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A Ressurreição de Jesus é proclamada pelos discípulos que O tinham
seguido, não como uma simples ideia religiosa, mas como um facto sucedido
ao terceiro dia: “E nós somos testemunhas” (cfr 1ª leitura da Páscoa: Act
10, 39.44).
Paremos um pouco para considerar de que testemunhas se trata e de que
ressurreição se fala. Não são falsas, nem duvidosas as testemunhas, e
também não é de um ressuscitar moral ou espiritual que elas falam. É a
Ressurreição do Senhor! Um grande mistério! Um mistério, porém, não quer
dizer uma coisa vaga e indefinida, pouco clara e confusa, mas sim um
acontecimento transcendente. E, porque transcendente, a Ressurreição não
se pode analisar como ela sucedeu fisicamente; além de que ninguém a
observou e nenhum Evangelista a descreve. Também é por isso que o Santo
Sudário, por mais autêntico que se possa considerar, nunca poderá
constituir prova científica do mistério da Ressurreição de Jesus.
A Ressurreição não foi uma ressuscitação, um retorno à vida terrena. Isso
seria um grande milagre, sobretudo por se tratar de um morto dessangrado e
de coração aberto por uma lança. Mas então não seria um mistério
propriamente dito. “Cristo ressuscitado dos mortos já não morre, a morte
não tem domínio sobre Ele!” exclama S. Paulo (Rom 6, 9). É que o seu corpo
passa do estado de morte para uma outra vida que está para além dos
limites do tempo e do espaço. Cristo tornou-se um “homem celeste” (1 Cor
15, 35-50), o seu corpo deixou de ser terreno, tem os dotes corpo
glorioso. Ele já não entra no convívio das pessoas, mas manifesta-se a
quem e quando quer e das formas mais variadas, a ponto de não reconhecido
pelos que tinham convivido com Ele, e aparece no meio deles sem se
deslocar.
No entanto, o mistério transcendente da Ressurreição de Cristo teve
manifestações historicamente comprovadas. Não se pode falar do túmulo
vazio de modo simplista. O sepulcro vazio, não sendo uma prova directa,
pois até leva a própria Madalena a pensar no roubo do corpo (Jo 20, 2.13),
não deixa de ser um sinal essencial, como se depreende da própria leitura
do Evangelho da Páscoa (Jo 20, 1-9). Com efeito, segundo expõe o Catecismo
da Igreja Católica, “o discípulo que Jesus amava afirma que, ao entrar no
sepulcro vazio e ao descobrir as ligaduras no chão (Jo 20, 6), viu e
acreditou (Jo 20, 8). Isto pressupõe que verificou, no estado do sepulcro
vazio (Jo 20, 5-7), que a ausência do corpo de Jesus não tinha podido ser
obra humana e que Jesus não tinha voltado simplesmente a uma vida terrena
como tinha sido o caso de Lázaro (cfr Jo 11, 44)”.
E Jesus aparece primeiramente a Maria Madalena e às Santas Mulheres que
iam embalsamara corpo de Jesus, sepultado à pressa na tarde de
Sexta-feira, quando começava a urgir o descanso sabático. Elas, que tinham
tido a coragem de acompanhar o Senhor até ao fim, bem mereceram esta
atenção. E apareceu a Pedro, que O negara, e só depois aos restantes
discípulos (1 Cor 15, 3-5: Lc 24, 34). Todos se transformam em testemunhas
da Ressurreição.
Vejamos agora o valor deste testemunho. Não passaria pela cabeça de
ninguém apresentar como testemunhas da Ressurreição as mulheres, pois
estas não podiam testemunhar num tribunal judeu. Se os Evangelhos dão
tanta importância às mulheres na Ressurreição, é porque pretendem contar o
que realmente aconteceu e não propor umas lendas sagradas destituídas de
credibilidade logo à partida. A situação psicológica em que se encontravam
os discípulos de Jesus após a sua Paixão e Morte não era de modo nenhum a
de exaltação mística, mas sim a de sensação de derrota e fracasso total,
com todas as esperanças perdidas (cfr Lc 24, 11.17; Jo 20, 19; Mc 16,
11.13). Na tarde da Ressurreição, Jesus lança-lhes em rosto a sua
incredulidade e dureza de coração por não terem crido em quem O tinha
visto ressuscitado (Mc 16, 14). A sua mudança interior não se pode
explicar prescindindo do facto histórico das aparições do Senhor.
Também não se pode demonstrar que estas aparições se reduzam a meras
experiências místicas interiores que tenham tomado corpo em formas
narrativas mais ou menos dramatizadas. Não é crível que tenham sido tão
fracos dramatizadores, pois, uma vez postos a dramatizar, não lhes era
difícil mostrarem-se mais verosímeis, mais concordantes. Por outro lado, à
hora da redacção dos Evangelhos, os Evangelistas, se não estivessem
condicionados pela verdade dos relatos históricos, sentir-se-iam mais à
vontade para levarem a cabo o seu trabalho redaccional recorrendo
facilmente à harmonização dos textos, uma coisa que se lhes impunha para
mais facilmente fazerem passar o que queriam.
Para não me alongar em mais considerações, termino chamando a atenção para
um aspecto muito importante do mistério da Ressurreição e nunca
suficientemente meditado: a Ressurreição de Jesus não é uma teoria, mas é
um mistério de vida que nos toca e compromete a vida de cada um de nós,
como comprometeu a vida dos primeiros Apóstolos e dos primeiros cristãos
em ordem a uma entrega total e sem reservas ao amor de Deus e ao trabalho
na difusão do seu Reino. Não crê na Ressurreição quem não se dispõe a
viver uma vida de ressuscitado com Cristo e a ser uma testemunha da sua
Ressurreição. Vale a pena! Vale a pena dar-se de todo a quem deu a Vida
por nós, a quem nos dá a Vida. Vale a pena deixar de vez tanta mesquinhez,
tanto cálculo terreno... “Uma vez que ressuscitastes com Cristo, aspirai
às coisas do Alto, onde Cristo se encontra” (2ª leitura da Páscoa: Col 3,
1)
Geraldo Morujão
Publicado em “Voz da Esperança. Órgão informativo do Seminário Maior de
Viseu” 8 (1993) 3.12.
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