideramos que Ela é apresentada numa atitude de oração. Com efeito, a oração de súplica e de intercessão não consiste em exercer pressão sobre Deus, para O convencer, mas é colocar-se na posição de necessitado e mendigo perante Deus, é pôr-se a jeito para receber os seus dons. A intercessão de Maria consiste em pôr-se do nosso lado, em vibrar connosco, de modo que fique patente a nossa carência e se dilate a nossa alma para nos dispormos a receber os dons do Céu. Ela aparece aqui como ícone da autêntica oração de súplica e de intercessão; e é lícito pensar que isto não é alheio à redacção joanina, pois o milagre acaba por se realizar na sequência da intervenção da Mãe de Jesus (mesmo que alguns não considerem primigénio o diálogo dos vv. 3-4). 4 «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». A expressão «que a Mim e a Ti?»(ti emoi kai soi?) é confusa, pois pode significar concordância – «que desacordo há entre Mim e Ti?» –, ou então recusa – «que de comum [que acordo] há entre Mim e Ti?». Sendo assim, a expressão «ainda não chegou a minha hora», presta-se a diversas interpretações, conforme o modo de entender «a hora»: ou a hora de fazer milagres, ou a hora da Paixão. Para os que a entendem como a de fazer milagres, uns pensam que Jesus se escusa: «que temos que ver com isso Tu e Eu? (=porque me importunas?), com efeito ainda não chegou a minha hora», e só a insistência de Maria é que levaria à antecipação desta hora; ao passo que outros (E. Boismard, na linha de alguns Padres) entendem a frase como de um completo acordo: «que desacordo há entre Mim e Ti? porventura já não chegou a minha hora?»; assim se justificaria melhor a ordem que Maria dá aos serventes. Para os que entendem «a hora» como a da Paixão, também as opiniões de dividem acerca de como entender a resposta de Jesus; para uns, significaria acordo, como se dissesse: «que desacordo há entre Mim e Ti? com efeito, ainda não chegou a minha hora, a de ficar sem poder; por isso não há dificuldade para o milagre» (Hanimann); para outros, que entendem a hora do Calvário como a hora da glorificação de Jesus, de manifestar a sua glória, dando o Espírito, a expressão quer dizer: «que temos a ver Tu e Eu, um com o outro?» («que tenho Eu a ver contigo?»), uma expressão demasiado forte, a mesma que é posta na boca dos demónios (cf. Mc 5, 7; 1, 24). Com uma expressão tão contundente, a redacção joanina põe em evidência a atitude de Jesus, que, longe de ser ofensiva para a sua Mãe, o que pretende é mostrar a independência de Jesus relativamente a qualquer autoridade terrena, incluindo a materna (Gächter). Mas o apelo para que Maria não intervenha tem um limite: é apenas até que chegue a hora de Jesus; até lá, tem de ficar na penumbra (o que é confirmado pelas ditas «passagens anti-marianas»: Lc 2, 49; 8, 19-21 par; 11, 27-28). Então Ela vai estar como a nova Eva, a Mãe da nova humanidade, ao lado do novo Adão, junto à árvore da Cruz, daí que seja chamada «Mulher» em Jo 19, 26, como nas Bodas de Caná.
1ª Leitura Génesis 12, 1-4a 1Naqueles dias, o Senhor disse a Abrão: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te indicar. 2Farei de ti uma grande nação e te abençoarei; engrandecerei o teu nome e serás uma bênção. 3Abençoarei a quem te abençoar, amaldiçoarei a quem te amaldiçoar; por ti serão abençoadas todas as nações da terra». 4aAbrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.
1 “O Senhor disse a Abrão”. Estamos nas origens do antigo povo de Deus, como preparação do caminho do Evangelho: “no devido tempo Deus chamou Abraão para fazer dele um grande povo” (Dei Verbum, 3). A aliança com Deus implica uma série de exigências: deixar terra, família, casa e lançar-se para o desconhecido, “a terra que Eu te indicar…”, fiando-se apenas na palavra de Deus. É assim que S. Paulo há-de insistir no exemplo de fé e de obediência ao Deus de Abraão: Rom 4; cf. Hebr 11, 8-19.
2ª Leitura 2 Timóteo 1, 8b-10 Caríssimo: 8bSofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. 9Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade, não em virtude das nossas obras, mas do seu próprio desígnio e da sua graça. Esta graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, desde toda a eternidade, 10manifestou-se agora pelo aparecimento de Cristo Jesus, nosso Salvador, que destruiu a morte e fez brilhar a vida e a imortalidade, por meio do Evangelho.
8 S. Paulo, nas vésperas da sua execução pelo ano 67, no seu segundo cativeiro romano, aparece a animar o seu discípulo a sofrer também pelo Evangelho. 9-10 Estes versículos, num contexto exortatório, constituem mais uma das belas sínteses paulinas da salvação, em forma de hino, em prosa ritmada; esta “salvação” tem, como ponto de partida, um desígnio divino gratuito e (à letra) “chamou-nos com um chamamento santo”, santo, não só por ser de Deus, mas por levar a Deus; daí a tradução litúrgica, menos formal: “chamou-nos à santidade”.
Evangelho São Mateus 17, 1-9 1Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão e levou-os, em particular, a um alto monte 2e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. 3E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. 4Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». 5Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». 6Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito. 7Então Jesus aproximou-se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais». 8Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus. 9Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».
O facto de esta cena nos ser apresentado todos os anos no 2º Domingo da Quaresma tem um sentido para a nossa vida a ter em conta. Assim como para aqueles discípulos a Transfiguração de Jesus serviu de preparação para se confrontarem com a sua desfiguração na agonia do Getxemani, assim também nós temos de nos dispor com olhos de fé para a celebração do tríduo pascal. 1 “A um alto monte. Os Evangelhos não dizem o nome do monte que habitualmente se julga ser o Tabor, segundo uma tradição procedente do séc. IV, um monte situado a 10 km a Leste de Nazaré. Como este monte não é muito alto (apenas 560 m), há exegetas modernos que falam antes do Monte Hermon (2.759 m), junto a Cesareia de Filipe, região onde Jesus tinha estado, segundo os três sinópticos, uma semana antes. Pedro, Tiago e João, são os três predilectos de Jesus, destinados a ser “colunas da Igreja” (Gál 2, 9) particularmente firmes, igualmente testemunhas da ressurreição da filha de Jairo (Mc 5, 37) e da agonia de Jesus no horto (Mt 26, 37), diríamos, uma espécie de núcleo duro. Jesus sabia que a sua Paixão e Morte lhes iria provocar um violentíssimo choque, por isso quer prepará-los para enfrentarem com fé e coragem tamanha provação. Pedro acabara de confessar Jesus como “o Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16, 16); Jesus tinha-o declarado “bem-aventurado” por essa confissão de fé, que afinal era muito frágil, pois, logo a seguir, perante o primeiro anúncio da Paixão, Jesus havia de o repreender pela sua visão humana (cf. Mt 16, 23). 3 “Moisés e Elias”. São os dois maiores expoentes de toda a revelação do Antigo Testamento: representam a Lei e os Profetas a convergirem em Cristo. 9 “Não conteis a ninguém”. Esta ordem enquadra-se na chamada “disciplina do segredo messiânico”, que tinha por fim evitar uma exagerada exaltação do espírito dos Apóstolos; assim Jesus obviava a possíveis agitações populares que só viriam prejudicar e perturbar a sua missão. Em Marcos esta imposição do silêncio adquire um significado teológioco muito particular.
1ª Leitura Êxodo 17, 3-7 3Naqueles dias, o povo israelita, atormentado pela sede, começou a altercar com Moisés, dizendo: «Porque nos tiraste do Egipto? Para nos deixares morrer à sede, a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?» 4Então Moisés clamou ao Senhor, dizendo: «Que hei-de fazer a este povo? Pouco falta para me apedrejarem». 5O Senhor respondeu a Moisés: «Passa para a frente do povo e leva contigo alguns anciãos de Israel. Toma na mão a vara com que fustigaste o Rio e põe-te a caminho. 6Eu estarei diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb. Baterás no rochedo e dele sairá água; então o povo poderá beber». Moisés assim fez à vista dos anciãos de Israel. 7E chamou àquele lugar Massa e Meriba, por causa da altercação dos filhos de Israel e por terem tentado o Senhor, ao dizerem: «O Senhor está ou não no meio de nós?»
O relato é situado em Refidim (v. 1), um oásis na península do Sinai a cerca de uma dúzia de quilómetros do monte que se considera ser o da grande teofania do Sinai, o Djébel Músa. O episódio que constituiu uma prova e fonte de litígio, enquadra-se bem na vida no deserto do Sinai, onde abunda a fome e a sede e escasseiam os oásis; a narrativa é apresentada a dar lugar ao nome de dois sítios: “Meribá”, que, segundo uma etimologia popular, designa a disputa ou litígio (do povo com Moisés) e “Massá”, nome correspondente a prova ou tentação. Este pecado de falta de fé do povo na Providência divina é muitas vezes posto em relevo na Sagrada Escritura: Dt 6, 16; 9, 22-24; 33, 8; Salm 95, 8-9. Também aparece sublinhada a falta de fé do próprio chefe, Moisés, cuja dúvida o levou a bater duas vezes na rocha (cf. Nm 20, 1-13; Dt 32, 51; Salm 106, 32).
2ª leitura Romanos 5, 1-2.5-8 Irmãos: 1Tendo sido justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, 2pelo qual temos acesso, na fé, a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos, apoiados na esperança da glória de Deus. 5Ora, a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. 6Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. 7Dificilmente alguém morre por um justo; por um homem bom, talvez alguém tivesse a coragem de morrer. 8Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.
Dentro do tema central da epístola, a obra da nossa justificação realizada por Cristo, S. Paulo aponta aqui os efeitos desta sua obra salvadora: a “paz” (v. 1), o “acesso à graça”, um orgulho santo, e a esperança (v. 2), uma “esperança que não engana”, porque tem como fundamento o “amor de Deus”. “Esta graça em que permanecemos” é a graça santificante, a graça da justificação, que nos torna santos, justos, amigos de Deus e em paz com Ele. 5 “A esperança não engana”, não nos deixa confundidos, um tema desenvolvido a fundo na encíclica Spe salvi. A teologia católica insiste numa qualidade da virtude teologal da esperança: a certeza, que procede da virtude da fé e que se baseia na fidelidade de Deus às suas promessas, na sua misericórdia e omnipotência. Esta firmeza da esperança não obsta a uma certa desconfiança de si próprio, pelo mau uso que se possa vir a fazer da liberdade: daqui a recomendação de S. Paulo: “trabalhai com temor e tremor na vossa salvação” (Filp 2, 12). “O amor de Deus foi derramado em nossos corações”; aqui está a garantia de que a nossa esperança não é ilusória, mas firme. Este amor não é apenas algo que se situa fora de nós próprios, uma mera atitude de benevolência divina extrínseca, mas é um dom que se encontra derramado em nossos corações “pelo Espírito Santo que nos foi dado”. Fala-se neste texto dum dom e dum doador; daqui que a Teologia explicite que esse dom é a virtude infusa da caridade, inseparável da graça santificante (cf. DzS 800-821), isto é, um “hábito” permanente, bem expresso pelo particípio perfeito passivo do original grego (“que permanece derramado”); o doador é o Espírito Santo que, por sua vez, também “nos foi dado”; Ele é a graça incriada: por isso se pode falar da inabitação da Santíssima Trindade na alma do justo. 6-8 Este amor de Deus não é uma teoria, pois ele se revela na morte de Jesus pelos pecadores.
Evangelho Forma longa: São João 4, 5-42; forma breve: São João 4, 5-15.19b-26.39a40-42 5Naquele tempo, chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José, 6onde estava a fonte de Jacob. Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço. Era por volta do meio-dia. 7Veio uma mulher da Samaria para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-Me de beber». 8Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. 9Respondeu-Lhe a samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?» De facto, os judeus não se dão com os samaritanos. 10Disse-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva». 11Respondeu-Lhe a mulher: «Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo: donde Te vem a água viva? 12Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, com os seus filhos e os seus rebanhos?» 13Disse-Lhe Jesus: «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede. 14Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para a vida eterna». 15«Senhor, – suplicou a mulher – dá-me dessa água, para que eu não sinta mais sede e não tenha de vir aqui buscá-la». [16Disse-lhe Jesus: «Vai chamar o teu marido e volta aqui». 17Respondeu-lhe a mulher: «Não tenho marido». Jesus replicou: «Disseste bem que não tens marido, 18pois tiveste cinco e aquele que tens agora não é teu marido. Neste ponto falaste verdade». 19Disse-lhe a mulher: «Senhor,] vejo que és profeta. 20Os nossos antepassados adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar». 21Disse-lhe Jesus: «Mulher, podes acreditar em Mim: Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. 22Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. 23Mas vai chegar a hora – e já chegou – em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são esses os adoradores que o Pai deseja. 24Deus é espírito e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade». 25Disse-Lhe a mulher: «Eu sei que há-de vir o Messias, isto é, Aquele que chamam Cristo. Quando vier, há-de anunciar-nos todas as coisas». 26Respondeu-lhe Jesus: «Sou Eu, que estou a falar contigo». [27Nisto, chegaram os discípulos e ficaram admirados por Ele estar a falar com aquela mulher, mas nenhum deles Lhe perguntou: «Que pretendes?» ou então: «Porque falas com ela?» 28A mulher deixou a bilha, correu à cidade e falou a todos: 29«Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias?» 30Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus. 31Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo: «Mestre, come». 32Mas Ele respondeu-lhes: «Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis». 33Os discípulos perguntavam uns aos outros: «Porventura alguém Lhe trouxe de comer?» 34Disse-lhes Jesus: «O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e realizar a sua obra. 35Não dizeis vós que dentro de quatro meses chegará o tempo da colheita? Pois bem, Eu digo-vos: Erguei os olhos e vede os campos, que já estão loiros para a ceifa. 36Já o ceifeiro recebe o salário e recolhe o fruto para a vida eterna e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro. 37Nisto se verifica o ditado: ‘Um é o que semeia e outro o que ceifa’. 38Eu mandei-vos ceifar o que não trabalhastes. Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho».] 39Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus, por causa da palavra da mulher, [que testemunhava: «Ele disse-me tudo o que eu fiz». 40Por isso] os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus, pediram-Lhe que ficasse com eles. E ficou lá dois dias. 41Ao ouvi-l’O, muitos acreditaram 42e diziam à mulher: «Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».
A leitura contém uma das mais encantadoras cenas de todo o Evangelho. Um belíssimo diálogo pedagógico inicial conduz a uma proposta misteriosa de Jesus (v.10), que suscita o vivo interesse da mulher, a qual passa da incompreensão (vv. 11-12) ao acolhimento da auto-revelação de Jesus e a tornar-se por fim numa apóstola de Cristo. O diálogo atinge o clímax, o ponto culminante, no v. 26: “(o Messias) sou Eu, que estou a falar contigo!” 5-6 “Sicar”, que muitos querem identificar com a Siquém dos tempos dos Patriarcas, destruída em grande parte por João Hircano em 128 a. C., costuma identificar-se com a actual Askar, no sopé do monte Ebal, perto da antiga Siquém e da actual Nablus, a maior cidade dos palestinos (cf. Gn 33, 19; 48, 22; Jos 24, 32. O “poço”, com 32 metros, conserva-se na cripta duma igreja feita pelos cruzados sobre as ruínas de templos sucessivamente destruídos, primeiro pelos samaritanos, depois pelos maometanos por duas vezes; em 1863 uma comunidade grega ortodoxa reconstruiu essa cripta, onde o peregrino continua a poder beber água tirada com um balde preso a uma corda. 6 “Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço”. João, que pretende demonstrar a divindade de Jesus no seu Evangelho (cf. Jo 20, 31), não descuida deixar ver bem clara a humanidade do Senhor. Eis o belíssimo comentário de Santo Agostinho: “Não é em vão que se fatiga o poder de Deus. Não é em vão que se fatiga Aquele cuja ausência nos causa fadiga e cuja presença nos conforta. (...) Jesus fatigou-Se com o caminho por nosso amor. Encontramos ali Jesus que é força e encontramo-Lo fatigado. Jesus é forte e é fraco. (...) A força de Cristo deu-nos a vida e a fraqueza de Cristo deu-nos a nova vida. A força de Cristo fez que existisse o que não existia; a fraqueza de Cristo fez que não perecesse o que existia. Cristo criou-nos pela sua força e salvou-nos pela sua fraqueza” (In Ioh. Tractus XV, 6). 9 “Sendo eu samaritana”. Os samaritanos eram um povo misto, resultado do cruzamento dos judeus não desterrados por Sargão II na destruição do reino do Norte em 721, com os colonos assírios que para ali foram mandados. As rivalidades, que vinham dos inícios da monarquia, com a divisão em dois reinos (cf. 1 Re 12; 17, 24-34), acirraram-se com a reforma de Esdras e Neemias no regresso do exílio, até que se consumou o cisma religioso. Eles consideravam-se autênticos israelitas e seguiam os cinco livros de Moisés (o Peutateuco Samaritano). Mas os judeus consideravam-nos semi-pagãos e cismáticos, pois sobre o monte Garizim tinham chegado a construir um templo, rival do de Jerusalém. O ódio e desprezo dos judeus pelos samaritanos era tão grande que, quando querem insultar a Jesus chamam-no “samaritano” (Jo 8, 48), o que equivalia a chamar-Lhe um renegado, talvez pelos contactos de Jesus com as gentes da Samaria, quando um judeu praticante devia abster-se de todo o contacto com os samaritanos. 10-15 “Se conhecesses…”: conhecer, na linguagem bíblica, não se reduz a estar informado, mas implica uma vivência, como se Jesus dissesse: “Se tu tivesses a experiência da vida que Deus tem para te dar...”. “Água viva”: dá-se aqui um mal-entendido, pois a samaritana pensa em água corrente, por oposição à água estagnada do poço, quando Jesus lhe fala assim, recorrendo a um símbolo bíblico tradicional (cf. Is 12, 3; 44, 3; Jr 2, 13; 17, 13; Salm 36, 10; ver Apoc 21, 6; 22, 17) para falar dum dom divino que no IV Evangelho se exprime em diversas categorias sobrenaturais paralelas e que se iluminam mutuamente: vida eterna, salvação, o próprio Jesus, o Espírito Santo, como se explicita em 7, 38-39. A imagem da água viva tem mais força se temos em conta o que diz o Targum acerca dum poço de Jacob que transbordou jorrando água durante 20 anos. 17 “Tiveste cinco maridos”: O contexto deixa ver que a mulher tinha levado uma vida escandalosa (ver v. 29); embora alguns queiram ver que temos aqui um símbolo do antigo politeísmo dos samaritanos (2 Re 17, 29-41) que adoraram 5 ídolos (na realidade o texto fala de 7) e agora tinham um culto ilegítimo; mas esta hipotética alusão não anularia o valor do acontecimento relatado. 19-24 Ao ver que Jesus penetra nos segredos da sua vida irregular, reconhece que está diante dum profeta, por isso lhe põe a grande questão que opunha os samaritanos aos judeus, a saber, o lugar do culto (cf. Dt 12, 5), que eles celebravam no monte Garizim, mesmo depois de destruído o seu templo cismático por João Hircano. Jesus declara que com Ele tinha chegado a hora em que já não tem sentido essa questão acerca do “lugar”, pois o culto antigo ficava ultrapassado e abolido, sendo Ele próprio o novo templo (cf. Jo 2, 19.21). Começava um novo culto “em espírito e verdade”; mas isto não significa um culto mais interior e menos ritualista, como pregaram os profetas, nem que se devam suprimir todos os ritos externos. Trata-se de que Deus é espírito (cf. v. 24), isto é, que infunde uma nova vida, a sua vida divina; por isso o culto tem de corresponder a essa novidade de vida (Rom 6, 19), digamos, um culto que nos envolva na própria vida trinitária: adorar o Pai no Espírito Santo (sob o seu impulso) e na Verdade (através de Jesus que é a Verdade: 1, 14; 14, 6). 35-38 É fácil de descobrir o sentido da alegoria do semeador e dos ceifeiros: nos campos de trigo há um espaço de tempo entre a sementeira e a ceifa, mas no campo de Deus o fruto pode ser imediato, como aconteceu ali; no entanto, o habitual será que se confirme o ditado (v. 37; ver Miq 6, 15; Act 8, 4-25). Os discípulos aparecem como os ceifeiros enviados a colher o que “outros” – os profetas e Jesus principalmente – semearam. 42 “Salvador do mundo”: cf. 3, 17; 12, 47; 1 Jo 4, 14; Is 19, 20; 43, 3; Lc 1, 47; 1 Tm 4, 10; Filp 3, 20; Mt 1, 21; Act 5, 31; 13, 23.
1ª leitura 1 Samuel 16, 1b.6-7.10-13a 1bNaqueles dias, o Senhor disse a Samuel: «Enche o corno de óleo e parte. Vou enviar-te a Jessé de Belém, pois escolhi um rei entre os seus filhos». 6Quando chegou, Samuel viu Eliab e pensou consigo: «Certamente é este o ungido do Senhor». 7Mas o Senhor disse a Samuel: «Não te impressiones com o seu belo aspecto, nem com a sua elevada estatura, pois não foi esse que Eu escolhi. Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração». 10Jessé fez passar os sete filhos diante de Samuel, mas Samuel declarou-lhe: «O Senhor não escolheu nenhum destes». 11E perguntou a Jessé: «Estão aqui todos os teus filhos?» Jessé respondeu-lhe: «Falta ainda o mais novo, que anda a guardar o rebanho». Samuel ordenou: «Manda-o chamar, porque não nos sentaremos à mesa, enquanto ele não chegar». 12Então Jessé mandou-o chamar: era loiro, de belos olhos e agradável presença. O Senhor disse a Samuel: «Levanta-te e unge-o, porque é este mesmo». 13Samuel pegou no corno do óleo e ungiu-o no meio dos irmãos. Daquele dia em diante, o Espírito do Senhor apoderou-Se de David.
A leitura é tirada do início da última parte do 1º livro de Samuel, que deixa ver o progressivo declínio do rei Saúl até à sua morte. A ascensão de David ao trono de Israel não aparece apenas como obra do seu génio e sagacidade, mas como uma providência divina com a intervenção de Samuel. 1 “Jessé”, grafia usada na Vulgata para o pai de David, chamado Isaí, no texto hebraico (nos LXX, Iesai). 6-7 Tanto o profeta Samuel como Isaí estavam de acordo em sagrar rei o primogénito Eliab. Porém Deus, nos seus desígnios vocacionais, não olha a critérios humanos (ser o mais velho, o mais belo, o mais forte, o mais sábio): “o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração”. A escolha divina é gratuita, não partindo dos méritos do escolhido, mas da benevolência divina que torna o homem capaz de cumprir a missão a que o chama. 12 “Ungiu-o no meio dos seus irmãos”, isto é, em família, sem qualquer espécie de publicidade para evitar as iras e represálias do rei Saúl.
2ª Leitura Efésios 5, 8-14 Irmãos: 8Outrora vós éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz, 9porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade. 10Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor. 11Não tomeis parte nas obras das trevas, que são inúteis; tratai antes de condená-las abertamente, 12porque o que eles fazem em segredo até é vergonhoso dizê-lo. 13Mas, todas as coisas que são condenadas são postas a descoberto pela luz, e tudo o que assim se manifesta torna-se luz. 14É por isso que se diz: «Desperta, tu que dormes; levanta-te do meio dos mortos e Cristo brilhará sobre ti».
A leitura é tirada da segunda parte de epístola, com exortações morais, correspondentes a uma vida nova em Cristo. 2 “Outrora”, isto é, antes da conversão, “éreis trevas”, pois viviam na ignorância, no erro, no pecado, afastados de Cristo, Luz do mundo, “mas agora sois luz no Senhor”, pela fé e pela graça que têm pela sua união ao Senhor (cf. Jo 12, 35-36). “Filhos da luz” (cf. Lc 16, 8; Jo 12, 36) é um semitismo que corresponde ao adjectivo: iluminados (pela verdade de Cristo, “Luz verdadeira que a todo o homem ilumina” – Jo 1, 9.4-5). 10 “Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor”. Para nos comportarmos como filhos da luz, temos de ter essa sobrenatural ponderação e discernimento de quem busca a todo o momento, em tudo o que diz e faz, a vontade de Deus. 13 “Tudo o que assim se manifesta torna-se luz”. Toda a maldade que se denuncia é um projectar de luz sobre os ambientes tenebrosos do pecado. Estas palavras podiam adaptar-se à denúncia da nossa própria maldade, que levamos dentro de nós. Essa denúncia mais sincera e eficaz é a que se faz quando, no Sacramento da Penitência, acusamos sincera e contritamente os nossos pecados: então a nossa vida torna-se clara e luminosa, é luz. (A leitura presta-se, pois, a falar da Confissão Quaresmal).
Evangelho Forma longa: São João 9, 1-41; forma breve: São João 9, 1.6-9.13-17.34-38 1Naquele tempo, Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença. [2Os discípulos perguntaram-Lhe: «Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego? Ele ou os seus pais?» 3Jesus respondeu-lhes: «Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais; mas aconteceu assim para se manifestarem nele as obras de Deus. 4É preciso trabalhar, enquanto é dia, nas obras d’Aquele que Me enviou. Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar. 5Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo». 6Dito isto,] cuspiu em terra, fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: 7«Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado». Ele foi, lavou-se e ficou a ver. 8Entretanto, perguntavam os vizinhos e os que antes o viam a mendigar: «Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?» 9Uns diziam: «É ele». Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele». Mas ele próprio dizia: «Sou eu». [10Perguntaram-lhe então: «Como foi que se abriram os teus olhos?» 11Ele respondeu: «Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo, ungiu-me os olhos e disse-me: ‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’. Eu fui, lavei-me e comecei a ver». 12Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?» O homem respondeu: «Não sei».] 13Levaram aos fariseus o que tinha sido cego. 14Era sábado esse dia em que Jesus fizera lodo e lhe tinha aberto os olhos. 15Por isso, os fariseus perguntaram ao homem como tinha recuperado a vista. Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos; depois fui lavar-me e agora vejo». 16Diziam alguns dos fariseus: «Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado». Outros observavam: «Como pode um pecador fazer tais milagres?» E havia desacordo entre eles. 17Perguntaram então novamente ao cego: «Tu que dizes d’Aquele que te deu a vista?» O homem respondeu: «É um profeta». [18Os judeus não quiseram acreditar que ele tinha sido cego e começara a ver. 19Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes: «É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego? Como é que ele agora vê?» 20Os pais responderam: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; 21mas não sabemos como é que ele agora vê, nem sabemos quem lhe abriu os olhos. Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». 22Foi por medo que eles deram esta resposta, porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga quem reconhecesse que Jesus era o Messias. 23Por isso é que disseram: «Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». 24Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido curado e disseram-lhe: «Dá glória a Deus. Nós sabemos que esse homem é pecador». 25Ele respondeu: «Se é pecador, não sei. O que sei é que eu era cego e agora vejo». 26Perguntaram-lhe então: «Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?» 27O homem replicou: «Já vos disse e não destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo novamente? Também quereis fazer-vos seus discípulos?» 28Então insultaram-no e disseram-lhe: «Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés; 29mas este, nem sabemos de onde é». 30O homem respondeu-lhes: «Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é, mas a verdade é que Ele me deu a vista. 31Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade. 32Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. 33Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer».] 34Replicaram-lhe então eles: «Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?» E expulsaram-no. 35Jesus soube que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: «Tu acreditas no Filho do homem?» 36Ele respondeu-Lhe: «Senhor, quem é Ele, para que eu acredite?» 37Disse-lhe Jesus: «Já O viste: é Quem está a falar contigo». 38O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou: «Eu creio, Senhor». [39Então Jesus disse-lhe: «Eu vim para exercer um juízo: os que não vêem ficarão a ver; os que vêem ficarão cegos». 40Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto, perguntaram-Lhe: «Nós também somos cegos?» 41Respondeu-lhes Jesus: «Se fôsseis cegos, não teríeis pecado. Mas como agora dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece».]
Este longo trecho apresenta-se como uma encantadora peça dramática, cheia de vigor e naturalidade, que se pode considerar estruturada em quatro actos: 1º – A abertura (vv. 1-5), onde aparece o tema, Jesus, Luz do mundo, em face da cegueira, não apenas física do doente, mas moral, de que participam os próprios discípulos, obcecados pela mentalidade “retribuicionista” (cf. Job 4, 7-8; 2 Mac 7, 18; Tob 3, 3); eles, em face da desgraça alheia, põem-se a indagar quem pecou e não quem a pode remediar. 2º – A cura do cego (vv. 6-7). 3º – A longa investigação acerca da cura (vv. 8-34), primeiro pelos vizinhos (vv. 8-12) e depois pelos fariseus que montam como que um processo judicial com sucessivos interrogatórios e que termina numa sentença de excomunhão (vv. 13-34). 4º – O desfecho do drama (vv. 35-41), com o acto de fé do cego e a obstinação na cegueira espiritual dos que não querem crer. Sem prejuízo para o valor histórico da narração, esta reveste-se dum grande poder evocativo e dramático, em que sobressai, evocando o itinerário dum catecúmeno, a progressão do cego para a fé plena, o qual começa por se confessar beneficiário da misericórdia do homem Jesus (v. 11), passando a reconhecê-lo como um profeta (v. 17), depois a atestar que Ele vem de Deus (v. 33), e, por fim, a professar a fé explícita em Jesus como Senhor, à maneira de quem responde às perguntas rituais do último escrutínio catecumenal (v 35-38). A alusão ao Baptismo é bastante clara através da unção e do banho: “lavei-me e fiquei a ver” (vv. 11.15), pois na primitiva Igreja este Sacramento era chamado iluminação (cf. Hebr 6, 4; 10, 32; Ef 5, 14; Rom 6, 4). Por outro lado, o decreto de exclusão punitiva da sinagoga (v. 34) não vai apenas contra o cego, mas visa Jesus e os próprios cristãos, os quais no sínodo de Yámnia (pelo ano 80) se viram excomungados pelo farisaísmo que sobreviveu à destruição de Jerusalém (v. 22; cf. Jo 12, 42; 16, 2). 6-7 “Ungiu...” O milagre não se realiza nem pela virtude do “lodo”, nem pela eficácia medicinal da água, água comum. O prodígio é consequência do simples querer de Jesus. Como em Mc 7, 33 e 8, 23, com este gesto, Jesus quis pôr à prova e estimular a fé do doente, mas, neste caso, também se quis apresentar como “Senhor do Sábado”, pois os rabinos consideravam a preparação do lodo e a unção como um trabalho proibido aos sábados (cf. v. 16). A “Piscina de Siloé” era alimentada pela água da fonte de Gihon (a fonte de Maria), que ali chegava através do canal de Ezequias (rei contemporâneo do profeta Isaías), canal subterrâneo e cavado na rocha com cerca de meio quilómetro de comprido. 1ª leitura Ezequiel 37, 12-14 12Assim fala o Senhor Deus: «Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel. 13Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor, quando abrir os vossos túmulos e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo. 14Infundirei em vós o meu espírito e revivereis. Hei-de fixar-vos na vossa terra e reconhecereis que Eu, o Senhor, o disse e o executei».
A leitura é extraída da 3ª parte de Ezequiel (cap. 33 – 48), destinada a confortar os exilados em Babilónia com palavras de esperança no futuro. 12 “Vos farei ressuscitar”. Não se trata aqui da ressurreição final, mas da do povo de Deus, que, esmagado pelas duras provas do cativeiro, se ergue de novo e é reconduzido à Terra de Israel, segundo a célebre visão dos ossos relatada nos primeiros versículos deste mesmo capítulo. 14 “Infundirei em vós o meu espírito” (cf. Ez 36, 27). É um misterioso anúncio profético da acção do Espírito Santo nas almas com a obra salvadora de Cristo: “dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo; arrancarei o coração de pedra das vossas carnes e dar-vos-ei um coração de carne” (Ez 36, 26). S. Paulo, como faz na 2ª Leitura de hoje, há-de desenvolver a ideia da acção do Espírito Santo nas almas dos cristãos (Rom 8).
2ª Leitura Romanos 8, 8-11 Irmãos: 8Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus. 9Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não Lhe pertence. 10Se Cristo está em vós, embora o vosso corpo seja mortal por causa do pecado, o espírito permanece vivo por causa da justiça. 11E, se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós.
Temos, neste breve extracto de Rom 8, dois modos antitéticos de ser e de viver: segundo a carne e segundo o Espírito. Viver segundo a carne é o mesmo que levar uma vida de pecado, por isso, os que se encontram nesta situação “não podem agradar a Deus”. 9-11 Depois de ter falado em geral, S. Paulo dirige-se directamente aos fiéis baptizados: o facto de o Espírito Santo habitar neles subtrai-os ao “domínio da carne”. Este habitar do Espírito Santo no fiel é um ponto fulcral da fé pregada por Paulo (cf. 1 Cor 3, 16-17; 6, 19; cf. Jo 14, 23), o que é afirmado por três vezes neste pequeno trecho: vv. 9.11a.11b. Aparece como garantia da vitória sobre a carne (v. 9) e sobre a morte (v. 11). Note-se como o Espírito Santo é chamado tanto Espírito de Deus (o Pai) – nos vv. 9 e 11a –, como Espírito de Cristo (o Filho) – nos vv. 10 e 11b –; com efeito, o Espírito Santo “procede do Pai e do Filho” e nos é “enviado” pelo Pai e pelo Filho.
Evangelho Forma longa: São João 11, 1-45; forma breve: São João 11, 3-7.17.20-27.33b-45 1Naquele tempo, [estava doente certo homem, Lázaro de Betânia, aldeia de Marta e de Maria, sua irmã. 2Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos. Era seu irmão Lázaro que estava doente.] 3As irmãs mandaram então dizer a Jesus: «Senhor, o teu amigo está doente». 4Ouvindo isto, Jesus disse: «Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus, para que por ela seja glorificado o Filho do homem». 5Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro. 6Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente, ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava. 7Depois disse aos discípulos: «Vamos de novo para a Judeia». [8Os discípulos disseram-Lhe: «Mestre, ainda há pouco os judeus procuravam apedrejar-Te e voltas para lá?» 9Jesus respondeu: «Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. 10Mas se andar de noite, tropeça, porque não tem luz consigo». 11Dito isto, acrescentou: «O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou despertá-lo». 12Disseram então os discípulos: «Senhor, se dorme, estará salvo». 13Jesus referia-se à morte de Lázaro, mas eles entenderam que falava do sono natural. 14Disse-lhes então Jesus abertamente: «Lázaro morreu; por vossa causa, 15alegro-Me de não ter estado lá, para que acrediteis. Mas vamos ter com ele». 16Tomé, chamado Dídimo, disse aos companheiros: «Vamos nós também, para morrermos com Ele».] 17Ao chegar, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias. [18Betânia distava de Jerusalém cerca de três quilómetros. 19Muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria, para lhes apresentar condolências pela morte do irmão.] 20Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar, Marta saiu ao seu encontro, enquanto Maria ficou sentada em casa. 21Marta disse a Jesus: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. 22Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá». 23Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará». 24Marta respondeu: «Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição, no último dia». 25Disse-lhe Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; 26e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?» 27Disse-Lhe Marta: «Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo». [28Dito isto, retirou-se e foi chamar Maria, a quem disse em segredo: «O Mestre está ali e manda-te chamar». 29Logo que ouviu isto, Maria levantou-se e foi ter com Jesus. 30Jesus ainda não tinha chegado à aldeia, mas estava no lugar em que Marta viera ao seu encontro. 31Então os judeus que estavam com Maria em casa para lhe apresentar condolências, ao verem-na levantar-se e sair rapidamente, seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para chorar. 32Quando chegou aonde estava Jesus, Maria, logo que O viu, caiu-Lhe aos pés e disse-Lhe: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido».] 33Jesus, [ao vê-la chorar, e vendo chorar também os judeus que vinham com ela,] comoveu-Se profundamente e perturbou-Se. 34Depois perguntou: «Onde o pusestes?» Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor». 35E Jesus chorou. 36Diziam então os judeus: «Vede como era seu amigo». 37Mas alguns deles observaram: «Então Ele, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito que este homem não morresse?» 38Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo. Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada. 39Disse Jesus: «Tirai a pedra». Respondeu Marta, irmã do morto: «Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias». 40Disse Jesus: «Eu não te disse que, se acreditasses, verias a glória de Deus?» 41Tiraram então a pedra. Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse: «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. 42Eu bem sei que sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca, para acreditarem que Tu Me enviaste». 43Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora». 44O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Disse-lhes Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir». 45Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria, ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele.
Neste domingo dito de Lázaro, temos o 7º e último dos sinais do IV Evangelho, que deixam ver Jesus como o Messias, não um messias sem mais, mas aquele que é a própria Vida, capaz de dar a vida aos mortos. É assim que o ponto culminante de toda esta secção (Jo 9) é a solene declaração de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida” (v. 25). Mas toda a grandeza da sua pessoa divina aparece aqui tão profundamente humana, com uma sensibilidade tal que, perante a morte do amigo e a dor e desconsolo das irmãs do defunto, Ele se comove e perturba (v. 33.38), chegando mesmo a chorar (v. 35); Ele é o divino amigo, tão humanamente amigo! (vv. 3.5.11.36). 1 “Betânia” (ver Mt 26, 6; Mc 14, 3) era uma povoação situada na vertente oriental do Monte das Oliveiras, a uns 3 Km de Jerusalém (v. 18), distinta de outra Betânia, na Pereia (1, 28). Corresponde à actual El-Azariyeh, um nome derivado de Lázaro. 2 Porque esta unção do Senhor só é contada no capítulo 12, no Ocidente veio a pensar-se que esta Maria de Betânia seria a pecadora que em Lc 7, 37 tinha ungido o Senhor, o que não parece provável. Nenhuma das duas mulheres se deverá confundir com Maria Madalena (19, 25; 20, 1.18; Lc 8, 2). Foram confundidas no Ocidente inclusive no Missal Romano, até à reforma de Paulo VI. 25-26 São dois versículos paralelos, mas com distinto matiz: Jesus é a “Ressurreição”, porque leva os crentes à ressurreição final (v. 25: “viverá”) prefigurada na de Lázaro (que ainda não é a ressurreição gloriosa); e é a “Vida”, porque dá aos crentes a vida espiritual (sobrenatural), uma vida que não morre (v. 26). Entendido assim o texto, teríamos aqui a síntese da escatologia já presente (tão típica de S. João) e da escatologia do fim dos tempos, compenetrando-se de forma harmoniosa e coerente. 39 “O quarto dia”: todos estão de acordo quanto ao significado simbólico da ressurreição de Lázaro, o que não quer dizer que esta seja um mero símbolo; se assim fosse, deveria ser ao terceiro dia, como a de Jesus, e não ao quarto dia. 44 Deixai-o andar. A tradução litúrgica “deixai-o ir” (para sua casa), embora gramaticalmente correcta, parece imprópria, pois pode fazer supor desinteresse de Jesus pela pessoa do seu amigo Lázaro… 49-53 Temos aqui mais um paradoxo: o último pontífice da Antiga Aliança, sem saber, profetiza a investidura de Jesus como o Sumo Sacerdote da Nova Aliança, selada com o seu próprio sangue. José Caifás (cf. Jo 18, 13-14.28) exerceu a sua função entre os anos 18 a 36 da era cristã.
Domingo de Ramos e da Paixão
Evangelho da Bênção dos Ramos São Mateus 21, 1-11 1Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, junto ao Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: 2«Ide à povoação que está em frente e encontrareis uma jumenta presa e, com ela, um jumentinho. Soltai-os e trazei-mos. 3E se alguém vos disser alguma coisa, respondei que o Senhor precisa deles, mas não tardará em devolvê-los». 4Isto sucedeu para se cumprir o que o profeta tinha anunciado: 5«Dizei à filha de Sião: ‘Eis o teu Rei, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho, filho de uma jumenta’». 6Os discípulos partiram e fizeram como Jesus lhes ordenara: 7trouxeram a jumenta e o jumentinho, puseram-lhes em cima as suas capas e Jesus sentou-Se sobre elas. 8Numerosa multidão estendia as capas no caminho; outros cortavam ramos de árvores e espalhavam-nos pelo chão. 9E, tanto as multidões que vinham à frente de Jesus como as que O acompanhavam, diziam em altos brados: «Hossana ao Filho de David! Bendito O que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!» 10Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou em alvoroço. «Quem é Ele?» perguntavam. 11E a multidão respondia: «É Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia».
2 A povoação que está ai em frente é com certeza Betânia (cf. Mc 11, 1). 7 A jumenta e o jumentinho: Mateus desce até ao pormenor de falar não apenas do jumentinho, mas também da jumenta. Pretende sublinhar o cumprimento da letra da profecia citada (Zac 9, 9), mas da mãe do jumentinho facilitaria que este não se espantasse com a multidão e seguisse o caminho. A entrada dos peregrinos em Jerusalém fazia-se a pé. Jesus quer entrar a cavalo, desta vez. Até então, tinha querido evitar todas as homenagens messiânicas, mas quer agora mostrar-se como o Messias nesta última visita à cidade, entrando montado. Mas não quer fazer a sua entrada como um rei temporal, ou um general, montado num corcel, mas num jumentinho: uma lição de humildade, mesmo no momento de se manifestar como o Messias. Jesus não é um rei dominador, em concorrência com os poderosos da terra, mas o rei cheio de mansidão, o príncipe da paz. Compreende-se, então, como o povo tenha aclamado a Jesus e os seus inimigos se tenham indignado. Os Santos Padres viram nesta atitude de Jesus, ao cavalgar alternadamente sobre o jumentinho e a jumenta, um sinal: a jumenta, submetida ao jugo, representa o povo judeu sujeito ao jugo da Lei; o jumentinho figurava os gentios. A ambos Jesus vinha guiar até Jerusalém (a Igreja e o Céu). 9 “Hossana”. Palavra hebraica que aqui tem um sentido de aclamação, correspondente ao nosso “viva!”, e não uma mera prece, como indicaria a tradução literal do hebraico: “salva-nos, por favor, (ó Deus)”. A saudação “Bendito o que vem em nome do Senhor” é tirada do Salmo 117 e dela se fazem eco todos os fiéis na Liturgia eucarística: “Bendito o que vem” (baruk habá) é ainda hoje a saudação de boas-vindas em Israel. De qualquer modo, estas palavras não são mera saudação, mas uma aclamação solene da realeza de Cristo.
PRIMEIRA LEITURA Isaías 50, 4-7
4O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. 5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. 6Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.
O texto é tirado do II Isaías e corresponde aos primeiros 4 vv. do 3° poema do Servo de Yahwéh (Is 50, 4-9). Quem está a falar parece ser o próprio servo, embora não seja aqui nomeado, mas é o que se deduz do contexto imediato deste canto (v. 10). De qualquer modo, considera-se como a figura profética de Jesus Cristo. O texto consta de três estrofes iniciadas com a mesma fórmula (que a tradução não respeitou): “O Senhor Deus”; na primeira sublinha-se a docilidade de discípulo; na segunda, o sofrimento que esta docilidade acarreta; na terceira, a fortaleza no meio das dores. 4 Apresenta-se “a falar como um discípulo”, embora não se trate de um discípulo qualquer; é um discípulo do Senhor (cf. Is 54, 13), instruído pelo próprio Deus, tal como dirá Jesus: “a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7, 16; cf. 14, 24). 5 “Não resisti nem recuei”. Mesmo os maiores profetas e os maiores santos tiveram a consciência clara de opor alguma resistência, embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés e Jeremias (cf. Ex 3, 11; 4, 10; Jer 1, 6). Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc 22, 42). 6 “Apresentei as costas àqueles que me batiam... não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam”. Os evangelistas hão-de deixar ver como o pleno cumprimento deste hino profético se deu no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt 26, 67; 27, 26-30; Mc 15, 19; Lc 22, 63-64…
SEGUNDA LEITURA Filipenses 2, 6-11
6Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, 7mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, 8humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. 9Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, 10para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, 11e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.
A leitura constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo, um hino que muitos exegetas pensam ser anterior ao este escrito paulino; é a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do Novo Testamento. 6 “De condição divina”. Literalmente: “existindo em forma de Deus” . Ora esta forma (morfê) de Deus, ainda que não significasse directamente a natureza divina, pelo menos indicaria a glória e a majestade, atributos especificamente divinos na linguagem bíblica. De qualquer modo, como bem observa Heinrich Schlier, a expressão em forma de Deus não quer dizer que Deus tenha uma forma como a têm os homens, mas significa que Jesus “tinha um ser como Deus, um ser divino”. “Não se valeu da sua igualdade com Deus”. Há diversas possibilidades de tradução desta rica expressão, segundo se considerar o termo grego harpagmós em sentido activo (roubo), ou em sentido passivo (coisa roubada). A Vulgata traduz: “não considerou uma usurpação (rapinam) o ser igual a Deus” (sentido activo) . Segundo a interpretação dos Padres Gregos, a que se ateve a nossa tradução litúrgica (sentido passivo), teríamos: “não considerou como algo cobiçado (harpagmón) … Há quem pense que S. Paulo quer fazer ressaltar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram vir a ser iguais a Deus (cf. Gn 3, 5.22), e a atitude humilde de Jesus que, sendo Deus, se quis fazer “semelhante aos homens” (v. 7). 7 “Mas aniquilou-se a si próprio”, à letra, esvaziou-se: Jesus Cristo, ao fazer-se homem, não se despojou da natureza divina, mas sim da glória ou manifestação sensível da majestade que Lhe competia em virtude da chamada união hipostática (na pessoa do Filho eterno de Deus, a natureza humana e a natureza divina unidas numa união misteriosa). “Assumindo a condição de servo”, o que não significa a condição social de escravo, mas a “forma” (morfê) de se conduzir própria de um ser pobre e dependente, cumprindo n’Ele a figura do “servo de Yahwéh”, a que se refere a primeira leitura de hoje. “Tornou-se semelhante aos homens, aparecendo como homem”, não apenas, como queria a heresia doceta, nas aparências (skhêmati), mas no sentido em que o homem é “semelhante” (en homoiômati) dos outros homens, em tudo igual excepto no pecado (cf. Hebr 4, 15). 8 “Humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz”. Note-se como é posta em relevo esta obediência e aniquilamento – a kénosis – de Cristo, num sublime crescendo de humilhação em humilhação: feito homem, assume a condição de escravo, Ele obedece, e com uma obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz – homem, escravo, malfeitor! 9-11 Mas este aniquilamento – o tremendo escândalo da Cruz – não foi uma derrota, o humilhante desfecho dum história trágica com que tudo acabou. Temos em paralelo o sublime paradoxo da sua “exaltação”: “por isso Deus – não Ele próprio, mas o Pai – O exaltou” de modo singularíssimo, à letra, acima de tudo o que existe, como o sugere a preposição hypér na composição do verbo hypsóein (exaltar). Esta exaltação deu-se com a glorificação da humanidade de Jesus na sua Ressurreição e Ascensão. A esta sublime exaltação corresponde o “Nome” que Lhe é dado por Deus, o mesmo nome com que passa a ser invocado pela multidão de todos os crentes em todos os tempos. Com efeito, já não se trata do simples nome de Jesus, um nome corrente com que era tratado na sua vida terrena e que consta da sentença que o condenou à morte de cruz, nem apenas o título da sua condição messiânica, “Cristo”, pois o nome que agora Lhe compete é o mesmo nome com que o próprio Deus é designado no A. T.: “Kyrios-Senhor”, nome divino, como consta da tradução grega de “Yahwéh”. Desde agora, a todos pertence proclamar e reconhecer a divindade de Jesus – “toda a língua proclame que Jesus Cristo é Senhor” (mais expressivo sem artigo, como no original grego) – e o seu domínio sobre toda a criação, a saber: “no céu, na terra e nos abismos, para glória de Deus Pai” (A tradução da velha Vulgata neste ponto era pouco expressiva e deficiente: “que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai” ). Independentemente da discussão acerca do aniquilamento de que aqui se fala, se ele visa ou não directamente o mistério da Incarnação, fica bem claro que Jesus não é um simples servo do Senhor que vem a ser exaltado por Deus, pois Ele é Deus que se abaixa e depois vem a ser exaltado. Também fica patente que a fé na divindade de Jesus não é o fruto duma elaboração teológica tardia, pois a epístola é, quando muito, do ano 62, se não é mesmo de cerca de 55/56 (data mais provável), e, como dissemos, estes versículos fariam parte dum hino litúrgico a Cristo, anterior à epístola.
Evangelho Forma longa: Mateus 26, 14 - 27, 66; forma breve: Mateus 27, 11-54
N Naquele tempo, [14um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes 15e disse-lhes: R «Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?» N Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. 16E a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para O entregar. 17No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe: R «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?» N 18Ele respondeu: J «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo. É em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos’». N 19Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha mandado, e prepararam a Páscoa. 20Ao cair da noite, sentou-Se à mesa com os Doze. 21Enquanto comiam, declarou: J «Em verdade vos digo: Um de vós há-de entregar-Me». N 22Profundamente entristecidos, começou cada um a perguntar-Lhe: R «Serei eu, Senhor?» N 23Jesus respondeu: J «Aquele que meteu comigo a mão no prato é que há-de entregar-Me. 24O Filho do homem vai partir, como está escrito acerca d’Ele. Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido». N 25Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou: R «Serei eu, Mestre?» N Respondeu Jesus: J «Tu o disseste». N 26Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: J «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo». N 27Tomou em seguida um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: J «Bebei dele todos, 28porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados. 29Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira, até ao dia em que beberei convosco o vinho novo no reino de meu Pai». N 30Cantaram os salmos e seguiram para o Monte das Oliveiras. N 31Então, Jesus disse-lhes: J «Todos vós, esta noite, vos escandalizareis por minha causa, como está escrito: ‘Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas do rebanho’. 32Mas, depois de ressuscitar, preceder-vos-ei a caminho da Galileia». N 33Pedro interveio, dizendo: R «Ainda que todos se escandalizem por tua causa, eu não me escandalizarei». N 34Jesus respondeu-lhe: J «Em verdade te digo: Esta mesma noite, antes do galo cantar, Me negarás três vezes». N 35Pedro disse-lhe: R «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei». N E o mesmo disseram todos os discípulos. 36Então, Jesus chegou com eles a uma propriedade, chamada Getsémani e disse aos discípulos: J «Ficai aqui, enquanto Eu vou além orar». N 37E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se. 38Disse-lhes então: J «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo». N 39E adiantando-Se um pouco mais, caiu com o rosto por terra, enquanto orava e dizia: J «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres». N 40Depois, foi ter com os discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro: J «Nem sequer pudestes vigiar uma hora comigo! 41Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca». N 42De novo Se afastou, pela segunda vez, e orou, dizendo: J «Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade». N 43Voltou novamente e encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam pesados de sono. 44Deixou-os e foi de novo orar, pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. 45Veio então ao encontro dos discípulos e disse-lhes: J «Dormi agora e descansai. Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser entregue às mãos dos pecadores. 46Levantai-vos, vamos. Aproxima-se aquele que Me vai entregar». N 47Ainda Jesus estava a falar, quando chegou Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. 48O traidor tinha-lhes dado este sinal: R «Aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O». N 49Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse-Lhe: R «Salve, Mestre!» N E beijou-O. 50Jesus respondeu- lhe: J «Amigo, a que vieste?» N Então avançaram, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-n’O. 51Um dos que estavam com Jesus levou a mão à espada, desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. 52Jesus disse-lhe: J «Mete a tua espada na bainha, pois todos os que puxarem da espada morrerão à espada. 53Pensas que não posso rogar a meu Pai que ponha já ao meu dispor mais de doze legiões de Anjos? 54Mas como se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim tem de acontecer?» N 55Voltando-Se depois para a multidão, Jesus disse: J «Viestes com espadas e varapaus para Me prender como se fosse um salteador! Eu estava todos os dias sentado no templo a ensinar e não Me prendestes... 56Mas, tudo isto aconteceu para se cumprirem as Escrituras dos profetas». N Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram. N 57Os que tinham prendido Jesus levaram-n’O à presença do sumo sacerdote Caifás, onde os escribas e os anciãos se tinham reunido. 58Pedro foi-O seguindo de longe, até ao palácio do sumo sacerdote. Aproximando-se, entrou e sentou-se com os guardas, para ver como acabaria tudo aquilo. 59Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho falso contra Jesus para O condenarem à morte, 60mas não o encontravam, embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas. Por fim, apresentaram-se duas 61que disseram: R «Este homem afirmou: ‘Posso destruir o templo de Deus e reconstruí-lo em três dias’». N 62Então, o sumo sacerdote levantou-se e disse a Jesus: R «Não respondes nada? Que dizes ao que depõem contra Ti?» N 63Mas Jesus continuava calado. Disse-Lhe o sumo sacerdote: R «Eu Te conjuro pelo Deus vivo, que nos declares se és Tu o Messias, o Filho de Deus». N 64Jesus respondeu-lhe: J «Tu o disseste. E Eu digo-vos: vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso, vindo sobre as nuvens do céu». N 65Então, o sumo sacerdote rasgou as vestes, dizendo: R «Blasfemou. Que necessidade temos de mais testemunhas? 66Acabais de ouvir a blasfémia. Que vos parece?» N Eles responderam: R «É réu de morte». N 67Cuspiram-Lhe então no rosto e deram-Lhe punhadas. Outros esbofeteavam-n’O, dizendo: R 68«Adivinha, Messias: quem foi que Te bateu?» N 69Entretanto, Pedro estava sentado no pátio. Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe: R «Tu também estavas com Jesus, o galileu». N 70Mas ele negou diante de todos, dizendo: R «Não sei o que dizes». N 71Dirigindo-se para a porta, foi visto por outra criada que disse aos circunstantes: R «Este homem estava com Jesus de Nazaré». N 72E, de novo, ele negou com juramento: R «Não conheço tal homem». N 73Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro: R «Com certeza tu és deles, pois até a fala te denuncia». N 74Começou então a dizer imprecações e a jurar: R «Não conheço tal homem». N E, imediatamente, um galo cantou. 75Então, Pedro lembrou-se das palavras que Jesus dissera: «Antes do galo cantar, tu Me negarás três vezes». E, saindo, chorou amargamente. 27, 1Ao romper da manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram em conselho contra Jesus, para Lhe darem a morte. 2Depois de Lhe atarem as mãos, levaram-n’O e entregaram-n’O ao governador Pilatos. 3Então Judas, que entregara Jesus, vendo que Ele tinha sido condenado, tocado pelo remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo: R 4«Pequei, entregando sangue inocente». N Mas eles replicaram: R «Que nos importa? É lá contigo». N 5Então arremessou as moedas para o santuário, saiu dali e foi-se enforcar. 6Mas os príncipes dos sacerdotes apanharam as moedas e disseram: R «Não se podem lançar no tesouro, porque são preço de sangue». N 7E, depois de terem deliberado, compraram com elas o Campo do Oleiro. 8Por este motivo se tem chamado àquele campo, até ao dia de hoje, «Campo de Sangue». 9Cumpriu-se então o que fora dito pelo profeta: «Tomaram trinta moedas de prata, preço em que foi avaliado Aquele que os filhos de Israel avaliaram 10e deram-nas pelo Campo do Oleiro, como o Senhor me tinha ordenado».] N 11Entretanto,] Jesus foi levado à presença do governador, que lhe perguntou: R «Tu és o Rei dos judeus?» N Jesus respondeu: J «É como dizes». N 12Mas, ao ser acusado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu. 13Disse-Lhe então Pilatos: R «Não ouves quantas acusações levantam contra Ti?» N 14Mas Jesus não respondeu coisa alguma, a ponto de o governador ficar muito admirado. 15Ora, pela festa da Páscoa, o governador costumava soltar um preso, à escolha do povo. 16Nessa altura, havia um preso famoso, chamado Barrabás. 17E, quando eles se reuniram, disse-lhes: R «Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?» N 19Ele bem sabia que O tinham entregado por inveja. 20Enquanto estava sentado no tribunal, a mulher mandou-lhe dizer: R «Não te prendas com a causa desse justo, pois hoje sofri muito em sonhos por causa d’Ele». N Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram a multidão a que pedisse Barrabás e fizesse morrer Jesus. 21O governador tomou a palavra e perguntou-lhes: R «Qual dos dois quereis que vos solte?» N Eles responderam: R «Barrabás». N 22Disse-lhes Pilatos: R «E que hei-de fazer de Jesus, chamado Cristo?» N Responderam todos: R «Seja crucificado». N 23Pilatos insistiu: R «Que mal fez Ele?» N Mas eles gritavam cada vez mais: R «Seja crucificado». N 24Pilatos, vendo que não conseguia nada e aumentava o tumulto, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo: R «Estou inocente do sangue deste homem. Isso é lá convosco». N 25E todo o povo respondeu: R «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos». N 26Soltou-lhes então Barrabás. E, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-lh’O para ser crucificado. 27Então os soldados do governador levaram Jesus para o pretório e reuniram à volta d’Ele toda a coorte. 28Tiraram-Lhe a roupa e envolveram-n’O num manto vermelho. 29Teceram uma coroa de espinhos e puseram-Lha na cabeça e colocaram uma cana na sua mão direita. Ajoelhando diante d’Ele, escarneciam-n’O, dizendo: R «Salve, Rei dos judeus!» N 30Depois, cuspiam-Lhe no rosto e, pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça. 31Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas e levaram-n’O para ser crucificado. N 32Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus. 33Chegados a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar do Calvário, 34deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Mas Jesus, depois de o provar, não quis beber. 35Depois de O terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, 36e ficaram ali sentados a guardá-l’O. 37Por cima da sua cabeça puseram um letreiro, indicando a causa da sua condenação: «Este é Jesus, o Rei dos judeus». 38Foram crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. 39Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo: R 40«Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo; se és Filho de Deus, desce da cruz». N 41Os príncipes dos sacerdotes, juntamente com os escribas e os anciãos, também troçavam d’Ele, dizendo: R 42«Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz e acreditaremos n’Ele. 43Confiou em Deus: Ele que O livre agora, se O ama, porque disse: ‘Eu sou Filho de Deus’». N 44Até os salteadores crucificados com Ele O insultavam. 45Desde o meio-dia até às três horas da tarde, as trevas envolveram toda a terra. 46E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte: J «Eli, Eli, lema sabachtani!», N que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?» 47Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram: R «Está a chamar por Elias». N 48Um deles correu a tomar uma esponja, embebeu-a em vinagre, pô-la na ponta duma cana e deu-Lhe a beber. 49Mas os outros disseram: R «Deixa lá. Vejamos se Elias vem salvá-l’O». N 50E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou. N 51Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. 52Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; 53e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos. 54Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram aterrados e disseram: R «Este era verdadeiramente Filho de Deus». N 55Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem. 56Entre elas encontrava-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. 57Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tinha tornado discípulo de Jesus. 58Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. E Pilatos ordenou que lho entregassem. 59José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo 60e depositou-o no seu sepulcro novo que tinha mandado escavar na rocha. Depois rolou uma grande pedra para a entrada do sepulcro, e retirou-se. 61Entretanto, estavam ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas em frente do sepulcro. 62No dia seguinte, isto é, depois da Preparação, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus foram ter com Pilatos 63e disseram-lhe: R «Senhor, lembrámo-nos do que aquele impostor disse quando ainda era vivo: ‘Depois de três dias ressuscitarei’. 64Por isso, manda que o sepulcro seja mantido em segurança até ao terceiro dia, para que não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: ‘Ressuscitou dos mortos’. E a última impostura seria pior do que a primeira». N Pilatos respondeu: R 65«Tendes à vossa disposição a guarda: ide e guardai-o como entenderdes». N 66Eles foram e guardaram o sepulcro, selando a pedra e pondo a guarda.
A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente por todos os Evangelistas é a sua Paixão, pois culmina a vida e obra redentora de Cristo. Os padecimentos colossais que o Senhor abraçou voluntariamente põem em evidência do modo mais significativo tanto o seu amor infinito para com todos e cada um de nós (cf. Gál 2, 20), como a tremenda gravidade dos nossos pecados (cf. Gál 1, 4). Os estudiosos pensam que foi a parte do Evangelho que tomou a forma definitiva escrita mais cedo. N.B. – Podem ver-se mais comentários sobre a Paixão do Senhor, em Sexta-Feira Santa. 15 A traição de Judas causa-nos um grande desconcerto. Não teria chegado a entender a missão espiritual de Jesus e, como era interesseiro, oportunista e sem amor sincero, ao pressentir o que considerava um fracasso da missão do Mestre, tentou tirar o máximo rendimento da situação: antes que viesse a ser incomodado por ser discípulo de Jesus, passou para o grupo dos inimigos e, como também é hábil, negoceia a traição para tirar dela todo o lucro. O dinheiro da traição foram trinta moedas de prata. Em nenhum sítio se diz que eram 30 dinheiros: tanto se podia tratar da moeda romana (denário), como da grega (estáter), ou da moeda do Templo (siclo). Daqui que é difícil de calcular o preço da traição na moeda actual; de qualquer modo não iria muito além de 10 euros. 17 Durante os sete dias que duravam as festas da Páscoa comia-se pão sem fermento (ázimo), em memória do pão que os israelitas cozeram apressadamente ao fugir da escravidão do Egipto (cf. Ex 12, 34). 18 Os encarregados de preparar a Ceia pascal, em que se comia um cordeiro sacrificado no Templo, foram Pedro e João (Lc 22, 8-13; cf. Mc 14, 12-16) a quem Jesus deu indicações precisas: seria na casa de um homem que encontrariam com uma bilha de água. É natural que Jesus já tivesse falado a esse homem no assunto e que ele fosse conhecido dos Apóstolos. Talvez Jesus tivesse querido evitar que Judas ficasse a conhecer o local da Ceia para que este não o fosse indicar aos inimigos que poderiam aproveitar esta ocasião para O prenderem. 25 A resposta positiva à pergunta de Judas passa despercebida aos restantes Apóstolos (cf. Jo 13, 26-29). Isto mostra a delicadeza de Jesus, bem como a sua vontade de tocar o coração empedernido de Judas e também a firme decisão que Jesus tinha de ir para a morte: se os demais soubessem que Judas ia consumar a traição, tê-lo-iam impedido. Ainda que Jesus vá para a morte porque quer, isto em nada diminuiu a responsabilidade do traidor (v. 24). 26-29 Podem ver-se os comentários à 2.ª leitura de Quinta-Feira Santa. 30 Referência aos Salmos que então se rezavam: 113-118. 31-35 Jesus mostra que sabe tudo o que vai acontecer. O aviso a Pedro de que iria negar o Mestre não evitou a sua estrondosa queda, porque lhe faltou humildade. O Senhor permitiu aquela humilhação de Pedro para que o Chefe da Igreja fosse grande pela humildade e para lição de todos nós. Comenta S. João Crisóstomo: “Aprendemos daqui uma grande verdade, a saber, que não é suficiente o desejo do homem, a não ser que se apoie na ajuda de Deus”. 36-46 Temos aqui uma das páginas mais impressionantes e misteriosas do Evangelho. Jesus podia ter dominado perfeitamente o ímpeto da emoção da sua sensibilidade finíssima. No entanto, deixa que ela reaja na proporção da gravidade da hora. Desta maneira revela-se como homem em tudo igual a nós (excepto no pecado) e aparece-nos como modelo que pode ser imitado por nós, que não temos o perfeito domínio da sensibilidade. Assim o Senhor nos aparece estendido por terra (v. 39) e sentindo uma angústia tão profunda que se queixa dizendo que sente uma tristeza de morte, suando sangue (Lc 22, 44), precisando de buscar apoio nos mais íntimos para consolo da sua dor e solidão. Jesus diz a Pedro, Tiago e João que fiquem perto, mas, por delicadeza, não os quer impressionar com a sua agonia, por isso se afasta deles na distância de um tiro de pedra (Lc 22, 41 ). Pede-lhes que velem e rezem não só para Lhe servirem de companhia e apoio humano, mas também para terem a coragem de se portarem bem, à altura da tremenda hora que se avizinha. Ainda que eles tenham podido ouvir algumas palavras da oração do Senhor, não se aperceberam perfeitamente do que se passava com Jesus, aliás não se teriam deixado adormecer; é, pois, natural que só depois da Ressurreição tenham ficado a saber os pormenores da oração do Senhor no Getsemani, quando Ele lhos tenha contado. 35 “Passe de mim este cálice”. Não obstante a perfeita identificação da própria vontade humana de Jesus com a sua vontade divina, a mesma vontade do Pai – “não se faça como Eu quero, mas como Tu queres” –, a viva repugnância da finíssima sensibilidade de Jesus pelos iminentes martírios da Sua Paixão leva-O a falar assim. “Cálice” significa no Antigo Testamento a ira divina que faz cair a dor sobre os pecadores (cf. Is 51, 17.22; Jer 25, 15; Lam 4, 21; Ez 23, 33; Sal 75(74), 9). Jesus não é pecador, mas esta mesma imagem sugere a “expiação vicária”: Jesus sofre uma dor expiatória dos pecados da Humanidade (cf. 2 Cor 5, 21; Is 53, 1-12). O motivo da agonia de Jesus parece ser, antes de mais, a antevisão da sua Paixão e Morte na cruz, mas juntava-se a isto um motivo de dor não de menos importância e que facilmente podemos adivinhar: a visão da maldade e ingratidão humana, a falta de correspondência a tão grande excesso do amor de Deus pelas criaturas, o abandono e adormecimento dos mais íntimos, etc. 45 “Dormi agora e descansai”. Costumam entender-se estas palavras de Jesus como uma censura com certa ironia. Porém estas palavras poderiam indicar uma certa condescendência para com a fraqueza dos Apóstolos, ao dar-lhes tempo de repouso antes de começar o drama da sua prisão. 49 Na escuridão da noite (embora houvesse Lua cheia, havia as sombra das árvores), convinha um sinal para que os encarregados de prender a Jesus atacassem de surpresa. Judas escolheu o sinal mais discreto e mais velhaco: um sinal de afeição e cortesia como manifestação da traição. A tão monstruosa vilania, Jesus corresponde com enorme delicadeza, deixando uma porta aberta ao arrependimento, ao tratar o traidor por “amigo”; assim nos ensina a respeitar e a tratar com caridade os nossos inimigos. 53 “Uma legião” era um efectivo militar com mais de 6.000 homens. 57-58 Jesus comparece perante as autoridades judaicas. Este julgamento não sabemos se foi feito em duas ou três sessões: S. João fala da comparência do Senhor perante Anãs, sogro de Caifãs e sumo sacerdote deposto, que conservava grande preponderância (Jo 18, 19-24); S. Lucas fala da sessão oficial do Sinédrio, de manhã, em que é dada a sentença (Lc 22, 66-67), relato que coincide com a sessão nocturna perante Caifãs contada aqui por S. Marcos. Como S. Mateus (que coincide com S. Marcos) fala de uma outra sessão depois de amanhecer (Mt 27, 1), ou houve três sessões ou então teremos de supor que S. Mateus, por motivos redaccionais, simplificou as coisas, atribuindo a uma sessão nocturna o que se passou na sessão diurna. 61 O depoimento das testemunhas era deturpado, pois Jesus não tinha dito “posso destruir o Templo”, mas “desfazei este Templo” e referindo-se ao seu corpo (Jo 2, 19). 63-65 Jesus cala-se perante as falsas acusações, mas fala agora quando tem de dar testemunho da sua missão, embora isto Lhe acarreta a morte. E fá-lo aplicando a si dois textos bíblicos considerados como referidos ao Messias: Salm 109(110), 1 e Dan 7, 13. De acordo com o uso respeitoso de evitar pronunciar o nome inefável de Jahwéh, diz “à direita do Todo-Poderoso”, (v. 64). O Senhor é condenado por blasfémia: não por se declarar o Messias, mas por declarações com que se situava num nível divino. 70-75 As negações de Pedro. A fé de Pedro que Jesus louvara (Mt 16, 17) tem de suportar uma dura prova (cf. Lc 22, 31-32). O rápido desenlace dos acontecimentos deixara Pedro desconcertado e sem força para reagir e confessar o seu Mestre: se Ele lhe mandara arrumar a espada quando O tentava defender (Mt 26, 52), que lhe restava fazer agora por Jesus? Um homem tão impulsivo como Pedro não se resignava a seguir Jesus até à morte sem lutar. Pedro sentia-se atordoado e confuso: quando vê que os seus planos humanos de defesa falharam tem a grande fraqueza de negar insistentemente o Mestre e com juramento, esquecendo os insistentes protestos de fidelidade pouco antes feitos (v. 35). Mas, se foi grande o seu pecado, também foi profundo o seu arrependimento, merecendo da misericórdia do Senhor não vir a ser rejeitado como chefe da sua Igreja. 27, 3-5 O desespero de Judas. Judas também se arrepende, mas o seu arrependimento não é uma conversão, um regresso para Deus; é um fechar-se na sua miséria e na sua soberba ferida pelo remorso. Judas desespera porque não sabe confiar na misericórdia infinita de Deus. A sua soberba não o deixa voltar atrás, pedir perdão a Deus e ir ao encontro dos seus irmãos, os Apóstolos. 9 O Evangelista sublinha que se cumpre o que estava previsto por Deus: não era uma fatalidade inexorável ou um fracasso de Jesus. A citação de Jeremias (32, 6-9) é completada com um oráculo doutro profeta (Zac 11, 12-13). 11-31 Jesus no tribunal do governador romano. O recurso à autoridade romana tornava-se necessário para que se pudesse levar a cabo legalmente a morte de Jesus, coisa que não estava nas atribuições do Sinédrio. Pilatos foi governador (præfectus) na Palestina de 26 a 36 d. C. Vivia habitualmente em Cesareia, mas encontrava-se então em Jerusalém para estar mais atento aos movimentos dos judeus por ocasião das festas da Páscoa. Era cruel e odiava os judeus, não perdendo ocasião de os humilhar. Devia estar ao par da actuação de Jesus, que consideraria inofensiva para a causa do império. O processo diante de Pilatos é contado mais detalhadamente por S. João. Aqui apenas temos umas pinceladas pouco conexas. Não é acusado de culpas no campo religioso, mas de ser um elemento perigoso para o domínio romano. 24 O gesto hipócrita de Pilatos com que pretende justificar a sua cobardia pode explicar-se por um certo medo supersticioso de vir a sofrer más consequências da sua iníqua sentença, demais que a sua mulher tinha tido um pesadelo de mau presságio (v. 21): lavar as mãos teria o sentido mágico de afastar de si qualquer castigo divino. 26 A flagelação foi mais um expediente de Pilatos para evitar a morte de Jesus (Jo 19, 1.5.14). S. Mateus não desce a este detalhe do processo de Jesus diante de Pilatos; limita-se a referir este crudelíssimo suplício, que era habitual para a vítima destinada à crucifixão. 27 A companhia, ou “coorte”, constava de uns 625 soldados recrutados entre a gente não judia que morava na Palestina; estavam aquartelados permanentemente em Jerusalém, na torre Antónia ao lado do Templo, às ordens do governador romano. 32 Simão de Cirene. Este cireneu é um estranho que é forçado a levar a cruz de Jesus (talvez só o pau transversal. segundo era costume, pois o poste vertical já estaria erguido no lugar da execução). É de fazer pensar a solidão de Jesus: não tem um amigo, um discípulo, um beneficiário dos seus milagres que apareça para O ajudar a levar a Cruz. Este serviço de Simão de Cirene há-de ser bem recompensado, pois os seus dois filhos, Alexandre e Rufo. hão-de vir a tornar-se cristãos dignos de especial menção (cf. Mc 15, 21; Rom 16, 13). 34 Provou, mas não quis beber. Costumava ser oferecida aos que iam ser crucificados uma mistura de vinho com mirra, para lhes acalmar as terríveis dores. Jesus, por delicadeza e deferência, provou, mas não quis beber, para poder sofrer conscientemente todas as dores por nós. 35 Cf. Sal 21(22), 19. 45 Com estas palavras do Salmo 21 (22), 2, o Senhor deixa-nos ver toda a magnitude do seu sofrimento físico e moral. Não são palavras de desespero ou protesto, mas uma oração de desabafo, com que mostra como sofre no máximo grau de intensidade a sua alma e o seu corpo, mas numa atitude de abandono, pois este é o tom do Salmo, que Jesus rezaria inteiro e não apenas o 1º versículo. 51 O véu do Templo era um cortinado que separava, no santuário, o Santo do Santo dos Santos. Este rasgar-se significa que, a partir da morte de Jesus, ficam abertas para todos os homens as portas do Céu (cf. Hebr 9, 15) e também que acabou a Antiga Aliança dando lugar à Nova, selada com o sangue de Cristo. Os sinais prodigiosos que acompanham a morte de Jesus atestam a transcendência do que se passa no momento: não morre mais um homem qualquer, é o Filho de Deus que morre, redimindo a Humanidade pecadora. 52-53 Passagem muito difícil de interpretar e sobre cujo sentido nunca houve acordo. Cristo foi certamente o primeiro a ressuscitar (1 Cor 15, 20; Col 1, 18), por isso haverá que distinguir dois factos: a abertura dos túmulos (talvez devida ao tremor de terra) e a ressurreição de muitos santos que só teria vindo a dar-se depois da ressurreição de Jesus (v. 53). No v. 52 S. Mateus, não se fixando na ordem dos acontecimentos, adianta a referência à ressurreição, como se dissesse: “e muitos corpos dos santos que tinham morrido vieram a ressuscitar”. Esta falta de atenção à ordem dos factos narrados é frequente em S. Mateus. 62-66 A guarda do sepulcro. As medidas de segurança tomadas pelos inimigos de Jesus vão ser mais uma prova do facto da Ressurreição. Estas precauções têm toda a credibilidade: compreende-se que tenham sido tomadas só no sábado, pois a sepultura tinha tido lugar no fim de sexta-feira e com a intervenção de um homem influente, José de Arimateia; também é crível que os inimigos de Jesus tivessem qualquer referência à ressurreição a partir do anunciado sinal de Jonas (Mt 12, 40), embora fosse só do conhecimento dos Apóstolos o tríplice anúncio da Paixão, Morte e Ressurreição. Por mais descabida que parecesse a Pilatos a preocupação dos chefes judeus, ele bem poderia ter acabado por destacar os seus soldados para guardarem o túmulo.
1ª Leitura Êxodo 12, 1-8.11-14
1Naqueles dias, o Senhor disse a Moisés e a Aarão na terra do Egipto: 2”Este mês será para vós o princípio dos meses; fareis dele o primeiro mês do ano. 3Falai a toda a comunidade de Israel e dizei-lhe: No dia dez deste mês, procure cada qual um cordeiro por família, uma rês por cada casa. 4Se a família for pequena demais para comer um cordeiro, junte-se ao vizinho mais próximo, segundo o número de pessoas, tendo em conta o que cada um pode comer. 5Tomareis um animal sem defeito, macho e de um ano de idade. Podeis escolher um cordeiro ou um cabrito. 6Deveis conservá-lo até ao dia catorze desse mês. Então, toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao cair da tarde. 7Recolherão depois o seu sangue, que será espalhado nos dois umbrais e na padieira da porta das casas em que o comerem. 8E comerão a carne nessa mesma noite; comê-la-ão assada ao fogo, com pães ázimos e ervas amargas. 11Quando o comerdes, tereis os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão. Comereis a toda a pressa: é a Páscoa do Senhor. 12Nessa mesma noite, passarei pela terra do Egipto e hei-de ferir de morte, na terra do Egipto, todos os primogénitos, desde os homens até aos animais. Assim exercerei a minha justiça contra os deuses do Egipto, Eu, o Senhor. 13O sangue será para vós um sinal, nas casas em que estiverdes: ao ver o sangue, passarei adiante e não sereis atingidos pelo flagelo exterminador, quando Eu ferir a terra do Egipto. 14Esse dia será para vós uma data memorável, que haveis de celebrar com uma festa em honra do Senhor. Festejá-lo-eis de geração em geração, como instituição perpétua”.
Temos aqui, num texto de tipo catequético-litúrgico, a promulgação da lei da Páscoa judaica como “instituição perpétua”, a ser festejada por todas as gerações (v. 14). Na origem desta festa da “Páscoa” – dum étimo semítico: salto festivo – parece estar uma antiga festa de pastores nómadas, própria da Primavera, a época em que nascem os cordeiros; então sacrificavam um cordeiro recém-nascido e com o seu sangue faziam ritos a implorar protecção e a fecundidade. Também pela época da Primavera parece que havia outra festa, a dos “Ázimos”, com o sentido de novidade e rotura com o passado (o fermento). As duas festas vieram a fundir-se numa só. A Torá terá assumido estas duas festas, dando-lhes o novo e profundo significado que neste texto legal fica bem assinalado, para celebrar a libertação do Egipto. A ceia pascal é celebrada na noite de 14 para 15 do mês de Nisan (Março/Abril), a noite da lua cheia que se seguia ao equinócio da primavera, pois o 1° dia do mês era o 1º dia da lua nova; então se comiam os pães ázimos, isto é, sem fermento (do grego a-zymê , em hebraico, os matsôth ) durante os sete dias da festa, de 15 a 21 de Nisan. O cordeiro imolado recordava aquele outro cordeiro com cujo sangue os israelitas marcaram as suas portas para que o “o flagelo exterminador” ali não atingisse ninguém. A própria palavra “Páscoa”, com uma etimologia muito discutida, pode provir do étimo psh, que significa saltar, passar por cima de, prestando-se a significar o flagelo mortal que passou ao largo das casas dos israelitas (cf. Ex 12, 27) na região de Guéssen ou Góxen. Neste texto a palavra é entendida como a passagem do Senhor, a fim de libertar o seu povo. O pão sem fermento lembrava a pressa com que os israelitas saíram do Egipto, tendo de levar consigo a massa do pão antes de ter fermentado (Ex 12, 34.39). No entanto, a celebração da Páscoa não era para os israelitas uma mera recordação agradecida da libertação duma escravidão passada, mas era algo que os orientava para uma libertação futura completa e definitiva, que se haveria de dar com a vinda do Messias. Havia mesmo uma crença judaica em que o Messias viria numa noite de Páscoa: “nesta noite foram libertados, e nela também serão libertos” . Esta alegre esperança manifestava-se no costume, que ainda hoje se mantém, de deixar um lugar vazio à mesa, para alguém que chegue na última hora, que afortunadamente poderia ser o profeta Elias, precursor do Messias. De facto, um dia o próprio Messias havia de se pôr à mesa da ceia pascal, rodeado dos seus discípulos, para então inaugurar a era da autêntica e definitiva libertação. Jesus é o verdadeiro cordeiro pascal (1 Cor 5, 7; Jo 19, 36) que se oferece em sacrifício, com cujo sangue somos redimidos e com cuja carne somos alimentados no banquete eucarístico, prelúdio do banquete celeste (cf. Mc 14, 25). Os samaritanos ainda hoje celebram a Páscoa como se descreve neste texto do Êxodo, sem refeição solene, sem vinho e à pressa. Os judeus celebram-na como refeição solene; já era assim no tempo de Jesus, em razão de já terem saído da escravidão para a liberdade; mas, em vez de comerem sentados como habitualmente, comiam recostados sobre esteiras ou divãs, apoiando-se sobre o braço esquerdo, a partir da época helenística (cf. Lc 22, 14).
SEGUNDA LEITURA 1 Coríntios 11, 23-26
Irmãos: 23Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, 24partiu-o e disse: “Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim”. 25Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim”. 26Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.
Temos aqui o relato da última Ceia, o mais antigo dos quatro que aparecem no N. T., escrito apenas uns 25 anos após o acontecimento. São Paulo diz que isto mesmo já o tinha pregado aos cristãos (v. 23) uns quatro anos atrás, durante os 18 meses em que evangelizou a cidade de Corinto, por ocasião da sua segunda viagem. 23 “Recebi do Senhor”: O original grego (com o uso da preposição apó e não pará) deixa ver que S. Paulo recebeu esta doutrina pela tradição que remonta ao Senhor e não directamente dele, por meio de alguma revelação, como alguém poderia pensar. “Na noite em que ia ser entregue”: Celebramos hoje uma dupla entrega do Senhor, a sua entrega às mãos dos seus inimigos, para a morrer pelos nossos pecados e nos ganhar a vida divina, e a entrega no Sacramento da SS. Eucaristia, como alimento desta mesma vida divina. Para o seu amor infinito, é pouco dar-se todo uma só vez por todos; quer dar-se todo a cada um de nós todas as vezes que nos disponhamos a recebê-lo! 24 “Isto é o Meu Corpo”: A expressão de Jesus é categórica e terminante, sem deixar lugar a mal entendidos. Não diz “aqui está o meu corpo” , nem “isto simboliza o meu corpo” , mas sim: “isto é o meu corpo” , como se dissesse: este pão já não é pão, mas é o meu corpo, isto é, sou Eu mesmo . Todas as tentativas heréticas de entender estas palavras num sentido meramente simbólico, fazem violência ao texto e não têm seriedade. É certo que o verbo “ser” também pode ter o sentido de “ser como” , “significar” , mas isto é só quando do contexto se possa depreender que se trata duma comparação, o que não se dá aqui, pois não se vê como o pão seja como o Corpo de Jesus, ou como é que o pode significar. Atenda-se a que Jesus, com a palavra isto não se refere à acção de partir o pão, pois não pronuncia estas palavras enquanto parte o pão, mas depois de o ter partido; portanto não tem sentido dizer que, com a fracção do pão, o Senhor queria representar o despedaçar do seu corpo por uma morte violenta (o corpo entregue ). Jesus não podia querer dizer uma tal coisa, pois, se o quisesse dizer, havia de o explicitar, uma vez que o gesto de partir o pão era um gesto usual do chefe da mesa em todas as refeições, não sendo possível ver um outro sentido; por outro lado, o beber do cálice de modo nenhum se podia prestar a um tal sentido. Os Apóstolos vieram a entender as palavras de Jesus no seu verdadeiro realismo, como aparecem no discurso do Pão da Vida (Jo 6, 51-58). Se Jesus não quisesse dar este sentido realista às suas palavras, também os seus discípulos e a primitiva Igreja não lho podiam dar, porque beber o sangue era algo sumamente escandaloso para gente criada no judaísmo, que ia ao ponto de proibir a comida de animais não sangrados. Se S. Paulo não entendesse estas palavras de Jesus num sentido realista, não teria podido afirmar no v. 27 (omitido na leitura de hoje): “quem comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor” ; e no v. 29 fala de “distinguir o corpo do Senhor”. Paulo VI, na encíclica Misterium fidei, rejeitou as explicações teológicas (como a da transignificação e a da transfinalização) que não respeitem suficientemente o realismo da presença real: “Mas para que, ninguém entenda erroneamente este modo de presença, que supera leis da natureza e constitui o maior dos milagres no seu género, é preciso seguir com docilidade a voz da Igreja docente e orante. Pois bem, esta voz, que é um eco perene da voz de Cristo, assegura-nos que Cristo se torna presente neste Sacramento pela conversão de toda a substância do pão no seu corpo e de toda a substância no vinho no seu sangue; conversão admirável e singular à qual a Igreja justamente e com propriedade chama transubstanciação” (atenda-se a que aqui a noção de substância não é a da Física ou da Química, mas a da Metafísica). 24-25 “Fazei isto em memória de Mim”. Com estas palavras, Jesus entrega aos Apóstolos (e aos seus sucessores) o poder ministerial de celebrar o Mistério Eucarístico; por isso, Quinta-Feira Santa é o dia do sacerdócio e dos sacerdotes. 25 “A Nova Aliança com o meu Sangue”: Jesus compara o seu sangue, que vai derramar na cruz, ao sangue do sacrifício da Aliança do Sinai (cf. Ex 24, 8), como sendo o novo sacrifício com que se ratifica a Nova Aliança de Deus com a Humanidade, aliança anunciada pelos profetas (Jer 31, 31-33). Na Ceia temos o mesmo sacrifício do Calvário antecipado sacramentalmente através das palavras do próprio Jesus. Na Missa temos igualmente o mesmo sacrifício da Cruz renovado e representado sacramentalmente através da dupla consagração feita pelo sacerdote que actua na pessoa e em nome de Cristo, sendo Ele o mesmo oferente principal, a mesma vítima e sendo os merecimentos os mesmos do único Sacrifício redentor a serem aplicados, Sacrifício oferecido de uma vez para sempre (efápax: cf. Hebr 9, 25-28; 10, 10.18). 26 “Anunciareis a Morte do Senhor”: No altar já não se derrama o sangue de Cristo, como na Cruz, mas oferece-se, de modo incruento, o mesmo sacrifício, renovando e representando sacramentalmente o mistério da mesma Morte que se deu no Calvário.
PROCLAMACAO DO EVANGELHO São João 13, 1-15
1Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. 2No decorrer da ceia, tendo já o Demónio metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de O entregar, 3Jesus, sabendo que o Pai Lhe tinha dado toda a autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, 4levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha que pôs à cintura. 5Depois, deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura. 6Quando chegou a Simão Pedro, este disse-Lhe: “Senhor, Tu vais lavar-me os pés?” 7Jesus respondeu: “O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde”. 8Pedro insistiu: “Nunca consentirei que me laves os pés”. Jesus respondeu-lhe: “Se não tos lavar, não terás parte comigo”. 9Simão Pedro replicou: “Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça”. 10Jesus respondeu-lhe: “Aquele que já tomou banho está limpo e não precisa de lavar senão os pés. Vós estais limpos, mas não todos”. 11Jesus bem sabia quem O havia de entregar. Foi por isso que acrescentou: “Nem todos estais limpos”. 12Depois de lhes lavar os pés, Jesus tomou o manto e pôs-Se de novo à mesa. Então disse-lhes: “Compreendeis o que vos fiz? 13Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. 14Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. 15Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também”.
1. “Antes da festa da Páscoa”. A ceia de que aqui se fala (v. 2) não é descrita como sendo a Ceia Pascal dos Sinópticos (Mt 26, 17-35; Mc 14, 12-31; Lc 22, 7-39), mas não pode ser outra, por se tratar da mesma da noite em que Jesus foi preso. Se S. João se limita a dizer “antes da festa da Páscoa”, sem precisar que era a véspera (a Preparação), é porque ele quer que se entenda a morte de Jesus como a imolação do cordeiro pascal, ao colocá-la no mesmo dia (a Preparação: 19, 31.42) em que no templo eram imolados os cordeiros para a festa; sendo assim, evita intencionalmente o dar à Última Ceia qualquer carácter pascal; e pensamos que esta pode ser uma séria razão para não falar da instituição da Eucaristia, aliás referida no discurso do Pão da Vida (cf. Jo 6, 51-58). “Amou-os até ao fim”, isto é, até à consumação (19, 30), indicando o seu amor de total entrega, até à morte (cf. 15, 13; 1 Jo 3, 16; Gal 2, 20), embora com esta não termine o seu amor, pois “não só até aqui nos amou quem nos ama sempre e sem fim” (Santo Agostinho); a expressão poderia aludir também ao amor posto na realização da Eucaristia de que S. João não conta a instituição, naturalmente por já lhe ter dedicado todo o capítulo VI e, como já se disse, para evitar dar a esta ceia um carácter pascal. Outra tradução possível: “levou o seu amor por eles até ao extremo” . Jesus não só amou os seus até ao último momento da sua vida terrena, mas não podia amá-los mais: amou-nos até à loucura da Cruz e da Eucaristia. 3 “Jesus, sabendo...”. Lavar os pés era um ofício exclusivo de escravos (1 Sam 25, 41) e os rabinos chegavam a explicitar que só se devia impor esse humilhante serviço a escravos que não fossem da raça hebraica, baseando-se em Lv 25, 39. Jesus, ao sujeitar-se a esse trabalho aviltante, tem bem presente o seu poder e a sua dignidade de Filho de Deus. A oposição decidida de Pedro mostra o profundo choque causado pela atitude do Senhor. Não se pode estabelecer o momento exacto do lava-pés, pois não estavam previstas lavagens dos pés na Ceia, mas apenas o lavar das mãos; o que Jesus realiza é antes de mais uma acção simbólica, à maneira dos profetas. Talvez a discussão travada na Ceia sobre quem seria o maior dos Apóstolos (cf. Lc 22, 24) tenha levado Jesus a dar-lhes uma lição com o seu gesto: é maior aquele que mais serve. Aparecem dois significados no gesto de Jesus: um simbólico e outro de exemplo a imitar. Nos vv. 6-11, sobressai mais o valor simbólico: Jesus é quem purifica os seus dos seus pecados e sem isso não se pode ter parte com Ele (v. 8), purificação que é um efeito da sua Morte redentora. Nos vv. 14-15, Jesus propõe o seu exemplo para ser imitado: “Eu vos lavei os pés, sendo Mestre e Senhor, também vós deveis lavar os pés uns aos outros”, isto é, prestar aos outros todos os serviços, mesmo os mais humildes e humilhantes. Ter autoridade na Igreja (e também na sociedade civil) não é ter à disposição os outros para ser servido, mas é estar à disposição de todos para os servir eficazmente. A vida cristã consiste em imitar o exemplo de Jesus Cristo: 1 Pe 2, 21; 1 Jo 2, 6; Fil 2, 5; 1 Cor 11, 1; Ef 5, 1; 1 Tes 1, 6...
Sexta-Feira Santa (Celebração da Paixão do Senhor)
1ª leitura Isaías 52, 13-15 – 53, 1-12
13Vede como vai prosperar o meu servo: subirá, elevar-se-á, será exaltado. 14Assim como, à sua vista, muitos se encheram de espanto, tão desfigurado estava o seu rosto que tinha perdido toda a aparência de um ser humano, 15assim se hão-de encher de assombro muitas nações e, diante dele, os reis ficarão calados, porque hão-de ver o que nunca lhes tinham contado e observar o que nunca tinham ouvido. 1Quem acreditou no que ouvimos dizer? A quem se revelou o braço do Senhor? 2O meu servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz numa terra árida, sem distinção nem beleza para atrair o nosso olhar nem aspecto agradável que possa cativar-nos. 3Desprezado e repelido pelos homens, homem de dores, acostumado ao sofrimento, era como aquele de quem se desvia o rosto, pessoa desprezível e sem valor para nós. 4Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores. Mas nós víamos nele um homem castigado, ferido por Deus e humilhado. 5Ele foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa das nossas iniquidades. Caiu sobre ele o castigo que nos salva: pelas suas chagas fomos curados. 6Todos nós, como ovelhas, andávamos errantes, cada qual seguia o seu caminho. E o Senhor fez cair sobre ele as faltas de todos nós. 7Maltratado, humilhou-se voluntariamente e não abriu a boca. Como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda ante aqueles que a tosquiam, ele não abriu a boca. 8Foi eliminado por sentença iníqua, mas, quem se preocupa com a sua sorte? Foi arrancado da terra dos vivos e ferido de morte pelos pecados do meu povo. 9Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios e um túmulo no meio de malfeitores, embora não tivesse cometido injustiça nem se tivesse encontrado mentira na sua boca. 10Aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento. Mas, se oferecer a sua vida como sacrifício de expiação, terá uma descendência duradoira, viverá longos dias e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. 11Terminados os sofrimentos, verá a luz e ficará saciado na sua sabedoria. O justo, meu servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades. 12Por isso, Eu lhe darei as multidões como prémio e terá parte nos despojos no meio dos poderosos; porque ele próprio entregou a sua vida à morte e foi contado entre os malfeitores, tomou sobre si as culpas das multidões e intercedeu pelos pecadores.
Temos aqui o 4.° canto dos Poemas do Servo de Yahwéh, os quais formam no seu conjunto uma grande unidade literária, embora apareçam dispersos pela segunda parte do Livro de Isaías. Todos os quatro cânticos encerram um sentido messiânico e aparecem citados no Novo Testamento como tendo tido a sua realização em Jesus Cristo. Este é o último, o mais longo, mais denso e o mais belo, que chegou a ser chamado o 5º Evangelho, pois nele se pode entrever uma imagem muito pormenorizada da missão redentora de Jesus, através da sua Paixão e glorificação. Compõe-se de três estrofes: 52, 13-15; 53, 1-11a; 53, 11b-12); na primeira e na última, temos Yahwéh a falar-nos do seu servo; na segunda, é o Profeta que toma a palavra. O texto coloca-nos perante um impressionante paradoxo que se verificou em Jesus: do cúmulo da dor e da humilhação o servo chega ao auge do êxito e da exaltação; a sua vida e missão é de molde a encher de espanto e de assombro as multidões e os próprios reis da terra (52, 13-15), porque o que se passa com ele é absolutamente inaudito e humanamente incrível (53, 1). Por outro lado, é a primeira vez que na tradição bíblica aparece a expiação vicária. 53, 2 “Um rebento”: Esta é uma imagem corrente nos profetas para designarem o Messias (cf. Is 11, 10; Jer 23, 5-6; Zac 3, 8; 6, 12). 4-6 A razão de tanta dor e humilhação do “homem de dores” (v. 3) não são culpas próprias, pois é inocente, mas é porque o Senhor fez cair sobre ele as faltas de todos nós: a sua expiação é uma expiação vicária (cf. vv. 5.6.8.11.12); porque ele era inocente e justo e podia oferecer a Deus uma satisfação condigna e obter-nos o perdão. 10-12 O êxito da sua missão expiatória é aqui descrito: O servo do Senhor terá uma descendência duradoira (v. 10); verá a luz e ficará saciado (v. 10); justificará multidões de homens (v. 11); terá em posse as multidões como prémio (v. 12; cf. Salm 2, 8). Assim sucede com Jesus, que, através da sua obra redentora consumada no Calvário, alcança para si “um povo adquirido em propriedade” (cf. 1 Pe 2, 9; Ex 19, 5; Is 43, 21), a quem justifica tornando-nos seus filhos “uma descendência duradoira” (v. 10), e chega à luz da glória da Ressurreição.
SEGUNDA LEITURA Hebreus 4, 14-16; 5, 7-9
Irmãos: 14Tendo nós um sumo sacerdote que penetrou os Céus, Jesus, Filho de Deus, permaneçamos firmes na profissão da nossa fé. 15Na verdade, nós não temos um sumo sacerdote incapaz de Se compadecer das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado. 16Vamos, portanto, cheios de confiança, ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno. 5,7Nos dias da sua vida mortal, Ele dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte, e foi atendido por causa da sua piedade. 8Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento. 9E, tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se, para todos os que Lhe obedecem, causa de salvação eterna.
O texto da leitura é duma notável beleza e expressividade, tão bem adaptado ao dia de hoje. Na estrutura do escrito, corresponde ao início da exposição do seu tema central (4, 14 – 7. 28): o sacerdócio de Cristo. 4, 14 “Temos nós um sumo sacerdote”. Jesus não se limita, como o sumo sacerdote dos judeus, a penetrar no Santo dos Santos no dia da expiação (Yom qipur) para expiar os pecados do povo; Ele penetra no próprio Céu e abre-nos o caminho para lá. E faz isto, não com o sangue de animais, mas com o seu próprio sangue (9, 12), com grande sofrimento da sua parte: “com lágrimas” (v. 7), pois, apesar de ser o Filho de Deus, quis experimentar quanto custa obedecer e sofrer (cf. v. 8). Assim, Jesus tem mais um título para se compadecer de nós, das nossas dores e fraquezas: é que possui a experiência concreta de todas as provações a que pode um homem ser sujeito nesta vida, com excepção do pecado (cf. v. 15). Só nos resta ter a fé, a confiança e a humildade de recorrer à sua infinita misericórdia – “trono da graça” (v. 16) – para obter a ajuda de que precisamos. 5, 7-9 Há quem considere que estes três expressivos versículos possam ser um extracto de um antigo hino a Cristo. 7 Este versículo parece evocar o relato da agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras (cf. Mt 26, 36-44). “Preces e súplicas”: estas duas palavras sinónimas correspondem a uma expressão grega da época usada nos pedidos a uma alta autoridade; o uso do plural sugere a insistência na oração, segundo o “prolixius orabat” de Lc 22, 43. “Com um grande clamor e lágrimas”: os ensinos rabínicos sobre a oração referem três graus ascendentes: a prece (em silêncio), os gritos, e as lágrimas (como a forma mais elevada da oração). Os Evangelhos só falam de um forte brado de Jesus, na Cruz (Lc 23, 46), mas é de supor que se conhecessem pela tradição oral, pormenores da oração no horto que justificariam tão impressionante expressão. “Foi atendido”, em quê? É difícil de dizer, a tal ponto que Harnack pensa numa corrupção do texto original: “não foi atendido”; limitamo-nos a referir as explicações mais viáveis. Jesus não obteve a libertação do cálice de amargura, mas foi atendido porque alcançou a coragem para enfrentar a sua Paixão identificando-se plenamente com a vontade do Pai. Ou então, como pensam outros, Jesus foi atendido ao ser livre da morte pela sua ressurreição, o que lhe permite exercer o seu sacerdócio eterno (cf. 7, 24; 10, 10), com efeito, “a sua morte era essencial para o seu sacerdócio, mas se Ele não fosse salvo da morte pela ressurreição, não seria agora o sumo sacerdote do seu povo” (J. H. Neyrey). 8 “Aprendeu a obediência no sofrimento”, ou, melhor, “por aquilo que sofreu”, ou também, “aprendeu de quanto sofrera, o que é obedecer”. Trata-se de uma aprendizagem não teórica, mas experimental, existencial. Aprender através do sofrimento era um lugar comum na literatura grega, e até havia esta máxima: “os sofrimentos são lições”. O que aqui há de particular é a aplicação à aprendizagem da obediência. No entanto, a obediência de Jesus na sua Paixão só é referida em mais dois lugares do N. T.: Rom 5, 19 e Filp 2, 8. Não se pense que a Jesus, por ser Deus, Lhe custava menos o sofrimento, antes pelo contrário, pois o sofrimento é directamente proporcional à dignidade da pessoa que sofre. 9 “Tendo atingido a sua plenitude”. Esta tradução não deixa ver uma das ideias centrais da epístola, que é a de “perfeição”, pelo que seria preferível a tradução do Cón. Falcão, “chegado à perfeição” ou a da Difusora Bíblica, “tornado perfeito”. Note-se que a perfeição de que aqui se fala não é a do amadurecimento na virtude, mas a que advém a Jesus pelo exercício do seu sumo sacerdócio com a consumação da obra salvadora pela oferta do sacrifício da nova aliança: “a obediência de Jesus leva-O à sua consagração sacerdotal, que, por sua vez, O torna apto para salvar aqueles que Lhe obedecem” (The new Jerome Biblical Commentary, p. 929).
EVANGELHO: São João 18, 1-40; 19, 1-42
N Naquele tempo, 1Jesus saiu com os seus discípulos para o outro lado da torrente do Cédron. 2Havia lá um jardim, onde Ele entrou com os seus discípulos. Judas, que O ia entregar, conhecia também o local, porque Jesus Se reunira lá muitas vezes com os discípulos. 3Tomando consigo uma companhia de soldados e alguns guardas, enviados pelos príncipes dos sacerdotes e pelos fariseus, Judas chegou ali, com archotes, lanternas e armas. 4Sabendo Jesus tudo o que Lhe ia acontecer, adiantou-Se e perguntou-lhes: J “A quem buscais?” N 5Eles responderam-Lhe: R “A Jesus, o Nazareno”. N Jesus disse-lhes: J “Sou Eu”. N Judas, que O ia entregar, também estava com eles. 6Quando Jesus lhes disse: “Sou Eu”, recuaram e caíram por terra. 7Jesus perguntou-lhes novamente: J “A quem buscais?” N Eles responderam: R “A Jesus, o Nazareno”. N 8Disse-lhes Jesus: J “Já vos disse que sou Eu. Por isso, se é a Mim que buscais, deixai que estes se retirem”. N 9Assim se cumpriam as palavras que Ele tinha dito: “Daqueles que Me deste, não perdi nenhum”. 10Então, Simão Pedro, que tinha uma espada, desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco. 11Mas Jesus disse a Pedro: J “Mete a tua espada na bainha. Não hei-de beber o cálice que meu Pai Me deu?” N 12Então, a companhia de soldados, o oficial e os guardas dos judeus apoderaram-se de Jesus e manietaram-n’O. 13Levaram-n’O primeiro a Anás, por ser sogro de Caifás, que era o sumo sacerdote nesse ano. 14Caifás é que tinha dado o seguinte conselho aos judeus: “Convém que morra um só homem pelo povo”. 15Entretanto, Simão Pedro seguia Jesus com outro discípulo. Esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio do sumo sacerdote, 16enquanto Pedro ficava à porta, do lado de fora. Então o outro discípulo, conhecido do sumo sacerdote, falou à porteira e levou Pedro para dentro. 17A porteira disse a Pedro: R “Tu não és dos discípulos desse homem?” N Ele respondeu: R “Não sou”. N 18Estavam ali presentes os servos e os guardas, que, por causa do frio, tinham acendido um braseiro e se aqueciam. Pedro também se encontrava com eles a aquecer-se. 19Entretanto, o sumo sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. 20Jesus respondeu-lhe: J “Falei abertamente ao mundo. Sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em segredo. 21Porque Me interrogas? Pergunta aos que Me ouviram o que lhes disse: eles bem sabem aquilo de que lhes falei”. N 22A estas palavras, um dos guardas que estava ali presente deu uma bofetada a Jesus e disse-Lhe: R “É assim que respondes ao sumo sacerdote?” N 23Jesus respondeu-lhe: J “Se falei mal, mostra-Me em quê. Mas, se falei bem, porque Me bates?” N 24Então Anás mandou Jesus manietado ao sumo sacerdote Caifás. 25Simão Pedro continuava ali a aquecer-se. Disseram-lhe então: R “Tu não és também um dos seus discípulos?” N Ele negou, dizendo: R “Não sou”. N 26Replicou um dos servos do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha: R “Então eu não te vi com Ele no jardim?” N 27Pedro negou novamente, e logo um galo cantou. 28Depois, levaram Jesus da residência de Caifás ao Pretório. Era de manhã cedo. Eles não entraram no pretório, para não se contaminarem e assim poderem comer a Páscoa. 29Pilatos veio cá fora ter com eles e perguntou-lhes: R “Que acusação trazeis contra este homem?” N 30Eles responderam-lhe: R “Se não fosse malfeitor, não t’O entregávamos”. N 31Disse-lhes Pilatos: R “Tomai-O vós próprios e julgai-O segundo a vossa lei”. N Os judeus responderam: R “Não nos é permitido dar a morte a ninguém”. N 32Assim se cumpriam as palavras que Jesus tinha dito, ao indicar de que morte ia morrer. 33Entretanto, Pilatos entrou novamente no pretório, chamou Jesus e perguntou-Lhe: R “Tu és o Rei dos judeus?” N 34Jesus respondeu-lhe: J “É por ti que o dizes, ou foram outros que to disseram de Mim?” N 35Disse-Lhe Pilatos: R “Porventura sou eu judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes é que Te entregaram a Mim. Que fizeste?” N 36Jesus respondeu: J “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”. N 37Disse-Lhe Pilatos: R “Então, Tu és Rei?” N Jesus respondeu-lhe: J “É como dizes: sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. N 38Disse-Lhe Pilatos: R “Que é a verdade?” N Dito isto, saiu novamente para fora e declarou aos judeus: R “Não encontro neste homem culpa nenhuma. 39Mas vós estais habituados a que eu vos solte alguém pela Páscoa. Quereis que vos solte o Rei dos judeus?” N 40Eles gritaram de novo: R “Esse não. Antes Barrabás”. N Barrabás era um salteador. 1Então Pilatos mandou que levassem Jesus e O açoitassem. 2Os soldados teceram uma coroa de espinhos, colocaram-Lha na cabeça e envolveram Jesus num manto de púrpura. 3Depois aproximavam-se d’Ele e diziam: R “Salve, Rei dos judeus”. N E davam-Lhe bofetadas. 4Pilatos saiu novamente para fora e disse: R “Eu vo-l’O trago aqui fora, para saberdes que não encontro n’Ele culpa nenhuma”. N 5Jesus saiu, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Pilatos disse-lhes: R “Eis o homem”. N 6Quando viram Jesus, os príncipes dos sacerdotes e os guardas gritaram: R “Crucifica-O! Crucifica-O!”. N Disse-lhes Pilatos: R “Tomai-O vós mesmos e crucificai-O, que eu não encontro n’Ele culpa alguma”. N 7Responderam-lhe os judeus: R “Nós temos uma lei e, segundo a nossa lei, deve morrer, porque Se fez Filho de Deus”. N 8Quando Pilatos ouviu estas palavras, ficou assustado. 9Voltou a entrar no pretório e perguntou a Jesus: R “Donde és Tu?” N Mas Jesus não lhe deu resposta. 10Disse-Lhe então Pilatos: R “Não me falas? Não sabes que tenho poder para Te soltar e para Te crucificar?” N Jesus respondeu-lhe: J 11”Nenhum poder terias sobre Mim, se não te fosse dado do alto. Por isso, quem Me entregou a ti tem maior pecado”. N 12A partir de então, Pilatos procurava libertar Jesus. Mas os judeus gritavam: R “Se O libertares, não és amigo de César: todo aquele que se faz rei é contra César”. N 13Ao ouvir estas palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado “Lagedo”, em hebraico “Gabatá”. 14Era a Preparação da Páscoa, por volta do meio-dia. Disse então aos judeus: R “Eis o vosso Rei!” N 15Mas eles gritaram: R “À morte, à morte! Crucifica-O!” N Disse-lhes Pilatos: R “Hei-de crucificar o vosso Rei?” N Replicaram-lhe os príncipes dos sacerdotes: R “Não temos outro rei senão César”. N 16Entregou-lhes então Jesus, para ser crucificado. E eles apoderaram-se de Jesus. 17Levando a cruz, Jesus saiu para o chamado Lugar do Calvário, que em hebraico se diz Gólgota. 18Ali O crucificaram, e com Ele mais dois: um de cada lado e Jesus no meio. 19Pilatos escreveu ainda um letreiro e colocou-o no alto da cruz; nele estava escrito: “Jesus, o Nazareno, Rei dos judeus”. 20Muitos judeus leram esse letreiro, porque o lugar onde Jesus tinha sido crucificado era perto da cidade. Estava escrito em hebraico, grego e latim. 21Diziam então a Pilatos os príncipes dos sacerdotes dos judeus: R “Não escrevas: ‘Rei dos judeus’, mas que Ele afirmou: ‘Eu sou o Rei dos judeus’”. N 22Pilatos retorquiu: R “O que escrevi está escrito”. N 23Quando crucificaram Jesus, os soldados tomaram as suas vestes, das quais fizeram quatro lotes, um para cada soldado, e ficaram também com a túnica. A túnica não tinha costura: era tecida de alto a baixo como um todo. 24Disseram uns aos outros: R “Não a rasguemos, mas lancemos sortes, para ver de quem será”. N Assim se cumpria a Escritura: “Repartiram entre si as minhas vestes e deitaram sortes sobre a minha túnica”. Foi o que fizeram os soldados. 25Estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena. 26Ao ver sua Mãe e o discípulo predilecto, Jesus disse a sua Mãe: J “Mulher, eis o teu filho”. N 27Depois disse ao discípulo: J “Eis a tua Mãe”. N E a partir daquela hora, o discípulo recebeu-a em sua casa. 28Depois, sabendo que tudo estava consumado e para que se cumprisse a Escritura, Jesus disse: J “Tenho sede”. N 29Estava ali um vaso cheio de vinagre. Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vinagre e levaram-Lha à boca. 30Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou: J “Tudo está consumado”. N E, inclinando a cabeca, expirou. N 31Por ser a Preparação, e para que os corpos não ficassem na cruz durante o sábado, – era um grande dia aquele sábado – os judeus pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. 32Os soldados vieram e quebraram as pernas ao primeiro, depois ao outro que tinha sido crucificado com ele. 33Ao chegarem a Jesus, vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas, 34mas um dos soldados trespassou-Lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. 35Aquele que viu é que dá testemunho e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que diz a verdade, para que também vós acrediteis. 36Assim aconteceu para se cumprir a Escritura, que diz: “Nenhum osso Lhe será quebrado”. 37Diz ainda outra passagem da Escritura: “Hão-de olhar para Aquele que trespassaram”. 38Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, embora oculto por medo dos judeus, pediu licença a Pilatos para levar o corpo de Jesus. Pilatos permitiu-lho. José veio então tirar o corpo de Jesus. 39Veio também Nicodemos, aquele que, antes, tinha ido de noite ao encontro de Jesus. Trazia uma mistura de quase cem libras de mirra e aloés. 40Tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no em ligaduras juntamente com os perfumes, como é costume sepultar entre os judeus. 41No local em que Jesus tinha sido crucificado, havia um jardim e, no jardim, um sepulcro novo, no qual ainda ninguém fora sepultado. 42Foi aí que, por causa da Preparação dos judeus, porque o sepulcro ficava perto, depositaram Jesus.
Os quatro desenvolvidos relatos da Paixão do Senhor que nos propõem todos os quatro evangelistas não são um mero relato. Têm um quê de reflexão e meditação sobre tão assombrosos acontecimentos, feita à luz do Antigo Testamento. Também nós não devemos passar apressadamente os olhos por estas páginas, mas meditá-las, metermo-nos dentro destas cenas e renovar frequentemente a sua lembrança: quem sofre, quanto sofre, para que sofre e porque sofre, por quem sofre? Esta meditação tem feito muito santos ao longo de todos os tempos, pois não pode deixar ninguém indiferente: um tão grande amor só com amor se paga (sic nos amantem quis non redamaret?). É neste relato onde o paralelismo com os Sinópticos é maior, embora apareçam muitos pormenores específicos e sobretudo uma profunda visão teológica muito própria do IV Evangelho, que põe em relevo a serena majestade de Jesus que caminha livremente para a Cruz como para um trono de glória e uma fonte de vida para os seus; mesmo quando é esbofeteado e feito rei de comédia, aparece com toda a dignidade real que Lhe compete; assim, João evita descrever a agonia, embora a não ignore (cf. v. 11; 12, 27-28). 18, 1-2 “A torrente do Cédron” era uma corrente de água invernal; há muitas na Palestina a que os árabes chamam wadi . Só é nomeada aqui em todo o N. T. (cf. 2 Sam 15, 23); corre para o Mar Morto no profundo vale que separa Jerusalém do Monte das Oliveiras, onde ficava a propriedade em que Jesus é preso; só João diz que é um “jardim”, como o lugar onde é sepultado, talvez para se ver uma alusão ao jardim do Éden: onde teve ruína a humanidade, aí o novo Adão obtém a salvação. Este “jardim” é o Getsemani, Gath-Xemani, isto é, “lagar de azeite”, (nomeado nos Sinópticos) um sítio venerado de há muito tempo, onde se encontram os restos duma basílica de finais do século IV, e hoje a bela e recolhida “Basílica das Nações”, bem como o “Horto”, com restos de oliveiras antiquíssimas a lembrar as que foram testemunhas da Agonia de Jesus. 3-12. Apenas João fala da intervenção de soldados romanos: seria apenas um destacamento duma coorte, pois esta tinha 600 homens. A prisão de Jesus não se deve à violência exercida mas à sua entrega soberana e consciente (Eu Sou!); preso, exige a liberdade dos seus (v. 8). Só João revela os nomes de Pedro e de Malco na cena do golpe de espada. “Recuaram e caíram por terra”. Jesus, contra o que esperavam os atacantes entrega-se serenamente. Podemos imaginar que os que iam à frente tenham ficado tão impressionados com a superior dignidade da atitude de Jesus e com a sua serena majestade que, perturbados, recuam instintivamente, tropeçam e caem por terra: a sua agressividade fora desarmada e dominada pela atitude divinamente superior de Jesus. S. João põe o acento neste pormenor para que vejam como o Senhor caminha livremente para a morte. Jesus não padece e morre porque não havia outra saída humana; Jesus padece e morre porque era essa a única saída divina. 11 “O cálice que Meu Pai Me deu…”: Estas palavras de Jesus parecem conter uma discreta alusão de S. João ao cálice da agonia . Mas S. João não quer fixar-se na agonia do horto, por isso não a relata. É que nos quer apresentar Jesus na sua Paixão sempre como vencedor e sem a aparência de vencido: Jesus aparece-nos numa atitude hierática, mesmo quando sofre a maior dor humana. A cruz é um trono donde o Salvador reina salvando os seus, atraindo a si e reconciliando, é o regresso ao Pai, a consumação do sacrifício do novo cordeiro pascal com cujo sangue somos redimidos e libertados (cf. Jo 19, 30.36). 13-14. S. João é o único que nos conta que Jesus foi levado ao influente Anás que fora sumo sacerdote entre os anos 6 e 15 e a quem vieram a suceder cinco dos seus filhos e, nesta data, o seu genro, José Caifás (cf. 11, 49.50). 15-27. O outro discípulo (v. 15) é provavelmente João. O interrogatório de Anás (vv. 19ss) versa sobre duas coisas públicas e sabidas: a doutrina e os discípulos de Jesus, mas os inimigos suspeitam de planos secretos e sinistros, por se negarem a ver e a crer (cf. 9, 39-41; 10, 37-38); e uma doutrina do reino e uns discípulos galileus (zelotas?) forneceriam a base da denúncia aos romanos. Jesus defende-se, mas sem perder a serenidade. Note-se como as três negações de Pedro, embora contadas de forma resumida e discreta, assumem um aspecto dramático pelo facto de se introduzir no meio delas (vv. 19-24) o interrogatório de Anás, a quem Jesus declara: “pergunta aos que Me ouviram…” (v. 21); e é mesmo o ouvinte privilegiado de Jesus quem O nega, ficando patente o contraste entre a afirmação de Mestre, “Eu sou” (vv. 5.8) e a repetida negação do discípulo,”não sou” (vv. 17.25). Nos Sinópticos, as negações são no pátio da casa de Caifás (cf. Mt 26, 57ss; Mc 14, 53ss; Lc 22, 54ss), uma contradição sem importância, talvez só aparente, pois o pátio bem poderia ser comum à casa de ambos. João limita-se a dizer que Jesus foi enviado a Caifás (v. 24), sem relatar a sessão do Sinédrio que na manhã de sexta-feira O condenou (cf. Lc 22, 66-71; Mc 14, 55-64; Mt 26, 59-66); com isto pretenderia sublinhar que a condenação já estava decretada (cf. Jo 11, 47-53). É notável a discrição e delicadeza com que o Discípulo amado relata a tríplice negação do chefe dos Apóstolos. O relato mais pormenorizado do pecado de Pedro que temos nos Sinópticos pode dever-se muito bem à tradição oral que procedia do próprio Pedro, que teria a humildade de contar frequentemente as suas negações com todo o realismo. 28ss. S. João dá ao processo diante de Pilatos uma grande importância; a narrativa põe em contraste a serenidade e a segurança de Jesus com a agitação e ansiedade dos inimigos; é um relato em sete cenas que se desenrolam alternadamente no exterior e na sede do governador romano, o “pretório”, pois os acusadores evitam entrar em casa dum gentio para não contraírem uma impureza legal que os obrigaria a adiar a celebração da ceia pascal; com efeito, os príncipes dos sacerdotes, o único grupo a ser nomeado (18, 35; 19, 6.15.21) no processo de Jesus, eram do partido dos saduceus, que naquele ano atrasaram um dia a celebração da Páscoa. As actas do processo de Jesus ainda se conservariam nos arquivos do império por meados do século II, pois S. Justino, escrevendo ao imperador Antonino Pio, apela para as Actas de Pilatos (I Apologia 35, 9; 48, 3). “E poderem comer a Páscoa” (v. 28): Jesus tinha comido a páscoa, ou cordeiro pascal, mas seguindo um calendário diferente (sobre esta divergência de datas há muitas tentativas de solução, mas nenhuma definitiva). Entrar em casa dum gentio (o pretório) era contrair uma impureza e, contraída no dia em que pertencia celebrar a ceia pascal, levava a ter de se adiar a sua celebração para o mesmo dia do mês seguinte, o que normalmente ninguém desejava. Note-se o cúmulo do formalismo hipócrita: tem-se escrúpulo de entrar em casa dum gentio, mas não se receia condenar o inocente à morte! 18, 28 – 19, 16 O processo de Jesus diante Pilatos é descrito com todo o pormenor em S. João: Jesus é trazido a Pilatos, que não se convence da culpa de Jesus (33-38a). O primeiro expediente de Pilatos para evitar tomar a decisão que lhe competia foi o de entregar o poder de julgar aos acusadores, que preferem Barrabás (38b-40); o expediente da flagelação visava ver se os inimigos de Jesus já ficavam satisfeitos no seu ódio (19 1-7). Em seguida há um segundo interrogatório (8-11) e Pilatos cede à pressão das autoridades judaicas e lavra a sentença de morte (12-16a). S. João só não conta um outro expediente relatado por S. Lucas, o de enviar Jesus a Herodes, e que teria sido o primeiro recurso de que o procurador romano lançou mão. 33-37. As razões para eliminarem Jesus eram de natureza religiosa, mas é denunciado à autoridade romana como um conspirador político: “rei dos judeus”. A resposta de Jesus com uma pergunta (v. 34) não é um subterfúgio, mas um meio de esclarecer qual o ponto de vista para falar de Si como rei; descartado o ponto de vista pagão (v. 35), Jesus, que não podia negar a sua realeza, distancia-se igualmente da expectativa nacionalista judaica, afirmando o carácter transcendente do seu reino (ver Rom 14, 17), o que colocava a sua missão ao abrigo de qualquer suspeita: não é deste mundo (v. 36) e visa manifestar a verdade (v. 37). 19, 1-7 “E O açoitassem”: a flagelação era uma das penas mais duras previstas no Direito, jamais aplicável a um cidadão romano; os golpes, sem conta prevista, eram aplicados nas costas nuas da vítima atada a uma coluna, com chicotes de tiras de couro munidas de peças de metal ou osso nas extremidades, uma tortura suficiente para causar a morte. Em Mateus e Marcos a flagelação aparece depois da sentença de condenação, como habitualmente sucedia, para debilitar as forças dos condenados à cruz; em Lucas é anunciada como um castigo prévio; em João, que parece reproduzir com mais rigor o que se passou na realidade, tem o carácter de mais um expediente para evitar a sentença de morte contra um inocente: um rei tão abatido e esfacelado não constituía perigo para ninguém. No ecce homo, a troça não poderia ser mais humilhante, mas o Evangelista quer que o leitor descubra o verdadeiro Messias-Rei, o mistério de quem é esse homem (cf. Jo 5, 12). A contemplação deste mistério doloroso não pode deixar de nos tocar a alma profundamente. 7 “Porque se fez Filho de Deus”: Como observa F. Dreyfus, trata-se do único caso, em toda a história do povo hebreu, em que uma pessoa foi acusada e condenada por se fazer filho de Deus! A blasfémia era suficiente para se aplicar a pena de morte, segundo o Levítico 24, 16. 9 “Donde és Tu?” A pergunta de Pilatos assustado não é sobre a naturalidade de Jesus (já antes o mandara a Herodes: Lc 23,2-6), mas sobre a sua verdadeira natureza: acusado de se dizer Filho de Deus, não será Ele um ser divino? Esta questão sobre a origem de Jesus é fulcral e inevitável, também para o leitor (cf. Jo 7, 27-28; 8, 14; 9, 29-30). “Mas Jesus não lhe deu resposta”, não para se esquivar, mas é que o céptico Pilatos (18, 38) não busca a verdade; falta-lhe rectidão. 13 “Sentou-se no tribunal”: O texto grego permite outra tradução: Pilatos trouxe Jesus para fora e fê-lo sentar numa tribuna; com efeito, não parece que S. João queira dizer que foi Pilatos que se sentou, pois a cena passa-se no exterior do tribunal e não há uma sentença. Esta ambiguidade parece intencional, para exprimir que o prefeito romano só na aparência é que é juiz, pois o que ele faz é entronizar Jesus, que é quem faz o decisivo julgamento (cf. Jo 12, 31). Há quem pense que com esta entronização Pilatos visava pôr a ridículo as autoridades judaicas (vv. 14.19-22), coisa bem ao jeito de prefeito romano, que não perdia qualquer ocasião para humilhar os judeus. “Gabbatá” significa antes lugar elevado, mais provavelmente na Torre Antónia (um pavimento de pedra identificado arqueologicamente), embora outros considerem que ficaria na zona do palácio de Herodes, na cidade alta. 14 “Por volta do meio dia”, era o final da hora terceira (das 9 às 12) dos romanos (nomeada em Mc 15, 25) e o início da hora sexta (o meio dia). 17-18 “Levando a cruz”: só João diz claramente que Jesus carrega a cruz às costas; com este pormenor visaria uma alusão a Gn 22, 6: Isaac carregando a lenha do sacrifício (um rémez tão usado na exegese midráxica dos rabinos); mas não fala do Cireneu ajudando a levar a Cruz para o “Calvário”; esta é uma palavra latina que traduz a hebraica Golgothá, caveira ou crânio, a forma que tinha o penhasco; não era propriamente um monte, mas uma elevação rochosa já fora dos muros de então, a uns 400 metros a oeste do adro do Templo, uma pedreira identificada pela Arqueologia. 18 “E lá O crucificaram”. A crucifixão era o suplício mais doloroso e o mais infamante. Por isso se empenhavam os inimigos de Jesus em que tivesse este género de morte. Era a melhor maneira de acabar com a memória de Jesus na gente que O seguia, a maior prova de falsidade do seu messianismo! Ninguém mais se atreveria a falar dum messias tão miseravelmente derrotado e tendo sofrido a morte dos maiores criminosos. Cícero testemunha a infâmia deste horrendo suplício: “Que um cidadão romano seja atado é um abuso; que seja golpeado, é um delito; que se lhe dê morte, é um quase um parricídio; que direi eu, então, se é suspenso numa cruz? A uma coisa tão horrível como esta não se pode aplicar de modo algum um apelativo suficientemente adequado!” (In Verrem, II, 5, 66). A morte dum crucificado sobrevinha após uma dolorosíssima agonia, com uma sede terrível, consequência da perda de sangue pelas feridas abertas, com dolorosas cãibras que provocavam o horrível estertor duma asfixia lenta. 19-22 “Esse letreiro”, o títulum do Direito romano, era o resumo da acta da sentença a ser enviada para os arquivos do tribunal de César, por isso já não podia ser modificada depois de ditada e executada a sentença, apesar das insistências dos judeus, que consideravam este letreiro mais um vexame do procurador romano ao povo. João, ao sublinhar que estava escrito em hebraico, latim e grego, parece querer sugerir a realeza universal de Jesus. 23-24 “Tomaram as suas vestes”: A divisão da roupa pelos soldados era um facto banal e corrente, um direito reconhecido aos carrascos; esta só ficou referida em virtude do seu significado, pois assim se cumpriam as Escrituras (cf. Salm 22, 19) citadas explicitamente apenas por João, que fala das vestes divididas em quatro lotes; as roupas de Jesus, mesmo sem excluir a túnica, não podiam dar quatro lotes, mas disto não há que concluir que se trata duma mera criação literário-teológica, pois havia as roupas de mais dois condenados, que no conjunto fariam os quatro lotes. Também era supérfluo dizer que não rasgaram a túnica, pois não iriam inutilizá-la e, com o que já estava dito, as Escrituras apareciam plenamente cumpridas; por isso, há exegetas que, partindo da norma de o sumo sacerdote usar uma túnica sem costura, vêem na insistência neste pormenor (v. 23) a intenção de apresentar Jesus como o Sumo Sacerdote da Nova Aliança, e o seu despojamento simbolizaria a abolição do sacerdócio antigo. Os Padres vão ainda mais longe e chegam a ver na túnica sem costura uma imagem da unidade da Igreja. 25-27. Repare-se na solenidade deste relato: é uma cena central entre as cinco passadas no Calvário; a Virgem Maria é mencionada 5 vezes em 3 versículos; há o recurso a uma fórmula solene de revelação (ao ver… disse… eis… ). Isto deixa ver que não se trata dum simples gesto de piedade filial de Jesus para com sua Mãe, para não a deixar ao desamparo, mas que o Evangelista lhe atribui um significado simbólico profundo. Assim, chegada a hora de Jesus, é a hora de Ela assumir (cf. Jo 2, 4) o seu papel de nova Eva (cf. Gn 3, 15) na obra redentora; por outro lado, Ela é a mulher que simboliza a Igreja (cf. Apoc 12, 1-18), a mãe dos discípulos de Jesus representados no discípulo amado, o qual a acolheu como coisa sua. Preferimos esta tradução à mais corrente: acolheu-a em sua casa, pois a expressão grega, usada mais quatro vezes em S. João, nunca aparece neste Evangelho com esse sentido. Notar que Jesus não se dirige às mulheres junto à Cruz, que são 4, ou apenas 3 conforme se contar por 2 ou por 1 pessoa a irmã de sua Mãe, Maria, a mulher de Cléofas. S. Mateus fala de muitas mulheres no Calvário, à distância (Mt 27, 35-36; cf. Mc 15, 40-41; Lc 23, 49). 28-30 “Tenho sede!”: Aquele que viera para nos matar a sede (Jo 4, 14; 7, 37) queixa-se de sede! Deveria ser um dos grandes tormentos de Jesus, sem sangue, cansado, sem tomar alimento... Mas sempre se tem visto nesta sede de Jesus algo mais: a sua ânsia pela salvação do mundo. João omite o grito de Mt 27, 46 e Mc 15, 34, referindo uma exclamação mais de acordo com a imagem de serena majestade do Senhor da vida e com o seu gosto pelos paradoxos (cf. Jo 4, 14; 7, 37) e em que parece ver também o cumprimento do Salm 22, 16. O vinagre diluído em água era um refresco, a posca romana, usado pela gente humilde e pelos soldados; os três Sinópticos também falam deste vinagre dos soldados (Mt 27, 48; Mc 15, 36; Lc 23, 36), além do vinho com mirra (Mc 15, 23), de efeito analgésico e oferecido antes da crucifixão; Mt 27, 34 dá-lhe o nome de vinho com fel para o leitor ter mais facilidade em recordar o Salmo segundo a versão dos LXX (Salm 68) que então se cumpria e que todos se dispensaram de citar (cf. Salm 69, 22). Pode-se ver no “ramo de hissopo” uma alusão ao sacrifício do novo cordeiro pascal (cf. Ex 12, 22, onde se diz que era com um ramo de hissopo que as portas dos hebreus deviam ser tingidas com o sangue do cordeiro); como o ramo deste arbusto, de folhas bastas, é curto e parece demasiado flexível para fixar a “esponja” (que serviria de tampa à vasilha do refresco), há autores que pensam ter havido uma corrupção do texto original (a palavra hyssopos, seria a corrupção de hyssós: “dardo”, o que não tem qualquer espécie de apoio textual) e traduzem, como fez a tradução litúrgica, simplesmente por vara, empobrecendo o profundo significado teológico da passagem. 30 “Tudo está consumado” corresponde a um verbo grego que encerra a ideia da perfeição que atinge algo realizado – “cumprido e finalizado com toda a perfeição”. “Inclinando a cabeça”: um gesto que João refere, certamente pela impressionante imagem que lhe ficou gravada para sempre, mas também por querer sublinhar o perfeito domínio de si (cf. Jo 10, 18) com que Jesus se entrega até ao fim, ao empregar a forma activa do verbo, quando era de esperar a forma média ou passiva, pois um crucificado, ao morrer, não inclina a cabeça, mas esta é que se lhe inclina… Por outro lado, “entregou o espírito” – a tradução litúrgica adoptou uma versão mais pobre: “expirou” – é uma fórmula que nunca se usa para dizer que alguém expirou; por isso, pode ver-se aqui sugerido o Espírito Santo como dom de Jesus, fruto da árvore da Cruz (cf. Jo 7, 39; 16, 6). 33-34 “Não quebraram as pernas” a Jesus, por estar já morto; tratava-se do chamado crurifrágio aplicado aos ladrões e destinado a apressar-lhes a morte, que se dava por asfixia lenta: estes, ao não poderem apoiar-se nas pernas, deixavam-se asfixiar mais rapidamente. O golpe da lança dado a Jesus, com que se cumpria a profecia de Zacarias 12, 10, confirma a morte real do Senhor. Mas João, no golpe da lança, vê muito mais do que uma confirmação da morte de Jesus; ele contempla o cumprimento das Escrituras e o sacrifício do verdadeiro cordeiro pascal (cf. Ex 12, 46; Nm 9, 12; Salm 34, 21; Zac 12, 10; Apoc 1, 7), e parece insinuar – para além do dom da vida eterna (o sangue: cf. Jo 6, 53-54) e do Espírito Santo (a água: cf. Jo 4, 14; 7, 38-39; 3, 5) –, os Sacramentos da iniciação cristã, a Eucaristia (o sangue) o Baptismo (a água), a própria Igreja, a nossa Mãe na ordem da graça (cf. Gal 4, 26), a nova Eva, a sair do lado novo Adão (cf. Gn 2, 22). Estes ricos simbolismos já eram vistos pelos Padres da Igreja. “E logo saiu sangue e água”, um facto incontestável, mais provavelmente de ordem natural: a água que seria soro do pericárdio, ou exsudação pleural (consequência da flagelação); de qualquer modo, como Jesus estava morto, não seria um derramamento abundante. 35 “E ele sabe que diz a verdade”: há quem queira ver aqui uma espécie de juramento, a saber, o apelo a uma segunda testemunha abonatória, o próprio Cristo glorioso, ou mesmo o Pai (que sabe que o evangelista diz a verdade), não faltando quem pense numa glosa. De qualquer modo, uma afirmação tão solene faz apelo a factos reais, que excluem uma simbologia desvinculada da história. E, de facto, uma história como a da Paixão e Morte do Senhor não se inventa, é mesmo verdadeira. A testemunha privilegiada foi certamente o discípulo amado de Jesus, que garante a verdade dos factos narrados. 38 “José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, embora oculto por medo dos judeus, “homem rico” (Mt 27, 57), “membro do Sinédrio” (Mc 15, 43), “pessoa recta e justa, que não estava de acordo com a decisão e o procedimento dos outros” (Lc 23, 50-51). A sua grande coragem, dedicação e lealdade levam-no a que, quando as circunstancias o exigem, apesar de estas serem as mais infamantes e delicadas, ali esteja pronto para cumprir o seu dever de piedade para com o Mestre, na hora da fuga e do estonteamento dos próprios Apóstolos. 39 “Nicodemos… trazia uma mistura de quase 100 libras de mirra e aloés”. eram 32,7 Kg de matéria aromática, uma resina moída, em tal quantidade que fica patente, não só a generosidade daqueles amigos escondidos (cf. Jo 3, 1; 7, 50), que não receiam declarar-se quando é preciso, mas também a Ressurreição como algo fora do horizonte de todos, pois estes produtos usavam-se para abafar os maus odores da putrefacção que se previa para o cadáver. Não fora a decisão e a coragem destes homens notáveis, o corpo de Jesus teria ido parar a uma vala comum. 40 “Segundo o costume dos judeus”, os panos de linho da mortalha incluíam um lençol mortuário (em grego síndone: Mt 27, 49 par.), que envolvia todo o corpo, umas faixas para ligar os braços e as pernas e aconchegar o lençol, e um lenço, ou sudário propriamente dito, para envolver a cabeça.
Páscoa da Ressurreição do Senhor - Missa da Vigília
Última leitura Rom 6, 3-11
Irmãos: 3Todos nós que fomos baptizados em Cristo fomos baptizados na sua morte. 4Fomos sepultados com Ele pelo Baptismo na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova. 5Se, na verdade, estamos totalmente unidos a Cristo por morte semelhante à sua, também o estaremos por uma ressurreição semelhante à sua. 6Bem sabemos que o nosso homem velho foi crucificado com Cristo, para que fosse destruído o corpo do pecado e não mais fôssemos escravos dele. 7Quem morreu está livre do pecado. 8Se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos, 9sabendo que, uma vez ressuscitado dos mortos, Cristo já não pode morrer, a morte já não tem domínio sobre Ele. 10Porque na morte que sofreu, Cristo morreu para o pecado de uma vez para sempre; mas a sua vida é uma vida para Deus. 11Assim vós também, considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus.
Esta leitura resume o tema central da Vigília Pascal: a passagem da morte à vida em Cristo e em nós pelo Baptismo. A nossa Páscoa é a transposição deste mistério da Morte e Ressurreição de Cristo para a nossa própria vida. 3-4 S. Paulo faz apelo à simbologia do Baptismo por imersão: o facto de ser imergido para dentro da água representa a morte e sepultura; o emergir da água, já tornado “nova criatura” , significa a ressurreição, a nova vida divina. S. Paulo, ao dizer que nós “fomos baptizados na sua morte”, quer dizer que nos unimos pelo Baptismo tão intimamente à morte de Cristo, destruidora de todo o pecado, que também nós morremos para o pecado, a tal ponto que este já não deve dominar mais a nossa vida. A nossa vida tem que ser uma vida de ressuscitados: “vivos para Deus, em Cristo Jesus” (v. 11). Mas nós não somos uns meros beneficiários, estranhos ao mistério pascal de Cristo: a nossa nova vida é uma vida em Cristo Jesus, pois estamos incorporados n’Ele pela fé e pelo amor, feitos membros do seu Corpo, sendo Ele a Cabeça.
Evangelho São Mateus 28, 1-10 1Depois do sábado, ao raiar do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram visitar o sepulcro. 2De repente, houve um grande terramoto: o Anjo do Senhor desceu do Céu e, aproximando-se, removeu a pedra do sepulcro e sentou-se sobre ela. 3O seu aspecto era como um relâmpago e a sua túnica branca como a neve. 4Os guardas começaram a tremer de medo e ficaram como mortos. 5O Anjo tomou a palavra e disse às mulheres: «Não tenhais medo; sei que procurais Jesus, o Crucificado. 6Não está aqui: ressuscitou, como tinha dito. Vinde ver o lugar onde jazia. 7E ide depressa dizer aos discípulos: ‘Ele ressuscitou dos mortos e vai adiante de vós para a Galileia. Lá O vereis’. Era o que tinha para vos dizer». 8As mulheres afastaram-se rapidamente do sepulcro, cheias de temor e grande alegria, e correram a levar a notícia aos discípulos. 9Jesus saiu ao seu encontro e saudou-as. Elas aproximaram-se, abraçaram-Lhe os pés e prostraram-se diante d’Ele. 10Disse-lhes então Jesus: «Não temais. Ide avisar os meus irmãos que partam para a Galileia. Lá Me verão». 1 A outra Maria: a mãe de Tiago e José (Mt 27,61). Observar o sepulcro. Sabemos por Lc 24, 1 que iam levar perfumes, coisas que não tinham podido fazer antes, devido ao rigor do descanso sabático (Lc 23, 56). 6 Ressuscitou como tinha dito. Os Evangelhos relatam três anúncios da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus (Mt 16, 21; 17, 23; 20, 19). 9 Saiu-lhes Jesus ao encontro. Pelo que se diz em Lc 24, 22-23, o Senhor só teria aparecido depois de as mulheres terem levado a mensagem do Anjo aos Apóstolos. Como não é de crer que Jesus tivesse aparecido duas vezes seguidas à Madalena, alguns exegetas crêem que esta aparição é a mesma que S. João relata com mais pormenor (Jo 10, 11-18): S. Mateus teria simplificado as coisas, generalizando para as mulheres em geral a aparição a uma só mulher (Lagrange e outros). 10 Que partam para a Galileia. Esta ordem está de acordo com o plano de Jesus (cf. Mt 26, 32). Por falta de fé, os Apóstolos não fazem assim. Jesus condescende com a sua fraqueza e aparece-lhes ainda em Jerusalém, aparições a que S. Mateus não se refere. N.B. – No domingo de Páscoa podem ver-se mais comentários sobre a Ressurreição, especialmente nas notas ao Evangelho.
Páscoa da Ressurreição do Senhor (Missa do Dia)
1ª Leitura Actos dos Apóstolos 10, 34a.37-43
Naqueles dias, 34aPedro tomou a palavra e disse: 37“Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: 38Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. 39Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz. 40Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se, 41não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos. 42Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. 43É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados”.
O texto faz parte do corpo do discurso de Pedro em Cesareia na casa do centurião Cornélio, o qual tinha mandado chamar Pedro a Jope, ilustrado por uma visão (cf. Act 10, 1-33). Este discurso tem um carácter mais catequético e apologético do que propriamente missionário, como seria de esperar num primeiro anúncio da fé a um gentio (embora se tratasse dum “temente a Deus”: v. 2). Lucas redige este discurso a pensar mais nos leitores da sua obra, do que com a preocupação de reconstruir exactamente a cena originária e as mesmas palavras pronunciadas naquela circunstância; com efeito, começa por fazer referência ao Evangelho já antes pregado aos ouvintes: “vós sabeis o que aconteceu…”, e também parece que dá por suposta a fé no valor salvífico da Cruz (cf. v. 39b) e não termina, como seria de esperar, com um apelo explícito à conversão. Assim, Lucas nos deixou mais uma bela síntese do que era o Evangelho pregado pela Igreja primitiva. 38 “Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus”. Esta nova tradução litúrgica desfez a hendíadis tão própria da estilística hebraica (ungiu de Espírito Santo e de fortaleza), recorrendo, por motivo de clareza, a uma equivalência dinâmica, (a força que é o Espírito Santo). Deus (o Pai) concedeu à natureza humana de Jesus todos os dons do Espírito Santo, que Lhe competiam a partir do momento da Incarnação; estes dons manifestam-se visivelmente nos milagres de Jesus, nas teofanias do Baptismo e da Transfiguração e muito particularmente na Ressurreição. A unção era o rito que constituía os reis e os sacerdotes na sua função; assim, a união hipostática em Jesus aparece como uma unção da natureza humana de Jesus, “que passou fazendo o bem e curando a todos” (maravilhoso resumo da vida de Jesus, bem ao sabor do Evangelista da bondade). 41 “Não a todo o povo”. Jesus não se mostra a todos depois de ressuscitado, não só para não violentar a liberdade das pessoas, mas também porque está nos planos divinos conduzir o mundo à salvação mediante o ministério dos seus discípulos (testemunhas de antemão designadas por Deus) e mediante a fé, que é meritória (cf. Rom 1, 16-17). Note-se o acento que se põe no testemunho acerca da Ressurreição; não estamos apenas perante uns simples pregadores (cf. v. 42a) duma mensagem salvadora, mas diante de verdadeiras testemunhas (cf. v. 42b), que dão testemunho (o verbo grego tem um matiz forense) capaz de fazer fé em tribunal. A ideia de testemunho é fortemente acentuada neste breve texto, não só por ser repetida quatro vezes (vv. 39.41.42.43), mas também por se tratar de testemunhas escolhidas por Deus para esta missão (v. 41), que conviveram com o Ressuscitado, comendo e bebendo com Ele, o que exclui logo à partida a hipótese de se tratar de mera fantasia (Lucas mostra especial sensibilidade a este problema: cf. Lc 24, 37-43).
SEGUNDA LEITURA Colossenses 3, 1-4 (de manhã)
Irmãos: 1Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. 2Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. 3Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. 4Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.
Com estas palavras é introduzida a parte final da Carta, uma série de exortações morais para que os fiéis tenham um modo de viver coerente com a fé cristã. A sua conduta moral é uma consequência natural da profunda união com Cristo ressuscitado produzida pelo Baptismo recebido. 1 “Aspirai às coisas do alto” corresponde ao mesmo incitamento que, na Santa Missa, a Igreja sempre nos repete: Sursum corda! Corações ao alto!. 3-4 “Vós morrestes”. A nossa união a Cristo pressupõe a morte para o pecado, que não pode reinar mais em nós (cf. Rom 6). Com Cristo morto pelos nossos pecados, morremos para o pecado; com Cristo ressuscitado, vivemos vida de ressuscitados. É a “vida” da graça, uma vida toda interior, “escondida” no centro da alma, vida que ninguém nos pode arrebatar, vida que é toda feita de presença de Deus e de visão sobrenatural, levando-nos a santificar todos os afazeres diários, trabalhando com os pés bem firmes na terra, mas o coração e o olhar fixos no Céu.
SEGUNDA LEITURA 1 Coríntios 5, 6b-8 (de tarde)
Irmãos: 6bNão sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa? 7Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, visto que sois pães ázimos. Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado. 8Celebremos a festa, não com fermento velho nem com fermento de malícia, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade.
Parece haver aqui (v. 6b) uma referência ao incestuoso de que acaba de falar (vv. 1-5); um mau exemplo é um mau fermento. Mas S. Paulo faz imediatamente uma aplicação mais vasta da ideia de mau fermento, e isto talvez pela proximidade da festa da Páscoa, que já então, pelo ano 55, os cristãos celebravam em Corinto como festa da Ressurreição do Senhor, segundo o que se lê no v. 8: “celebremos pois a festa”. Na exortação do Apóstolo há uma alusão ao costume judaico, que ainda hoje se conserva, de limpar escrupulosamente as casas de todo o fermento e pão fermentado durante os sete dias que duravam as festas pascais. Nós os cristãos, para celebrarmos a Páscoa – “Cristo, nosso Cordeiro pascal” (v. 7) –, temos que o fazer sem o fermento (o princípio corruptor) da malícia e da perversidade, mas “com os pães ázimos da pureza e da verdade”, isto é, da sinceridade de vida. Poderia haver, nesta referência a Cristo como “Cordeiro imolado”, uma alusão à própria celebração da Eucaristia.
EVANGELHO São João 20, 1-9 (de manhã)
1No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. 2Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram”. 3Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. 4Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. 5Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. 6Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão 7e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. 8Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. 9Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.
Nenhum dos quatro Evangelhos narra o facto da Ressurreição de Jesus, pois não foi presenciado por testemunhas; era um facto sobrenatural que, de si mesmo, escapava à experiência humana. E isto só vem dar credibilidade ao facto da Ressurreição, pois, se se tratasse duma ficção, era de esperar que se dessem os seus pormenores. S. João começa com a verificação do túmulo vazio feita pela Madalena, mas vão ser os dois discípulos, que vão fazer o reconhecimento do local e que verificam indícios eloquentes, aptos para levarem à fé na Ressurreição de Jesus. 2 “Não sabemos…”. Este plural parece aludir à tradição sinóptica que conhece a ida de mais mulheres ao sepulcro. É evidente que não houve a mínima preocupação de harmonizar os diferentes relatos evangélicos do sepulcro vazio e das aparições, o que é um forte motivo de credibilidade a favor da realidade da ressurreição, facto misterioso, que é a base de toda a fé cristã (cf. 1 Cor 15, 12-19). 7-8 “Viu e acreditou”. Porque começou a crer o discípulo? A explicação habitual é que um ladrão não deixaria ficar os panos, e muito menos em ordem. Mas há mais dados a ter em conta: porque é que o Evangelista atribui tanta importância à diferente posição dos panos? É que as ligaduras e o lençol estavam espalmados no chão da pedra tumular, ao passo que o pano que envolvera a cabeça do Senhor não estava espalmado no chão, mas mantinha a forma da cabeça que envolvera (cf. a nossa tradução na Nova Bíblia da Difusora Bíblica). Não sabemos se Pedro partilhou da fé do Discípulo Amado, mas S. Lucas diz que ficou maravilhado (cf. Lc 24,12). Os panos com que Jesus foi amortalhado eram com toda a probabilidade: 1) um lençol mortuário (síndone), tecido largo e comprido que envolvia todo o corpo; 2) um lenço (sudário) que cobria a cabeça e caia sobre o rosto (e ajudaria a manter a boca fechada); 3) várias ligaduras que não só serviam para manter apertados os pés um contra o outro e as mãos unidas ao corpo, mas também que poderiam ajudar a aconchegar a síndone ao corpo. S. João não fala especificamente desta síndone, mas deve englobá-la na designação genérica de “ligaduras” (em grego, othónia). 9 “Ainda não tinham entendido a Escritura”. Os discípulos não estavam psicologicamente predispostos a admitir a Ressurreição, para que esta pudesse ser fruto de uma alucinação; com efeito, só depois de confrontados com a realidade da ressurreição de Jesus é que se recordaram das Escrituras (cf. 1 Cor 15, 4; Act 2, 24-32; Jo 2, 22) e as entenderam. A ressurreição era uma realidade só admissível para o fim do mundo (cf. Jo 11, 24), pois, apesar de Jesus ter anunciado a sua ressurreição ao terceiro dia, este só poderia ser o dia final, de acordo com a profecia de Oseias (Os 6, 2). Diante do sepulcro vazio, só pensam num roubo (vv. 2.13.15) e não dão crédito a quaisquer notícias das aparições (cf. Mc 6, 11.13; Lc 24, 21-24; Jo 20, 25).
Em vez deste Evangelho, pode ler-se o que se leu na Vigília da Noite Santa.
Nas missas vespertinas pode ler-se o Evangelho de Lc 24, 13-35.
São Lucas 24, 13-35 (de tarde)
13Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. 14Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. 15Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. 16Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. 17Ele perguntou-lhes: “Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?” Pararam, com ar muito triste, 18e um deles, chamado Cléofas, respondeu: “Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias”. 19E Ele perguntou: “Que foi?” Responderam-Lhe: “O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; 20e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. 21Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, 23não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. 24Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram”. Então Jesus disse-lhes: 25“Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! 26Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?” 27Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. 28Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de seguir para diante. 29Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: “Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite”. Jesus entrou e ficou com eles. 30E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. 31Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. 32Disseram então um para o outro: “Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” 33Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, 34que diziam: “Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão”. 35E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.
Temos aqui uma das mais belas páginas do Evangelho: um relato cheio de vivacidade, de finura e de psicologia, em que acompanhamos o erguer daquelas almas desde a mais amarga frustração até às alturas da fé e da descoberta de Jesus ressuscitado. A crítica bíblica procura distinguir neste relato os elementos de tradição e os elementos redaccionais. Podem identificar-se muitos elementos de tradição neste relato, mas não dispomos de meios para classificar como meramente redaccionais todos os restantes, pois não são do nosso conhecimento todas as fontes de que Lucas dispôs; a própria crítica admite “fontes especiais” para a redacção de Lucas. Um facto indiscutível é que Lucas é um teólogo e um catequista, não é um jornalista e não se limita a contar a seco umas aparições; não temos, porém, elementos suficientes para definir em que medida reelaborou as suas fontes. 13 “Emaús”: uma povoação a 60 estádios (duas léguas), uns 11 quilómetros e meio de Jerusalém. Há duas leituras variantes nos manuscritos gregos do Evangelho de Lucas: a imensa maioria deles regista 60 estádios; alguns poucos têm 160 (o que equivale a uns 30 Km). Também não existe completo acordo sobre a sua localização, sendo indicados vários locais na tradição cristã; Al-Qubeibeh é o de maior aceitação, a uns 12 Km a Noroeste da Cidade Santa . 16 “Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem”. Não é que não vissem a Jesus, ou que Jesus se quisesse ocultar, mas eles é que estavam obcecados pelo seu extremo desalento. E fica-nos a lição: para que se possa reconhecer a Jesus ressuscitado é indispensável o olhar da fé. 18 “Cléofas” parece ser diferente do marido de Maria, mãe de Tiago e José (Jo 19, 25); embora alguns o identifiquem, a grafia é diferente: Kleopás. 22-24 “É verdade que algumas mulheres… Alguns dos nossos”. Aqui se resume o que foi relatado antes com mais pormenor (Lc 23, 56b – 24, 9) e correspondente à tradição sinóptica e joanina. Certamente que “os nossos” são “Pedro e o outro discípulo” (certamente João, cf. v. 12 e Jo 20, 1-10). “Mas a Ele não O viram”: se este não é um pormenor meramente redaccional, temos que admitir que ainda não lhes constava da aparição de Jesus a Pedro, referida adiante, no v. 34; (cf. 1 Cor 15, 5). 28-30 “Jesus fez menção de seguir para diante”. Lucas volta a aludir ao “caminho de Jesus” (no v. 15 já tinha usado o mesmo verbo grego que significa caminhar). R. J. Dillon (From eye-witnesses to ministers of the word) pensa que este pormenor lucano insinua que a presença de Jesus no meio dos seus através da Eucaristia – a fracção do pão do v. 30 – constitui o momento cume do seu caminhar pelo caminho da salvação. Enternece o leitor ver como Jesus ressuscitado se torna o companheiro de caminho (recorde-se como Lucas gosta de focar a vida cristã como um caminho e um seguimento de Jesus); Jesus, depois de se fazer encontrado, agora faz-se rogado. Isto mesmo nos sucede muitas vezes na vida cristã. Ele vem ao nosso encontro sem O procurarmos e, outras vezes, quer dar-nos o ensejo de O convidarmos a ficar connosco e de praticarmos a caridade com os outros, que são Ele (cf. Mt 25, 40). Mas aqui o convite feito a Jesus não é um simples acto de caridade e de cortesia. Com efeito, parece que a narrativa nos leva a pensar que quem faz este pedido é toda a comunidade cristã, que se reúne para celebrar a Eucaristia e anseia estabelecer uma comunhão íntima com Jesus ressuscitado (ibid.). Todos estão de acordo em ver a estreita relação da refeição descrita com a multiplicação dos pães e a instituição da Eucaristia. 31 “Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no, mas Ele desapareceu da sua presença”. É na Eucaristia que se abrem os olhos para a fé, para captar o que é invisível, mas real. Impressiona muito o relato ao unir o aparecimento com o desaparecimento, sem se dizer para onde é que Jesus se retirou. Desta maneira fica sugerida uma nova presença, a de Jesus glorioso e ressuscitado: uma ausência que é presença. 32 “Não ardia cá dentro o nosso coração?”. Quando lemos a Escritura guiados por Jesus, presente na Igreja, inflama-se o nosso coração e sentimo-nos urgidos a mostrar aos que nos rodeiam, com as nossas vidas, pela palavra e pelo exemplo, que Cristo vive, que a Ressurreição é uma realidade. O episódio constitui um apelo a fazermos o mesmo papel do Ressuscitado junto dos desiludidos da vida e sem esperança e a comunicar-lhes a nossa experiência de fé. No relato também se põe em evidência a união do pão e da palavra na vida da Igreja.
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