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"et quasi flos rosarum in diebus vernis" (Sir. 50,8) 

 

  

 

TESTEMUNHAS DA RESSURREIÇÃO

A Ressurreição de Jesus é proclamada pelos discípulos que O tinham seguido, não como uma simples ideia religiosa, mas como um facto sucedido ao terceiro dia: “E nós somos testemunhas” (cfr 1ª leitura da Páscoa: Act 10, 39.44).


Paremos um pouco para considerar de que testemunhas se trata e de que ressurreição se fala. Não são falsas, nem duvidosas as testemunhas, e também não é de um ressuscitar moral ou espiritual que elas falam. É a Ressurreição do Senhor! Um grande mistério! Um mistério, porém, não quer dizer uma coisa vaga e indefinida, pouco clara e confusa, mas sim um acontecimento transcendente. E, porque transcendente, a Ressurreição não se pode analisar como ela sucedeu fisicamente; além de que ninguém a observou e nenhum Evangelista a descreve. Também é por isso que o Santo Sudário, por mais autêntico que se possa considerar, nunca poderá constituir prova científica do mistério da Ressurreição de Jesus.


A Ressurreição não foi uma ressuscitação, um retorno à vida terrena. Isso seria um grande milagre, sobretudo por se tratar de um morto dessangrado e de coração aberto por uma lança. Mas então não seria um mistério propriamente dito. “Cristo ressuscitado dos mortos já não morre, a morte não tem domínio sobre Ele!” exclama S. Paulo (Rom 6, 9). É que o seu corpo passa do estado de morte para uma outra vida que está para além dos limites do tempo e do espaço. Cristo tornou-se um “homem celeste” (1 Cor 15, 35-50), o seu corpo deixou de ser terreno, tem os dotes corpo glorioso. Ele já não entra no convívio das pessoas, mas manifesta-se a quem e quando quer e das formas mais variadas, a ponto de não reconhecido pelos que tinham convivido com Ele, e aparece no meio deles sem se deslocar.


No entanto, o mistério transcendente da Ressurreição de Cristo teve manifestações historicamente comprovadas. Não se pode falar do túmulo vazio de modo simplista. O sepulcro vazio, não sendo uma prova directa, pois até leva a própria Madalena a pensar no roubo do corpo (Jo 20, 2.13), não deixa de ser um sinal essencial, como se depreende da própria leitura do Evangelho da Páscoa (Jo 20, 1-9). Com efeito, segundo expõe o Catecismo da Igreja Católica, “o discípulo que Jesus amava afirma que, ao entrar no sepulcro vazio e ao descobrir as ligaduras no chão (Jo 20, 6), viu e acreditou (Jo 20, 8). Isto pressupõe que verificou, no estado do sepulcro vazio (Jo 20, 5-7), que a ausência do corpo de Jesus não tinha podido ser obra humana e que Jesus não tinha voltado simplesmente a uma vida terrena como tinha sido o caso de Lázaro (cfr Jo 11, 44)”.


E Jesus aparece primeiramente a Maria Madalena e às Santas Mulheres que iam embalsamara corpo de Jesus, sepultado à pressa na tarde de Sexta-feira, quando começava a urgir o descanso sabático. Elas, que tinham tido a coragem de acompanhar o Senhor até ao fim, bem mereceram esta atenção. E apareceu a Pedro, que O negara, e só depois aos restantes discípulos (1 Cor 15, 3-5: Lc 24, 34). Todos se transformam em testemunhas da Ressurreição.


Vejamos agora o valor deste testemunho. Não passaria pela cabeça de ninguém apresentar como testemunhas da Ressurreição as mulheres, pois estas não podiam testemunhar num tribunal judeu. Se os Evangelhos dão tanta importância às mulheres na Ressurreição, é porque pretendem contar o que realmente aconteceu e não propor umas lendas sagradas destituídas de credibilidade logo à partida. A situação psicológica em que se encontravam os discípulos de Jesus após a sua Paixão e Morte não era de modo nenhum a de exaltação mística, mas sim a de sensação de derrota e fracasso total, com todas as esperanças perdidas (cfr Lc 24, 11.17; Jo 20, 19; Mc 16, 11.13). Na tarde da Ressurreição, Jesus lança-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração por não terem crido em quem O tinha visto ressuscitado (Mc 16, 14). A sua mudança interior não se pode explicar prescindindo do facto histórico das aparições do Senhor.


Também não se pode demonstrar que estas aparições se reduzam a meras experiências místicas interiores que tenham tomado corpo em formas narrativas mais ou menos dramatizadas. Não é crível que tenham sido tão fracos dramatizadores, pois, uma vez postos a dramatizar, não lhes era difícil mostrarem-se mais verosímeis, mais concordantes. Por outro lado, à hora da redacção dos Evangelhos, os Evangelistas, se não estivessem condicionados pela verdade dos relatos históricos, sentir-se-iam mais à vontade para levarem a cabo o seu trabalho redaccional recorrendo facilmente à harmonização dos textos, uma coisa que se lhes impunha para mais facilmente fazerem passar o que queriam.


Para não me alongar em mais considerações, termino chamando a atenção para um aspecto muito importante do mistério da Ressurreição e nunca suficientemente meditado: a Ressurreição de Jesus não é uma teoria, mas é um mistério de vida que nos toca e compromete a vida de cada um de nós, como comprometeu a vida dos primeiros Apóstolos e dos primeiros cristãos em ordem a uma entrega total e sem reservas ao amor de Deus e ao trabalho na difusão do seu Reino. Não crê na Ressurreição quem não se dispõe a viver uma vida de ressuscitado com Cristo e a ser uma testemunha da sua Ressurreição. Vale a pena! Vale a pena dar-se de todo a quem deu a Vida por nós, a quem nos dá a Vida. Vale a pena deixar de vez tanta mesquinhez, tanto cálculo terreno... “Uma vez que ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do Alto, onde Cristo se encontra” (2ª leitura da Páscoa: Col 3, 1)


Geraldo Morujão

Publicado em “Voz da Esperança. Órgão informativo do Seminário Maior de Viseu” 8 (1993) 3.12.